Noiva até Sexta
Capítulo 1
O FLASH DAS CÂMERAS A fez ficar mais ereta, se voltar para os impertinentes paparazzi e sorrir. Lady Gwen Harrison sabia que os fotógrafos não tinham certeza de quem ela era. Ali, nos Estados Unidos, a mídia não a seguia insistentemente. Os fotógrafos estavam diante de uma mulher elegante que parecia uma estrela de cinema, mas na verdade não passava da filha de um duque falecido. Mas isso não os impediria de descobrir seu nome. Seu irmão, Blake Harrison, o atual duque de Albany, era bastante popular na América. E, por causa dele e de seu grupo de amigos, a foto de Gwen havia saído em muitos jornais.
Gwen olhou novamente para além dos fotógrafos, sorriu e virou para ir embora. Tinha muito trabalho a fazer.
O Baile de Caridade Wilson era o típico evento que Gwen estava acostumada a frequentar. Tendo crescido em uma mansão nos arredores de Londres, com uma mãe muito exigente e um pai que raramente notava sua presença — a menos que ela estivesse diante dele —, Gwen era o exemplo de socialite. Não representava ameaça a ninguém ali. A maioria dos convidados eram atores, ativistas ou políticos, acompanhados de seus respectivos cônjuges e companheiros. Mas Gwen não estava ali para se autopromover. Seu único propósito ao participar do baile era encontrar clientes potenciais para a Alliance.
Um garçom se aproximou quando ela entrou no salão e lhe ofereceu uma taça de champanhe. Ela aceitou com um sorriso e prosseguiu.
Reconheceu alguns rostos, a maioria pessoas que Eliza, sua amiga e ex-diretora da Alliance, já havia lhe apresentado.
— Lady Harrison — uma voz chamou sua atenção para um pequeno grupo de pessoas, a poucos metros de distância.
Marilyn Cohen, uma mulher deslumbrante, do tipo mignon, e provavelmente a mais famosa do salão, acenou para ela e a cumprimentou com dois beijos no rosto.
— Que bom te ver de novo — disse Gwen. — Há quanto tempo!
— Desde o baile do governador, eu acho — recordou Marilyn. — Como estão o Carter e a Eliza?
— Se adaptando a seus novos papéis.
Carter havia sido eleito governador da Califórnia, e os dois se mudaram para Sacramento, a capital do estado, quando ele assumiu. Carter era o melhor amigo de Blake, e Eliza era a irmã que Gwen nunca teve.
Ela olhou ao redor de Marilyn, esperando ver o marido dela.
— Está sozinha esta noite?
— O Tom está em uma locação na Groenlândia. Não entendo por que os estúdios não recriam aquele lugar horrível em um set de filmagem. E você, está sozinha?
Gwen abriu um sorriso.
— É difícil ficar sozinha em um salão tão cheio.
E estava cheio mesmo. As mulheres ostentavam vestidos longos de gala, e os homens, smokings, certamente não alugados.
Marilyn enlaçou o braço no de Gwen e a puxou.
— Muito bem, vamos ver que estragos podemos causar. — Acenou para um grupo de atores, e as duas caminharam na direção deles. — Está a trabalho hoje? — sussurrou.
Ela conhecia o suficiente sobre a Alliance para justificar a pergunta.
— Estou sempre à procura de clientes.
Marilyn abriu seu sorriso de um milhão de dólares.
— Vamos ver quem conseguimos fisgar, então.
A Alliance havia sido fundada por Samantha — ou Sam, como a maioria de seus amigos a chamava —, que acabara se casando com o irmão de Gwen. Samantha tivera a brilhante ideia de criar uma agência para aproximar pessoas. Não era um serviço de relacionamento, era um serviço de planejamento de vida. Seus clientes consistiam em homens e mulheres que precisavam se casar com a pessoa perfeita por razões outras que não o amor. Políticos que precisavam se ajustar ao “perfil de família” para serem eleitos. Duques que precisavam se casar para atender ao impiedoso testamento do pai e ter direito a herdar milhões. Atores ou atrizes que estivessem em busca de um escândalo para manter seu nome nos jornais.
