Noiva até Sexta
Capítulo 4
EU NÃO DEVIA ESTAR AQUI.
Mas, maldição, ele não conseguia ficar longe. Neil sabia que a estática no detector dos fundos provavelmente era causada pela movimentação dos vizinhos, por um gato ou até mesmo pelo vento.
Gwen tinha razão. Ele estava paranoico.
Mas Neil não conseguia controlar sua paranoia, assim como não conseguia parar de pensar nela, no terror estampado em seus olhos quando ele puxara a arma em sua direção.
Aproximar-se de um cliente — que era como ele precisava enxergar Gwen, e todos os Harrison — o deixava fraco. Ele tinha que manter distância.
Então, que raios estava fazendo indo para Tarzana para ver uma mulher que não queria ou não precisava de sua ajuda?
Ignorando os próprios sinais de alerta, Neil estacionou em frente à garagem de Gwen, ao lado do carro dela, e franziu o cenho. Por que ela insistia em estacionar do lado de fora?
Com passos decididos, foi até a porta da frente. Bateu duas vezes e deu um passo atrás, para que Gwen ou Karen o vissem claramente no monitor ao lado da porta.
Ninguém atendeu. Bateu de novo, dessa vez mais alto e por mais tempo.
— Estou indo!
Gwen abriu a porta um pouco depressa demais e sem esforço suficiente para que Neil achasse que estava trancada.
— Ah, oi.
Ela se afastou, deixando-o entrar.
— Você pelo menos olhou para ver quem era?
— Você disse que viria.
— Mas você olhou?
Ele passou por ela, ignorando o aroma floral de sua pele, que lembrava a primavera.
Ela desconsiderou a pergunta, o que confirmava que não havia olhado. Quando Gwen fechou a porta, não a trancou.
Vou precisar de um dentista se continuar apertando os dentes desse jeito.
Quando Gwen estava saindo do hall, Neil entrou em seu caminho e segurou seu braço. Como se ela fosse uma criança, ele levou a mão dela à fechadura da porta e a segurou ali.
— Não está esquecendo nada?
Ela sorriu para ele e se aproximou ainda mais.
— Duvido que alguém tente algo com você aqui, grandalhão. — Os olhos azul-claros de Gwen cintilavam enquanto ela o provocava.
— Seu irmão me pediu para ficar de olho em você, Gwendolyn.
Ela baixou a voz e girou a tranca sob a mão dele.
— Eu gosto quando você me chama pelo nome completo, Neil. Me faz pensar que você se importa comigo.
Se fosse qualquer outra mulher, ele a teria espremido contra a parede, pressionado o corpo contra o dela e se deixado levar por sua voz sensual e seus olhos que flertavam.
Mas Neil soltou a mão de Gwen e se obrigou a desviar os olhos dos dela.
Maldita mulher!
— Cadê a Karen?
— Fazendo umas coisas na rua.
Gwen estava sozinha, com a porta destrancada e o carro estacionado fora da garagem. Por que simplesmente não colocar uma maldita placa dizendo: “Estou aqui. Venha me pegar”?
Eu odeio este bairro. Difícil demais de controlar. Os vizinhos moram muito perto, os carros não param de passar. Nenhum portão fica trancado.
Ele foi para os fundos da casa e saiu para o quintal. A câmera ali posicionada havia sido estrategicamente presa na linha do beiral do telhado. Sem pedir licença, foi para a lateral da casa e experimentou a porta.
Destrancada!
Encontrou uma escada e voltou para o quintal. Colocou o notebook na mesa do pátio e reposicionou a câmera onde queria. Limpou a cúpula dos detectores de movimento e checou as linhas.
Os novos vizinhos haviam colocado uma banheira de hidromassagem no meio do pequeno quintal. Havia madeira empilhada ao redor, mostrando que provavelmente haveria mais pessoas andando por ali, talvez uma equipe de pedreiros.
Neil decidiu que mais tarde andaria pelo quarteirão e checaria alguns carros e o número das placas.
— Terminou aí em cima? — Gwen quis saber.
Neil não havia notado que ela o observava da porta.
Quando apoiou os dois pés no chão, ele perguntou:
— Você já conheceu os novos vizinhos?
— Ainda não. Hoje foi a primeira vez que vi gente aí desde que a casa foi vendida.
