Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 26 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 23

 

 

EMBORA GWEN ADORASSE FICAR SOZINHA com Neil, era bom ficar longe por uma hora com outra mulher, mesmo sendo uma que ela mal conhecia. Do lado de fora do mercado havia uma pequena butique para as mulheres da base. Ruth lhe explicara que a maioria delas saía da base para comprar o que necessitava em Colorado Springs. Mas a lojinha de roupas tinha uma variedade surpreendente de peças para escolher. E Gwen estava mais que feliz de gastar o dinheiro que Neil lhe dera para fazer compras.

— Há quanto tempo você conhece o Neil? — Ruth perguntou enquanto voltavam para a casa branca na colina.

— Há anos. — A maioria dos quais enquanto ele trabalhava para seu irmão. Mas Gwen não achou necessário mencionar isso.

— Eu sempre gostei dele. É o tipo de homem pelo qual eu gostaria que a minha filha se interessasse — disse Ruth.

— Você tem uma filha?

A mulher assentiu, com um sorriso.

— Ela mora na Flórida com o marido. Espero convencer o Charles a se mudar para lá quando ele se aposentar. Eu gostaria de ficar mais perto dela.

— Há quanto tempo ela é casada?

— Há dois anos. Todos os dias espero um telefonema dela falando sobre a chegada de um netinho. Mas ainda não aconteceu.

— Onde o Charles quer ficar quando se aposentar?

Ruth riu.

— Ele não quer se aposentar. Brigou comigo durante anos por causa desse assunto. Minha esperança é que a Annie tenha um bebê e o Charles perceba que existe vida além das forças armadas.

Gwen não podia imaginar dedicar sua vida com tanta paixão a algo diferente de uma família.

— Tenho certeza de que ele vai mudar de ideia — disse.

Ela não tinha certeza de nada, mas parecia a coisa certa a dizer.

— Ele não gosta do marido da Annie.

— Ah... isso não é bom.

— Nem me fale. O Andrew é professor de inglês no ensino médio. Os dois não poderiam ser mais diferentes.

— Sua filha e o Andrew?

— Não, o Andrew e o Charles. O Charles é um líder, e o Andrew é um seguidor. Pelo menos é o que o meu marido fica dizendo. Pessoalmente, eu gosto dele. Ele adora a nossa filha. Mas o meu marido acha que ela devia ter se casado com um militar. Entre a vida dela aqui e um relacionamento que terminou de repente com um militar, a Annie estava pronta para ter estabilidade. E um professor de inglês do ensino médio se encaixava na vida dela. Acho que se o Charles desse uma chance para ele, se se aproximasse para conhecê-lo melhor, a ideia que ele tem do genro mudaria.

— Você conhecia o Andrew antes de eles se casarem?

— Não muito bem. Nós o conhecemos quando eles estavam namorando, mas eu não pensei muito nisso. Um dia ela disse que eles iam se casar, e foi quando a briga começou.

Pais se envolvendo tanto assim na vida dos filhos nunca acabava bem.

— Ela se rebelou? — Gwen quis saber.

— Sim — disse Ruth, suspirando. — Eles se casaram escondidos e mudaram para o sul. Nós os visitamos algumas vezes. Foram experiências estressantes.

— Que coisa chata... A vida é muito curta para gastar com brigas.

Por mais que Gwen desprezasse seu pai, ela não brigava com ele quando era vivo.

— Acho que, quando eu conseguir tirar o Charles daqui, a atitude dele vai mudar.

Ruth tinha idade suficiente para saber que as pessoas raramente mudam, mas Gwen não a lembraria disso. Era óbvio que a mulher estava pronta para mudar de vida, mesmo que seu marido não estivesse.

— Tenho certeza que vai dar tudo certo.

Gwen não tinha certeza de nada, mas, se aprendera algo depois de viver nos Estados Unidos durante quase um ano, era que os americanos eram craques em dizer coisas que não pensavam. Na verdade, os britânicos também. Porém seus amigos de Londres jamais pensariam em compartilhar uma informação pessoal como aquela com um estranho. Ruth evidentemente queria conversar com uma mulher que não conhecesse seu marido. Talvez ela soubesse que, se falasse com pessoas que o conheciam, elas teriam uma opinião diferente.

Gwen olhou para a mulher e notou um leve sorriso em seu rosto.

— Vai sim — disse Ruth.

Quando chegaram de volta à casa, Gwen percebeu que o carro em que ela e Neil haviam viajado tinha desaparecido.

Seu coração quase parou. Ele foi embora? Talvez tenha mudado o carro de lugar.

Não. O carro não estava em lugar nenhum, e, quando entraram, Charles disse que ele havia saído. Ela entrou em pânico por um momento, antes de ele dizer que Neil voltaria em uma hora.

