Noiva até Sexta
Capítulo 8
GWEN PASSOU PELOS PORTÕES DA casa de seu irmão em Malibu e estacionou o carro na rotatória. Acenou para um dos jardineiros e entrou na casa.
— Olá! — disse enquanto entrava.
O som suave de passos batendo no piso precedeu a chegada da cozinheira.
— Lady Gwen?
— Oi, Mary. — Gwen tirou os óculos escuros e os colocou ao lado da bolsa, na mesa do saguão. — Tudo bem com você?
Mary trabalhava para Blake desde que ele havia mudado para essa casa. Era a cozinheira principal e às vezes ajudava nas outras tarefas domésticas. Havia uma empregada que também morava ali e jardineiros que iam para casa no fim do dia. E Neil, é claro.
Não procurá-lo estava matando Gwen. Provavelmente ele estava na casa de hóspedes, isso se estivesse ali.
Gwen disse a si mesma que não se importava. Ela tinha uma missão. Uma missão de independência.
— A Samantha avisou que eu vinha?
— Sim. Você vai ficar para o almoço? — Mary perguntou, com esperança no rosto.
— Está entediada, Mary?
— Muito. Não vejo a hora de eles chegarem.
Caminharam juntas pelo enorme hall de entrada em direção à cozinha, que, como o salão do café da manhã, dava para uma grande sala com janelas que iam do chão ao teto. Mais além da piscina e dos pátios, via-se a paisagem deslumbrante do oceano Pacífico.
— Eu fico com prazer para almoçar, desde que você almoce comigo.
Mary ergueu as sobrancelhas.
— Maravilha. Algum pedido especial?
— Qualquer coisa que não seja preparada no micro-ondas está ótimo.
Aprender a cozinhar não tinha feito parte da educação de Gwen. Desde que se mudara para os Estados Unidos, ela tivera que aprender a se virar sozinha, e isso significava muitas refeições prontas para aquecer no micro-ondas.
— É pra já.
— Obrigada. Vou estar no escritório do meu irmão, se precisar de mim.
Mary sorriu enquanto punha o avental em volta da cintura grossa. Gwen a ouviu cantarolar ao sair da cozinha.
O escritório de Blake era pintado de cores escuras, tinha estantes de livros embutidas e uma mesa no centro. Poltronas de couro marrom flanqueavam a mesa, e havia um sofá e um bar em uma extremidade da sala. Considerando como Blake desprezava o pai, Gwen achou divertido que o espaço a fizesse lembrar do escritório maior em Albany, onde seu pai costumava passar todo o tempo. O mesmo que Blake agora usava quando estava na Europa. Ele administrava sua empresa de navegação de ambos os continentes, com bastante sucesso.
Não que precisasse. Blake herdara a propriedade do pai deles uma vez que se casara e tivera um herdeiro. Gwen e sua mãe recebiam uma pequena pensão. Pequena para os seus padrões, mas enorme para qualquer pessoa que não tivesse morado em uma casa da nobreza a vida inteira, com um jatinho à disposição e uma verba para vestuário suficiente para alimentar uma pequena cidade. Blake não achava justa a divisão da renda, de modo que aumentara o fundo fiduciário dela — não que Gwen houvesse pedido. Ela sabia que seu irmão a amava. Quando ele transferira o dinheiro para sua conta, ela percebera como Blake havia se sacrificado para obter os milhões do pai. E também como seu pai e seu irmão eram diferentes.
Morar na casinha de Tarzana era uma escolha, e Gwen realmente gostava. Mas, agora que sabia que Neil não observaria cada movimento seu, ela precisava ter certeza de que estava segura.
Gwen foi até onde seu irmão escondia o cofre. Os painéis da parede pareciam comuns, mas, quando ela colocou o dedo em um leitor digital, a parede se moveu e surgiu uma porta de aço no lugar. Um scanner da palma da mão abriu a porta seguinte e ela entrou.
