Noiva até Sexta
Capítulo 27
GWEN ALONGOU AS COSTAS, IGNORANDO a dor que lhe causava cuidar do jardim. Pelo menos, se estivesse cansada à noite, conseguiria dormir um pouco. Rolar na cama sonhando com seu marido, onde estava e o que estava fazendo, não lhe deixava tempo para descansar.
Para piorar as coisas, pouco depois de ela e Ruth começarem a restaurar o jardim, alguém ligara em nome de Annie pedindo a Ruth que fosse para a Flórida. Ela estava doente ou algo assim, dissera Charles.
Então, estavam só ela e Charles na casa.
Gwen não estava gostando disso. O homem a observava, mas nunca fazia contato visual. Olhou para a casa e o notou na janela, analisando-a. Ele largou as cortinas, mas não se afastou.
Ele só está ajudando o Neil.
Neil, que tinha partido havia quase vinte e quatro horas. Vinte e quatro longas e solitárias horas.
Você vai conseguir.
Por cima do ombro, ela sentia que ele ainda a observava.
Você consegue! São só alguns dias.
Gwen enfiou as mãos na terra e puxou uma erva daninha teimosa.
— Bem, pelo menos não está chovendo — a voz de Rick soou no ouvido de Neil, a quase trezentos metros de distância.
Neil observava as árvores balançando ao vento, que surgira do nada.
— Cuidado com o que você fala.
Não era raro o fim do verão trazer tempestades para aquelas paragens antes de elas soprarem para leste. Eles estavam preparados para qualquer coisa, afinal eram fuzileiros navais.
Dentro da barraca, onde nenhum dos dois pretendia dormir, havia um chamariz que só alguém com óculos de visão noturna seria capaz de ver. Eles haviam colocado pedras quentes da fogueira dentro de um saco térmico que irradiava calor, para que alguém com o equipamento adequado acreditasse que havia alguém dormindo ali. A colina onde Neil se empoleirava servia de apoio a um penhasco, uns noventa metros acima. De jeito nenhum alguém conseguiria escalar para chegar até ele. Basicamente, estava incrustrado em um cânion, com apenas dois caminhos para chegar lá. Rick rastreava o lado nordeste, enquanto Neil observava qualquer atividade no lado sudeste.
— Já teve a sensação de que estamos esperando à toa? — perguntou Rick.
— Você acha que o Billy se matou?
— De jeito nenhum — Rick sussurrou asperamente, reverberando no ouvido de Neil.
— O Gralha vai vir. Ele vai saber que o estamos esperando.
Neil virou o binóculo para onde Rick estava e olhou ao redor. Nada.
— Ele sabe que estou esperando. E, pelo que sabemos, você é o próximo da lista dele.
— Ainda acha que ele não vai vir armado até os dentes?
— Acho. A não ser que a motivação dele tenha mudado. E ela só mudaria se ele achasse que nós o identificamos.
O vento soprava sobre o pinheiro gigante acima de Neil, fazendo-o ranger.
Maldito vento.
No céu escuro, não havia sequer uma lasca de lua. Não muito tempo atrás, ele estava olhando as estrelas e compartilhando seus sonhos de infância com Gwen. Odiava ter que deixá-la para trás, mas odiaria ainda mais estar com ela ali, naquela situação.
— Acha que consegue dormir por uma hora? — perguntou Rick.
— Talvez.
— Eu te dou cobertura.
Neil se escondeu na rocha enquanto Rick tomava posição. Uma hora de sono aqui, outra ali, era tudo que conseguiam enquanto estavam em campo. Na noite anterior, Neil não conseguira nem isso. Entre a preocupação com Gwen, a falta que sentia dela e o conflito interno que lhe dizia que Rick podia saber mais do que dizia, era impossível dormir. No entanto, era cada vez mais evidente que seu amigo era um alvo tanto quanto ele. Se Rick estivesse por trás daquilo, já teria feito alguma coisa. Ele precisava confiar e precisava dormir. Estava exausto.
