Noiva até Sexta
Capítulo 13
OS ÓCULOS DE VISÃO NOTURNA, sensíveis ao calor, captaram os carros enquanto saíam discretamente da garagem da casa em Malibu. Os dois carros indicavam o calor do motorista e da pessoa no banco de trás.
Ele abandonou seu posto de vigia, jogou uma bala na boca e deslizou no banco da frente de seu carro.
Ao que parecia, MacBain estava tomando as rédeas da situação.
— Não seria bom se você desse meia-volta e desistisse, não é?
Os dois carros eram idênticos, sem placas. Não havia como rastreá-los.
Qualquer idiota sabia que não devia ligar o celular se quisesse se esconder. Porém, mais cedo ou mais tarde, Neil precisaria ligá-lo novamente. Mas o homem não tinha pressa. Na verdade, poderia fazer isso o ano todo.
Os carros se separaram, seguindo em direções diferentes. Ele arriscou e seguiu o que ia para leste.
O outro foi para oeste.
O sol brilhava no horizonte enquanto se erguia, a leste. Os óculos escuros impediam que Neil olhasse diretamente para ele. A seu lado, Gwen dormia com a cabeça apoiada na janela do passageiro.
Ele mantinha a velocidade dentro do limite permitido; não precisava que algo simples como uma multa por excesso de velocidade acabasse com seu disfarce.
A estrada deserta se estendia por quilômetros à frente. A única coisa que interrompia a paisagem de terra era a alta cordilheira do deserto, ao longe.
E Gwen dormia.
Ele estava orgulhoso pelo que ela havia feito, ou melhor, pelo que ela não havia feito. Gwen poderia ter discutido, insistido em saber o que ele estava fazendo, mas simplesmente não o questionou. Seguira suas instruções ao pé da letra, e deixaram o sul da Califórnia sem um único adeus.
Neil passou os olhos pelo corpo dela. Vestida como um gatuno, ela nunca estivera tão bonita. E, embora ele nunca houvesse dito a ela uma palavra sequer sobre as fantasias que tinha envolvendo os dois, alguém havia descoberto.
Havia descoberto e estava usando isso contra ele.
Fique longe de Vegas, Mac, pensou. Ele precisava dar um jeito de melhorar sua cara de paisagem.
Gwen gemeu a seu lado. Um som profundo, que fez suas bolas se apertarem, fazendo-o se contorcer.
Ela piscou e se espreguiçou.
— Bom dia — murmurou.
A simples saudação fez Neil querer sorrir.
— Bom dia.
— Onde estamos? — ela perguntou, olhando para trás.
— Vamos estar em Nevada em mais ou menos meia hora.
— Nevada? É para lá que estamos indo?
— Vamos passar por lá.
— Ah.
Ele esperou um pouco antes de olhar para ela.
— Sem perguntas?
Ela sorriu, fazendo algo explodir dentro dele.
— Na noite passada, quando você me arrancou da cama, me jogou no banco de trás do carro e eu dormi na hora em que você parou de dirigir feito um louco, eu decidi aceitar cada momento do jeito que vier.
— Você não vai perguntar para onde vamos?
— E por acaso você me diria?
Não. Quanto menos ela soubesse, mais fácil seria guardarem segredo. Uma parada em um posto de gasolina poderia resultar em uma conversa que denunciaria sua localização.
— Foi o que eu pensei. Mas tudo bem, por enquanto.
Ele só precisava de um pouco de tempo. Assim esperava.
— Você contou para alguém aonde estamos indo? — ela perguntou.
— Não.
Seu irmão ficaria preocupado, e sua mãe, enlouquecida.
— Vamos ligar para...
— Não — ele interrompeu. — Não podemos ligar... Não até eu dizer. Os telefones de Malibu foram grampeados.
— Se você sabia, por que simplesmente não retirou os grampos?
— Se o homem que está nos seguindo achar que alguns brinquedos dele ainda estão no lugar, vai ouvir apenas as informações que eu quiser que ele ouça.
— Então, como vamos dizer para o Blake e para os outros que estamos bem?
— Deixe isso comigo.
Gwen esfregou a testa.
— Você acha que alguém está atrás de nós?
No espelho retrovisor, um carro se aproximou. Neil manteve a velocidade constante, controlando a vontade de tomar distância.
— Eu sei que alguém está atrás de nós.
— Por que comigo? Não fiz nenhum inimigo aqui, nem em qualquer lugar, que eu saiba.
O carro os alcançou rapidamente e ultrapassou. Neil suspirou.
— Quem quer que seja, não está atrás de você. Está atrás de mim.
