Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 15 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 12

 

— CORRE, HERÓI... CORRE.

Brincar com sua presa era mais viciante que crack. Não era de admirar que os baderneiros não conseguissem se manter fora da cadeia. Estavam sempre doidões e fazendo merdas desse tipo... Bem, não exatamente desse tipo.

Aquilo fora coisa de gênio.

Ele observava enquanto Neil escalava a cerca de trás e corria para a casa. Um homem de terno o seguiu, enquanto outro dava instruções a seus subordinados. Colocou uma bala azeda na boca e ficou assistindo ao entretenimento.

Seus binóculos seguiram Neil enquanto ele puxava a garota da casa e a fazia entrar no carro dele. Neil jogou uma mochila no banco de trás e bateu a porta.

— Achei que não se importasse, MacBain. Achei que ia abandonar sua princesa.

Ele riu e pôs mais uma bala na boca. Agora que Mac tinha provado que a mulher significava algo para ele, era hora de pegá-la.

Mac não merecia ser feliz. Nenhum deles merecia.

 

Exausta, Gwen desabou na cama de um dos quartos de hóspedes da casa de Blake.

No andar de baixo, Neil parecia se preparar para uma guerra. Ele e Dillon transferiram todo o equipamento de vigilância para o escritório de Blake, assim como grandes caixas pretas, que Gwen imaginou que guardavam armas.

Ela desistira de pedir mais detalhes a Neil. Quando ele entrara na casa e a encontrara enchendo uma mala, em vez de uma bolsa, enfiara um mínimo de roupas em uma mochila e a levara para Malibu.

Dean o seguira até a casa, e os dois conversaram por meia hora antes de o detetive ir embora.

Tudo o que Gwen queria era dormir. Recuperar a energia e entender o que tinha acontecido naquela noite interminável.

Tomou um longo banho quente antes de deitar na cama macia e acolhedora. Enquanto fechava os olhos, expulsou da mente as imagens de banheiras e morte e se concentrou na lembrança do abraço de Neil.

 

Levou algum tempo para Neil remover os rastreadores do seu celular e dos carros com que partiriam à noite. Configurou o sistema da casa para produzir estática por dez minutos quando estava pronto para ir. Ele estava fazendo o possível para deixar a casa e impedir que qualquer pessoa soubesse disso.

Depois de voltar da casa de Tarzana, seu primeiro pensamento foi manter Gwen na torre de marfim, conhecida como propriedade de Malibu, e encontrar o homem responsável pela morte dos vizinhos... e de Billy. Mas, quando levou seu equipamento para dentro da casa e reiniciou o sistema, notou dois cookies infiltrados.

Seu sistema ultramoderno havia sido hackeado. E hackeado tão bem que Neil não encontrou um grampo físico. Tinha que estar ali, mas ele não conseguia ver.

Soube, então, que a razão pela qual ele nunca encontrara um problema nas linhas de Tarzana era porque o problema vinha de fora. O equipamento utilizado estava além do seu conhecimento. Todo ano, as forças armadas criavam apetrechos ainda mais espetaculares para facilitar o trabalho deles. Desde a invenção do grampo, os engenheiros trabalhavam para torná-los menores e mais difíceis de detectar. Bem, esse ele detectara, mas não conseguia localizá-lo.

Com a notícia da morte de Billy e a trilha de gralhas mortas atrás de Gwen, Neil sabia que não estava lidando com qualquer um. Quem quer que estivesse por trás dos assassinatos na banheira tinha experiência em espionagem. E, como Billy estava morto, Neil concluiu que a pessoa também era capaz de dominar fisicamente seu amigo.

Ficar na casa de Malibu seria uma armadilha. Neil tinha ciência disso. Quem sabia a extensão do alcance desse homem?

A breve conversa entre Neil e Blake foi tensa.

— Vou trazer a Gwen para cá. Ela vai estar segura em Albany.

Neil não concordava. O único lugar seguro para Gwen era a seu lado, até que ele pegasse aquele filho da puta e acabasse com ele.

— Ela está mais segura aqui. Comigo. E, antes que você sugira, não. Não volte para cá antes do previsto.

— Porra, Neil! Você espera que eu fique de braços cruzados enquanto pessoas estão morrendo aí?

Não. Ele esperava que Blake voltasse assim que o avião pudesse decolar. Mas isso significaria mais pessoas para vigiar... e mais pessoas para o assassino perseguir.

— Lembra quando nos conhecemos, Blake?

Neil lembrava. Fora o pior momento de sua vida. Seis meses haviam se passado desde que ele arrastara o que sobrara de sua equipe para um lugar seguro. Três homens haviam explodido em tantas partes que Neil não conseguira identificá-los. Billy e Smiley haviam carregado Linden, cuja perna esquerda fora arrancada na altura da coxa. Ele morrera a caminho de casa; não aguentara a perda de sangue.