Eles se agacharam sob o vento criado pelas lâminas do helicóptero. Billy e Rick levantaram Linden, um peso morto, para os homens a bordo. Em seguida puxaram Mickey, que mancava.
Mac se voltou para a bola de fogo que haviam acabado de deixar. Seus ouvidos zuniam por causa da explosão que matara seus homens. Batera a cabeça e a nuca na queda, mas, de resto, estava bem. Vivo.
Rick o puxou para o helicóptero e decolaram. Neil viu pessoas conversando, mas não conseguia escutar o que diziam. Só ouvia o zumbido nos ouvidos e o barulho do helicóptero. Seu peito doía, e ele tossiu pelo que pareceu uma hora.
Billy se ajoelhou ao lado de Linden, enquanto os dois homens que Neil não conhecia cortavam suas roupas, expondo os ferimentos na barriga e na coxa causados pela explosão. Havia sangue por todo lado.
Neil pegou o cobertor que alguém havia colocado sobre ele e o empurrou para Linden.
— Caralho, não morre!
Mas o rosto de Linden estava branco, e, antes que pudessem fazer qualquer coisa, os olhos perderam o foco e ele deu o último suspiro.
O helicóptero se inclinou, e Neil teve que se segurar para não cair. O silêncio em seus ouvidos fez seus olhos focarem melhor.
Ao lado de Linden, Billy baixou a cabeça. A expressão de Rick era um misto de raiva e remorso. Mickey estava dobrado ao meio.
Neil conseguiu chegar ao lado de Mickey e o olhou nos olhos. Fez um movimento inquisitivo com as mãos, e Mickey sacudiu a cabeça.
Foi quando Neil viu o fragmento de madeira na virilha de Mickey. O sangramento era mínimo, e eles sabiam que deviam manter o objeto no lugar até que o médico o atendesse, onde desembarcassem. Ele balançou a cabeça para Mickey, como se para o lembrar de não puxar o toco de madeira. Mickey era conhecido por agir impulsivamente, mas não parecia querer fazer isso naquele momento.
Neil caiu contra a lateral do helicóptero, tossindo violentamente.
Blake pediu a sua secretária que providenciasse o carro para ir ao aeroporto na manhã seguinte. Ia pessoalmente ao Colorado para rastrear os passos de Neil. Estava tudo muito quieto, e o fato de não ter notícias de seu guarda-costas e de sua irmã o exasperava.
Já não se preocupava que alguém ouvisse suas conversas. Nenhum grampo havia sido detectado, e ninguém mais deixara aves mortas por perto. Carter havia voltado para Sacramento com a promessa de ligar para Washington, se fosse necessário.
Blake só esperava que Neil e Gwen tivessem recuperado o bom senso e não estivessem rodando por aí com armas carregadas.
Tirou a gravata e pegou o telefone, com a intenção de fazer sua chamada noturna para Sam.
Mas o telefone tocou sob seus dedos, fazendo-o dar um pulo.
Fique firme, Blake.
— Alô? — atendeu, não reconhecendo o número no identificador de chamadas.
— Sr. Harrison?
Blake atirou a gravata na lateral da cama e se sentou.
— Isso.
— Desculpe ligar tão tarde, sr. Harrison. Especialmente pelo motivo pelo qual estou ligando.
Ele estava tirando os sapatos e parou no meio.
— Quem está falando?
— Ah, desculpe. Aqui é Bernard, gerente da First Class Services.
— O serviço de transporte executivo?
— Isso. Isso mesmo.
A ansiedade de Blake desapareceu e seus sapatos caíram no chão, um de cada vez.
— Pois não, Bernard.
Por que ele estava ligando àquela hora?
— Recebemos sua solicitação de um carro para amanhã de manhã.
— Algum problema?
— Não, senhor. Teremos um carro pronto para servi-lo.
Blake abriu um a um os botões da camisa e passou para as abotoaduras.
— Então, por que está ligando?
