Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 5 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 2

 

 

GWEN AFASTOU UM MILÍMETRO A cortina e olhou para fora. Do outro lado da rua, Neil estava reclinado no banco da frente do sedã escuro. Sua cabeça balançava cada vez que ele lutava para não dormir.

Ela se sentira um pouco culpada quando espiara, uma hora antes, e vira que Neil tinha ido até lá em algum momento da noite para ficar de olho nela. Havia deixado a porta dos fundos aberta para provocá-lo, mas não pensou que ele iria até lá.

Estava errada.

O remorso que sentia estava encoberto por outra coisa: satisfação.

O homem gostava dela. Ah, ele se esforçava para não gostar, mas Gwen sabia que em algum lugar sob aquela couraça masculina havia um coração enorme.

Ele mantinha distância dela sempre que podia. Pelo menos fisicamente. Não cedera nem uma vez às insinuações nada sutis de Gwen a respeito de sua atração por ele. Às vezes ele era tão inflexível quanto uma parede de tijolos. No entanto, na noite anterior, fora necessária apenas uma porta aberta, e ali estava ele.

Hummm, ela teria que pensar mais sobre isso.

Na cozinha, a cafeteira apitou. Embora preferisse chá, Gwen fez café com a intenção de pedir desculpa por suas ações e compensar Neil pelo incômodo.

Não era o que ela realmente queria lhe dar, mas era algo que ele aceitaria.

Gwen serviu uma xícara, pensou em pôr creme e açúcar, mas sacudiu a cabeça.

Ele deve tomar puro. Qualquer outra coisa simplesmente não combinaria com sua personalidade. Forte, robusto...

Ele deve tomar puro.

Gwen apertou o cinto do roupão rosa macio e calçou os chinelos combinando. Com a xícara de café na mão, saiu no orvalho da manhã.

O tranquilo bairro de Tarzana ainda estava adormecido, com as ruas vazias.

Olhando para a janela escura do carro, Gwen avistou um notebook e um tablet, que transmitiam imagens de sua casa. A cabeça de Neil estava inclinada para o lado, e seu peito enorme subia e descia, em um ritmo regular.

Ele dorme sim.

A animação deu lugar à culpa novamente. Ela respirou fundo e apoiou o punho fechado na janela. Bateu de leve, na esperança de não assustar Neil.

Mas não funcionou.

A resposta de Neil, explosiva, com direito a uma arma surgida do nada e apontada diretamente para ela, resultou em um grito e na queda da xícara de café.

O coração de Gwen se alojou na garganta, e a perna doía por causa do café quente e dos cacos de porcelana.

O reconhecimento tomou o rosto de Neil. A arma desapareceu e ele saiu do carro.

— O que é que você está fazendo? Tentando ser morta?

Incapaz de pronunciar qualquer palavra, ela ficou ali, paralisada, completamente trêmula.

Neil foi até ela, esmagando com o pé o que restava da xícara de café. Olhou para baixo e praguejou. Em seguida fechou com um chute a porta do carro e a levantou no colo antes que ela conseguisse abrir a boca.

— Me põe no chão.

Ele saiu marchando até o outro lado da rua, ignorando o pedido de Gwen, e irrompeu através da porta da casa como um jogador da defesa depois de derrubar homens de cento e quarenta quilos.

— Me põe no chão, Neil.

Atravessando rapidamente a casa, ele a colocou sentada no balcão da cozinha e levantou sua perna dolorida até a pia. Abriu a água, quase arrancando a torneira. Com uma gentileza que ela não esperava, tirou seu chinelo encharcado e jogou água fria sobre sua perna.

— Que barulho é esse? — disse Karen, erguendo os ombros dentro do robe ao entrar. — Neil? — perguntou, obviamente surpresa ao vê-lo ali.

Gwen fez uma careta quando Neil esfregou a parte da perna em que os estilhaços haviam se alojado.

— E-eu derrubei uma xícara de café.

Aflita, Karen tentava ver o ferimento na perna da amiga.

— Ai! — gritou Gwen.

— Fique parada. — Apesar dos dedos largos, Neil conseguiu arrancar os caquinhos da perna de Gwen com bastante destreza.

— Isso dói! — ela reclamou.

Ele bufou e continuou examinando o ferimento.

Karen se afastou.

— Acho que você vai sobreviver — disse, enquanto pegava uma xícara e a enchia de café. — O que você está fazendo aqui, afinal, Neil?

Gwen encontrou os olhos castanhos do homem, que mudavam de cor conforme seu humor. Como de costume, Neil não deu nenhuma explicação, concentrando-se na perna dela novamente. O corte era superficial, mas o café quente deixara uma mancha vermelha por onde passara.

— É sempre bom conversar com você, Neil — disse Karen, rindo. — Gwen?

— Eu... — Ela limpou a garganta. — Eu deixei a porta dos fundos aberta. O Neil veio checar.

Karen bebeu o café.