Gwen decidiu ficar sozinha no quarto. Quando se tornara tão dependente de um homem? Ou de qualquer pessoa? Talvez, antes de se mudar para os Estados Unidos, ela tenha vivido sempre acompanhada. Mas, desde a mudança, ela encontrara sua independência e adorava aquilo. Então por que a ideia de ficar sem Neil parecia tão errada? Uma coisa era estar apaixonada por ele, e outra, completamente diferente, era não se imaginar sem ele. Ele era uma aposta arriscada, e ela tinha sido alertada quanto a isso.

Lidar com o drama que cercava Neil exigia uma segunda opinião. De Karen, ou talvez de Eliza. Até Samantha poderia lhe dar bons conselhos.

A pergunta era: como Gwen entraria em contato com suas amigas sem correr o risco de expor nenhuma delas, antes que Neil cuidasse do assassino de pássaros?

 

Blake encontrou Dean e Jim na casa de Karen e Michael, em Beverly Hills. Karen havia telefonado completamente em pânico, dizendo algo sobre aves mortas. Nada disso fazia sentido.

Ela estava sentada no sofá, com os joelhos dobrados junto ao peito. Ao lado dela, Michael a acariciava enquanto os dois conversavam com os detetives.

— Vim o mais depressa que pude — disse Blake, olhando para Karen. — Você está bem?

— Melhor agora.

Ela estava pálida e claramente abalada.

— Parece que o homem dos pássaros está interessado na Karen, afinal — disse Jim.

— Alguém pulou o muro daqui e arrombou o carro da Karen. Ela encontrou outro corvo morto, desta vez mutilado, no banco da frente — disse Dean, observando-a. — Uma equipe está vindo investigar.

— As câmeras de vigilância registraram alguma coisa? — Blake perguntou a Michael.

— Eu não tenho câmaras de vigilância. Só um sistema de alarme.

Blake não podia imaginar que um homem com a riqueza e a fama de Michael não tivesse um sistema de segurança mais eficiente.

— É hora de instalar algumas.

Michael anuiu.

— Acho que isso significa que precisamos ficar de olho na Karen e avisar o Neil que ele e a Gwen podem voltar — disse Dean, levantando e deixando a xícara de café vazia na mesa de centro.

— O único problema é que ninguém sabe onde o Neil está — disse Blake.

— Vou começar a rastreá-lo... Uso de cartão de crédito, conta bancária. Ele vai acabar aparecendo. Ou talvez a Gwen ligue de novo.

Blake colocaria sua própria equipe a postos para procurá-los. Pensar em sua irmã fugindo com um fuzileiro naval aposentado e paranoico o deixava nervoso.

— Você acha que estamos lidando com um fã? — Michael perguntou a Dean.

— Pode ser. Ou talvez tenha alguém de olho em você, Karen. Tem alguma ideia de quem pode ser?

— Eu não tenho contato direto com os clientes da Alliance, e você conhece os meus colegas de trabalho.

— E no Boys and Girls?

— O diretor de lá é o Jeff. E ele é muito bem casado. A maioria das voluntárias é dona de casa. Eu não me relaciono com nenhum deles fora dali.

Dean começou a andar em círculos pela sala.

— E as crianças? Muitas delas são de alto risco, ou são encaminhadas obrigatoriamente para lá depois da escola.

Karen ficou atônita diante da pergunta.

— As crianças são ótimas — disse. E, depois de uma pausa, acrescentou: — A maioria ficou feliz quando descobriu que eu e o Michael tínhamos nos casado.

— A maioria? — perguntou Dean.

Karen sentiu os pelos dos braços se arrepiarem.

— Bem... sim. Mas tem um garoto... acho que ele tem uma queda por mim. Fiquei um pouco preocupada da última vez que o vi.

Dean pegou uma caneta no bolso do terno.

— Qual é o nome dele?

— Ora, Dean. Ele é só um garoto. Não é capaz de fazer nada do que está acontecendo aqui.

— Preciso lembrar quantas crianças estão sentadas no reformatório, acusadas de assassinato?

— O Juan não é esse tipo de garoto. Eu o conheço.

— É mesmo? Onde ele mora? Quem são os pais dele? Quais são seus antecedentes?

Karen olhou para Michael, e então novamente para Dean.

— Eu só vou fazer algumas perguntas, Karen. Se ele for um bom garoto, não vai ter nada com que se preocupar.

— Ele nunca mais vai confiar em mim.

— É um risco que você vai ter que correr — disse Michael. — Quanto mais cedo eles o descartarem como suspeito, mais cedo vão poder procurar quem está por trás disso.

Karen suspirou e passou a mão no rosto.

— Juan Martinez. Ele é um bom garoto, Dean. E, pelo que sei, não é contra a lei ter uma paixonite, então por favor não seja duro com ele.

