Noiva até Sexta
Capítulo 33
OS RELÂMPAGOS DERAM UMA TRÉGUA, e Blake finalmente aterrissou em Colorado Springs. Seu piloto tratou com a segurança do aeroporto e providenciou o reabastecimento do jato. Blake o informara que poderiam precisar partir a qualquer momento.
— Acabei de pousar — disse a Carter enquanto procurava no saguão de desembarque o motorista que solicitara que fosse buscá-lo.
— Consegui a autorização para você entrar em Fort Carson. Agora é com você.
Blake acenou para um motorista que segurava uma placa branca com seu sobrenome.
— Sabe se o major Blayney está na base? — perguntou a Carter.
— Não recebi essa informação. Os guardas vão te perguntar o que vai fazer ali. Diga que precisa falar com o major.
— E se ele não estiver em casa?
— É provável que eles não te deixem entrar.
Blake cobriu o microfone de seu aparelho para falar com o motorista.
— Estou indo para Fort Carson. Sabe onde fica?
— Sim, senhor.
Ele assentiu e voltou a atenção para Carter, enquanto seguia o motorista para fora do aeroporto.
— E depois?
— Não sei... Vá a um bar dali e pergunte. O Neil passou um tempinho lá, alguém deve tê-lo visto. Talvez saibam onde ele está.
— É como procurar uma agulha no palheiro.
O motorista abriu a porta de trás do carro e Blake deslizou no assento.
— Obrigado, Carter. Nós vamos encontrá-los.
Tinham que encontrar.
— Boa sorte.
Ele ia precisar.
A base ficava a menos de vinte minutos do aeroporto. Havia dois guardas com capa de chuva diante de um portão fechado, com rifles militares nas mãos. Outro homem em uma guarita observava enquanto se aproximavam.
O motorista abriu sua janela e a de Blake. O guarda se aproximou sem sorrir.
— Pois não?
— Estou aqui para falar com o major Blayney.
Era melhor agir como se o major o estivesse esperando, pensou Blake. Pegou um cartão de visitas e o entregou ao soldado.
— O governador Carter Billings providenciou a autorização.
— Um momento, senhor.
Blake se recostou e observou. O soldado da guarita pegou o telefone e começou a falar. Seus olhos se estreitaram durante a conversa, e outro guarda caminhou ao redor do carro e anotou o número da placa.
Blake tamborilava os dedos no banco.
O homem da guarita saiu e se aproximou do carro, com uma expressão neutra no rosto.
— Desculpe, sr. Harrison. O major Blayney não vai receber ninguém hoje.
Blake apertou a mandíbula.
— É uma questão de vida ou morte. Você pode ligar de novo e dizer que é sobre Neil MacBain?
Isso não estava acontecendo... Chegar tão perto e não poder entrar era inaceitável.
Os guardas se entreolharam, mas permaneceram inflexíveis.
— Sinto muito. Não há nada que eu possa fazer pelo senhor hoje. Talvez seja melhor marcar um horário com a secretária dele.
Blake pensou em descer do carro, mas achou que pareceria agressivo — exatamente como ele se sentia naquele momento. Não queria passar uma noite na prisão e atrasar ainda mais sua busca.
Com os dentes apertados, perguntou:
— Tem um número para o qual eu possa ligar?
O guarda retornou à guarita e voltou com um número.
— Mais uma coisa... Quem é o superior do Blayney?
— Na base? Ninguém.
Ótimo!
— Você acha mesmo que a Annie vai te aceitar de volta? — Rick provocava Mickey enquanto ziguezagueava por entre as árvores, mais perto da beira do penhasco.
— A Annie me amava.
— Não vai pegar bem se você matar o marido dela.
Neil se aproximou um pouco mais.
— Ela não vai saber que fui eu.
Mickey virou, mas Neil se escondeu.
— O Blayney deve estar seriamente alterado para fazer você ir atrás dele. Por que você acha que ele vai te manter por perto depois que nós morrermos?