Neil nunca pensou que sentiria culpa por ter sobrevivido.

Mas sentia. Ele estava vivo, e seus homens, mortos. Tudo porque ele dera a ordem de não atirar até estarem próximos.

— Lembro.

Neil apelou para suas memórias, tentando manter o que ia dizer do jeito mais camuflado possível. Era alta a probabilidade de que o homem responsável pelos últimos acontecimentos estivesse escutando-os.

— Lembra o que eu fiz no dia seguinte? Depois que fiquei sóbrio?

Eles haviam se conhecido em um bar. Mas não do tipo que Blake normalmente frequentava. Ele tinha voltado para os Estados Unidos após o funeral de seu pai e queria permanecer anônimo enquanto enchia a cara.

Brindaram durante horas. Dois estranhos odiando a vida e se compadecendo com uma garrafa. Fazia seis meses que Neil bebia para esquecer. Ele se lembrava de ter dito isso a Blake.

Neil não sabia bem quanto havia contado ao outro sobre seu tempo na marinha, mas, em algum momento no fim da garrafa, Blake apertara o botão errado.

— Então é isso — dissera Blake. — Você cansou de viver. Vai passar o resto da vida assim, até se transformar em um desses veteranos de rua que moram em uma maldita caixa de papelão?

Neil colara o punho na mandíbula de Blake, que estava em cima dele em segundos. Blake conseguira dar uns bons socos também, mas, mesmo bêbado, Neil o imobilizara e o derrubara. Ele poderia ter continuado a briga, mas o problema era que Blake estava certo.

Neil o largara e se afastara.

À luz do dia seguinte, quando o nevoeiro se dissipara e sua dor de cabeça parara de gritar como uma vadia, Neil se lembrara de Blake Harrison e sua empresa de navegação. Também se lembrava de Blake dizer que achava que sua linha telefônica pessoal estava grampeada, mas que nenhum dos homens que contratara havia encontrado alguma coisa.

Em duas horas, Neil tinha o endereço da residência de Blake Harrison e estava a caminho de Malibu.

Ele se escondera sob um chapéu, se fingira de jardineiro e entrara na propriedade sem que nenhum cão o farejasse. Para um homem tão rico quanto Blake Harrison, sua segurança era uma porcaria. Até a avó de Neil poderia entrar na propriedade e mexer na linha telefônica. E Nana já estava na casa dos setenta.

Neil encontrara o grampo no telefone, o removera e esperara que Blake voltasse para casa. Encurralara Blake antes que chegasse à porta da frente.

— Que porra é essa? — disse Blake.

Neil jogou um pequeno grampo disfarçado de gancho na direção dele. Blake se atrapalhou todo para pegar.

— Aqui está o seu grampo telefônico.

Era a maneira de Neil se desculpar por tê-lo atacado na noite anterior. E talvez um agradecimento por Blake tê-lo feito acordar. Porque, enquanto estava localizando Blake, se esgueirando por sua propriedade e tirando o grampo, Neil lembrara como amava a vida. E esquecera, mesmo que por pouco tempo, os amigos mortos e os corpos despedaçados.

Blake manuseou o grampo algumas vezes.

— Que merda.

Neil virou de costas, pronto para sair da vida de Blake para sempre.

— Ei! Como você entrou aqui, afinal?

Neil bufou.

— Sua segurança é uma bosta, Harrison.

— Quer um emprego?

Neil aceitara o emprego, mas não pelo dinheiro. Ele tinha dinheiro. Dinheiro de sangue, era o que lhe parecia. Blake investia o salário de Neil em sua própria companhia, no nome do amigo.

— Um fundo para a aposentadoria — dissera.

Mas Blake era uma máquina de fazer dinheiro. Ele transformava folhas de árvore em notas de cem dólares.

E Neil assumira o serviço de segurança de Blake.

Trabalhar o ajudara a curar uma parte da dor.

— Lembro — disse Blake, agora, ao telefone. Em seguida ficou em silêncio.

— Então você vai ter que confiar em mim. E vai ter que ficar aí. Mantenha sua família em segurança.

— A Gwen é da minha família — retrucou Blake.

— Eu sei.

Mas, para Neil, ela era muito mais.

 

Uma mão cobria sua boca quando ela acordou. O quarto estava totalmente escuro.

Gwen começou a se debater, chutar e gritar.

— Gwen! Shhh, sou eu, o Neil — ele disse em um sussurro abafado.

Ela parou de se debater, mas ficou em alerta.

— Preciso que você me escute quando eu te soltar, tudo bem?

Ela assentiu.

Ele liberou lentamente a boca de Gwen e falou depressa:

— Precisamos sair daqui. Agora.

Neil vestia cores escuras, como um ladrão noturno.

— Por quê? — ela perguntou em voz baixa, no mesmo tom que ele.

— Não tenho tempo para explicar. Você precisa confiar em mim. Confia em mim, Gwendolyn?