Apenas quatro pessoas tinham acesso ao cofre: Blake, Sam, Neil e ela. Gwen guardava algumas joias e dinheiro naquele espaço, mas não fora por isso que Blake lhe dera acesso. De seis por sete metros e meio e impenetrável, o cômodo desempenhava também a função de quarto do pânico. Quando Blake e Samantha tiraram férias sozinhos, Gwen ficara com seu sobrinho e com a irmã deficiente de Sam, Jordan. Blake queria ter certeza de que, se houvesse algum problema, sua família estaria protegida.
Gwen atravessou o aposento e abriu uma gaveta. Quatro revólveres de formas e tamanhos diferentes estavam ao lado de caixas de munição abertas.
Tudo o que ela precisava fazer era descobrir qual deles lhe serviria melhor. Pegou uma arma que parecia a que Eliza usava. Presuma que qualquer arma está carregada, as palavras de Eliza invadiram sua mente. Ela checou a câmara, encontrou-a vazia e notou o pente ao lado.
— O que está fazendo aqui?
A voz de Neil a fez pular. Ela virou para ele com a arma na mão. Notou que ele também segurava uma, mas a dele estava apontada para o chão.
— Meu Deus, Neil, você quase me matou de susto.
Ele levou a mão às costas, pôs a arma no coldre e entrou no quarto.
— Responda à pergunta.
O tamanho do homem fez o espaço diminuir. Ela se afastou, fazendo o possível para ignorar sua presença.
— O que parece que estou fazendo? — Pegou o pente, sentindo o peso.
— Isso não é um brinquedo.
— Eu sei.
— Para que você precisa disso?
— Para nada, provavelmente. Mas, seguindo os conselhos da Eliza e da Samantha, resolvi que devo ter uma na casa, caso eu precise.
Samantha havia concordado com o conselho de Eliza quando elas se falaram pelo telefone da última vez.
— Provavelmente você vai atirar no seu pé — ele disse e se aproximou.
— Obrigada pelo voto de confiança, mas tenho certeza de que vou ficar bem.
Depois de largar a pistola e o pente, ela pegou outro revólver. Só havia segurado o revólver de Eliza uma vez e não lembrava como fazer para ver se estava carregado. Mas não ia perguntar ao homem que havia acabado de debochar dela.
— Você já segurou uma arma antes?
Ela pôs o revólver de volta na gaveta, pulou o segundo, maior, e pegou outra pistola, semelhante à primeira.
— A Eliza me ensinou, lembra?
Neil grunhiu.
— A arma da Eliza não é parecida com nenhuma dessas.
— Parecem todas iguais.
— Diferentes calibres, diferentes mecanismos — ele explicou.
Neil estava perto de Gwen agora; perto o suficiente para ela sentir o calor do corpo dele.
Ela fechou os olhos. Preciso parar de me torturar com esse cara.
— Elas disparam balas, não é?
— Claro.
Ela pegou a primeira pistola e o pente.
— Então tudo bem.
Gwen virou para sair, mas Neil colocou a mão no braço dela, detendo-a. Apertou firme no início, mas logo suavizou, quando ela fitou seus olhos cor de avelã.
— A Eliza tem um trinta e oito. Essa é uma quarenta e cinco, e vai te fazer voar pela sala quando você apertar o gatilho.
Ela não conseguia se lembrar da arma que Eliza usava, mas, aparentemente, Neil conseguia. Gwen olhou para a pistola.
— Não vou sair daqui sem uma arma, Neil.
A mão dele agora mal tocava o braço dela, mas ele não se afastou.
— Tudo bem.
Ele a soltou, se ajoelhou e abriu outra gaveta. Pegou uma caixa preta, abriu e pôs todas as armas, pentes e balas dentro.
— Eu não preciso de todas — disse Gwen.
Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Você precisa da certa. E não vai saber qual é enquanto não atirar com todas elas.
— Ah.