— Ah — disse e saiu segurando a xícara.

Depois de fechar a torneira, Neil pegou a panturrilha de Gwen com sua mão grande e a secou suavemente com uma toalha de papel.

— Você vai precisar passar algum remédio nisso — disse.

— Temos alguma coisa lá em cima — respondeu ela.

Ele deixou de tocar a ferida, mas manteve a mão no tornozelo de Gwen. Sem olhar para o seu rosto, disse:

— Nunca se aproxime na surdina.

Gwen poderia jurar que a voz dele tremeu, mas isso seria sinal de fraqueza, e Neil não era uma pessoa fraca.

— Não precisa falar duas vezes. Aprendi a lição. — Levaria um bom tempo para ela esquecer a expressão dura no rosto de Neil quando ele puxara a arma.

Ele hesitou quando soltou o tornozelo de Gwen e foi até a porta dos fundos. Em seguida a trancou ruidosamente.

Sem dizer mais uma palavra, saiu da cozinha e da casa pela porta da frente, enquanto Gwen o fitava.

Neil esperou até virar a esquina da casa de Gwen e parou em uma rua lateral.

Apertava tanto o volante que os nós dos dedos ficaram brancos. O coração ainda estava disparado, desde que ela batera na porta do carro. O olhar de absoluto horror e medo no rosto de Gwen quando ele apontara a arma para ela ficaria em sua memória para sempre. Seu dedo estava no gatilho. Um único aperto e ele teria... Balançou a cabeça, afastando o pensamento.

Como é que ele tinha adormecido, porra? Estava ficando molenga, e, quando isso acontecia, pessoas se machucavam. Até morriam.

Se algo acontecesse com Gwen sob sua vigilância — e era sempre sua vigilância —, ele seria incapaz de conviver com isso.

Pressionou um botão e quase no mesmo instante estava com um de seus homens — aqueles para quem ligava quando precisava de reforços — ao telefone.

— Vou me ausentar durante algumas horas — disse a Dillon. — Preciso que você fique de olho em Tarzana e Malibu.

— Pode deixar, chefe.

Neil desligou o telefone e as imagens de vídeo. Precisava se recompor, e a única maneira de fazer isso era malhando pesado.

Correu na esteira por uma hora, em vez dos trinta minutos habituais. Dobrou as repetições com os pesos, acrescentou mais dez quilos e forçou os músculos além do limite. Depois de um banho, se jogou nu na cama — aquela onde ele raramente dormia — e fechou os olhos.

E sonhou. Ah, se sonhou...

 

Vestida informalmente — pelo menos era o que ela achava —, Gwen estava sentada no terraço de um café em Santa Monica, bebendo seu chá gelado. Havia chegado cedo para garantir uma mesa onde não pudessem espioná-la em companhia de seu cliente.

Usava um chapéu, não dos seus prediletos, mas um de aba maior, que amassava seus cabelos e a fazia se sentir muito americana.

Gwen observou a entrada e viu Michael passando pela recepcionista e caminhando ao seu encontro. Um chapéu também cobria os cabelos escuros dele, e óculos de sol escondiam seus olhos e a maioria dos traços. Gwen levantou e ele a cumprimentou com um abraço e um beijo no rosto, como se fossem velhos amigos.

— Que bom te ver de novo — disse ela, evitando chamá-lo pelo nome, para o caso de alguém estar escutando.

— Obrigado por ter vindo.

Ele esperou que ela se sentasse antes de fazer o mesmo. Olhou ao redor. Não era hora do almoço ou do jantar, de modo que o restaurante não estava movimentado. O grupo mais próximo estava bem fora do alcance auditivo.

— Imaginei que você gostaria de um pouco de privacidade — disse Gwen, quase sussurrando. — Espero que este lugar atenda às suas necessidades.

Ele olhou ao redor de novo.

— Espero que seja a primeira e última vez que a gente precise se encontrar às escondidas.

O garçom veio atendê-los. Pediram a bebida de Michael e duas entradas e informaram que isso seria tudo.

Quando o refrigerante dele chegou e o garçom se afastou, Gwen começou a fazer perguntas:

— Me diz uma coisa, Michael. Devo te chamar de Michael?

— Vamos ficar com Mike por enquanto. Por alguma razão, meus fãs não pensam em mim como Mike.

Gwen sorriu e continuou:

— O que você sabe sobre a Alliance, Mike?

— Eu sei que vocês podem encontrar uma companheira que atendas às minhas necessidades. Minhas necessidades temporárias.

— Falando assim, parece que somos um serviço de acompanhantes.

Michael sorriu e balançou a cabeça.

— Essa não é uma das minhas necessidades.

Ah, sim. A confirmação de que ela necessitava acerca de sua orientação sexual. Mas, por via das dúvidas, ela o cutucou uma última vez.

— Ouvi dizer que você pode ter a mulher que quiser. Por que veio até nós?