A respiração de Bernard estava um pouco acelerada, demonstrando aflição. Blake esperou enquanto o homem começava a se desculpar.
— Desculpe. Todos aqui da agência lamentamos muito.
— Por que está se desculpando?
— Eu verifiquei quem foi o seu motorista no começo da semana. Sempre que possível, tentamos manter os mesmos profissionais. Como o senhor sabe, temos grande orgulho da privacidade que oferecemos aos nossos clientes. E o senhor é um cliente muito valioso...
Blake revirou os olhos.
— Bernard, por favor, pode parar com a enrolação e me dizer por que ligou? Vou ter um dia cheio amanhã. — E, nesse ritmo, ele ainda estaria ao telefone com aquele coitado.
— Desculpe. Certo. É que... não sabemos quem é o motorista que foi buscá-lo.
— Como assim, não sabem quem ele é?
— Recebemos o pedido e um carro saiu no início da semana, mas nenhum dos nossos homens estava ao volante.
Blake parou de se despir.
— Bem, alguém com certeza foi me buscar.
— Sim, mas não era funcionário nosso.
— Ele disse que trabalhava para vocês.
— Eu lhe garanto, sr. Harrison, que não trabalha. Nós temos a gravação do pátio onde guardamos os carros. Um homem com o nosso uniforme foi visto saindo do pátio com um carro e voltando algumas horas depois.
— Se ele não era um dos seus funcionários, quem era?
— Não sabemos. Sua privacidade é fundamental para nós. A polícia está vindo para cá agora para ver as gravações. Tenho certeza de que vão querer falar com o senhor. Sinto muito.
— Como é que isso foi acontecer?
Mais negócios eram fechados dentro de limusines do que em salas de reuniões.
— Sugiro que pense com quem o senhor falou, e sobre o quê, a caminho de casa. Talvez alguém precisasse das informações que o senhor transmitiu naquela curta viagem.
Ele e Dean tiveram que conversar no carro porque Neil sugerira que a casa estava grampeada.
— Ah, merda.
— Lamentamos profundamente por tudo isso.
— Sim, sim... Estarei aí com o detetive Brown em uma hora. Quero ver as gravações.
— Claro, senhor. Estamos à disposição.
Blake enfiou os pés nos sapatos e ligou para Dean. Quarenta e cinco minutos depois, estavam sentados no escritório da First Class Services com Bernard, nervoso, e meia dúzia de policiais uniformizados.
Blake ouviu a história sobre como um total desconhecido havia entrado na empresa, conseguido pegar as chaves de um carro e saído do estacionamento para buscá-lo no aeroporto sem ser detectado.
— Foi um fim de semana excepcionalmente movimentado. Vários motoristas nossos ainda estavam fora, desde a noite anterior. Não é novidade para nós deslocarmos os motoristas de um pátio para outro.
Bernard divagava sobre a empresa e como era administrada. De acordo com a filial de Orange County e a de San Diego, nenhum dos seus motoristas havia recebido autorização para pegar serviços na área de Los Angeles na data em questão. Portanto, excluíram qualquer motorista dessas equipes.
Um policial tomou o depoimento de Bernard, enquanto outro gerente apresentava o vídeo do homem em questão. A distância da câmera para os carros era entre trinta e noventa metros. Em nenhum momento o homem se voltou diretamente para a câmera, o que fez Blake pensar que ele sabia que o equipamento estava ali. Ele usava o uniforme da empresa e optara pelo quepe. Nem todos os motoristas usavam, por isso Blake não pensara duas vezes quando vira o homem.
— Pode aproximar a imagem?
À medida que a imagem se expandia, a qualidade piorava. Como Blake se lembrava, o homem tinha cabelo curto e nenhum pelo no rosto ou queixo. Branco, cerca de um metro e oitenta de altura, compleição média.
Ele parecia familiar a Blake. Claro. Blake havia falado brevemente com o homem e lhe dera uma gorjeta generosa.
