Noiva até Sexta
Capítulo 30
SERIA SUICÍDIO IR CHECAR O barulho. Eles haviam colocado armadilhas por todo o acampamento e passaram ao redor delas para ver se alguém havia tropeçado. Mas não havia ninguém. Neil sabia que o Gralha estava usando de psicologia para fazê-los ficar desatentos. O jogo de gato e rato continuaria por um tempo.
— Alguma coisa? — Neil perguntou.
— Tudo calmo demais.
— Estou subindo — disse Neil, avisando Rick que estava indo para seu poleiro.
Cada vez que andava pela floresta, usava um caminho diferente. A uns quatro metros de seu destino, Neil notou umas penas pretas. Parou e se voltou. Colocou os óculos de visão noturna e escrutou a área. No nível do solo, não viu nada com temperatura corporal. Com a temperatura do ar caindo, era fácil ver as pegadas quentes por onde ele passara. E, se ele podia ver as marcas, havia uma grande possibilidade de que seu inimigo também pudesse.
O que significava que ele tinha que se manter em movimento.
— Continue andando.
— É o que estou fazendo.
Neil esquadrinhou seu posto de observação; como não viu nada fora do lugar, entrou. Examinou o solo da floresta à procura de mais penas; encontrou apenas folhas e galhos. Com as costas protegidas pelo penhasco, escrutou a área abaixo. Captou um sinal de calor a leste.
— É você?
O braço de calor se afastou da cor brilhante no meio e acenou. A área era grande demais. Havia árvores por toda parte. Do tipo que poderia esconder uma pessoa... do tipo que poderia esconder o Gralha.
Um alarme agudo disparou em seu fone de ouvido.
— Sensor de movimento — disse alto para Rick. Neil virou e procurou no mapa qual sensor havia sido acionado. — Sul.
Onde passava a estrada. Eles precisavam ter cuidado. Não queriam que um civil desse de cara com uma pequena guerra e se machucasse.
— Fique aí. Eu vou olhar — disse Rick.
As nuvens no céu começaram a escurecer, acabando com a luz que tinham. Pelo cheiro no ar, Neil supôs que estariam molhados em questão de minutos. O pensamento ainda não havia saído de sua cabeça quando um trovão atingiu seus ouvidos.
— Ótimo — Rick murmurou.
Neil observava os movimentos do parceiro. E então viu um movimento diferente.
— À direita, menos de duzentos metros.
O sinal de calor era fraco, mas o responsável por ele não estava passeando no bosque nem andando com determinação.
Rick parou e se agachou. Sua silhueta quase sumiu do alcance de Neil.
O Gralha se deslocava para o norte, lentamente.
Neil seguiu ao longo da face do penhasco, até que teve que descer ao nível do solo.
— Estou vendo o sujeito — Rick sussurrou. — Estou me posicionando de frente para ele.
Neil avançou alguns metros mais antes de ouvir Rick dizer:
— Ele parou.
Neil olhou pelo binóculo e viu um borrão de calor atrás de um arvoredo, mas não conseguiu identificar se era Rick ou o Gralha.
— Você está em movimento? — perguntou.
— Sim.
Então a imagem borrada era Rick. Neil olhou para norte. O alvo entrou em seu campo de visão. E então desapareceu.
— Filho da puta.
— O quê?
— Ele sumiu.
— Eu ainda o estou vendo — disse Rick.
Neil tirou os óculos de visão noturna e os substituiu pelo binóculo. Ali, no arvoredo, seu alvo se esgueirava atrás de uma árvore. Estava tão bem camuflado que Neil mal o notara. A camuflagem não reduzia o calor do corpo humano, o que significava que o homem tinha algum tipo de capa.
Movendo-se lentamente, Neil se posicionou de modo que o Gralha ficasse entre ele e Rick.
— Ele está te observando — disse Neil.
— Estou sentindo.
Neil tirou o fuzil das costas e o armou.
Outro trovão encheu o ar, seguido por grandes pingos de chuva. Neil aproveitou o barulho para esconder seus movimentos. Conseguiu se aproximar.
Todos pararam.
O Gralha foi para o leste no relâmpago seguinte. Não era a direção que Neil queria.
Neil se agachou e tirou um detonador da jaqueta.
— Fique alerta. Vou trazer o cara de volta.
Com o botão pressionado, uma bomba de fumaça cruzou o caminho do Gralha. O alvo se voltou e seguiu para o flanco nordeste. Neil correu para chegar antes dele. Atrás, ouviu Rick se movimentando. Quando o Gralha se aproximou de outro desvio, Neil fez a bomba explodir. A área começou a se encher de fumaça, apesar da forte chuva que começara a cair.