Michael se inclinou para a frente e a olhou por cima dos óculos escuros.

— Sim, eu posso ter a mulher que quiser. Mas procurei vocês porque, embora eu não queira, eu preciso de uma.

— Entendo.

Ele subiu os óculos no nariz e se recostou na cadeira.

— Eu sou ator, srta. Harrison. Finjo ser algo que não sou todos os dias da minha vida. E a minha esposa vai ser obrigada a fazer o mesmo.

— É claro. Todos os meus clientes compreendem as regras.

— Mas a minha esposa vai ter que fazer isso em público. Vai precisar ser tão hábil quanto eu para convencer as pessoas de que somos felizes juntos, e a armação não pode ser revelada até depois do divórcio.

Gwen notou que o garçom se aproximava e passou a falar do tempo. Após a comida ser servida, continuou:

— Por quanto tempo vai precisar de uma esposa?

— Um ano, talvez um pouco mais. Minha agenda de filmagens está apertada nos próximos dezoito meses, e por causa disso vou precisar viajar bastante para fora do país.

— O que torna mais fácil que você e sua esposa tenham vidas separadas.

— Sim. Mas, quando estivermos juntos, precisamos parecer o casal perfeito. Eu vou beijá-la e abraçá-la em público, diante das câmeras, e ela vai posar como minha amada.

Durante todo o tempo em que conversaram, Gwen pensava em Karen, em como ela era apta para o papel. Karen poderia ter sido atriz, se quisesse. Seu ponto de vista liberal acerca da sexualidade e sua capacidade de se relacionar com crianças de rua tanto quanto com a elite política faziam dela a escolha perfeita para Michael.

— Por que você quer fazer isso?

— Tenho minhas razões — disse ele. — Milhões delas. Nem o meu assessor de imprensa sabe o que estou prestes a fazer. Só você e a sua cliente vão saber a verdade.

Gwen se inclinou para a frente e beliscou um pouco da entrada. Com calma, explicou o contrato que ele deveria assinar e o cronograma de pagamento que estabeleceriam.

— Tem alguns papéis que preciso que você preencha. Vou investigar a sua vida, Mike. E provavelmente vou descobrir coisas que você preferiria manter em segredo.

Gwen pensou em Samantha, em como era fácil para ela dizer aos potenciais clientes que a vida deles era um livro aberto, que ela leria do início ao fim.

— Você só vai encontrar o que eu quiser que você encontre — ele disse com um sorriso petulante.

Foi a vez de Gwen baixar os óculos de sol e forçá-lo a olhar para ela.

— Quando eu terminar, vou saber até o nome do seu primeiro amante. Alguns clientes nossos escondem segredos maiores que o seu. Se estiver disposto a se abrir, vou ficar feliz em te ajudar.

— Nem a mídia consegue descobrir essas informações. O que te faz pensar que com você vai ser diferente?

— A mídia quer uma história. Eu quero proteger os meus clientes e me certificar de que não vou colocar ninguém em uma situação abusiva. Meus objetivos são mais pessoais, Mike.

Ela subiu os óculos de volta e deixou que ele pensasse em suas palavras.

— Gostei de você, Gwen. Você é casada?

Ela inclinou a cabeça para trás e riu.

— Não. E não, obrigada.

Samantha havia conhecido o irmão de Gwen quando fora contratada para lhe arranjar uma esposa. Mas Blake não conhecera outra mulher, e os dois estavam quase chegando ao terceiro aniversário de casamento. No entanto, Gwen não era Samantha e tampouco se parecia com o irmão.

— Vá em frente, investigue — disse ele. — Vai ser interessante conversar com alguém que saiba todos os meus segredos.

— Sua esposa também vai saber.

— Suponho que sim. Em quanto tempo vou ter notícias suas? — ele perguntou.

— Já tenho uma mulher em mente.

— Confiável?

— Todas as nossas clientes são confiáveis. Essa, em particular, talvez seja a única que não é sua... Como se diz? Tiete? O fato de você ser famoso pode ser novidade para mim, mas não é para as mulheres que temos em nosso cadastro.

— Entendo.

— Se a mulher que eu tenho em mente concordar, para quando podemos marcar o encontro entre vocês? E com que rapidez você pretende se casar?

— Isso aqui é Hollywood. Tudo, tudo mesmo, é cuidadosamente coreografado. Estou pensando em um encontro “ao acaso”, depois saímos por um tempo e, então, atração irresistível e amor eterno.

Enquanto Michael explicava o que queria, sua voz baixou uma oitava. E o encanto pelo qual Hollywood pagava caro fez um arrepio percorrer a coluna de Gwen.

Pena que ele é gay.

— Então um mês, no máximo? — ela perguntou com um sorriso.

— Sim, acho que está bom. Vou fazer coincidir com o fim das minhas gravações em Nova York. Você acha que podemos trabalhar dentro desse prazo?

Contanto que a Karen concorde...

— Sem problemas.