Noiva até Sexta
Capítulo 32
ANDAR PELA SALA A MANTINHA aquecida. Ela havia conseguido pegar alguns fios de luzes coloridas e as conectara à única tomada do local. Começaram a piscar, dando um brilho ao porão sombrio. A ironia da cena teria lhe provocado uma risada maníaca se sua boca não estivesse seca como algodão.
De vez em quando Gwen ouvia Charles vagando no andar de cima e parava. Não queria que ele entrasse ali antes que ela tivesse tudo o que queria.
Ela se deu conta de que a única arma que tinha para fazer Charles baixar a guarda era psicológica. O fato de haver espalhado pela sala as lembranças de infância de Annie e as coisas de Natal tinha que provocar algumas boas recordações no homem. Algo diferente do ódio que habitava sua alma. Se as pinturas infantis e o cobertor de bebê não funcionassem, pelo menos haveria alguma evidência de que ela ficara ali contra a sua vontade. Ela deixara cair uma das lâmpadas e cortara os dedos, fazendo-os sangrar. De propósito, tocara o máximo de coisas de Annie com a mão ensanguentada, depois passara a tocar as paredes, o corrimão da escada e a parte de baixo dos degraus. Tirara essa ideia do livro que tentara ler para passar o tempo, no início da semana. Engraçado como a vida às vezes imita a arte.
Se ele se concentrasse na bagunça da sala, talvez ela conseguisse sair dali. Essa era toda a esperança que tinha. Afinal, com a boca amordaçada, não poderia falar com ele sobre o que estava fazendo.
Com a ajuda dos pés, derrubou as caixas e espalhou os desenhos infantis pela sala, enquanto as luzes de Natal cintilavam, empilhadas no chão.
Neil sacudiu os cabelos para tirar as gotas de chuva da cabeça. Os trovões e relâmpagos haviam parado, dando lugar a um sol fluido. Ele não sabia o que era mais errado: o fato de ele e Rick estarem caçando alguém que um dia chamaram de amigo — um homem que Neil teria defendido até a morte, cuja sorte lamentara uma vez —, ou que, como as nuvens no céu, algo maior o envolvia. Algo que estava perto o suficiente para sentir o cheiro, mas não o gosto.
Com os óculos de visão noturna, Neil viu Mickey perto de sua outra posição. Corroía-o um forte desejo de acabar logo com tudo aquilo para poder buscar Gwen e se assegurar de que ela estava bem.
— Estou em posição — Rick sussurrou em seu ouvido.
Neil correu de uma árvore a outra e se escondeu.
— Ainda não sabemos qual é o plano dele.
— Fique escondido — alertou Rick.
Não precisou falar duas vezes.
De costas para uma árvore, com vários arbustos a seus pés, Neil observava seu inimigo.
— Pronto. Deixe que eu falo. Deixe que ele tente adivinhar onde você está. Veja se consegue entrar mais.
— Entendido.
Neil respirou fundo, soltando o ar por entre os lábios gelados. Posicionou o binóculo para ver se suas palavras causavam algum impacto.
— Por que está fazendo isso? — gritou acima do som da chuva.
Nenhum movimento. Nada.
— Nós éramos amigos.
Algo se moveu na mata, ao alcance de sua visão.
— Porra, Mickey... fale comigo. Nós éramos todos irmãos.
— Eu não tenho irmãos.
Deu certo.
Para Neil, ouvir a voz do antigo parceiro foi como levar um soco no estômago. Por um momento, pensou que poderia estar errado. Mas não.
— Uma vez fuzileiro naval, sempre fuzileiro naval.
— Sou o único fuzileiro naval que restou. Você saiu. Todos vocês foram embora.
Neil seguia o movimento na mata.
— Ele está indo na sua direção — Neil disse a Rick.
— Estou vendo — Rick respondeu.
— A nossa operação tinha terminado, Mickey.
