Noiva até Sexta
Capítulo 29
— E SE ELE NÃO vier?
Rick levantou a questão na qual Neil não queria pensar. Estavam no terceiro dia. Neil havia pegado um dos receptores grampeados da casa de Blake e o usava como um farol para que o Gralha o rastreasse. Tudo que o homem precisava fazer era checar a frequência.
Mas cada hora que passava sem que o inimigo aparecesse o deixava louco. E o pior era que não tinha nenhum contato com Gwen para saber como ela estava em sua ausência. Se o Gralha estivesse observando-os, poderia estar esperando que eles desistissem e voltassem para casa. Assim, ele o conduziria até Gwen. E isso não podia acontecer.
Tanto ele quanto Rick rodeavam o acampamento, trocando muitas vezes de posição. Se o Gralha estivesse por ali, não lhe dariam tempo de se acomodar em um só lugar.
— Estive pensando... — disse Rick no aparelho de escuta de Neil. — O Gralha quer nos matar, certo?
— Basicamente.
— Mas ele quer que pareça um acidente, como aconteceu com o Billy.
Neil olhou através dos binóculos e viu um bando de pássaros levantando voo de um pinheiro distante. Ficou olhando para a agitação na base da árvore, perguntando o que os havia perturbado.
— Ninguém vai pensar que eu me matei.
— O mesmo vale para mim. Então sobra o quê? Um acidente de caça? De trânsito?
— Nós não estamos dirigindo.
Um cervo parou debaixo da árvore, erguendo o nariz no ar. Neil deslocou o olhar na direção oposta ao animal.
— Onde você estacionou o seu carro? — Neil perguntou.
— Ah, droga... Você acha que ele vai explodir o meu carro?
— E você não?
Rick soltou um palavrão.
— Eu sabia que devia ter estacionado aqui.
— Assim ele ia ter certeza de que somos dois. Deixando o carro lá, ele pode ficar em dúvida.
— Isso não vai ajudar o meu carro. Ele tem um sistema catback. Roda macio... Porra, talvez seja melhor eu ir dar uma olhada nele.
Neil riu.
— Claro... cair na armadilha. Bem pensado.
Rick murmurou outra série de palavrões.
— Eu não tenho dinheiro para comprar outro quando essa merda acabar. O seguro não cobre tudo.
— Você não está trabalhando?
— Aqui e ali, nada estável. Ter sido fuzileiro naval torna difícil trabalhar atrás de uma mesa, entende?
Neil entendia.
— Vamos resolver isso primeiro, mas para mim seria útil ter mais um par de olhos.
— Segurança particular?
— Pode parecer chato, mas pelo jeito as pessoas com quem eu trabalho sempre têm alguém atrás delas.
— Talvez.
— Sem pressão. O emprego é seu, se quiser.
Ter Rick em sua equipe seria como ter um irmão a seu lado.
— Talvez eu não tenha escolha se esse filho da puta explodir o meu carro. Porra, eu devia ter pensado nisso.
Neil deu alguns passos para fora de seu esconderijo e olhou ao redor. Nada.
— Vou na direção do acampamento, acender uma fogueira para ver se a fumaça o atrai.
— Entendido.
Neil ziguezagueou por entre as árvores até chegar ao acampamento. Ele já havia passado óleo nas folhas para fazer mais fumaça que fogo. Então acendeu e cobriu com madeira verde. Assegurando-se de que a fumaça não se extinguiria no minuto em que ele se afastasse, Neil retrocedeu.
— Me lembra de nunca acampar com você.
— Vá se foder.
— Ei, caubói... Sabia que você gostava de mim — Rick brincou.
Neil não pôde deixar de rir. Antes de o riso desaparecer, ouviu um grande estrondo ao norte de onde estavam.
— Que porra foi essa?
Neil sentiu a pele arrepiar.
— Fique abaixado.
Tudo se acalmou.
— É para nos distrair.
Exatamente o que Neil tinha pensado.
— Onde está o seu carro?
— Ah, porra!
Sim, era o que Neil também tinha pensado.
Olhando pelo lado bom, o jogo havia começado.
As fotos nos álbuns poderiam ser de qualquer casa americana. Piqueniques no quintal, feriados, várias fotos de Ruth, Charles e a filha deles, Annie, passando férias em parques nacionais. Algumas das primeiras fotos indicavam que Charles costumava sorrir. Em algum momento, elas se tornaram instantâneos de sua vida, sem emoção alguma.