Mickey começou a girar, pois perdera Neil de vista.
— Onde você está, Mac? Estou falando... Se eu apertar esse botão, o Blayney vai matar a sua garota na mesma hora.
Por mais que isso o torturasse, Neil não disse nada e continuou se aproximando.
— O Blayney não recebe ordens de você, Mickey. Você já devia saber — Rick continuou.
— Eu venho mostrando o meu valor para o Blayney há anos. Trabalhei em muitas missões “pontas soltas”.
E nós somos as pontas soltas. A chuva ajudava o avanço de Neil. Mickey estava voltado para o norte, e Neil conseguiu ficar atrás dele, ao sul. A vinte metros de distância, Neil jogou outra bomba de fumaça, fazendo Mickey atirar para o norte.
Rick sussurrou no ouvido de Neil:
— Ele está nervoso.
Neil jogou a última bomba, na tentativa de encher a área de fumaça. Ouviu Mickey xingar baixinho enquanto se dirigia para leste, para a trilha de Neil.
Neil esperou até o último minuto e mirou.
— Largue a arma.
Mickey virou para ele com a arma levantada. Neil apontou para o ombro dele e atirou. Mais dois tiros ecoaram na floresta encharcada de chuva.
Mickey cambaleou para trás, perdendo o controle da arma. A adrenalina tomou conta de Neil, que pulou em cima do homem, jogando-o no chão. Levou o braço para trás e socou o rosto de Mickey uma vez, duas vezes. Sangue jorrava do braço do antigo parceiro, demais para um ferimento superficial.
Neil o desarmou e o fez rolar de costas. Apertou forte seu pescoço, saboreando a fúria, desejando vê-lo morto.
— Você matou o Billy!
A boca de Mickey se transformou em um sorriso doentio.
— E explodi a mulher dele também.
Neil deixou o punho voar de novo.
— Eu devia te matar agora mesmo.
Mickey tossiu e um som gorgolejante encheu seu peito. Neil olhou para baixo e notou a jaqueta do cara encharcada de sangue.
Que merda é essa? A mira de Neil não era tão ruim assim.
— Você nunca teve colhões — disse Mickey em meio à tosse e ao sangue que escapava de sua boca.
Percebendo que o inimigo estava incapacitado, Neil jogou a arma para o lado e rasgou a camisa de Mickey. Havia sangue por toda parte.
Ouviu Rick através da escuta:
— Ele caiu?
— Sim.
Pelo buraco no peito do homem, Rick havia atirado por trás. Mickey estava morrendo.
Olhou para além de Neil, com olhos brilhantes.
— Ela teria me aceitado de volta. A minha Annie.
Neil não tinha coragem de acabar com os últimos sonhos dele.
— Onde a Gwen está?
Mickey o olhou nos olhos, suspirou e parou de respirar. Neil apertou os olhos.
— Seu merda estúpido!
Ele se afastou do corpo de Mickey e espiou através da chuva para localizar Rick.
— Rick?
— Estou aqui. — A voz do amigo não parecia normal.
— Onde?
— Na base do penhasco. Nosso alvo caiu?
Neil olhou para o homem que um dia chamara de amigo. Pensou na foto com todos reunidos, em tempos mais felizes.
— Sim, caiu.
— Ótimo.
— Onde você está? — Neil não o via em lugar nenhum.
— Levei um tiro, mas estou bem.
Neil correu pela mata, ignorando os galhos que batiam nas pernas e na cintura. Encontrou Rick apoiado em uma árvore, com a mão na coxa direita.
— Muito ruim?
— Não pegou nas tripas.
— Muito ruim, Rick?
Neil sabia que havia grandes artérias na coxa que podiam acabar com a vida de um homem tão facilmente quanto um tiro no peito.
Rick tentou seu sorriso característico, mas seu segundo par de covinhas não apareceu.
— Poderia ser melhor.
— Ah, merda.