O major lhes concedera licença até que o tempo de serviço fosse cumprido. Parecia que o homem sabia que, se ficassem mais tempo, isso iria ferrar a cabeça deles. Como acontecera com a de Mickey.
— Era tudo o que eu tinha.
— Por que estragar tudo agora? Você sabe que não vai dar certo. Alguém vai descobrir que você saiu sem permissão.
O riso de Mickey penetrou os ouvidos de Neil. Pareciam unhas arranhando um quadro-negro.
— Saí sem permissão? Você acha que eu desertei? E ele diz que você é inteligente. Você é um grande idiota, Mac.
Neil recuou e foi até uma árvore, uns cinco metros ao norte.
— Quem é ele?
— Acho que vai ser muito mais divertido você descobrir sozinho. Só que você não vai viver muito tempo para curtir. Esses últimos momentos vão fazer toda a sua esperança minguar. Como aconteceu com a minha.
— Do que ele está falando? — Rick sussurrou no ouvido de Neil.
— Não sei — Neil respondeu, sentindo uma comichão, como se tivesse rolado em cima de um formigueiro.
— Ainda existe esperança para você, Mickey.
— O que você sabe sobre isso? Você já viu a luz nos olhos de uma mulher morrer? Já sentiu sua própria luz se apagar enquanto ela ia embora?
Neil afastou a imagem de Gwen da cabeça. Não precisava de Mickey jogando com ele nesse momento, sabendo que o homem planejara usar Gwen para chegar até ele. Era melhor não cair na armadilha.
— Existem outras mulheres — disse Neil.
— Não quando o seu pau não serve para nada além de mijar. — A raiva de Mickey era palpável.
Neil se encolheu.
— A vida é mais que sexo — argumentou. Mas sabe-se lá o que ele próprio faria se não pudesse mais comparecer. Só que matar seus amigos com certeza não resolveria o problema.
— Olha só quem fala! O cara que está fodendo a loirinha — disse Mickey, rindo de novo. — Como está lady Gwen?
Neil mordeu a língua até sentir o gosto de sangue. Puxou o fuzil das costas e se aproximou mais.
— Isso aqui não tem nada a ver com ela.
Mickey riu e virou em sua direção. Neil se movia devagar, cauteloso.
— Isso é o que você gostaria de pensar.
— Ele está tentando te manipular, Neil. Não caia nessa — alertou Rick.
Neil registrou o aviso, mas não conseguiu ficar calmo.
Adiante de Mickey, Rick se aproximava do penhasco e, consequentemente, de onde ele estava.
— A Gwen está a salvo. Você não pode chegar até ela.
Mickey riu de novo.
— Não preciso chegar até ela, Mac. Essa é a beleza da coisa. O meu homem de retaguarda é melhor que o Rick.
Neil ficou paralisado. As narinas se dilataram e a visão ficou turva.
— Seu filho da puta — murmurou Rick enquanto se aproximava.
— Fique fora dessa, Smiley.
— Senão o quê? — disse Rick por fim.
— Senão eu aperto um botão e aciono a ordem para o acidente infeliz de lady Gwen.
As mãos de Neil começaram a tremer.
— Ele está blefando — sussurrou Rick.
Neil sacudiu a chuva da cabeça, tentando clarear a mente. Major Blayney?
Não.
— Você nunca foi bom em mentir, Mickey — disse Rick.
— É mesmo?
Neil fechou os olhos e a cabeça latejou forte. Loira? Loirinha? Quem disse isso recentemente?
— Sabe com quem eu trepava antes da Operação Gralha? A operação que o Mac e o Billy foderam?
Ouvir isso em voz alta machucava, mesmo sabendo que era besteira.
— Por que eu me importaria com quem você trepava?
Neil se recompôs e abriu os olhos novamente. Mickey estava a menos de duzentos metros de distância, e Rick, a menos de cem.
— O nome Annie te diz alguma coisa?