O que Gwen não encontrou foram fotos de Annie e do rapaz que Ruth descrevera como seu marido. Mesmo que Charles não aprovasse a união, tinha que haver algum tipo de relacionamento. Mesmo um relacionamento tenso ao redor de uma mesa na ceia de Natal.
Por fim, Gwen desistiu dos álbuns deixados para que ela olhasse e decidiu ver se havia outras fotos escondidas atrás dos livros de Ruth. Começou com a que sabia que estava lá. O casal parecia feliz. O homem mantinha um braço possessivo ao redor de Annie, e ela sorria para a câmera. Uma sensação de reconhecimento surgiu no fundo da mente de Gwen, cutucando-a de um jeito estranho.
Ela foi tirando livros das prateleiras, olhando atrás e recolocando-os. Fez isso em uma prateleira de cada vez, até que encontrou outra fotografia. Annie era mais jovem, mas estava em um pub com um homem de uniforme. Não era o mesmo homem, observou Gwen. Guardou a fotografia e continuou procurando.
Estava prestes a desistir da busca quando notou vários livros desalinhados na prateleira. Com certeza havia outra foto atrás deles. Essa não tinha moldura, nem era guardada com cuidado algum. Gwen desdobrou a foto e imediatamente a reconheceu.
Era a mesma foto que Neil levava na carteira, só que era uma cópia maior. Era mais fácil ver o rosto dos homens destacados para aquela malfadada missão.
Gwen examinou os rostos sabendo que havia algo significativo ali. Caso contrário, por que estaria escondida entre os livros, e não emoldurada sobre o console de uma lareira?
Neil tentava sorrir, e só de ver uma foto dele ela se sentiu mais aquecida. Seus olhos voltaram a um rosto em particular várias vezes, antes que ela percebesse o que estava vendo.
Encontrou a foto escondida sobre a qual Ruth havia lhe contado alguns dias antes e a pegou. Com certeza, o rapaz daquela foto era um dos homens de Neil. Ele sabia que Annie havia namorado um de seus homens?
Gwen levou as fotos até a mesa, olhando para a porta. Pensou em fechá-la, mas achou que poderia parecer suspeito. Então, fechou os olhos para ouvir os sons da casa. O aparelho de ar-condicionado central começou a funcionar com um zumbido. Na cozinha, o som fraco da geladeira. Mais além, o som de uma televisão. Provavelmente Charles estava assistindo a algum programa.
Abriu os olhos de novo e olhou as fotografias.
Ruth havia dito que Annie desistira do homem porque ele mudara depois de voltar do exterior. Era possível que a missão de que Ruth havia falado fosse a mesma que afetara Neil tão profundamente.
Se Gwen bem lembrava, Charles ficara extremamente insatisfeito com a separação... queria que sua filha desistisse do marido, Andrew, e se casasse com um militar.
Ela sentiu a cabeça latejar.
— Ficou com muita raiva? — sussurrou para si mesma.
Ela odiava condenar o homem que havia sido gentil com ela. Assustador, mas gentil.
Na mesa a seu lado havia um telefone. Tão perto, praticamente chamando seu nome. Um único telefonema para Eliza, só para dizer que estava viva, e talvez ela pudesse descobrir alguma coisa sobre o major Blayney. Afinal, ela não estava segura ali se, de fato, Charles era seu protetor? E, se ele não fosse, ela não estaria segura de qualquer maneira.
Tamborilou com o dedo na mesa, levou a mão em direção ao aparelho, mas a puxou de volta. Levantou depressa e devolveu as fotos no lugar. Estava quase na porta da sala quando se voltou abruptamente e pegou o fone.
Não tinha linha.
Apertou o botão várias vezes.
Nada.
Suas mãos começaram a suar.
— Tenho uma reunião em trinta minutos, mas acho que você precisa ouvir isso agora.
Blake prendeu a respiração enquanto Carter falava.
— Muito bem, não me deixe esperando.
— A foto da tropa do Neil revelou algumas curiosidades. Nenhum dos homens da foto ainda está em serviço. Pense bem, Blake... Todos esses caras eram jovens, e a maioria dos militares passa a vida em serviço.
— O Neil comentou que tinha perdido alguns homens em campo.
— Certo. Três morreram em um “acidente de treinamento”. Isso pode ser qualquer coisa.
Blake esperava por isso. Enquanto Carter falava, ele abriu a foto no celular e a analisou.