Neil perdeu o adversário de vista.
— Onde ele está? — perguntou Rick.
— Não sei.
Neil escrutou a área, mas, no chão, não podia ver nada. Em momentos como esse ele queria ser como um esquilo, para poder subir em uma árvore e olhar lá de cima.
Girou o corpo para se proteger de um possível ataque. Estava a ponto de desistir quando percebeu um borrão cinquenta metros a oeste.
Bem em frente ao penhasco. Perfeito!
— Nós o encurralamos.
Gwen vestiu o moletom para esconder que estava usando duas camadas de roupa. Não era possível que Neil soubesse como seu amigo era. Ela ia dar um jeito de sair daquela casa e telefonar de uma das lojas da base. Com seu irmão e Carter, ela estaria segura.
Mais segura que ali.
Ela conseguiu se esgueirar pela casa; guardou umas barrinhas de cereal nos bolsos, caso fosse difícil esperar por seu irmão. Cada ruído a fazia parar. A televisão tinha sido desligada, e o silêncio a fez estremecer.
No quintal, fingiu arrancar ervas daninhas e revirar o solo. Bastaram quinze minutos para as costas começarem a doer, por conta do trabalho no dia anterior. Mas isso não a impediria de fingir que estava trabalhando.
Gwen não precisava olhar para saber que Charles a observava. Não de maneira óbvia dessa vez, parado na janela, mas ela sentia seus olhos grudados nela. Tendo acumulado uma pilha de ervas daninhas, ela as juntou nas mãos enluvadas e fingiu procurar a lata de lixo. Na lateral da casa não havia lixeiras — descobrira isso no dia anterior. Havia, no entanto, um portão que levava ao pátio da frente. Ela soltou o conteúdo das mãos e abriu o portão. Com o caminho livre, andou depressa, evitando correr. As pedras esmagadas sob seus pés e o som da chuva suave eram tudo que a acompanhava.
Sorriu, apesar do frio.
No fim da rua, virou a esquina. Olhou por cima do ombro, mas não viu se ele a seguia.
Deu uma risada nervosa e virou para a estrada. Charles estava a poucos metros de distância, com a roupa molhada.
— Está indo para algum lugar?
Ela fez um esforço imenso para não gritar. Não que houvesse alguém perto para ouvir. O que ela diria agora?
— Só caminhando — respondeu, ignorando o fato de suas mãos ainda estarem com as luvas sujas.
Ele aproximou o rosto, muito sério.
— Sozinha?
— Essa chuvinha me faz lembrar de casa — disse ela. — Não precisa me acompanhar.
Ele estreitou os olhos.
— Você não está vestido para caminhar. Não vou demorar — Gwen completou, avançando para contorná-lo.
Ele bloqueou o caminho.
— Não. Não vai — disse, pegando-a pelo braço e virando-a em direção à casa.
— Como é? — Ela puxou o braço, mas a mão firme de Charles não a deixou se mexer. Ele cravou os dedos em sua carne, e a dor a imobilizou.
Charles não disse nada enquanto a levava de volta para casa.
— Me solte — ela insistiu quando chegaram, e ele fechou a porta.
Então virou a tranca e passou a corrente, enquanto a segurava a ponto de machucar seu braço.
— Sr. Blayney, eu não tolero violência. Me solte! — Gwen começou a tremer, tanto de frio quanto de medo pelo que aquele homem seria capaz de fazer.
Em vez de fazer o que ela pedia, Charles a empurrou pelo corredor, em direção a uma porta nos fundos da cozinha. Na despensa havia outra passagem, que ela mal notara antes. Atrás dela, uma escada que descia até um porão.
Gwen firmou os calcanhares no chão e apoiou as mãos no batente da porta.
— O que está fazendo?
— O que me mandaram fazer se você tentasse fugir.
— O quê?
Mandaram fazer? Do que ele estava falando?
Charles soltou os dedos dela do batente.
— Te manter aqui contra a sua vontade, pelo bem do nosso país.
— Isso é absurdo! Eu não sou uma ameaça para o seu país.
Se bem que ela poderia processar o homem que a segurava por agressão física.
— Não sei, não. Fica espionando a minha casa, encontrando informação confidencial…
Que informação? Ela só tinha encontrado algumas fotos.
— E, como você é praticamente uma cidadã americana, estou no meu direito de mantê-la aqui contra a sua vontade.
Ela pensou em Neil. Será que ele sabia que o major Blayney a manteria ali desse jeito? Sua expressão devia ter deixado transparecer a pergunta, porque Charles soltou um riso sádico.
