Noiva até Sexta
Capítulo 22
— EU ESPERAVA UMA LIGAÇÃO antes, Mac. Onde é que você está?
Neil desejou ardentemente estar tomando a decisão certa.
— Mudança inesperada de planos.
— Que tipo de mudança? — disse a voz abafada do celular de Rick.
— Do tipo que me faz esconder a minha mulher e ficar para lutar.
— Puta que pariu. Ele está atrás de você? Merda, Neil, você devia ter me ligado. Onde você está?
— Perto do Fort Carson. E você?
— No meio do caminho para a casa da Dorothy. Fiquei por ali dois dias a mais, mas, quando não tive notícias suas, pensei que alguma coisa tinha mudado. Pensei em ir na frente e descobrir o que pudesse sobre o Billy. Estou voltando. Onde a sua garota está? Porra, eu nem sabia que você tinha uma.
Neil também não.
— Ela está a salvo. Ouviu mais alguma coisa sobre o Mickey? Estou sem acesso aos meus contatos.
— Nada de novo sobre o Mickey. O pai dele disse que ele está atrás das linhas inimigas. Não faz ideia de quando ele vai voltar.
Neil tentou analisar a voz de Rick. Não havia nada de alarmante nela. Estava sendo paranoico em relação a seu amigo. Alguma coisa estava errada ali, e Neil precisava descobrir o que era.
— O canalha hackeou o meu sistema de vigilância, Rick. Uma merda de alta qualidade, que eu nunca tinha visto. Para mim, parecia militar.
— Quem está por trás disso, Neil? O complexo do Gralha foi destruído. Não existe a menor chance de alguém nos identificar.
Neil alisou a barba que havia crescido em seu rosto desde que saíra da Califórnia.
— Tem que ser alguém que sabia da missão. Ou que descobriu e quer que a gente saiba.
— Não sei, Mac. Parece simples demais. Esse cara está levando as coisas para o lado pessoal.
— Bem, ele se tornou muito pessoal para mim. É hora de virar o jogo.
Rick riu.
— Você tem um plano, não é?
— Sempre tenho, certo?
— Vou dirigir a noite toda, mas ainda vou levar um dia e meio para chegar até você.
Com um pouco de sorte, o novo Gralha estaria indo na direção errada agora. Neil tinha bastante tempo para montar a armadilha.
— O importante é você chegar. Ligue para esse número quando estiver na cidade.
— Tome cuidado, Mac. Estou ansioso para conhecer a sua mulher. Qualquer uma disposta a te aguentar já é uma heroína para mim.
— Idiota.
— Obrigado, igualmente.
Neil desligou e ficou olhando para o celular. Sua mulher. Sim, o termo era primitivo, típico de um homem das cavernas, mas parecia correto.
Pela primeira vez em anos, Neil dormira a noite toda. Ele sonhara, com certeza, mas não acordara sobressaltado. Para ele, não havia dúvida de que a presença da sua mulher ali com ele era o motivo pelo qual tivera um pouco de paz.
Agora era hora de encontrar a torre de marfim e deixá-la ali, em segurança. E então, talvez, quando não houvesse mais corvos e mortes, ele poderia descobrir como os dois se encaixavam no mundo real.
Neil ligou para outro número. Um que ele achava que nunca mais usaria.
— Major Blayney, aqui é o MacBain. Preciso da sua ajuda.
Uma hora e meia depois, ele entrava na segurança da base, sorrindo e acenando com sua identificação. Os portões protegidos por guardas armados eram a coisa mais próxima da torre de marfim que Neil necessitava para Gwen.
— Eu nunca estive em uma base militar — disse ela, olhando pela janela.
De estilo tipicamente militar, não havia muitos detalhes, linhas suaves ou paisagens ali. Tons de verde e cinza cobriam as superfícies de grandes edifícios. Jipes e Humvees fornecidos pelo governo rodavam pelas ruelas ou estavam estacionados em pátios enormes.
— Você morava aqui?
— Com o meu pai. E depois, antes dos meus últimos seis meses como fuzileiro naval.
Os edifícios eram próximos, e as residências dos homens alistados formavam pequenos bairros. Viam-se algumas crianças nessa parte da base, além de cestas de basquete e bicicletas abandonadas nos jardins.
— As casas parecem todas iguais.
— E são. Dois ou três quartos. Algumas podem ter dois banheiros.
Gwen estava sentada na beirada do banco, fascinada.