— Estou bem. Você tem que ir buscar a sua garota, antes que o Chuck perceba o que aconteceu aqui.
Neil olhou para o carro e depois para Rick.
— Não posso te deixar aqui.
— É melhor me deixar. Eu estou bem, Neil, vá. Tenho celular, vou pedir ajuda quando você for. Além disso, acho que essa encosta está prestes a desabar. O Mickey estava se esforçando demais para nos levar até lá.
Neil olhou para o penhasco acima. Pedras grandes se projetavam nas laterais da rocha. Grandes o suficiente para esmagar quem estivesse embaixo. Levar Rick para um lugar seguro, desarmar bombas, responder às perguntas da polícia, tudo isso levaria tempo. Um tempo precioso.
— Vá — Rick repetiu. — Não vou falar o seu nome até ter notícias suas. Não quero dar pistas para o Blayney.
Neil tentou verificar o ferimento de Rick para ver se ele estava bem, mas o amigo o afastou.
— Vá. Dê o fora daqui.
Neil se levantou e enfiou a mão no bolso.
— Se acontecer alguma coisa, ligue para o Blake. Conte tudo para ele.
— Vá buscar a Gwen e conte você para o Blake. — Neil deixou o cartão nas mãos de Rick. — Vá, tenente.
Neil acenou com a cabeça uma vez e pousou a mão no ombro do amigo.
— Não se atreva a morrer. — Lágrimas encheram seus olhos.
— Dê o fora daqui!
Neil não precisou que Rick dissesse mais uma vez.
Blake estava sentado no banco de trás do carro, a poucos quilômetros da base. A chuva diminuíra até uma garoa, que refletia seu humor acre. Ele não conseguia se lembrar da última vez que alguém não atendera a uma solicitação sua.
Ligou para a secretária do major, mas acabou falando com uma secretária eletrônica. Deixou uma mensagem urgente, citando vários nomes importantes na gravação. Não importava. Blake chamaria a rainha e o presidente se isso o ajudasse a localizar Neil e sua irmã.
Conforme o tempo passava, Blake ficava mais impaciente. Agora era esperar que Carter telefonasse, comunicando-o que Max conseguira uma audiência com o major.
Quando o telefone tocou, nem se deu o trabalho de ver quem era antes de atender.
— Carter?
— Blake?
Não era Carter.
— Neil? — Suas mãos começaram a tremer e sua mente ficou entorpecida. — Neil?
— Escuta, Blake. Não tenho muito tempo.
— Onde você está? E a Gwen?
Neil não respondeu.
— Preciso que você escreva o que vou dizer. Está ouvindo?
A intensidade na voz de Neil era diferente de qualquer coisa que Blake se lembrava de ter escutado.
— Estou ouvindo.
— Preciso que você ligue para o major Blayney, em Fort Carson, Colorado Springs. Mantenha-o ao telefone.
— Neil?
— Preciso que você o distraia... está entendendo? — Neil estava apressado, não escutava.
— Estou a cinco quilômetros da base, Neil.
— Você o quê?
— Do lado de fora. O Carter localizou seu último oficial comandante, mas ele não aceitou falar comigo. Vim aqui para procurar vocês.
Neil suspirou.
— Anote esse número — disse, ditando nove dígitos. — É o celular dele. Ligue e o mantenha ao telefone. Não me interessa o que vai dizer, mas mantenha o cara ao telefone.
Blake sentiu o estômago revirar.
— Onde a Gwen está?
Neil hesitou.
— Ligue para ele.
Blake sentiu o corpo gelar.
Charles caminhava no andar de cima da casa, às vezes com passos pesados e rápidos, às vezes com passos leves e lentos. Tão lentos, na verdade, que Gwen se perguntava se havia alguém ali. Quando o telefone tocou, ela ouviu apenas uma voz e, pelo que percebeu, não era de um desconhecido.
Gwen se encostou na parede do porão, cercada pelos desenhos de Annie e pelas luzes de Natal de Blayney.