Gwen recrutava clientes em eventos como esse. E às vezes já encontrava o par ideal para os homens em seu banco de dados.
Nem todo mundo se casa por amor e para sempre. Os clientes da Alliance tinham suas razões para se casarem, e os casais que a agência formava pagavam generosamente por esse arranjo.
Marilyn apresentou Gwen a todas as pessoas importantes ali presentes. De quando em quando, acenava com a cabeça em direção a um cliente em potencial, e Gwen fazia algumas perguntas discretas. A Alliance era uma empresa exclusiva, que não se valia de propaganda em cartões de visitas.
À medida que a noite avançava, Gwen imaginou que não sairia dali com nenhum novo cliente.
Por sobre o ombro, alguém disse seu nome.
Ela se voltou para a voz profunda e deu um sorriso educado. O dono da voz era vários centímetros mais alto que ela, e os ombros largos e a atitude relaxada demonstravam que ele se sentia muito à vontade abordando estranhos.
— Desculpe, eu conheço você?
Ele riu como se ela tivesse contado uma piada.
— Ainda não — disse, estendendo a mão. — Michael Wolfe.
Gwen o cumprimentou, e ele rapidamente deixou o braço cair ao lado do corpo.
— Eu disse algo engraçado, sr. Wolfe?
Ele se encostou em uma mesinha e sorriu para um casal que passava.
— Você realmente não sabe quem eu sou?
Ela balançou a cabeça.
— Desculpe.
— Eu sou ator.
— Que ótimo. Mas ainda não faço ideia.
Ele riu abertamente, maravilhado.
— Ah, que divertido. Eu me ofereceria para lhe pagar uma bebida, mas aqui é de graça.
Na boca de qualquer outra pessoa, essas palavras soariam como uma cantada, mas na dele não era bem assim.
Seus olhos escaparam para além dela novamente, dessa vez em direção a um grupo distante de homens.
Hummmm?
— Então, lady Harrison, como vai o casamento do seu irmão?
Gwen manteve uma expressão neutra.
— Você conhece o meu irmão?
Michael Wolfe balançou a cabeça.
— Não tive o prazer. Mas temos alguns conhecidos em comum.
O que significava que Michael Wolfe não estava perguntando sobre Blake e Sam, e sim sobre o casamento deles. Então o sr. Wolfe estava perguntando sobre a Alliance.
— Que tal mais uma taça de champanhe, sr. Wolfe?
— Acho que encontrei o marido perfeito para você — disse Gwen, tirando seus Louboutins e jogando-os no chão.
E você que achou que sapatos de quase mil dólares não machucariam seus pés... Infelizmente, não era o caso.
— Você acha que encontrou o quê? — disse Karen, baixando o volume da televisão e girando o corpo no sofá.
— Um marido para você.
As palavras de Gwen despertaram toda a atenção de Karen. A TV ficou escura, e Karen deu um tapinha a seu lado, no sofá.
— Sente aqui e me conte tudo.
Gwen deixou a bolsa na mesa do hall, trancou a porta e ligou o alarme da casa.
— Preciso tirar este vestido primeiro. O bordado ficou me arranhando a noite inteira.
Ela se virou de costas, suplicando silenciosamente que a amiga a ajudasse com o zíper. Karen atendeu ao pedido e seguiu Gwen escada acima.
— Você não pode soltar a palavra “marido” e sair da sala, Gwen. Isso é maldade.
Segurando a frente do vestido com uma mão e levantando a bainha com a outra, Gwen subiu, decidida.
— O baile em que eu estive hoje estava lotado. Muitos casais e um monte de atores.
Entrou no closet e deixou o vestido escorregar pelos ombros. Depois de pendurá-lo, pegou uma camisola na cômoda e voltou para o quarto.
— Sabe, a Samantha disse que eu me cansaria desses jantares, mas estou gostando. Conheci tanta gente interessante desde que me mudei para cá.