— O banco executou, não foi?
Gwen assentiu.
— Foi o que a Eliza falou. Não cheguei a conhecer os antigos moradores.
Mais olhos — desde que fossem amigáveis — era melhor que menos. Era mais provável que um vizinho intrometido chamasse a polícia se visse algo suspeito.
— Por que tudo isso, Neil?
— Estou fazendo meu trabalho.
— Tem certeza de que é só isso?
Ele ia responder quando Gwen cruzou os braços em sinal de desafio.
— Isso não tem nada a ver com a possibilidade de a Karen se mudar?
Ele baixou a escada.
— A Karen vai se mudar?
— Talvez. Você não ouviu?
— Ouvi o quê? — Ele precisava escutar as conversas em Tarzana com um pouco mais de frequência.
Gwen baixou a voz.
— Talvez eu tenha encontrado um par para ela. Se tudo der certo, ela vai se mudar daqui a uns dois meses, talvez até antes.
— Está falando sério?
— Esse é o nosso trabalho.
Um músculo na mandíbula de Neil se contraiu. Ele tentou relaxar, mas não conseguiu.
— Você está me encarando, Neil.
Ele esfregou o queixo, subiu de novo a escada e verificou se havia transmissão nos cabos para poder instalar outra câmera. Isso para se certificar de poder ver cada centímetro do quintal. Depois passou os próximos trinta minutos checando o equipamento de segurança. Havia estática em uma das linhas de áudio externo; mandaria os eletricistas a substituírem.
Durante todo o tempo em que ficou de lá para cá, Neil pensou em Gwen morando ali sozinha.
Não havia motivo para lady Gwendolyn Harrison, a filha mimada de um duque e a mulher mais deslumbrante com que Deus presenteara o planeta, morar sozinha naquele bairro fuleiro, a poucas quadras de assassinos, estupradores e ladrões. Neil já havia escutado bastante a rádio policial para entender a demografia do bairro.
Não era de admirar que os escritores criassem contos sobre princesas encarceradas em torres de marfim por motivos de segurança.
— Você já testou essa fechadura três vezes — disse Gwen, agraciando-o com os dentes branquíssimos e o sorriso brilhante.
— Está emperrando.
— Ah...
— Quando você vai saber sobre a Karen? — Ele mexeu na fechadura pela quarta vez.
— Vamos terminar a checagem dos antecedentes e marcar um encontro entre eles. Em duas semanas vamos saber se vai dar certo. Talvez antes.
Tempo suficiente para instalar mais duas câmeras e atualizar algumas coisas. Neil não gostou de ver a quantidade de movimento que os detectores externos captavam. Ficou no pátio, completamente imóvel, enquanto os malditos aparelhos enlouqueciam. Falhas técnicas como essa faziam as pessoas ignorarem os sinais.
Deu um tapinha no painel de controle usado para armar e desarmar os alarmes.
— Qual é a sua senha para pedir socorro?
— Zod.
— Os números.
— Nove, seis, três.
— Quando você usa essa senha? — Ele a estava pressionando, sem saber mais o que fazer.
— Se tiver alguém aqui me ameaçando e me mandando desligar o alarme. Eu conheço o protocolo. Não vai acontecer nada. Eu já sou uma menina crescida.
— Você é uma menina frágil que o entregador de jornais do bairro poderia quebrar ao meio como um galho, se quisesse.
— O Tommy não faria uma coisa dessas. Ele é um bom garoto.
Ele ergueu levemente os cantos da boca.
— É um sorriso que estou vendo no rosto do Neil? — ela zombou.
Ele apertou os lábios, formando uma linha fina.
— Ah, eu me enganei — disse Gwen, escondendo o próprio sorriso.
— Vou ligar amanhã com detalhes sobre quem vai vir para arrumar algumas coisas — disse ele, guardando o equipamento na bolsa. — Tranque a porta quando eu sair.
— Sim, senhor — ela retrucou, simulando uma continência.
— Estou falando sério, Gwen. Seus hábitos de segurança são péssimos. Seu irmão não vai deixar você morar aqui sozinha se não começar a levar essas coisas a sério.
O sorriso brincalhão desapareceu do rosto dela, e Neil percebeu que havia usado as palavras erradas para convencê-la.