— Se ele estiver plantando pássaros mortos para te assustar, vou fazer esse menino se mijar de medo. Se ele não estiver por trás disso, vai ficar bem.

Jim se levantou e se juntou a Dean para sair da sala. Blake os seguiu.

— Você acha mesmo que um garoto fez tudo isso? — perguntou.

Dean colocou os óculos de sol enquanto saíam e respondeu:

— Qualquer pessoa capaz de matar animais pode acabar matando pessoas. E, sim, adolescentes fazem essas merdas. A maioria não vira assassino até ter idade suficiente para tomar uma cerveja no bar, mas isso não significa que nunca vai acontecer.

Duas viaturas pretas e brancas pararam no meio-fio, e Jim foi cumprimentar os policiais.

— E quanto ao grampo da casa interferindo com o equipamento de vigilância? — perguntou Blake.

Dean deu de ombros.

— Não encontramos grampo nenhum. Sim, tem interferência na linha, mas pode ser qualquer coisa. Não podemos afirmar que mexeram no sistema de Tarzana, exceto pela energia elétrica roubada, que causava interferência.

— Você acha que isso é só um monte de merda sem nenhum sentido? — perguntou Blake.

Dean enfiou as mãos nos bolsos da calça, deu meia-volta e disse:

— Acho que você precisa abrir a cabeça para essa possibilidade. Talvez seja um bom momento para você ver que o Neil não é um super-herói e que pode apenas estar sofrendo de estresse pós-traumático. Não seria o primeiro veterano a passar por isso.

Blake sentiu um nó no estômago. Droga, ele confiava em Neil.

— Mas tem algo mais que você pode fazer — o detetive prosseguiu.

— O quê?

— Procure nos pertences do Neil, nos arquivos dele. Talvez você encontre uma pista de onde ele está. Eu me sentiria muito melhor se ele e a Gwen voltassem. Tenho certeza de que ele partiu carregado de armas e munição. Se uma guerra está acontecendo dentro da cabeça dele, a coisa precisa ser resolvida antes que alguém se machuque.

Blake não queria ouvir isso.

 

Não havia muitas coisas que fizessem as mãos de Neil suarem. Esta era uma delas: um anel em seu bolso e uma mentira para dizer. Gwen estava em seu quarto e havia um padre a caminho. Tudo o que Neil precisava fazer era convencer a mulher por quem estava obcecado havia mais tempo do que queria admitir, e sem a qual não conseguia mais dormir, a se casar com ele. Então, e somente então, ele se lançaria ao mundo para pegar o vilão, sabendo que ela estava segura.

Ainda assim, suas mãos suavam em bicas.

Isso seria motivo de riso se seu estômago não estivesse se contorcendo como o de um adolescente depois do primeiro porre.

Neil subiu os degraus de dois em dois e ficou parado do lado de fora do quarto. Respirou fundo e bateu na porta.

— Entra.

Ele enxugou as mãos na calça e entrou. Gwen estava sentada na beirada da cama, como se estivesse descansando. Seu sorriso se iluminou quando ela percebeu que era ele.

Talvez não seja tão ruim.

— Você voltou.

Ele fez uma pausa antes de falar:

— Você pensou que eu tinha ido embora? — Entrou no quarto e fechou a porta.

— O Charles disse que você voltaria, mas eu... eu... Ah, não importa. Onde você estava?

— Precisei ir buscar uma coisa.

Ela suspirou.

— Não vai me dizer o quê?

— Talvez.

O sorriso dela o fez sorrir. E, sorrindo, sua expressão preocupada se suavizou.

— Vejo que você e a Ruth foram fazer compras — disse ele, mudando de assunto.

Gwen olhou para suas roupas novas e ergueu a sobrancelha.

— Não dá nem para dizer como foi bom me livrar daquelas roupas. Eu sei que sou exigente em se tratando de vestuário, mas duvido que qualquer mulher que se troque só três vezes na semana não queira queimar tudo.

Bem, ela tinha espírito esportivo.

— Você está falando com um cara que viveu no deserto por semanas a fio.

— Me lembra de nunca entrar para as forças armadas — disse ela.

— Pode deixar.

A conversa acabou, e as palmas dele ficaram molhadas de novo. Gwen estendeu a mão e passou a ponta dos dedos na testa dele.

— O que está acontecendo, Neil? — perguntou, e seus olhos azuis encontraram os dele.

— C-como assim?

Ela balançou a cabeça.

— Você está sorrindo, mas seus olhos estão tensos. Você parece pronto para dar o bote. O que aconteceu?

Ele engoliu em seco.

— Nada... Não aconteceu nada.

— Mas você precisa me dizer alguma coisa.