Gwen se mudara para os Estados Unidos havia quase um ano. Aos trinta e um anos, ela vivera completamente protegida do mundo na propriedade de sua família, uma mansão nos arredores de Londres. Tinha viajado o mundo, mas sempre acompanhada de um guarda-costas ou de sua mãe.
Agora que seu irmão era o duque da família, a propriedade pertencia a ele. Não que Gwen não pudesse morar lá, mas o casamento de Blake e Samantha dera a ela a oportunidade de cuidar da própria vida. Especialmente quando Samantha lhe falara de seus negócios.
Agora, com os deveres de esposa, mãe e duquesa em tempo integral, Samantha não tinha tempo de administrar a empresa que fundara. Gwen passara a ajudar a dirigir a Alliance, embora não tivesse habilidade para os negócios. No entanto, com a experiência que um título de nobreza lhe dava, ela sabia como se relacionar com os ricos e famosos — exatamente o tipo de cliente que a agência buscava. Onde Gwen deixava a desejar, Karen se destacava. As habilidades administrativas de Karen e sua capacidade de manter os registros em ordem eram melhores que as de qualquer secretária executiva. Juntas, elas gerenciavam muito bem a empresa.
— Voltando ao marido perfeito...
— Ele é muito bonito, alto, simplesmente adorável — disse Gwen, sentando-se na beirada da cama e abrindo a cinta-liga.
— Sabia que ninguém mais usa isso? — disse Karen, apontando para a lingerie da amiga.
— Se fosse verdade, seria impossível encontrar um lugar para comprar cinta-liga e meias sete oitavos.
— É, mas é preciso ir nessas lojas de lingerie sexy para achar — provocou Karen.
— Os homens adoram roupas íntimas elaboradas.
— E daí? Parece que eu sou a única que te vê assim.
Gwen riu e prosseguiu com as novidades.
— O nome dele é Wolfe... Michael Wolfe. Talvez você já tenha ouvido falar.
— O ator?
— É, você conhece?
Karen sacudiu a cabeça.
— É impossível o Michael Wolfe estar procurando uma esposa por meio de uma agência. Ele é a sensação das telonas agora.
— Foi o que ele disse.
— Ele disse? Quer dizer que você não sabia?
Gwen deu de ombros, tirou o sutiã e colocou a camisola.
— Você já me viu ir ao cinema? Eu prefiro curtir um bom livro.
— Mas é o Michael Wolfe! Ele é uma celebridade, Gwen.
Karen a seguiu até o banheiro, onde Gwen abriu a água quente da pia para tirar a maquiagem.
— Eu nunca tinha ouvido falar. Talvez se ele tivesse atuado em um filme do James Bond, eu conhecesse.
Karen se encostou no batente da porta e observou Gwen através do espelho.
— Você está falando sério? Michael Wolfe?
— É um homem encantador. Muito engraçado.
— Além de lindo, solteiro e rico. Deve chover mulher em cima dele.
O problema é esse, pensou Gwen.
Ela deu descarga no vaso sanitário, só para fazer barulho, então se inclinou para Karen e sussurrou:
— Eu acho que ele gosta de homens.
Karen arregalou os olhos.
— Sério?
Gwen fez um gesto para ela falar baixo. A casa de Tarzana estava equipada com um sofisticado sistema de segurança, que incluía monitoramento de áudio e vídeo vinte e quatro horas por dia. Eliza tinha morado ali antes de se casar com Carter, que, por várias razões, insistira nas medidas de segurança. Quando Carter ganhou a eleição e os dois se mudaram para Sacramento, os aparelhos permaneceram onde estavam, por insistência de Blake.
E de Neil.
— Você acha que ele é gay?
Gwen pediu silêncio novamente e apontou para o hall. Não havia câmera nos quartos nem nos banheiros, mas ela sabia que o hall era monitorado.
— Nossos clientes merecem privacidade.
Karen revirou os olhos.
— Meu Deus, Gwen, nós desfilamos por aqui quase peladas e você está preocupada com a privacidade dos nossos clientes? Você conhece o Neil. Ele não deixaria qualquer um ouvir o que acontece aqui dentro.
