Noiva até Sexta
Capítulo 3
O OBTURADOR CLICAVA CONFORME A câmera capturava fotos e mais fotos dos dois saindo do restaurante. O homem deu um beijo no rosto da mulher e eles se separaram..
De onde estava sentado, ele viu a marca e o modelo do carro do homem, fez uma foto da placa e voltou a lente para a mulher. Ela tirou os óculos de sol enquanto procurava algo na bolsa. Olhou em volta, como se estivesse ciente de que alguém a observava.
— Eu estou observando — ele sussurrou para si mesmo. — Vá se acostumando comigo.
Então baixou a câmera quando o homem passou veloz em seu carro, sem notar nada.
E, quando a mulher se afastou, enfiou uma bala na boca e a seguiu.
Gwen fez a chamada internacional e esperou dois toques. Depois de uma conversa rápida e cordial com Tamara, a governanta da casa de seu irmão na Inglaterra, aguardou enquanto Samantha era chamada.
— Alô?
— Ah, que bom ouvir sua voz. Como está Albany?
— Molhada — disse Samantha, rindo. — E Tarzana?
— Quente e seca.
— Como vão as coisas por aí? E a Karen?
— Está ótima. Na verdade, ela é parte do motivo pelo qual estou ligando. Preciso de uma checagem de antecedentes de um possível marido para ela. Já ouviu falar de Michael Wolfe?
— O ator?
Por que todos o conheciam, menos ela?
— Ah, que bom, você o conhece.
Samantha não cuidava das atividades da Alliance desde que se casara, mas sabia quem contatar para checar antecedentes. Quanto mais pública fosse a pessoa, mais difícil era achar qualquer coisa substancial. Mas, se houvesse alguma sujeira, ela certamente encontraria.
— Todo mundo conhece Michael Wolfe, Gwen.
— Foi o que a Karen disse. Você tem tempo para dar uma olhada nisso?
Samantha riu.
— Você morou aqui e sabe que o que eu mais tenho é tempo. Tem mais empregados nesta casa do que gente morando no seu quarteirão. Se eu deixar uma toalha no chão do banheiro, ela vai ser recolhida antes de eu sair do chuveiro.
Gwen lembrava. Os empregados enchiam os corredores da casa de um rico duque. E, embora ela não fosse muito de cozinhar, em nome de sua privacidade, ia demorar para voltar a fazer três refeições decentes ao dia.
Gwen olhou para a câmera que sabia que estava escondida no canto da sala.
Quase privacidade.
— E o que isso tem a ver com a Karen?
— Ela é a candidata ideal. Ele precisa de uma mulher bonita o bastante para convencer os fãs de que encontrou o par perfeito. Se esse Wolfe é tão cobiçado como dizem, ele poderia ficar com a mulher que ele quisesse.
— É verdade — disse Samantha.
— A Karen é linda. Eles vão formar um casal maravilhoso. Ela não vai ficar impressionada com a fama dele. Duvido que existam muitas mulheres na nossa agenda com esse perfil.
— Concordo.
Gwen continuou listando os atributos de Karen:
— As amigas mais próximas dela somos você, a Eliza e eu. Se ela precisar desabafar sobre o casamento, pode contar com a gente, em vez de falar com alguém que deixe vazar algo para a imprensa. Ela entende o jogo de interesses melhor que as outras. Só vai ter que convencer as crianças do Boys and Girls Club de que está loucamente apaixonada.
— É, ela pode mesmo ser o par perfeito para ele — concordou Samantha. — Isto é, se os antecedentes forem bons.
— Acho que sim. Eles vão se dar muito bem.
— Ela ainda não o conheceu?
— Não. Vou esperar você terminar a pesquisa antes de apresentar os dois. Quanto tempo acha que vai levar?
— Uns dois dias. Michael Wolfe. Que emocionante! Você sabe o que isso significa, se tudo der certo?
Gwen soltou um suspiro, antecipando o que Samantha diria.
— Significa que finalmente vou ter um pouco de privacidade por aqui.
Ela adorava dividir a casa com uma amiga da sua idade. Todos sabiam que ela nunca tinha morado sozinha, mas a última coisa que queria era que qualquer pessoa da família sentisse pena dela.
— Você não me engana, Gwen.
— Não sei do que você está falando. Ah, está ficando tarde! Tenho mais alguns telefonemas para dar. Mande um beijo para o meu irmão, está bem?
— Deixe a atuação para o Michael, Gwen. Você é péssima nisso.
Ela riu, disse que amava a cunhada e desligou.
— Ei, Gwen — Karen chamou, dos fundos da casa.
Gwen seguiu a voz e a encontrou olhando pela janela da cozinha.