Os olhos de Neil eram duros, atentos...

— Eu confio em você.

— Boa garota.

Ele se levantou e pegou uma pequena mochila de academia no chão.

— Aqui — disse, enfiando algumas roupas nos braços de Gwen enquanto ela saía da cama.

— Por que estamos sussurrando?

— A casa está grampeada.

Ela hesitou.

— Grampeada? — Se seu coração batesse mais rápido, seria um problema.

— Agora não, Gwen. Não acenda a luz. Coloque uma roupa, depressa.

Ela se sentou na beirada da cama e vestiu a calça preta que ele lhe entregara.

— Roupa de ginástica?

— É mais fácil de vestir.

Neil foi ao banheiro e procurou algo rapidamente. Gwen ficou de costas para ele enquanto vestia o top e a blusa de ginástica. Lembrava que havia pegado essas roupas antes, quando deixara a casa de Tarzana, pensando que poderia fazer um pouco de ioga para ajudar a aliviar a tensão.

Neil voltou, jogou algumas coisas na mochila e em seguida guardou também a camisola que ela havia acabado de tirar.

Mil perguntas inundavam a mente de Gwen. Por que eles estavam fugindo? Quem estava atrás deles? Para onde iriam? Se alguém havia penetrado a fortaleza que Neil criara para seu irmão e a família dele, o inimigo devia ser impiedoso.

Ela olhou para o relógio. Eram duas e meia da manhã, e algo lhe dizia que sua vida estava prestes a mudar para sempre.

Em menos de um minuto, Neil jogou a mochila dela no ombro e a puxou para levantá-la.

— Nem uma palavra até eu mandar.

Ela nunca tinha visto Neil assim. Seus olhos pareciam ver tudo, mesmo no escuro. A intensidade de seu olhar e os músculos tensos se contorcendo sob a camiseta justa demonstravam que ele estava mais alerta que uma onça pronta para dar o bote.

Neil a guiava pelas sombras, dentro e fora da casa. Contornaram o pátio e entraram silenciosamente na garagem. Havia um segundo carro ao lado do de Blake, com Dillon ao volante. Mesmo ao lado do carro, para Gwen foi quase impossível ver o motorista. Ela estreitava os olhos enquanto se dirigiam ao segundo carro e ele a fazia entrar no banco de trás. Com a mão na cabeça de Gwen, ele a empurrou levemente para baixo. Ela entendeu e se deitou no banco. A partir daí, a única coisa que viu foi a nuca de Neil.

Ele colocou um gorro preto. Saíram da garagem, com Dillon no outro carro. Os dois veículos seguiam no escuro.

Neil pegou uma rua sinuosa, fazendo as curvas mais rápido que o normal. Gwen se segurava para não deslizar do banco.

A adrenalina bombeava na mesma velocidade do carro. Mas Gwen tinha de admitir, pelo menos para si mesma, que não era medo que corria em suas veias. Era a emoção.

Mesmo sem uma explicação, ela sabia que Neil a estava protegendo, e com tanta ferocidade que lhe provocou uma inesperada chama de desejo.

Estendeu a mão para se segurar quando viraram outra esquina.

Não é uma boa hora para ficar excitada, Gwen!

O fato de estar sonhando com ele antes de acordar não ajudava. Ele a abraçava com aqueles braços de aço e se inclinava sobre ela com os lábios entreabertos. E então ele a acordara.

O carro passou por uma lombada na estrada e Gwen caiu no assoalho.

— Você está bem? — perguntou Neil, diminuindo a velocidade.

Ela voltou para o banco.

— Sim.

— Só falta um pouco — disse ele. — Daí vamos trocar de carro.

— Posso sentar?

— Não, ainda não.

Ela ficou deitada e o acompanhou no silêncio. Uma vida inteira passou no banco de trás antes de Neil diminuir a velocidade e parar fora da estrada.

Ele puxou o freio e saiu do carro. Abriu a porta traseira e lhe estendeu a mão. Os músculos rígidos protestaram quando ela se levantou para ir até o outro carro.

Aquilo que parecera uma eternidade durara menos de uma hora. Enquanto Neil abria o porta-malas dos dois carros e transferia objetos entre eles, Gwen ficou sentada no banco da frente, olhando a noite. Estavam parados em uma área de descanso, com uma dúzia de carros ao redor deles.

Gwen esperou até estarem em uma estrada estreita, sem nenhum carro à vista, para pronunciar uma palavra.

— Neil? — Ele olhou para ela e logo voltou para a estrada. — O que você está fazendo?

Os dedos de Neil apertavam o volante. Por um minuto, ele não disse nada.

— Cair fora não era uma opção.

A princípio, Gwen não entendeu o que ele queria dizer. Então se lembrou do ultimato no bar.

Ela cruzou as mãos no colo e apoiou a cabeça no banco.

Todas as suas perguntas — e, mais importante, todas as respostas de Neil — podiam esperar.