— Meu irmão não manda em mim.
— Mas é o dono da casa.
— A Samantha é a dona da casa. E ela nunca me faria sair daqui.
Neil começou a contrair a mandíbula novamente.
— Talvez eu precise te lembrar que eu não sou criança — disse ela.
Os olhos de Neil percorreram rapidamente o corpo de Gwen.
— Você não precisa me lembrar disso.
Ela deu um passo na direção dele e colocou a mão em seu braço.
— Vou tentar me lembrar de trancar as portas.
Neil balançou a cabeça; não queria que ela soubesse como o angustiava pensar nela morando ali sozinha. Abriu a porta para sair e disse por cima do ombro:
— E estacione o carro na garagem.
— Ah, meu Deus, Gwen, sobe aqui! — disse Karen, rindo, enquanto gritava do andar de cima. — Rápido.
Gwen subiu as escadas e encontrou Karen olhando pela janela do quarto. Ela havia aberto as cortinas só o suficiente para espiar.
— O que é?
— Olha!
Gwen trocou de posição com a amiga e estreitou os olhos. Era tarde da noite, e o bairro estava escuro, exceto pela luz que vinha da banheira dos novos vizinhos, que haviam chegado dois dias atrás. Havia duas pessoas na banheira de hidromassagem e, pelo que podiam ver, eram uma mulher e um homem. Se Gwen tivesse que adivinhar, diria que era um casal mais velho, talvez em idade de se aposentar.
— O que é para olhar?
— Fique olhando.
Gwen estava prestes a abandonar seu posto quando a mulher se levantou.
— Ela está pelada!
Karen começou a rir.
— Eca!
— Nossos vizinhos gostam de nadar pelados! — Eu nunca vi isso na Inglaterra.
Karen espiava ao lado dela e ria.
— Olha como ele é peludo!
Gwen desviou os olhos.
— Não devíamos ficar espiando.
— Eles é que não deviam desfilar por aí sem roupa.
— Eles estão no quintal deles.
— Cercado de sobrados — disse Karen, com um sorriso brilhante. — Esse é o tipo de maluquice que você nunca vê quando está trancada em uma mansão supervigiada.
Gwen não podia argumentar contra isso. Deu outra olhada rápida. Então o telefone tocou, e as duas levaram um susto.
— Não devíamos ficar espiando — Gwen repetiu.
Karen continuou observando enquanto ela atendia o telefone.
— Alô?
— Tem um barulho vindo do quintal — disse Neil, ignorando as gentilezas e começando a dar ordens. — Veja se as portas estão trancadas.
— Sabe, Neil, pessoas normais cumprimentam quando ligam para alguém. Coisas do tipo “oi, tudo bem?”.
— Os detectores de movimento estão malucos — Neil disse, com frustração na voz.
Gwen ficou calada de propósito, ouvindo-o suspirar.
— Olá, Gwen. Pode me dizer o que está acontecendo lá fora?
Não é melhor assim?
— Olá, Neil. Que bom que você ligou. Não está acontecendo nada. Nossos novos vizinhos estão curtindo a banheira de hidromassagem. Talvez ela interfira no seu equipamento.
— Melhor ir até aí para verificar eu mesmo.
— Não se atreva.
— Por que não?
— Não preciso que os meus novos vizinhos pensem que eu convidei gente para vir aqui ficar olhando para eles.
Essa não seria a melhor maneira de se apresentar.
— Ficar olhando para eles? Quem disse alguma coisa sobre isso?
Gwen observou as cortinas novamente e captou a desagradável visão do homem peludo de costas.
— Aparentemente, roupa é opcional na banheira deles. E eles optaram por não usar.
— Eles o quê?
— Estão curtindo a hidromassagem pelados. E eu não quero você no meu quintal com eles lá fora. Se precisar consertar alguma coisa, venha amanhã.
— Eles estão pelados?
— Foi o que eu disse. As portas estão trancadas e o alarme está ligado. Estamos bem, Neil, juro.
— Tudo bem. Amanhã de manhã estou aí.
— Fique à vontade. Eu não vou estar aqui, tenho um compromisso logo cedo.
— Está certo.
— Boa noite, Neil.
Ele desligou o telefone. Aparentemente, dizer “oi” e “tchau” na mesma ligação era pedir demais para ele.