Só com a menção do nome de Neil, Gwen sentiu uma onda de calor. O homem era uma força da natureza, parecia um guerreiro highlander do século dezesseis. Os traços duros e o físico amplo podiam ameaçar os outros, mas, para Gwen, só o que faziam era atraí-la.
Pena que Neil nunca lhe dera uma abertura.
— Privacidade é fundamental para os nossos clientes. É melhor manter em segredo alguns detalhes, não é?
Karen revirou os olhos, e as duas desceram as escadas.
— Então, se o Michael é... você sabe... por que quis falar com você? Como você se aproximou dele, afinal?
Gwen sentou no sofá e se preparou para uma longa conversa.
— Ele me procurou. Parece que o nome da Alliance conseguiu entrar em alguns círculos de celebridades.
— É bom saber. Existem muitos bolsos forrados em Hollywood.
— Atores são os clientes perfeitos. Especialmente quando querem algo temporário.
A Alliance ajudava a elite e os ricos a encontrar parceiros de vida. Muitos queriam uma noiva ou um noivo temporário, e estavam dispostos a pagar muito bem por isso. Mulheres lindas, como Karen, geralmente não tinham dificuldade para arranjar homens, mas algumas não estavam procurando exatamente amor.
Por razões que Gwen ainda não descobrira, Karen queria um parceiro temporário para ter estabilidade financeira nos próximos anos. Quando duas pessoas se uniam sabendo que a relação terminaria em uma data previamente estipulada, todos ficavam satisfeitos.
— O Michael não tem nenhuma dificuldade para convencer o mundo de que está apaixonado pelas atrizes com quem trabalha — disse Karen. — O que te faz pensar que ele é...
— Ele não disse nada abertamente. Não ainda, pelo menos. Só se apresentou e ficou completamente surpreso porque eu não sabia quem ele era.
— Ele é megafamoso, Gwen.
— Pode ser. Enfim, ele me perguntou como estava indo o casamento do meu irmão. Achei estranho e perguntei se ele conhecia o Blake, e no mesmo instante ele respondeu que não. Então disse que ele e o Blake tinham conhecidos em comum.
— Um jeito sutil de dizer que ele conhece o trabalho da Alliance.
— Foi o que eu pensei, então perguntei se ele gostaria de conhecer algumas das minhas amigas. Ele deu uma piscadinha, disse que adoraria e me entregou um cartão.
Karen estendeu as mãos.
— Então, o que te faz pensar...
— Ah, o jeito dele. Às vezes a gente simplesmente sabe essas coisas.
Michael havia flertado com as mulheres do salão e avaliado os homens. Sim, ele tinha sido sutil, mas, se havia uma habilidade que Gwen aperfeiçoara nos últimos meses, era a de ler as intenções masculinas.
Quando um homem está procurando alguém, ele emana uma certa energia. Eliza havia ensinado a Gwen durante meses como abordar esses homens, para ajudá-los a conhecer a Alliance. Em alguns eventos sociais ela não havia conseguido fazer contatos, mas, em outros, Gwen conseguira recrutar homens e mulheres para seu cadastro.
— Michael Wolfe? — disse Karen, tamborilando o dedo no queixo.
— Se ele está procurando uma esposa temporária, acho que você seria a combinação perfeita.
— Por quê?
— Primeiro, os dois são lindos. As câmeras devorariam vocês. Segundo, o fato de o Michael ser uma pessoa pública seria difícil para muitas mulheres, mas você, minha querida, é dura na queda.
— O que você quer dizer com isso?
— Que você tem a visão global da coisa e nunca perderia isso sob pressão. — Gwen mostrou três dedos no ar. — E terceiro: você não tem nenhuma ilusão de que um casamento temporário vire um relacionamento amoroso.
— Todos os nossos clientes dizem isso.
— Mas alguns têm essa esperança. E, se o Michael for... você sabe... isso não vai ser possível.
Karen deu de ombros e levantou do sofá.
— Acho que vou deitar mais cedo e ver se tem algum filme dele no pay-per-view.
