Noiva até Sexta
Capítulo 9
A SILENCIOSA VIAGEM DE VOLTA a Malibu o corroía por dentro.
Seu estômago estava dolorido. O aroma floral do xampu dela encontrara um lugar confortável dentro da cabeça de Neil e se enraizara. Nunca mais ele veria a seção de xampus femininos do supermercado sem pensar em Gwen.
Fora uma verdadeira tortura tê-la em seus braços. Seu corpo minúsculo se encaixava perfeitamente no dele. Não que isso importasse.
Só que importava. Ele sabia que sim. A única maneira de ele fugir dela seria ir embora, contratar alguém para tomar seu lugar ao lado de Blake, fazer as malas e desaparecer.
E a gralha deixada junto ao corpo de Billy? Havia sido um aviso? Um sinal que não significaria nada para ninguém, exceto para os membros da equipe de Neil?
Mais um motivo para fazer as malas e ir embora.
Mas quem poderia proteger Gwen melhor do que ele? Antes de se dar o trabalho de reservar um voo, Neil já sabia a resposta. Ele não precisava que ninguém pensasse que ele gostava dela, o que a transformaria em um alvo.
Gwen olhava fixamente pela janela, para o trânsito na rodovia. Ela deveria estar no banco de trás, onde as janelas escuras esconderiam seu rosto. Mas ela se recusara. Dissera que ele era motorista dela tanto quanto ela era sua empregada.
— Você pensa nisso? No tempo que passou na marinha?
A pergunta de Gwen saiu do nada, e ele não sabia como responder.
— Neil?
— Às vezes.
— Foi horrível?
Ele apertou o volante, recordando o cheiro do cabelo dela e ignorando a lembrança de corpos carbonizados.
— A guerra é o inferno.
— Não consigo nem imaginar. A única violência que eu já vi foi o meu irmão quebrando o nariz de um garoto que me perseguia na escola. E você e o Carter brigando com aqueles homens no Texas.
Ele sentiu o ânimo melhorar. Havia gostado de dar uma lição no homem que incomodara Gwen. Apertou os lábios e disse:
— A violência cria mais problemas do que resolve.
— É, pode ser. Mas a ameaça da violência tende a manter as pessoas em alerta. Veja hoje, por exemplo. Passamos o dia inteiro atirando. Duvido que alguém mexa com você, mas tenho noção de que eu poderia ser considerada vulnerável. Se as pessoas que quiserem me fazer mal souberem que eu tenho uma arma, acho que iriam procurar um alvo mais fácil. Você não concorda?
— Mais ou menos. — Batedores de carteira e covardes.
— Acho que não vou precisar usar a arma, mas me sinto bem tendo uma.
Com isso ele concordava plenamente. Em comparação com a torre de marfim onde ele pensava em colocá-la quando a via, ter uma arma era melhor que nada.
— Você precisa deixá-la em casa.
Gwen assentiu.
— Não pensei em carregar comigo.
Ele saiu da rodovia e pegou a rua que levava à casa de Malibu.
— Uma arma de choque cabe na bolsa. E não é contra a lei carregar uma.
— É aquela coisa elétrica?
Uma risada, coisa rara, subiu pela garganta de Neil.
— Sim. Isso.
Ela sorriu para ele. E, caramba, Neil queria se derreter naquele sorriso e esquecer tudo de horrível em sua vida.
— Você tem uma?
— Não. — Ele não precisava de uma arma de choque. — Mas vou arranjar para você.
— Seria excelente, Neil.
Só uma lady diria que ganhar uma arma de choque seria excelente.
Neil estacionou atrás do carro de Gwen. Colocou o revólver maior, ao qual ela se adaptara melhor, no porta-malas dela, assim como uma caixa extra de munição. Ela abriu a porta do carro, jogou a bolsa no banco do passageiro e entrou.
— Obrigada por hoje. Eu me sinto melhor sabendo que tenho a arma certa.
Ele gostava mais da ideia da torre de marfim.
— Não há de quê.
Neil se afastou do carro para lhe dar espaço para sair.
— Hummm... O alarme da casa... — Gwen começou.
— Sim?