— Acho que eu não gostaria de viver uma vida idêntica à dos meus vizinhos.
— Você perde a individualidade no campo de treinamento. Mas recupera quando encontra o rumo. E aprende a receber ordens.
Gwen franziu o cenho.
— Não consigo te imaginar recebendo ordens.
— Já recebi a minha cota.
Ele dava ordens melhor do que recebia.
— Aqui tem tudo o que você precisa: mercearia, farmácia, hospital, uma igreja. Eles têm até uma pizzaria delivery, e hamburguerias também. Além de dois bares.
— Tudo o que uma pessoa precisa — disse ela.
— Tudo.
Neil passou pelas casas menores e subiu uma colina cercada de árvores. Nada havia mudado. Nem mesmo uma árvore caída.
Chegaram a uma casa caiada de três andares no topo da colina, com vista para a base.
— Esta é a casa do Charlie e da Ruth — disse Neil. — O Chuck se ofereceu para nos ajudar.
— Amigos seus, presumo.
Charlie era mais como um colega de confiança.
— O Chuck é um dos poucos que sabiam sobre o Gralha. É melhor você não contar para ele o que eu te disse. Quanto menos ele, ou qualquer outra pessoa, achar que você sabe, melhor.
— Você não confia nele? — perguntou Gwen.
— Eu não te traria aqui se não confiasse. Mas a gente só deve falar de missões secretas com os poucos envolvidos nelas. Duvido que a Ruth saiba alguma coisa sobre o Gralha. E o Chuck esperaria que você fosse igualmente ingênua.
— Se alguém estivesse perseguindo a Ruth, o Chuck não contaria a ela o motivo?
— A Ruth é esposa de militar, ela entende que tem certas coisas na vida do marido que ela não deve saber.
Neil parou o carro na entrada da garagem e tirou a chave da ignição.
— Se tudo correr conforme o planejado, vou precisar que você fique aqui por alguns dias — disse.
Gwen apertou os lábios.
— Você está me perguntando ou me comunicando?
Ela não tinha opção. Protegê-la na torre de marfim, que seria a casa de um oficial dentro de uma base militar, era a única maneira viável de fazer as coisas. Se Neil a consultasse e ela dissesse “não”, ele teria que mudar os planos. E, se ele apenas lhe comunicasse e ela ficasse contrariada, poderia fugir.
Ele apertou os dentes e respondeu:
— Perguntando.
Tentou sorrir, de modo que Gwen respondeu normalmente:
— Nesse caso... tudo bem.
Saíram do carro e foram até os degraus da varanda. Gwen alisou a blusa e pôs uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Você está ótima — ele falou.
— Parece que estou fugindo há uma semana, e tenho uma vontade enorme de queimar as minhas roupas.
Neil pegou a mão dela e a beijou.
— Está quase acabando, Gwendolyn.
O sorriso dela se iluminou, e ela se inclinou na direção dele.
— Um banho quente vai fazer maravilhas pelo meu humor.
E pelo dele também. Neil bateu na porta e deu um passo atrás.
Ruth Blayney não havia mudado desde que Neil a conhecera. Ela o recebeu com um sorriso caloroso e uma inclinação de cabeça; sabia que isso era melhor que abraçá-lo, já que ele era um homem sisudo. Na verdade, a maioria dos fuzileiros navais que Neil conhecia não era muito dado a demonstrações físicas de afeto. Um bom aperto de mãos, talvez um abraço másculo, era o mais próximo de carinho que eles se permitiam.
— Ora, se não é Neil MacBain. Meu Deus, há quanto tempo!
— É, alguns anos. — Mais de seis.
— Entrem. — Ruth saiu do caminho e abriu mais a porta. — O Chuck me disse que vocês viriam. Já preparei o quarto de hóspedes.
No hall, Neil soltou a mão de Gwen e a apresentou:
— Ruth Blayney, esta é Gwen Harrison... uma amiga minha.
Ruth apertou a mão dela.
— Isso é inédito. Não me recordo de você já ter trazido uma mulher encantadora aqui em casa.
— É um prazer — disse Gwen.
— Você é inglesa?
— Sim.
— Bem-vinda. — Ruth fechou a porta atrás deles. — O Chuck está nos fundos, fingindo treinar seu movimento de golfe.
— Golfe? — Neil não conseguia imaginar isso.
— Está se preparando para a aposentadoria, como costuma dizer.