Gwen lhe desejou boa-noite e foi para a cozinha. Colocou uma chaleira no fogo para fazer chá. Observou o espaço pequeno, e a sensação de aconchego a fez suspirar. Quando a Alliance encontrasse um noivo para Karen, ela iria embora e Gwen moraria sozinha.
Neil MacBain pausou o áudio, balançou a cabeça, voltou a maldita gravação e a ouviu novamente.
— Sabia que ninguém mais usa isso?
— Se fosse verdade, seria impossível encontrar um lugar para comprar cinta-liga e meias sete oitavos.
— É, mas é preciso ir nessas lojas de lingerie sexy para achar.
— Os homens adoram roupas íntimas elaboradas.
Neil bateu a mão no mouse e desligou o som antes de se torturar mais.
Porra! Eu preciso transar!
Ouvir Gwen, com seu sotaque polido, falando sobre cinta-liga e meias fez seu cérebro disparar diretamente para o seu pau. O desejo de clicar no monitor de vídeo fez seu olho direito se contrair, mas ele se conteve e saiu da sala de vigilância.
Blake, Samantha, o filho deles, Eddie, e até a irmã de Samantha, Jordan, estavam na Europa, com planos de ficar pelo menos um mês. A ausência deles significava menos pessoas para proteger e muito tempo para pensar.
Ele odiava pensar.
Fazer era um passatempo muito melhor.
Fazer significava ficar nas sombras de edifícios altos e vigiar o único membro da família Harrison que podia ali nos Estados Unidos.
Não que vigiar Gwen fosse uma tarefa árdua. Essa noite, ela estava com um vestido longo bordado de contas douradas que brilhavam com os flashes dos paparazzi no tapete vermelho. Ela não era o foco da lente dos fotógrafos, mas era o centro da de Neil. Com um olhar e um sorriso aos paparazzi, Gwen entrou no salão, o corpo esguio se movendo com a graça e a elegância que a maioria das pessoas ao seu redor tentava comprar, mas não conseguia.
Gwen desempenhava um papel central em muitas das fantasias de Neil. Fantasias que nunca se tornariam realidade.
Ele tirou a jaqueta de couro preta e jogou na lateral do sofá. Tirou também o coldre onde guardava a Beretta M9, que nunca deixava em casa, e a colocou em cima da jaqueta. A casa de hóspedes de dois dormitórios, na propriedade de Blake e Samantha em Malibu, era seu refúgio havia cinco anos, e ele já se sentia suficientemente confortável, como se pertencesse ao lugar. Além da governanta e da cozinheira, não havia ninguém ali que Neil precisasse vigiar durante a noite.
Ele checou novamente o sistema da casa em Tarzana e confirmou que os alarmes internos, que disparariam se houvesse uma invasão, estavam ligados. Gwen e Karen ligavam quando saíam ou quando iam dormir.
Neil ligou a TV no noticiário local, mais pelo ruído de fundo. Serviu uma bebida num copo e deitou no sofá.
Essa era a vida que ele queria: discrição e pouco estresse. Ele podia ser guarda-costas de um duque e sua família até dormindo. Não, até dormindo e de ressaca, daquelas que fazem o quarto girar.
As pessoas de seu passado diriam que ele estava desperdiçando tempo. Mas o tempo era seu, e ele o desperdiçaria se quisesse.
Afastou as lembranças, inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. Sua consciência foi se apagando até adormecer, e seu corpo relaxou.
O som agudo de uma brecha na segurança o fez levantar de um pulo, completamente desperto em meio segundo.
Ele correu para a sala de segurança, ligou o interruptor geral e uma dúzia de monitores ganhou vida. Então os analisou rapidamente e encontrou a violação em Tarzana. O monitor brilhava, vermelho, e transmitia imagens de dentro e fora da casa. Ele apertou a discagem rápida com uma das mãos e pôs a imagem de Tarzana na tela grande.
O hall estava vazio, o detector de movimento não havia disparado as luzes externas e a porta da frente estava fechada. Mas a porta dos fundos não estava segura.
— Gwen? — Neil ouviu Karen chamar de dentro da casa.