— Podemos melhorar a imagem na delegacia, tentar cruzá-la com as da base de dados — disse Dean, afastando-se do monitor e olhando ao redor da sala. — Alguém aqui deve ter falado com o homem.
Bernard mudou o peso do corpo de um pé a outro.
— Eu já interroguei todos os meus motoristas. Nenhum deles o viu.
— E quanto à expedição dos carros?
— Não somos como um serviço de táxi. Temos um sistema computadorizado que permite aos nossos motoristas saber quando um cliente precisa de um carro. Como expliquei para o sr. Harrison, tentamos manter os mesmos motoristas com os mesmos clientes, para melhor atender às necessidades deles. O sr. Harrison só usa os nossos serviços ocasionalmente, de modo que não recebemos pedido para uma pessoa em particular.
— Então, como você escolhe qual motorista vai fazer o serviço?
Bernard afastou o colarinho duro do pescoço. Blake quase sentiu pena do homem.
— Nós fazemos um rodízio entre quem precisa de um serviço e quem conhece melhor a área e os protocolos. Rodar por ruas de paralelepípedo para pegar clientes diretamente no aeroporto requer um nível diferente de segurança do que levar uma celebridade para o Oscar. Muitas coisas são levadas em consideração.
— Me mostre como os seus motoristas pegam e devolvem um carro — disse Dean.
Bernard foi até o monitor, enquanto o policial uniformizado que estava procurando o vídeo se levantava e se afastava. Ele abriu o que parecia ser a página principal do serviço e clicou no ícone de uma tabela de carros. Havia uma lista de sobrenomes e localizações. Ao lado, uma coluna para o motorista colocar seu nome.
— Neste primeiro grupo de nomes estão nossos clientes regulares. Observe as cores relacionando os motoristas aos clientes. Este próximo grupo de nomes é de clientes de uma única vez. Ocasiões especiais, bailes de formatura. Ao lado dos nomes existem símbolos: uma taça de martíni para uma festa, onde o motorista vai evitar que os passageiros dirijam embriagados. Eu tento usar homens como motoristas, a menos que seja uma despedida de solteira. — Bernard ficou empolgado explicando seu sistema, obviamente orgulhoso do que fazia. — Este é o símbolo do aeroporto. Quando um motorista está livre para pegar um serviço e vê isso, sabe que só está aberto para quem tiver autorização.
— Vamos ver a data em que o sr. Harrison chegou.
Bernard clicou no calendário até chegar à data. Blake se inclinou para a frente e viu seu nome, local, horário e o símbolo do aeroporto. Ficou feliz por não ver uma taça de martíni. Mas sua alegria desapareceu quando viu o nome do motorista.
— Mac.
Blake bateu com força na lateral da mesa do computador.
— Filho da puta!
— Não tire conclusões precipitadas — disse Dean.
— Precipitadas? — retrucou Blake.
Dean o pegou pelo braço e o tirou da sala.
— Não temos certeza de nada.
— Como assim? Sabemos que o Mac não estava ao volante. Sabemos que um estranho ouviu a conversa que tivemos dentro do carro para evitar sermos ouvidos dentro da minha casa. Sabemos que esse sujeito tinha a habilidade de invadir esse sistema e sair com um carro, e depois devolver o maldito sem questionamentos. Sabemos que o Neil acredita que alguém inteligente e hábil está armando para ele e para a minha irmã. Não preciso pular na água para saber que vou me molhar, Dean.
E, se Neil havia conseguido impedir que esse canalha soubesse onde ele estava, Blake e Dean tinham estragado tudo, falando abertamente sobre as descobertas em sua casa nos últimos dois dias. O que explicava o outro pássaro morto no carro de Karen. Os linguarudos tinham feito o filho da puta plantar outro pássaro morto para despistá-los. Para fazê-los pensar que Neil estava maluco.
— Fomos enganados, e o Neil não está louco.
Neil estava em perigo, e provavelmente Blake havia conduzido seu inimigo direto até ele.