— O que você acha que é isso? — Karen perguntou, apontando para o terreno além da cerca.
Um guindaste na rua de trás estava erguendo uma grande caixa de madeira acima da casa.
— Não faço ideia.
— Eu sei que os antigos donos tiveram a hipoteca executada. Tiraram a placa de venda há duas semanas. Fico imaginando o que os novos proprietários vão fazer.
Gwen abriu a porta dos fundos. O som de uma dúzia de vozes masculinas falando em pelo menos duas línguas diferentes encheu a cozinha. Ela saiu e observou a casa vizinha. A caixa de madeira pendia de um grande cabo que se inclinava perto do beiral da casa. Ela prendeu a respiração quando alguém do outro lado da cerca gritou “para!” a quem operava a grua. Karen foi até ela e subiu em uma das cadeiras do jardim para enxergar melhor.
— Está vendo alguma coisa?
O pequeno quintal era cercado por uma combinação de blocos de concreto e madeira. A cerca que separava as duas propriedades não tinha mais que um metro e meio de altura. Algumas árvores ajudavam a separar o espaço, mas, independentemente do ângulo em que se olhasse, a privacidade do quintal era inexistente.
— Acho que é uma banheira.
A caixa de madeira balançou no ar, o zumbido hidráulico da máquina que a segurava soluçou, e a banheira balançou uns dois centímetros mais perto da casa.
— Espero que não caia no telhado — disse Karen.
— Acho que todo mundo ali está preocupado com isso.
Nenhuma das duas conseguia deixar de observar a caixa, que continuou balançando até o guindaste a colocar com segurança no chão.
— O que estamos fazendo aqui embaixo? Do seu quarto dá para ver bem melhor — disse Karen.
Gwen voltou para dentro da casa.
— Fique à vontade.
Observar os vizinhos, especialmente os pitorescos, era um ótimo passatempo, mas Gwen não vira no quintal ao lado nenhum homem que valesse a pena.
Após espiar durante alguns minutos, Karen voltou ao escritório conjunto e se sentou à mesa.
— Você sabe o que isso significa, não é?
Gwen estava olhando a seção de entretenimento de uma revista online, procurando informações sobre o seu novo cliente.
— Não, o quê?
— O cheiro da comida da sra. Sweeny vai empestear o quarteirão.
Gwen estreitou os olhos. A vizinha delas, a sra. Sweeny, recebia todos os novos moradores e recém-casados com o seu intragável linguine com molho de mariscos. Só o cheiro já fazia o cão mais faminto correr na direção contrária. Até mesmo os gatos.
— Vamos fechar bem a casa e deixar o ar circular assim que sentirmos o cheiro de macarrão cozinhando.
— Se tudo o que ela fizesse fosse cozinhar o macarrão, ninguém reclamaria.
— É verdade.
Gwen viu uma foto de Michael de braço dado com uma atriz. Cada vez que o via, ele estava com alguém diferente.
— Eu falei com a Samantha. Ela está checando os antecedentes do Michael.
Karen girou na cadeira, voltando a atenção para Gwen.
— Não sei por quê, mas duvido que ela encontre algo sobre o cara que a gente já não saiba.
— Ou o que presumimos — acrescentou Gwen.
— Sabe onde ele mora?
— Ele se mudou para Beverly Hills um ano atrás, mais ou menos. Antes disso, morava em Hollywood Hills.
Tudo isso era público.
— A casa é isolada?
— Você sabe como é a maioria das casas em Beverly Hills... Completamente invisível da rua. A menos que o dono queira aparecer e ostentar.
— Meu palpite é que o Michael não vai querer que as pessoas saibam como é a vida dele em casa — disse Karen, dando de ombros. — Eu posso aguentar.
Gwen olhou para a amiga.
— Achei que você ia gostar de ter privacidade. Entre as câmeras e os vizinhos barulhentos, não temos muito disso por aqui.
— Eu gosto de estar perto das pessoas.
Karen era voluntária de uma unidade local do Boys and Girls Club e provavelmente gastava metade do seu salário com crianças carentes. Embora Samantha tivesse checado os antecedentes dela muito antes de Gwen começar a trabalhar na Alliance, ela não se sentia à vontade para fuçar o passado da amiga. Se Michael fizesse perguntas específicas sobre Karen, Gwen pediria a Samantha que lhe passasse os detalhes. Como colega de trabalho e companheira de moradia, Gwen pensava que um dia Karen se abriria com ela. Mas, se isso não acontecesse, ela não podia fazer nada a respeito.
— O que você vai fazer com o dinheiro, se de fato você e o Michael se casarem?