O áudio transmitia cada palavra nitidamente. O alarme tocava lá dentro, provavelmente alto o bastante para acordar os vizinhos. Ele ouviu o telefone tocar, tanto em sua orelha quanto na casa. Foi girando a imagem, procurando por Gwen, e seu coração parou até que ela apareceu na tela.
Ela correu para o painel de controle, abriu e começou a digitar alguns números. Vendo-a sã e salva, Neil continuou a examinar as imagens.
— Atende a merda do telefone! — disse ele, apertando os dentes.
— Eu esqueci... — Gwen falou, acima do barulho do alarme.
— Desliga isso! — Karen pediu.
As duas mulheres estavam paradas na frente do painel de controle. Quando Gwen digitou os números, o alarme silenciou, e ela foi do painel ao telefone.
— Alô?
— O que aconteceu? — Neil perguntou, com a mão no mouse pairando sobre o controle principal, que acionava a polícia local.
— Oi, Neil.
Puta que pariu, agora não era hora de tratar de amenidades.
— Gwen? — disse Neil, tenso.
— Eu abri a porta dos fundos e esqueci de desligar o alarme primeiro.
Karen voltou para o quarto, aparentemente indiferente ao drama.
Gwen atravessou de uma sala a outra. A camisola que usava mal cobria a bunda.
— Por quê?
— Por que o quê?
— Por que a porta dos fundos está aberta?
A imagem do quintal estava escura, sem sinal de problemas.
— Está uma noite bonita. Pensei em deixar entrar um pouco de ar fresco. Está tudo bem, Neil. Desculpe se o acordei.
Ela estava encostada na porta que havia aberto, falando com ele.
— Eu não estava dormindo.
— Claro que não. Você nunca dorme, não é?
— Eu durmo.
Só não em uma cama. E não por muito tempo.
— E com que o Neil sonha quando dorme? — Por alguma razão conhecida apenas por ela, Gwen o provocava falando sobre ele na terceira pessoa.
Ele desligou os alarmes e se sentou na cadeira de couro no meio da sala.
— E então? — insistiu ela.
Qual era a pergunta? Ah, sim... Com que ele sonhava? Com loiras platinadas com sotaque britânico vestindo cinta-liga, meias e nada mais.
— Eu não sonho.
— Todo mundo sonha.
Armas, explosões... corpos em chamas.
— Eu não.
— Ouvi dizer que não sonhar não é saudável — disse ela, girando uma mecha de cabelo no dedo e olhando pela porta dos fundos. A porta que deveria estar fechada, trancada e protegida por alarme.
— Não tem nada de errado com a minha saúde. Quanto tempo você vai ficar com a porta aberta?
Gwen parou de brincar com o cabelo e olhou ao redor da sala.
— Você está me observando?
Neil engoliu em seco.
— Neil?
— Você precisa trancar a porta e religar o alarme.
Gwen foi até uma cadeira na cozinha e pôs o pé em cima dela. A camisola subiu pela coxa enquanto ela fingia que coçava a perna, o que Neil sabia que não era por acaso. Gwen sabia que ele a estava observando. Ela andava flertando com ele fazia muito tempo.
— Tranque a porta, Gwen.
— Eu gosto dessa brisa. É mais quente aqui do que em Malibu.
— Ligue o ar-condicionado.
E abaixe essa perna.
— Você está preocupado à toa, Neil. Não tem ninguém perigoso lá fora.
— Tranque a porta.
— Vou desligar, Neil. Tente dormir um pouco.
Ele sabia que ela não ia fechar a porta, muito menos trancá-la.
— Gwen!
— Bons sonhos.
— Droga, Gwen!
Ela desligou, ignorando o pedido de Neil. Havia somente uma pessoa que se recusava a seguir suas instruções, e essa pessoa era Gwen Harrison... Não, lady Gwen Harrison.
Lady Gwen terminou seu chá antes de trancar a porta de tela que até o gato da vizinhança poderia abrir. Então apagou a luz e saiu da cozinha.
Deixando a porta dos fundos aberta.
Eu não queria dormir mesmo...