— Muito bem. O que mais?
— Um dos homens da foto cometeu suicídio recentemente.
— Suicídio?
— Sim. Aparentemente a esposa largou dele e ele pulou de um penhasco.
— Pulou de um penhasco? Por que um homem com experiência militar escolheria outra coisa que não uma arma para se matar?
Carter suspirou.
— Foi o que pensei também. Outro detalhe é que todos esses homens receberam os papéis da baixa no mesmo mês.
— Exonerados?
— Não. Simplesmente deixaram que eles caíssem fora.
— Isso acontece?
— Não muito.
— Quem deu a ordem de baixa? Talvez o superior saiba de alguma coisa.
— O Max está vendo isso.
Blake pegou a foto do motorista. Olhou a foto do celular de novo.
— Ah, merda!
— O quê?
— Aquele cara... o que roubou o carro... Ele está na foto com o Neil.
— O quê? Tem certeza? — perguntou Carter.
— Sim, é o segundo à direita. De orelhas grandes. Como não vi isso antes? Eu preciso de um nome; esse é o nosso sujeito. E o Neil nem desconfia de que é o seu velho amigo que está por trás disso.
— Ligue para o Dean. Veja se ele consegue rastrear o cara. Temos que localizar o Neil.
— O Colorado é enorme. Eles podem estar em qualquer lugar.
— Você disse que o Neil não ia fugir para sempre, que encontraria um lugar seguro e lutaria.
— Vou para Colorado Springs. Tem quase uma dúzia de bases militares lá. Uma delas vai saber algo sobre o Neil.
— Quem me dera ter uma ideia melhor.
— Isso está me dando mais cabelos brancos que o meu filho, Carter. Precisamos de mais informações — disse Blake.
— Já sabemos mais hoje do que ontem. Estamos chegando a algum lugar.
— Devagar demais para o meu gosto.
— Aguente firme. E me ligue se descobrir mais alguma coisa.
Desligaram, e Blake chamou o piloto. Em seguida ligou para Dean.
Gwen se acalmou o melhor que pôde antes de voltar à sala onde Charles assistia à TV. No noticiário, duas beldades falavam sobre o destino do mundo. Seus sorrisos plásticos pareciam tão falsos quanto os dela. Você consegue!
— Encontrou um livro? — Charles perguntou.
— Ah, sim — ela mentiu. — Dois.
Ele olhou para ela, mas não nos olhos.
— Eu vi uma pizzaria aqui na base e achei que seria bom jantar cedo. Eu ia ligar para eles entregarem, mas parece que o telefone não está funcionando — Gwen falou.
Charles virou a cabeça, lenta e metodicamente.
— Pizza?
Ela deu um sorriso tímido.
— Sim.
— Acho que a Ruth tem pizza congelada no freezer.
— Humm, deve servir. A linha telefônica está com algum problema?
Ele voltou a atenção para a TV.
— Não, está tudo bem.
— Não tem linha.
— Acho que o Neil pediu para você evitar ligar enquanto ele estivesse ausente.
Gwen sentiu a pele coçar.
— Não consigo imaginar que alguém possa chegar até mim aqui.
Charles se concentrou no noticiário, e por um momento ela achou que ele não diria mais nada sobre o assunto.
— Mulheres não sabem aceitar ordens — ele continuou.
— O Neil me pediu para não entrar em contato com ninguém durante um tempo. Mas já se passaram quase três dias, e estou começando a ficar preocupada.
— O trabalho da mulher é se preocupar. Fico feliz de ver que você sabe fazer isso. — Ele começou a tamborilar os dedos na borda da cadeira.
Gwen tinha uma boa resposta britânica na ponta da língua, mas a engoliu. Aquele homem não estava bem da cabeça. Sua opinião sobre as mulheres provava que ele era o homem errado para protegê-la. Ele a acharia inútil em algum momento, ou talvez indigna de Neil, e daria liberdade a quem quer que fosse que quisesse lhe fazer mal.
Ela se controlou.
— Estou muito preocupada. Acho que vou mexer no jardim da sua esposa.
Ele acenou com a cabeça em direção à TV.
— Parece que vai chover.
— Um pouco de chuva não incomoda uma inglesa — ela retrucou, tentando sorrir.
— Pensei que você queria pizza.
Perdi o apetite.
— Ainda está cedo.
Ela deu meia-volta, sentindo os olhos dele sobre ela enquanto se afastava.