— Você não acha que ele se casou com você porque queria, não é?
Ela sentiu o coração parar.
— Claro que sim — respondeu.
— Vá acreditando.
Sem mais palavras, ele a empurrou pela escada e a fez entrar no porão. Como qualquer aposento desse tipo, era escuro, úmido e cheirava a mofo. As paredes tinham acabamento, mas o painel escuro de madeira perfurada estava longe de ser reconfortante. Havia um sofá velho no meio da sala, e caixas empilhadas na parede dos fundos. Viam-se apenas duas luzes no teto, e não havia uma única janela.
— Você não pode me deixar aqui.
— Você provou que não pode ser deixada a seu próprio julgamento.
Charles a empurrou, torcendo-lhe os braços nas costas.
O pó do sofá se espalhou, fazendo-a tossir.
— Pare!
Ela se debateu nas mãos dele, mas não conseguiu se desvencilhar. Sentiu o aço em seus pulsos antes de perceber o que ele estava fazendo.
— Não precisa fazer isso. Está claro que você pode me dominar. O Neil não vai aprovar o que está fazendo — Gwen implorava, apelando para tudo que podia. — A sua esposa pode voltar para casa e me encontrar aqui.
— A minha esposa está na Flórida procurando uma casa onde nunca vai morar. Quando ela se deu conta de que ninguém estava morrendo, precisei dar a ela uma razão para ficar. Ou você acha que a viagem dela foi casual?
O metal em torno dos pulsos de Gwen estalou, mas Charles manteve o joelho nas costas dela, imobilizando-a.
— Por que está fazendo isso? — ela perguntou.
— Tenho minhas razões.
Razões que não tinham nada a ver com mantê-la em segurança. Gwen tentou se acalmar e ficou imóvel. Precisava pensar e planejar sua fuga.
Ele a deixou deitada de bruços e algemada no sofá fedido.
Enquanto ela se lembrava da outra precaução que tomara para sua própria segurança, Charles entregou todas as evidências de que Gwen precisava para entender sua intenção.
— Não se preocupe, lady Harrison. Assim que eu souber que cuidaram do Neil, vou cuidar de você rapidinho. Só preciso mantê-la por perto caso o seu marido passe a perna no meu homem. Motivação. Um homem sempre precisa de uma motivação.
Ela ofegou, e Charles enfiou algo entre seus dentes para impedi-la de gritar.
— Ele trabalhou sob o comando do major Charles Blayney. O major ainda mora na base de Fort Carson com a esposa. Dizem que ele continua adiando a aposentadoria.
Blake ouvia Carter ao telefone a sete mil metros de altitude. Estava sobrevoando Utah, tentando evitar uma tempestade que cobria as montanhas Rochosas e atrasava o tráfego aéreo por causa dos relâmpagos. Duas vezes seu piloto dissera que talvez tivesse que desviar para o sul, Santa Fé, ou para o norte, Cheyenne.
— Você acha que o Neil está lá?
— Pode ser. Estou tentando conseguir autorização para você ir conversar com o homem. Parece que foi ele que ordenou a dispensa da tropa do Neil.
— Então ele vai saber quem é o nosso assassino?
— Assassino?
— O Dean ligou antes de eu partir. O departamento de homicídios assumiu o caso dos vizinhos depois que ele chamou um perito militar.
— Sabe de uma coisa, Blake? Isso tudo está começando a parecer uma maldita conspiração. Escutas de tipo militar, banheiras eletrificadas que fritam pessoas, pássaros mortos usados como distração... Eu continuo me perguntando por quê. O Max não consegue encontrar nada sobre uma operação chamada Gralha. Portanto eu me pergunto: quem sabia sobre essa operação? Quem teria interesse em eliminar os soldados envolvidos nessa operação?
— Você acha que alguém está indo atrás de todos eles?
— O relatório da polícia sobre o suicídio do amigo do Neil tinha uma observação sobre uma gralha morta deixada com o corpo. Mandei ligar para o xerife local do Tennessee sugerindo que ele reabra o caso.
— Alguém já encontrou a mulher desse homem?
— Não. A mãe prestou queixa do desaparecimento, mas não deu em nada.
A turbulência no ar fez o avião cair alguns metros, fazendo Blake permanecer na poltrona de couro.
— O major Blayney deve saber sobre a Operação Gralha, certo? — disse ele.
— Sim, mas duvido que ele diga alguma coisa para você.
— Mas já é um começo. Merda, é a nossa única pista.
— Me ligue quando aterrissar.
Blake desligou, mais preocupado do que nunca.