Era assim tão óbvio?

— Eu... eu preciso te deixar aqui amanhã.

O sorriso de Gwen desapareceu.

— Eu sei.

— Mas não posso. — A mentira o torturava, mas ele tentou não deixar transparecer.

— O que quer dizer?

— Estamos em uma base militar, o único lugar onde eu sei que você vai estar segura. O Chuck pode te proteger. Caramba, a base inteira pode te proteger.

Gwen inclinou a cabeça. Pela primeira vez, percebeu que a tinta marrom de seus cabelos estava começando a desbotar. Ele afastou um cacho dos olhos dela e tentou aquele sorriso de novo.

Ela franziu o cenho.

— Mas...?

— Você é inglesa.

Ela riu.

— Pelo que sei, meu país e o seu são aliados.

— É verdade. Mas te proteger sem o envolvimento do seu país é complicado. Agora, se você tivesse cidadania americana...

— O meu irmão tem dupla cidadania.

Perfeito!

— E ele é casado com uma americana. O Blake poderia ficar aqui sem problemas — ele explicou.

Gwen não estava entendendo.

— Eu preciso te proteger — ele disse.

Ela balançou a cabeça.

— Por causa do meu irmão?

— O quê? Não! Porque eu preciso.

— Precisa?

Ah, droga... ela estava franzindo o cenho.

— Eu quero.

Ela sorriu.

Ele alisou a barba e tentou novamente:

— Eu quero que você fique segura, Gwendolyn. Para que eu possa ir atrás do cara que matou os pássaros e os vizinhos, tenho que saber que você vai estar segura. E só conheço uma maneira de fazer isso.

Neil enfiou a mão no bolso e tirou a caixinha com o anel. Tudo o que ela precisava fazer era aceitá-lo.

Ela ficou boquiaberta, de olhos arregalados.

Ele abriu a caixa e esperou, até que o olhar de Gwen deslizou para o diamante rosa quadrado que repousava no veludo preto.

Ela deu um suspiro.

— Neil!

— Eu preciso que você se case comigo, Gwen. Como minha esposa, você vai ter todo o exército americano, a força aérea e os fuzileiros navais ao seu lado.

O olhar de Gwen foi do anel para ele. Seus olhos estavam úmidos.

— Você não precisa fazer isso — disse ela.

Ah, sim, ele precisava. Por mais razões que a segurança dela.

— Nós precisamos. Se depois você quiser desistir... — disse ele, estremecendo — eu vou embora.

Uma única lágrima rolou do olho de Gwen, e ela desviou o olhar.

— Isso não é justo.

— O que não é justo?

— Nós... nós acabamos de nos encontrar. Para ser sincera, eu queria que estivéssemos juntos há mais tempo. Mas casar? E por questões de segurança?

Recordar a Gwen o que ela fazia para ganhar a vida não seria um bom prenúncio, então ele não disse nada sobre a Alliance.

— Se alguma coisa acontecer comigo, as pessoas aqui vão poder te proteger.

Ela voltou os olhos para ele.

— Não vai acontecer nada com você.

— Não há garantias. — Ele nem sabia com quem teria de lidar.

Ela se levantou e foi até a janela.

— Sempre existe a possibilidade de você estar grávida — ele continuou, esquecendo o anel e esperando que ela respondesse.

Ela respirou fundo.

— Nós tomamos cuidado.

— Pergunte ao seu irmão o índice de falha dos preservativos.

Ele não estava jogando limpo. Blake e Samantha haviam concebido Eddie usando preservativos, mas Neil sabia muito bem que aquelas camisinhas tinham sido adulteradas, praticamente garantindo a concepção. Ele se aproximou e colocou a mão em seu ombro.

Ela se afastou e virou para ele.

— Não é a mesma coisa, Neil, e você sabe disso.

Ele deixou cair a mão, derrotado. Todas as suas desculpas, todos os seus argumentos desapareceram, e a verdade se revelou.

— Eu não funciono se estou preocupado com você. Nosso inimigo sabe disso, e é por isso que você foi o alvo inicial dele. Se você estiver segura, eu posso fazer o meu trabalho, Gwen.

Os olhos azuis dela seguiam os de Neil a cada pestanejar.

— O que você está dizendo, Neil?

O que ele estava dizendo?

— Nós acabamos de nos encontrar — disse ele, usando as palavras dela —, e eu quero ver aonde isso vai. — Ele se aproximou novamente e tocou o rosto dela. — Por favor, Gwen. Case comigo.

Outra lágrima caiu de seus suaves olhos azuis, e ela anuiu lentamente com a cabeça.

O alívio tomou conta de Neil, e ele caiu de joelhos e a abraçou. Quando ela o abraçou de volta e o acariciou, ele soube que estava em casa.