Eles ficaram para almoçar, o que deixou Mary feliz, e depois foram para um campo de tiro ao ar livre, escondido em um dos muitos cânions da Califórnia.
O campo estava relativamente calmo, e não demorou muito para ela perceber que era a única mulher ali. Dois homens lhe lançaram um olhar apreciativo, mas, depois de notar Neil ao lado dela, rapidamente desviaram os olhos.
O piso de cimento estava lotado de cápsulas, dificultando caminhar de salto alto. Assim que entraram na área onde se disparavam as armas, Neil entregou a Gwen um protetor auricular. O som dos tiros ficou abafado, e ela teve dificuldade de ouvir o que Neil dizia.
Ele pegou as armas e apoiou a mão no balcão.
— Quero que você tente este primeiro. — Era o maior revólver que havia na gaveta de Blake. O tamanho a intimidava.
— Por que esse?
Será que ele queria assustá-la?
— É o mais fácil de atirar.
Ela soltou uma gargalhada.
— Duvido.
— Eu levo armas a sério, Gwendolyn, e nunca mentiria para você sobre isso.
O fato de ele usar seu nome inteiro a fez questionar sua dúvida. Ela olhou para a arma e decidiu reconhecer sua ignorância.
— Esqueci como abrir e carregar.
Neil esticou o braço e pegou o revólver. Apertou um botão e girou o tambor que havia no meio.
— Tem seis tiros. — Ele pegou as balas, uma de cada vez, e as colocou nas cavidades. — Uma vez carregado, está vivo. Você não precisa puxar o cão para atirar, mas, se fizer isso, ajuda na precisão do tiro.
— Ajuda como?
— É preciso mais pressão sobre o gatilho para disparar o revólver do que no caso das pistolas — continuou, apontando para as armas com pente. — A pressão maior atrapalha a mira, a menos que você seja uma boa atiradora.
Ele entregou o revólver a Gwen e acenou com a cabeça em direção aos alvos. Ao contrário dos alvos de papel que ela havia usado antes, aquele campo estava cheio de metal giratório, que fazia barulho quando alvejado.
A arma pesava na mão de Gwen. Mais do que as outras.
Neil hesitou antes de se posicionar atrás dela. Passou os braços ao redor de Gwen, segurando-lhe as mãos nas suas sobre a arma e posicionando-a como queria.
Ela engoliu em seco. A sensação de Neil a abraçando, mesmo daquele jeito, a deixou sem fôlego. O desejo de se encaixar nele a deixava tonta. Mas ela se controlou. Em todas as outras ocasiões em que ele estivera perto dela, Gwen praticamente pulara em seu colo.
Mas não mais. Era a vez de Neil tomar a iniciativa. Isso se ele quisesse.
Ela não sabia bem por que ele a levara ao campo de tiro para treinar. Ele poderia ter sugerido um instrutor, se quisesse manter distância.
Mas Neil não era assim. Ele não permitiria que outra pessoa fizesse o que ele fazia de melhor.
— Pronta? — A voz dele soou abafada.
— O quê?
— Você está pronta?
Ela assentiu e fechou um dos olhos para mirar o alvo.
Neil levantou a arma e soltou as mãos dela. Afastou-se um pouco, mas ela ainda sentia o corpo dele contra o seu.
Ela mirou no triângulo de lata vermelha, que girava, respirou fundo e apertou o gatilho.
A explosão a jogou em cima de Neil, mas o tiro não foi tão ruim. Na verdade, tinha sido melhor que o tiro dado com a arma de Eliza.
— Acertei? — Ela não havia prestado atenção.
— Não.
Já sabendo o que a arma faria, ela armou o cão, apontou e disparou mais uma vez.
O triângulo rodou.
Ela olhou para Neil, cujos olhos sorriam, apesar dos lábios imóveis. Atirou de novo e acertou o mesmo alvo duas vezes.
Neil apontou mais longe.
— Agora atire naquele.