Não tinha ideia de quantas horas haviam se passado nem do que acontecia ali em cima. Para piorar, Charles cortara as luzes do porão. Ele a teria mergulhado na escuridão, não fosse pelas luzes que ela conseguira acender. Devia estar se divertindo, o maldito. O chiado ocasional de uma ratazana chegou até a confortá-la. Pelo menos estava viva.
Certamente, Neil acabaria percebendo que alguma coisa estava errada. Atrás das costas, ela girou o lindo anel que ele havia colocado em seu dedo. O jeito como ele abrira sua alma para ela estava fresco em sua memória. Ele tinha que estar vivo.
Tinha que estar.
Ela baniu a ideia de que algo ruim acontecesse com ele e esperou que Charles fizesse seu próximo movimento.
O avançar das horas forçou suas pálpebras a se fecharem rapidamente. Ela queria que algo acontecesse, mas também não queria. Quanto mais tempo ficava presa naquele porão, maior era a chance de que algo terrível acontecesse com Neil. E essa ameaça era uma tortura psicológica ainda maior tendo um louco como carcereiro.
Seus olhos estavam fechados quando ela ouviu o clique da fechadura no alto da escada. As luzes no teto piscaram, e o brilho súbito a fez estremecer.
— O que...?
Charles voou escada abaixo, mais rápido do que Gwen foi capaz de pegar a arma escondida na perna. Com os olhos arregalados, ela se levantou com algum esforço, enquanto ele fazia uma breve análise da decoração no porão.
— O que é que você fez?
— Maaa miii elfff aa uoom — tentou dizer com a mordaça na boca.
Em segundos, Charles estava em cima dela. Ele lhe deu um tapa no rosto com as costas da mão que a derrubou no chão. A dor despertou o cérebro de Gwen. Charles ficou parado sobre ela, passando a mão calmamente pelo pescoço, alongando-o. A única evidência da raiva de um momento atrás eram as narinas, que se dilatavam quando ele inspirava.
Ele a levantou do chão com uma mão e a jogou contra a parede, fazendo-a ver estrelas.
— Está se divertindo?
Gwen tentou virar a cabeça, mas ele não permitiu. Ela cedeu e o encarou. Seu olhar estava tomado de ódio; ela cuspiria nele, se conseguisse encontrar um pingo de saliva na boca.
Ele a segurou pelo queixo e o apertou.
— Seu irmão esteve aqui. — O coração dela deu um pulo no peito. — O que ele sabe?
Ela murmurou por trás da mordaça. Charles colocou um dedo entre o pano e a bochecha dela e a arrancou de seus lábios.
— O quê?
A capacidade de mexer o maxilar era uma maravilha, apesar de estar ali, com um demônio a segurando contra a parede. Com a língua seca tocou o céu da boca, tentando encontrar umidade.
— O que ele sabe?
— Eu não sei!
Ele bateu nela de novo. A boca de Gwen se umedeceu, por causa do lábio rasgado. A dor fez brotar lágrimas em seus olhos, mas ela se recusou a deixá-las cair.
— O que ele sabe?
— Eu não falei com ele.
Charles se aproximou. Gwen não tinha certeza, mas achou que ele cheirava a cigarro.
— Ele sabe que você está aqui.
O que ela poderia dizer? Gwen não tinha ideia de como Blake a encontrara.
— Onde ele está? — ela perguntou.
Charles deixou a mão escorregar por sua garganta, em um aviso de que poderia facilmente quebrar seu pescoço, se quisesse.
— A caminho daqui.
A esperança se espalhou em seu peito.
— Se você fizer um único barulho, se der um grito, eu o mato, entendeu?
Ela assentiu com a cabeça. Ele estaria tão perto... Talvez sentisse alguma coisa.
— Um único barulho — ele repetiu.
Colocou a mordaça nela novamente, tomando menos cuidado de apertá-la. Empurrou Gwen no chão e saiu.
Mas deixou as luzes acesas.