— Eu não sabia que ele jogava golfe.
A mulher sorriu.
— E não joga. Mas pretendemos nos mudar para um lugar mais quente quando o major pendurar as chuteiras. E jogar golfe, mesmo que mal, é melhor que ficar sentado em casa o dia todo.
Não parecia que Chuck estava ansioso para morar em outro lugar. Não era de surpreender, visto que o homem não conhecia outra vida. O major Blayney poderia ter se aposentado anos atrás, mas adorava o que fazia. Imaginá-lo em um campo de golfe dizendo aos caddies para corrigirem a postura e carregarem sua bolsa simplesmente não combinava com sua personalidade. Dirigir a vida dos outros — nisso Chuck era bom.
Ruth os conduziu para o quintal, até um deque que dava a volta na casa. No gramado, Chuck tentava colocar a bolinha em um buraco. A bola o ultrapassou meio metro, e ele grunhiu de frustração.
— Charles — Ruth chamou seu marido. — O Neil e a amiga dele estão aqui.
Chuck se voltou, jogando o taco no chão.
— Esporte idiota.
Ao lado de Neil, Gwen riu.
— Futebol sim que é esporte. Não se esqueça disso, Neil.
— Sim, senhor. — Eles se cumprimentaram com um forte aperto de mãos e um tapinha nas costas. — Que bom vê-lo de novo.
E era mesmo, apesar das circunstâncias. Chuck não havia mudado. Ele ainda usava calça bege larga, camisa e cinto fornecidos pelo governo. Um pouco mais baixo que Neil e com uns bons vinte quilos a menos, Chuck ainda inspirava respeito com sua postura. De ombros largos e poucos fios brancos no cabelo escuro, o major não parecia ter mais que cinquenta anos. Neil sabia que ele era muito mais velho, mas exatamente quanto, o homem nunca confirmara ou negara.
Os olhos de Chuck foram de Neil para Gwen; seu sorriso permaneceu firme no lugar.
— Você deve ser a srta. Harrison.
— Por favor, me chame de Gwen.
Chuck fez um aceno de cabeça, mas não apertou sua mão.
— Bem-vinda à nossa casa, Gwen.
— Obrigada por nos receber.
— É um prazer — ele disse e a dispensou, voltando a atenção para a esposa. — Ruth, não quer mostrar para a Gwen o alojamento deles?
Ninguém melhor que um major para acabar com a troca de gentilezas e começar a falar de negócios. Ruth soltou um suspiro pesado.
— O major acha que todos os quartos são alojamentos. Prometo que terá uma boa cama, e não um catre. Vamos, Gwen. Eu soube que já faz alguns dias que vocês estão viajando. Imagino que gostaria de tomar um bom banho.
— Seria ótimo — disse Gwen, e seus olhos azuis encontraram os de Neil. — Vamos pegar as nossas coisas?
— Encontro você no meu escritório em dez minutos, Neil — disse Chuck. — Se precisar de alguma coisa, Gwen, é só pedir.
Ela agradeceu e voltou com Neil para o carro.
— O Chuck nunca foi um homem caloroso. Não se ofenda — explicou Neil enquanto tirava as coisas do porta-malas.
— A Ruth parece legal.
Tradução: o Chuck não era legal. O que o major Blayney não tinha em gentileza, esbanjava na capacidade de servir e proteger.
— Quando acabar de tomar banho, a Ruth pode te levar ao mercado para comprar roupas novas.
— Ao mercado?
— Eles têm uma seção de roupas básicas. Ou talvez a Ruth tenha outra sugestão aqui na base.
— O que significa que você não quer que eu saia daqui.
— Não sem mim.
Neil podia ver o peso da situação sobre ela. Seus olhos cansados demonstravam aceitação, e seu movimento de cabeça dizia que obedeceria.
Com as mãos cheias de objetos pessoais — menos parte do arsenal que ele levara com eles e os apetrechos de acampamento, que deixara nas montanhas —, Neil se inclinou e a beijou brevemente.
O sorriso de Gwen se abriu quando ele se afastou.
— Por que isso? — ela perguntou.
— Por confiar em mim.
— Sempre.
Neil entrou no escritório de Chuck e fechou a porta, isolando-os da casa. O homem já havia servido as bebidas e sugeriu que se sentassem no sofá para conversar.
— Achei que um desses seria útil.