Foram necessários mais tiros para acertar o segundo conjunto de alvos. Mas logo ela os arrancou, como se fizesse isso há anos. Gwen sentia a animação correr pela coluna.
Neil ergueu o canto dos lábios.
Você é mesmo sexy quando sorri.
— Tente de novo. Sem armar o cão.
Ela se concentrou mais, a língua cutucando os dentes enquanto atirava. Sim, ela errou o alvo, mas pelo menos não estava atirando no meio dos arbustos — o que a fez se sentir bem.
Fizeram várias rodadas de tiros com os dois revólveres antes de Neil os trocar pelas pistolas. A menor parecia a de Eliza, mas a precisão de Gwen não era tão boa. Depois de alguns tiros, Neil pegou a arma, estreitou os olhos e apertou o gatilho. Seus braços nem se mexeram com o coice da arma, mas ele errou o alvo.
Ajustou a mira e atirou de novo.
Gwen o viu dar seis tiros, todos acertando o alvo muito distante.
— A mira está desalinhada. Vou ter que ajustar em casa. Está atirando para a esquerda de onde você aponta. — Ele entregou a arma a Gwen novamente. — Tente compensar o desvio e acertar alguma coisa.
Ela acertou um dos cinco alvos.
Terminaram com a arma que ela quase havia escolhido antes. Neil a advertiu sobre o coice e a abraçou por trás. Ela fez o máximo para ignorar a sensação quente que ele lhe causava nas costas e atirou.
A arma a jogou para trás, nos braços dele.
— Uau — ela exclamou, enquanto os braços vibravam por causa do impacto.
— Eu avisei.
Gwen baixou a arma, sem querer atirar novamente.
— Vai desistir?
Ela estreitou os olhos e o encontrou sorrindo.
— Está me provocando?
— Talvez. Mas, se precisar usar isso, eu não quero que você esteja despreparada.
Ele passou os braços ao redor dela mais uma vez e pegou a arma. Então a segurou enquanto ela atirava mais duas vezes, ajudando a absorver o impacto. Os tiros seguintes chegaram perto dos alvos, mas erraram. Quando o pente ficou vazio, Neil permaneceu atrás dela, com as mãos em seus ombros. Por um momento Gwen ficou imóvel, curtindo a sensação e o cheiro do homem com quem fantasiava incansavelmente desde que haviam se conhecido.
O campo de tiro tinha esvaziado; restavam apenas os dois.
— Nada mau, Harrison.
Ela riu. Ele nunca a tinha chamado pelo sobrenome.
— Harrison?
Suas mãos se suavizaram nos ombros dela.
— Na marinha, sempre nos chamávamos pelo sobrenome. Pareceu apropriado, com você aqui.
Ele nunca, nem uma única vez, havia dito alguma coisa sobre seus dias como militar, e isso pareceu íntimo para Gwen, de certa forma.
— Então eles te chamavam de MacBain? — ela perguntou, tirando os óculos de plástico que usava para proteger os olhos.
— Mac. Eles me chamavam de Mac. — A voz dele se suavizara, tornando difícil ouvi-lo. Ela arrancou os protetores auriculares e girou nos braços dele.
Ele ofereceu um sorriso, coisa rara.
— Muito bem, Mac, obrigada pela aula.
Ele não se afastou, com as mãos descansando nos braços dela. Tão perto que ela podia ver os olhos dele através dos óculos escuros. Ele a olhava fixamente.
O coração de Gwen martelava no peito, fazendo todo o seu corpo reagir. Neil levou a mão ao rosto dela, passando o polegar pelo contorno do queixo.
Ela queria tanto beijá-lo que podia sentir o gosto dele. Por um breve momento, ela o sentiu se aproximar. Então alguma coisa mudou e ele se afastou, levando o olhar, o corpo, a mão.
— É hora de ir.
Gwen quis gritar. Ele a desejava; e, meu Deus, como ela o desejava também. Então por que ele hesitara?
O que estava tão destruído dentro dele que o fazia se afastar?