Suas clientes que estavam dispostas a se casar com homens ricos o faziam por uma quantia bastante elevada. No contrato constava um valor mínimo de dois milhões de dólares, mais uma comissão de vinte por cento para a agência. O noivo concordava em arcar com todas as despesas da noiva, desde um guarda-roupa até um carro novos. Os arranjos da convivência eram determinados no início das negociações. Alguns maridos viviam com a esposa, mas nunca dormiam no mesmo quarto. Se ambos se sentissem atraídos um pelo outro, entendia-se que a agência seria isenta de possíveis processos de paternidade daí resultantes. Se o casal permanecesse junto depois do tempo estipulado, a agência seria paga conforme o acordado e caberia ao casal dissolver os pactos antenupciais.
Havia alguns poucos clientes que estavam realmente procurando relacionamentos amorosos. Nesses casos, a combinação dos casais se dava com base em seus perfis, desejos e interesses românticos. Ambas as partes concordavam em pagar à Alliance pela checagem de antecedentes e todas as despesas associadas, além da taxa relacionada ao serviço de seleção dos pares.
Samantha havia fundado a Alliance fazia mais de cinco anos. Vários casais tinham se conhecido, casado, divorciado e continuado amigos. Até aquele momento, oitenta por cento dos casais que haviam ficado juntos por amor ainda estavam casados. Apenas uns vinte por cento dos que se casaram por dinheiro haviam extrapolado o contrato e tiveram filhos ou continuavam casados. Os demais se divorciaram conforme o planejado.
Samantha e Blake estavam entre esses vinte por cento.
— Vou investir metade, para garantir estabilidade na velhice.
— E a outra metade?
— Estive pensando em abrir uma casa para desabrigados. Um lugar aonde as crianças pudessem ir e se sentir seguras, na falta de um lar.
Aí estava a ocasião ideal para Gwen sondar mais a vida de Karen.
— Deve dar muito trabalho.
— Qualquer coisa que valha a pena normalmente dá trabalho. Existem muitos adolescentes sem-teto, que enfrentam todo tipo de problemas só para ter o que comer.
Karen virou de costas, indicando a Gwen que a “hora de compartilhar” havia acabado.
— Além disso, a ex-mulher de uma celebridade poderia convencer as pessoas a fazer doações para ajudar as crianças. Vale a pena tentar.
Karen tinha um coração enorme.
— Vamos torcer para que os antecedentes do Michael sejam bons, então.
O celular de Gwen tocou, poupando Karen de mais perguntas.
— Alô?
— O que está acontecendo no quintal?
Neil era especialista em pular o “tudo bem com você?” e ir direto ao ponto.
— Como é?
— No seu quintal. Os detectores de movimento estão malucos, mas não tem imagens de vídeo chegando.
O tom seco de Neil e as perguntas rápidas tornavam difícil responder de forma calorosa e amigável.
— Temos novos vizinhos. Eles baixaram uma banheira de hidromassagem com um guindaste.
— Na casa que dá de fundos para a de vocês? — ele perguntou.
— Sim.
A linha ficou muda por alguns segundos.
— Neil? Você ainda está aí?
— Preciso que você vá lá fora.
— Por quê? — Gwen perguntou, levantando da cadeira e indo em direção à porta dos fundos.
— Preciso fazer um teste.
Ela foi até o quintal.
— Alguém já te disse que você é paranoico?
— A maioria das pessoas evita dizer coisas que me irritam.
Ela sorriu.
— Eu gosto de te irritar.
Neil riu. Bem, mais bufou que riu.
— Isso foi uma risada, Neil?
Ele raramente sorria, mas, quando o fazia, o corpo de Gwen amolecia e ela se perdia no olhar dele. Pena que ele não estava ali com ela, para que ela pudesse vê-lo em vez de imaginá-lo.
— Aí está você — disse ele, sem responder à pergunta.
Gwen acenou, sabendo que a câmera a havia encontrado.
— Vá até a cerca de trás.
Ela caminhou na ponta dos pés, evitando afundar os calcanhares na grama macia.
— Você está aí? — ele perguntou.
— Estou. Não consegue me ver?
— Preciso reajustar o equipamento para pegar um ângulo melhor.
— Vou voltar para dentro agora.
Os homens no quintal da casa vizinha a observavam. Ela acenou, sorriu e voltou para dentro da casa.
— Se já terminou, preciso voltar ao trabalho.
— Eu... eu... Como está sua perna?
Gwen parou na cozinha e olhou para o pé.
— Está bem. Obrigada por perguntar.
— Ótimo. Bom, daqui a uma hora estou aí para checar as câmeras.
Ela mal podia esperar.
— Paranoico — repetiu Gwen.
Ele bufou pela segunda vez e desligou o telefone.