— Mais do que você imagina — disse Neil, deixando o líquido escorregar pela garganta, queimando-a suavemente. — Muito bom.
— Me conta de novo por que você acha que alguém está tentando te matar.
Neil começou desde o início e não parou até a parte em que ele e Gwen fugiram da Califórnia. Chuck o ouvia com uma expressão neutra, enchendo novamente os copos durante a explicação.
— Como conseguiu fazer a loirinha vir com você?
— Eu disse a ela que alguém do meu passado a estava usando para chegar até mim.
Não era a verdade completa, mas era o máximo que Neil diria a Chuck.
— Então ela não sabe nada sobre o Gralha?
— Foi ela quem encontrou os pássaros mortos.
— Aves morrem o tempo todo.
— E por isso ela não me contou sobre eles. As gralhas são típicas das regiões mais altas da Califórnia, não da planície. Aquilo não foi por acaso, Chuck.
— Não estou sugerindo que tenha sido. Só estou me perguntando que tipo de mente doentia faria isso.
Neil tomou um gole da bebida.
— Estou tentando descobrir isso há uma semana. Pensei que, se alguém teria informações sobre os aliados do Gralha, esse alguém seria você.
Chuck deu de ombros.
— Existem muitos grupos que querem vingar a morte dele, mas nenhum merece crédito e muito menos tem a capacidade de fazer o que você está sugerindo.
— Esse ataque é pessoal. — A imagem de Gwen surgiu em sua cabeça. Muito pessoal.
— Esses caras não atacam pessoas, atacam nações. Quem você acha que está por trás disso?
— Alguém rancoroso... alguém que sabe sobre o Gralha. Em breve vou descobrir. O Rick está a caminho, e vamos nos livrar desse filho da puta.
Chuck jogou as mãos no ar.
— Não se incrimine, soldado.
— O direito de defender a mim e à minha família ainda é legal neste país.
O major deu um sorriso forçado.
— Então, o que está me dizendo é que você planeja atrair esse homem para prendê-lo e processá-lo... certo?
Neil leu nas entrelinhas.
— Foi o que eu disse.
— Foi o que eu pensei que você disse. Como posso ajudar?
Neil colocou o copo vazio de lado e cruzou as pernas.
— Preciso manter a Gwen aqui, segura, enquanto eu faço o que precisa ser feito.
— Ela está disposta a ficar?
— Sim. Por um tempo.
Por quanto tempo, Neil não sabia ao certo. Chuck arregalou os olhos.
— Por um tempo?
— Ela não conhece todos os fatos, e eu ainda não conheci uma mulher que aceite ordens como um fuzileiro naval. Ela não vai questionar nada por um tempo, um dia ou dois, talvez três. Mas preciso saber que ela vai estar aqui, segura, para eu poder esperar o filho da puta lá fora.
— Você quer que eu a mantenha aqui contra a vontade dela?
Gwen não aprovaria, e era por isso que Neil não havia lhe contado essa parte do plano.
— Se for necessário... pelo bem do país e tudo o mais.
Chuck se levantou e esfregou a nuca.
— Você sabe o que está me pedindo?
Neil apertou o maxilar.
— Nada que eu não faria por você e pela Ruth.
— A Ruth é minha esposa, Neil. Se não me engano, você apresentou a Gwen como sua amiga. Ela nem sequer é americana. E você não disse que o irmão dela é um duque ou algo assim? Já posso ver as manchetes: “Major Blayney mantém uma lady inglesa refém em base militar americana, porque o namorado dela pediu”. Você está me pedindo o impossível, Neil. Talvez se ela fosse sua esposa eu pudesse concordar... Pelo menos assim ela teria a cidadania americana, e eu a estaria protegendo porque o marido dela estaria em perigo se ela ficasse andando pelas ruas de Colorado Springs.
Neil sentiu tudo dentro de si se retesar. Estava prestes a explodir. Chuck estava certo. E, mesmo que Gwen não tentasse fugir, era só uma questão de dias até que Blake os procurasse ou recebesse um telefonema dela. E, então, todo o tempo de fuga através do país teria sido por nada. O Gralha acabaria encontrando Gwen, e estariam novamente na estaca zero.
Chuck o fitava, austero como um instrutor de recrutas.
Neil tomou uma decisão.
— Ainda tem um padre aqui na base?
O major o encarou, incrédulo.
— Você está de brincadeira?
— Chame-o. Eu volto daqui a uma hora.