Noiva até Sexta
Capítulo 31
RICK FOI PARA O SUL, Neil para o norte.
A chuva caía forte, dificultando ainda mais a situação. O avanço sobre o inimigo estava indo rápido demais. Tanto que Neil se questionava.
— Fique onde está — pediu a Rick. — Está parecendo fácil demais.
— É mesmo.
Neil adorava o fato de Rick e ele sempre conseguirem ler os pensamentos um do outro.
— Ele não tem como sair sem passar por um de nós.
Neil olhou para trás pela milésima vez.
— Você acha que ele está com outra pessoa?
— Não vi mais ninguém — respondeu Rick.
Neil também não. Girou e checou atrás de si. Nada.
A chuva batia no solo da floresta com tanta força que o barulho era ensurdecedor. Tendo passado grande parte da vida na Califórnia, ele gostava quando chovia, mas aquilo era demais.
— Vamos supor que tenha outra pessoa aqui.
— É um bom plano — murmurou Rick.
Ou o Gralha tinha um truque na manga.
Eles invadiram o penhasco com cautela. Por causa da baixa temperatura, os dedos de Neil estavam gelados. Ele baixou a arma e parou, só o tempo suficiente para olhar para trás. Notou algo roxo no chão. Foi em direção ao objeto e notou algo amarelado. Observando mais de perto, viu uma bala. Deu meia-volta, achando que alguém a deixara ali muito antes.
Mas hesitou.
Balas? Quem ele conhecia que comia isso... pequenos doces facilmente guardados no bolso?
O helicóptero estava a menos de vinte quilômetros do destino.
Alguém cobrira o corpo de Linden com um cobertor verde, inclusive o rosto. Rick se segurava em uma das faixas na parede e olhava inexpressivamente pela porta aberta. Billy mantinha a cabeça baixa, entre as mãos.
Mickey enfiou a mão no bolso, pegou suas inseparáveis balas e jogou algumas na boca. Mesmo com a dor do ferimento, ele conseguia ser fiel ao seu nome. Mickey Mouse: terra de grandes orelhas e balas de criança.
Neil cambaleou para trás. Sentiu as entranhas se retorcerem.
Mickey.
Por quê?
— Rick... pare.
Silêncio.
— Que foi?
— Recue.
— Ele está bem aqui.
Neil engoliu em seco.
— Eu sei quem ele é.
Puta merda, eu sei quem ele é.
Gwen rolou de costas, com as mãos para trás.
A porta no topo da escada se fechou com um clique retumbante. Ela sabia que, mesmo que conseguisse chegar ao último degrau, encontraria a porta trancada.
O pano que tinha entre os dentes cortava suas bochechas e deixou sua boca seca instantaneamente. Mas essa era sua menor preocupação.
O coração batia tão rápido e forte que parecia que ia explodir. Charles estava comandando o inimigo deles. Todas as suas reservas em relação ao homem se confirmaram. Não que o fato de estar certa servisse para alguma coisa naquele momento.
Ela retorceu algumas vezes as mãos, embora soubesse que tirar as algemas sem a chave seria impossível. Mas isso não a impedia de tentar. Conforme a adrenalina começava a diminuir, o medo ia tomando seu lugar. O porão sombrio não a incomodava tanto quanto poderia, mas saber que só tinha um jeito de sair a aterrorizava. Quando sentiu os olhos ficarem úmidos, lutou contra as algemas novamente, sentindo o metal morder sua pele. Com a dor, as lágrimas secaram. Não teria pena de si para não se tornar ainda mais vítima de seu captor. Nada o alegraria mais que voltar ao porão e encontrá-la chorando, completamente indefesa.
Gwen não lhe daria esse prazer. Toda aquela sua conversa sobre a inutilidade das mulheres lhe mostrara como ele subestimava seu gênero.
Ele havia deixado a luz acesa, e ela começou a procurar o que poderia ter escondido nos cantos da sala que fosse de alguma ajuda. Gwen se levantou e andou pelo local. Acima de sua cabeça havia canos e fiação, que corriam por toda a extensão da sala. Um aquecedor de água em um canto, e o que parecia ser um quadro de luz perto. Infelizmente, ela nunca tinha precisado abrir um quadro de luz na vida, e só pôde identificá-lo por causa de alguns programas de televisão que tinha visto no passado. De qualquer maneira, com as mãos algemadas nas costas, não conseguia alcançá-lo.