Annie?
Loirinha... Neil recordou a pergunta de Chuck: Como conseguiu fazer a loirinha vir com você?
Eu disse a ela que alguém do meu passado a estava usando para chegar até mim.
Agora tudo fazia sentido. A falta de surpresa no rosto de Chuck, a facilidade com que ele aceitara tudo, sua ânsia de acelerar a partida de Neil. E, maldição, os cabelos de Gwen estavam castanhos quando eles chegaram a Fort Carson. Castanhos, caralho! Não loiros.
— Ele não está blefando — Neil disse a Rick.
— Como você sabe?
— A Annie é filha do Chuck. É o major quem está dando ordens para nos matar. E é ele quem está com a minha esposa.
— Ah, não.
Eles precisavam acabar logo com isso.
— Descobriu, não foi, Mac?
— Se ela se machucar, você é um homem morto.
— Eu já estou meio morto.
Vamos ver se posso te ajudar com a outra metade. Neil se deitou no chão e se aproximou.
— Para trás, Mac. Meu dedo está a um milímetro de apertar este botão. Vamos avisar o Blayney que ele está livre para acabar com a sua mulher.
Mickey agitou algo no ar. De onde estava, Neil não sabia distinguir o que era.
— O que ele tem na mão? — perguntou a Rick.
— Difícil saber. Parece algum tipo de controle. Pode ser um sinalizador, talvez um detonador.
Era hora de mudar de tática, deixar Mickey pensar que tinha sua atenção.
— O que você quer, Mickey?
— Agora estamos nos entendendo. Que tal se você e o seu parceiro vierem até o seu poleiro? Você sabe, aquele onde você passou três dias me procurando.
— E depois?
— Depois eu ligo para o chefe e pergunto o que ele quer que eu faça.
Neil recuou alguns metros e se deslocou lentamente na direção em que Mickey queria que ele fosse.
— Parece uma armadilha — Rick disse o óbvio.
— Ele deve ter sabotado nosso plano B. Fique longe.
— Por que o Blayney quer nos matar? — Neil gritou.
— Continue andando, Mac. Ainda não estou te vendo no penhasco.
Neil parou e olhou acima de sua cabeça. Se Mickey estivesse rastreando-os há três dias, provavelmente teria chegado mais perto antes. No entanto, nenhum tiro tinha sido disparado.
— Você ainda acha que ele precisa fazer isso parecer um acidente? — Neil perguntou a Rick.
— Mais do que nunca.
— Mexa-se, soldado — disse Mickey, e sua voz se ergueu acima da chuva que caía nas árvores.
— Me diz por quê, Mickey.
— Como eu vou saber? Ele quer que você morra... e que o marido da Annie morra. Isso deixa o caminho livre para mim.
Neil se encolheu. Blayney estava manipulando Mickey também. Provavelmente planejava matá-lo assim que ele e Rick fossem carta fora do baralho.
— Seu merda estúpido — gritou Rick. — Acha que o Blayney vai entregar a filha dele para um idiota ingênuo como você?
As palavras de Rick surtiram efeito. Mickey girou e atirou várias vezes na direção dele. O ar explodiu ao redor deles, e o barulho agitou cada célula do corpo de Neil.
Ele se escondeu e engatilhou a arma.
— Eu nunca gostei de você, Smiley — gritou Mickey.
— Que pontaria! — disse Rick, rindo.
— Desista, Mac. É o fim da linha para você, mas para a sua mulher... O Blayney pode soltá-la se ela pensar que a sua morte foi acidental.
A mente de Neil disparou. O major a mataria? Ele não achava que Chuck era capaz disso. Devia haver algo mais que Mickey desconhecia.
Uma coisa era certa para Neil. Manter Gwen viva seria a única garantia de Chuck se Mickey falhasse. E Mickey estava descambando.
— Faça ele sair — Neil pediu a Rick. — Estou indo para lá.