— Então por que mataram os meus vizinhos? O que isso tem a ver com você?
Neil engoliu em seco, grato pelos óculos escuros esconderem seus olhos.
— Ele queria deixar claro que poderia chegar até você com a mesma facilidade.
Poderia ter sido ela boiando em uma banheira. Morta.
— Isso é loucura, Neil. A casa tem câmeras por todo lado.
— Mas a porta dos fundos estava aberta, com o alarme ligado. Qualquer um poderia ter entrado.
— Isso ainda não explica por que alguém me usaria para chegar até você. Você trabalha para o meu irmão e mal liga para mim.
Ele ligava... mais que ligava. E alguém tinha percebido isso.
— Neil?
Ele achou que uma tática defensiva seria a melhor atitude a tomar no momento.
— Vamos parar no próximo posto de combustível. Você pode ir ao banheiro, mas não fale com ninguém.
Quando observou Gwen olhar pela janela, onde não se via nenhuma alma viva — nem mesmo casas abandonadas havia na estrada que ele escolhera —, Neil soube o que ela iria dizer.
— Não vejo ninguém nos seguindo.
— O seu sotaque vai nos entregar se o homem que está nos seguindo encontrar o nosso rastro.
— Eu não tinha pensado nisso.
— Deixe que eu penso nas coisas.
O meio sorriso no rosto de Gwen se apagou.
Ah, merda. Eu não devia ter dito isso.
— Eu sou loira, não burra!
— Eu não disse que você é burra.
— Mas disse para eu não pensar.
— Não, eu disse para deixar que eu penso nas coisas. Só escolhi mal as palavras. Até eu descobrir quem está atrás da gente e saber que você está segura, você precisa confiar em mim.
— Acho que eu já provei minha confiança em você fugindo da casa do meu irmão no meio da madrugada. Eu não fiz isso porque não pensei. Eu fiz isso porque escolhi confiar e agir com sabedoria. E as duas coisas exigem pensar. — Ela o fitou com o cenho franzido.
Ele segurou o volante com força, procurando as palavras certas para se redimir do que havia acabado de dizer. Ela não era um soldado sob suas ordens, seria bom se lembrar disso. Mas era impossível para Neil mostrar seu lado mais dócil, já que ele não existia. Por isso mesmo ele evitava conversar mais profundamente com as mulheres.
— Desculpe.
Pronto. Isso deve fazê-la feliz. Ele ousou olhar de relance para ela. Nada feliz.
Em vez de pisar ainda mais na merda que havia vomitado pela boca, ele se reduziu ao silêncio.
Um silêncio doloroso.
O banheiro imundo trouxe algum alívio, melhor que uma moita na beira da estrada. Embora fosse tortura, Gwen não pronunciou uma palavra enquanto esteve no posto de gasolina. Sabia que Neil estava certo quanto ao risco de ela falar com alguém. Seu sotaque britânico a delataria, mais que o cabelo loiro e as maçãs do rosto salientes.
Quanto ao silêncio de Neil... ele não fazia ideia de como ela era competente nesse jogo. Os ingleses eram conhecidos pelo humor frio e seco e pelo silêncio paciente. Pelo menos na família dela isso era comum. Os americanos falavam demais. Ela tinha de admitir que conversar com seus amigos era muito mais divertido na América do que em seu país natal. Eliza ligava para Gwen por qualquer motivo. Aliás, fora ela quem fizera o primeiro comentário sobre a atração que Gwen sentia por Neil.
O grande idiota. Deixe que eu penso nas coisas.
Ela revirou os olhos enquanto puxava uma toalha de papel para abrir a porta suja. Pegar uma doença naquele momento seria péssimo.
A manhã ensolarada de Nevada era ainda mais quente naquela roupa preta de elastano. Mas a ideia de tirar qualquer peça de roupa naquele banheiro deixava Gwen enjoada, então ela decidiu esperar até pararem para dormir.
Além disso, ela nem sabia que roupas havia na mochila. Neil tinha colocado a maior parte ali. Antes de fugirem correndo, ela pegara uma piranha para domar o cabelo; pelo menos ele não estava solto, e isso lhe proporcionava algum frescor.
Neil abasteceu o carro enquanto ela voltava a se sentar no banco do passageiro. No console central havia dois copos fumegantes de café. Ele se sentou e pôs o cinto de segurança.
— Eu sei que você gosta de chá, mas só tem café aqui.
— A maioria dos americanos não toma café de manhã?
Neil saiu com o carro.
— Sim.
— Então eu penso que é melhor tomar café. Pedir um café e um chá poderia nos denunciar.
— Humpf! — ele soltou, com um sorriso no rosto.