— Todas as portas e janelas do andar de baixo têm que estar fechadas para ele ser acionado, certo?
Ele se deteve e se aproximou da janela do motorista.
— Certo.
— Não fique assustado — ela advertiu.
Neil sabia que, quando uma mulher pedia para ele não se assustar, significava que tinha motivos reais para se preocupar.
Ele levantou as mãos e tentou aliviar a tensão nos ombros.
— É que... eu encontrei a porta dos fundos um pouquinho aberta quando acordei esses dias. Mas o alarme dizia que estava ligado.
— O alarme não liga se uma porta estiver aberta.
— Foi o que eu pensei. Com toda a interferência que tem tido ultimamente, achei melhor mencionar.
— Tem certeza de que o alarme estava ligado?
— Tenho. Eu chequei duas vezes. Apesar de achar câmeras e detectores de movimento um exagero, acho o alarme importante.
— Você ligou o alarme antes de sair hoje?
— Sim.
Ele pegou o celular no bolso e abriu o aplicativo que permitia ver a casa dela.
— A Karen não está em casa?
— Não.
O alarme mostrava estar ligado, e as câmeras não indicavam nenhum problema. Ele não gostou. De nada disso.
— Vou passar lá.
Surpreendentemente, Gwen não discutiu.
— Eu tenho algumas coisas para resolver — disse. — Você se importa de ir até lá sozinho?
Ele até preferia, na verdade. Com ela ali, poderia se distrair e deixar passar alguma coisa.
— Sem problemas.
— Obrigada — ela falou enquanto saía com o carro.
No entanto, quanto mais Gwen se afastava — para longe da segurança que ele sabia que poderia lhe proporcionar —, menos no controle ele se sentia.
E Neil odiava não estar no controle. Isso o enfraquecia.
— Então a loirinha tem uma arma — o homem disse para si mesmo enquanto os dois saíam do campo de tiro.
Sua câmera os gravara, encontrara as sutilezas do comportamento deles, as quais ele analisaria mais tarde.
MacBain estava desatento. Nem percebera que estava sendo vigiado.
— Você está vacilando, cara.
Ele se curvou em seu posto de observação acima da casa de Malibu e a observou enquanto ela partia sozinha em seu carro.
Ele sabia que ela não tinha mencionado o pássaro morto na conversa com Neil.
Se tivesse feito isso, ele nunca a deixaria sair sozinha.
Hora de aumentar as apostas.
Kenny Sands, proprietário da Parkview Segurança, encontrou Neil na casa de Tarzana.
— Isso não faz sentido — disse Kenny, repetindo o óbvio.
Neil havia feito testes e mais testes. Como esperado, a porta dos fundos já não disparava o alarme, mas, no modo zumbido — que avisava o morador quando uma porta ou janela estava sendo aberta —, fazia barulho.
— Os detectores de movimento captaram uma quantidade incomum de ruído também. Eu achei que tinha consertado isso na semana passada, mas parece acender sempre que os vizinhos usam a banheira de hidromassagem.
— Isso não devia afetar os sensores. — Kenny pegou o celular e telefonou para alguém. — Oi, Jane. Preciso que você mande uma equipe para a Cherry Lane, 5420. — Fez uma pausa. — Não, mande um caminhão cheio. Vamos substituir os cabos da porta dos fundos.
Neil foi para o quintal, olhou em volta e não encontrou nada fora de lugar. Foi até a cerca dos fundos e olhou para o outro lado. Havia uma plataforma em volta da banheira de hidromassagem, com um pequeno bar. Sorte dele que os vizinhos nudistas gostavam de tomar banho no escuro, e era meio-dia.
Ele olhou para o segundo andar da casa de Gwen e notou uma janela aberta. Foi até o quarto abafado de Karen. Atravessou-o e fechou a janela. A visão do quintal dos vizinhos não era ideal dali, de modo que foi para o quarto ao lado.
O quarto de Gwen tinha cores suaves e texturas macias. Feminino, como ela. O ambiente tinha o cheiro dela também.
Olhou pela janela.
— Bela visão. — Ele até riria se aquilo não atrapalhasse a vigilância.