Havia caixas empilhadas em uma parede, em colunas de três. Várias tinham uma etiqueta dizendo “Natal”, e algumas o nome “Annie” rabiscado em cima. Gwen chutou uma caixa sem etiqueta. Como mal se mexeu, empurrou-a com o joelho.
Pesada.
Com um pouco de esforço, virou as mãos e usou a ponta dos dedos para abrir o papelão.
Livros. Parece que encontrei a biblioteca da Ruth.
Ela não podia imaginar uma utilidade para os livros ali. Talvez, se suas mãos estivessem livres, poderia jogá-los em Charles. Mas essa não era uma opção em sua condição atual.
Gwen se virou para as caixas com o nome “Annie”. Dentro de uma havia algo que parecia uma galeria de arte infantil, do tipo que as crianças levam para casa no ensino fundamental e penduram na geladeira. Afastou facilmente uma da outra e abriu uma delas. Continha objetos infantis: bichinhos de pelúcia, um cobertor de bebê, nada que fosse útil.
As caixas de Natal continham luzes e enfeites empoeirados. Pensar nessa data festiva causou um arrepio em Gwen. Se ela não achasse um jeito de sair daquele porão, nunca mais veria um Natal.
E Neil? Estava longe pensando que ela estaria segura, sendo que o homem que ele havia escolhido para protegê-la queria vê-lo morto. Gwen sentiu a garganta se apertar.
Ele pode cuidar de si. Ela precisava acreditar nisso.
Então se afastou das caixas e se apoiou em um dos braços do sofá imundo.
Pense, Gwen. O que posso usar aqui?
As caixas representavam as mulheres na vida de Charles. Os livros de sua esposa, do que aparentemente ele não gostava. E a infância de sua filha. Uma filha com quem não estava satisfeito no momento presente. Era como se ele houvesse empacotado a filha e a escondido. Longe dos olhos, longe do coração. Algo muito parecido com o que o pai de Gwen havia feito com ela. No entanto, Gwen sabia que seu pai, a seu modo, a amava.
Mas Charles sempre pensava em Annie de uma maneira tão amarga? Se ele visse as coisas que havia dentro daquelas caixas, elas não evocariam uma recordação compassiva? Férias agradáveis e inesquecíveis? Mas o homem já havia deixado claro que pretendia matá-la, de modo que provocá-lo e apressar seu desejo não era uma atitude inteligente. No entanto, se ela conseguisse fazer com que ele pensasse no que poderia perder se fosse pego, talvez ele pensasse duas vezes.
Se ela o fizesse hesitar...
Gwen se inclinou na beira do sofá e levou a perna direita às mãos, presas nas costas. Certificou-se de que poderia alcançar o que tinha escondido no tornozelo antes de sair de casa.
No entanto, pegar o revólver agora não era necessário. Mas ela podia alcançá-lo, o que lhe dava certo conforto. Não que Gwen soubesse como atiraria nele com as mãos nas costas, mas o faria, se precisasse.
Neil se juntou a Rick. Em três dias, era a primeira vez que o via frente a frente.
O amigo o fitou com olhos interrogativos. Era difícil para Neil traduzir os pensamentos em palavras.
— É o Mickey.
O rosto de Rick ficou branco.
— O que voc...
Neil abriu a palma da mão e mostrou as balinhas que havia encontrado na trilha.
— Conhece alguém que come essas coisas como se fosse crack?
Rick pegou uma bala, olhou e a jogou no chão, enojado.
— Porra! Por quê? Por que ele faria isso?
— Não sei. Mas, se descobrirmos, podemos tirá-lo daqui vivo... ajudá-lo de alguma maneira.
— O filho da puta matou o Billy. Não dou a mínima se ele tem um encontro marcado com o diabo.
Neil pegou Rick pelo braço enquanto ele se afastava.
— É o Mickey, Rick. De todos nós, ele foi o que mais perdeu. O homem nem tem mais as bolas.
A lesão na virilha o deixara impotente — um fato que Neil esquecera até se dar conta de que era Mickey quem estava atrás deles.
— Você acha que ele nos culpa por isso?
Neil soltou Rick quando este parou de puxar o braço.
— Não sei. Talvez. Sei que ele estava namorando antes da Operação Gralha, e, quando voltou, a garota o dispensou.
— Estávamos todos na mesma missão. Nenhum de nós é culpado.
— Mentes doentias não pensam direito. Isso explica todas as escutas e brinquedos militares classe A que ele andou usando. Coisas que surgiram desde que saímos.
Rick deu meia-volta, fitando a face do penhasco.
— Eu o investiguei. Me disseram que ele estava em uma missão secreta.
— Quem te disse isso?
— O major.
Neil sentiu a pele gelar.
— O major?
— É. Eu liguei para ele... tipo: “E aí, tudo bem? Por acaso você tem alguma ideia de onde o Mickey está?” Não queria alarmar o sujeito. Ele disse que me retornaria. Ligou uns dias depois e disse que o arquivo do Mickey indicava uma missão.
Neil respirou fundo.
— O que te fez pensar que era uma missão secreta?
Rick sacudiu a cabeça.
— Encontrei o número do pai do Mickey. O velho disse que o filho estava em uma missão secreta. Pais têm isso de se vangloriar dos filhos. Eu juntei as informações.
— Nós somos a missão secreta dele — disse Neil.
— Os superiores dele não perceberiam se ele estivesse ausente sem permissão?
— O Blayney não sabe — disse Neil.
— Como você pode ter certeza?
Neil apertou os dentes.
— Eu deixei a Gwen com ele.
Rick parou e o olhou fixo.
— Para protegê-la?
— Sim. Quem melhor que os fuzileiros navais americanos para proteger a minha esposa?
— Sua esposa?
— Eu me casei com ela antes de vir te encontrar.
— Caramba, Neil. Por que você não me disse? Isso é uma grande notícia!
Bem, não era hora de tapinhas nas costas e brindes com cerveja.
— O Chuck sugeriu que ele teria mais chances de mantê-la a salvo se ela fosse minha esposa. Caso ela começasse a ficar ansiosa e quisesse ir embora. Eu não queria que o Gralha... que o Mickey a encontrasse e a usasse contra mim, como aconteceu com o Billy e a esposa dele.
Rick apertou os olhos.
— Então você se casou com ela só para mantê-la a salvo?
Neil sacudiu a cabeça. Ele a amava. Ah, como a amava...
— Eu teria me casado com ela de qualquer maneira.
— O Chuck sugeriu o casamento?
— Não. Eu sugeri. O Chuck agilizou o padre e foi testemunha.
Neil observou o penhasco, se perguntando se Mickey os observava, escondido atrás das árvores cortadas.
— Alguma coisa não está me cheirando bem — disse Rick. — Se é o Mickey quem está ali, alguém sabe que ele está ausente sem permissão. A menos que haja um preço pela nossa cabeça.
Aquilo também não cheirava bem para Neil.
— Precisamos descobrir com quem o Mickey está trabalhando. Ele era bom, mas nunca achei que ganharia um prêmio pela inteligência.
Mickey era o mais novo da equipe deles. O que lhe faltava em capacidade de liderança, ele compensava com energia e entusiasmo. Sempre enfiando sua dose de açúcar na boca e forçando a equipe a se mover mais rápido. Neil lembrava que, quando soubera da gravidade da lesão de Mickey, pensara que a mente do homem sobreviveria desde que ele pudesse dar vazão a sua energia. Os fuzileiros navais sempre precisavam de homens como Mickey.
Neil achava que ele tinha ficado bem. Só que não.
— Precisamos fazer o Mickey aparecer. E falar.
— Alguma sugestão? — Rick perguntou.
— Vamos nos aproximar e começar a conversar. Assim ele vai pensar na gente como seus antigos companheiros, em vez de nos enxergar como alvos. Se ele estiver trabalhando para alguém, vamos ficar sabendo. E se estiver sozinho... Bem, depois cuidamos disso.
Rick anuiu.
— Vou para o sul.
— Tome cuidado.
Ele deu uma piscadinha e desapareceu na mata.