De soslaio, Neil captou um flash. Olhou além das casas, para a encosta que separava Tarzana de Woodland Hills. Essa era uma das coisas agradáveis na localização daquela casa. Havia uma fileira de residências atrás da de Gwen e depois um parque.
Para Neil, isso era uma bênção e um tormento. Uma bênção porque havia menos vizinhos, e um tormento porque alguém poderia se esconder na mata.
Ele procurou a fonte de luz, mas não encontrou nada. Enquanto os homens de Kenny trabalhavam, Neil deu uma volta pelo bairro. Prestou bastante atenção na casa logo atrás da de Gwen. As cortinas estavam fechadas, e dois jornais estavam empilhados na varanda da frente. Não havia nenhum carro estacionado na entrada. A grande maioria dos moradores tinha um carro na entrada ou na rua. Poucas casas tinham um espaço vazio em frente às portas da garagem.
Neil forçou um sorriso e foi até a porta; bateu duas vezes, mas ninguém atendeu.
Tentou olhar lá dentro, pela janela da sala. As cortinas eram do tipo blackout, o que tornava impossível ver qualquer coisa. Cortinas desse tipo eram essenciais em Las Vegas, mas no subúrbio? Não muito.
Por que pessoas que desfilam nuas pelo quintal se escondem da rua da frente?
Neil sabia que era tão discreto quanto um caminhão parado em um estacionamento cheio de Unos. Então, em vez de contornar a casa, se afastou da porta da frente e deu a volta no quarteirão. A maior parte do bairro estava tranquila. Por mais que ele odiasse o fato de não poder controlar tudo, poderia ser pior.
Deu uma volta completa, olhando tudo ao redor.
Sentia-se nu andando pelas ruas sem a segurança de um fuzil nas mãos.
Quão doentio era isso?
O fato de Rick ter jogado toda aquela merda em cima dele dois dias atrás não ajudava. Ambos estavam tentando contatar o quarto homem que saíra vivo. Mas nada. Mickey não atendia as ligações, ou não estava. Talvez tivesse voltado para alguma missão. Unidades como a deles raramente largavam as forças armadas; tornava-se uma carreira para a vida toda.
Ele torcia para que Mickey estivesse em missão. O pensamento de que algo sinistro pudesse ter acontecido com ele, com qualquer um deles, deixava Neil doente.
E Billy estava morto.
Como alguém conseguira pegá-lo de surpresa?
Quando voltou à casa de Gwen, a fiação da porta dos fundos havia sido substituída e os detectores de movimento do quintal, trocados. Neil e os homens que trabalhavam para ele simularam várias situações, que dispararam o alarme e notificaram o celular de Neil e os monitores que Dillon vigiava na base.
Neil verificou o horário; eram quase cinco da tarde. Pensou em esperar que Gwen ou Karen voltassem, mas se lembrou do ultimato de Gwen no bar.
Ou cai fora, ou toma a iniciativa.
Ela não poderia ter sido mais clara e, depois de passarem o dia no campo de tiro, ela provavelmente pensaria que ele estava se aproximando.
E isso não podia acontecer.
Ele checou o GPS do carro de Gwen, que havia instalado sem o conhecimento dela quando ela comprara o veículo. Ela estava no trânsito, indo para casa. Neil fez questão de ir embora antes que ela o visse ali.
No caminho para Malibu, ele lhe mandou uma mensagem dizendo que o monitor e os alarmes já estavam funcionando corretamente de novo. Pediu que o avisasse se tivesse mais algum problema.
Ela não telefonou.
Ele viu quando ela chegou. Observou-a atravessar a casa e checar a porta dos fundos. A decepção tomou o rosto de Gwen, então ela foi para o escritório e ligou o computador.
Neil deixara o áudio ligado e escutava todos os sons da casa. Uma conversa ao telefone o fez entender que Karen não voltaria para casa essa noite. Em uma conversa que tivera com Blake naquela semana, Neil soubera que Karen se mudaria no fim de semana seguinte.
Com Gwen morando sozinha, os ruídos da casa de Tarzana seriam companheiros constantes de Neil. Alguém precisava cuidar dela.