Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 8 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 5

 

DE MANHÃ, GWEN FOI À padaria da esquina, onde tomou seu chá com biscoitos antes de ir encontrar Michael pela segunda vez..

Os esqueletos no armário dele não eram nenhuma surpresa, e não foram motivo de preocupação para Samantha, Karen ou Gwen.

Karen estava cautelosamente animada.

Como Michael havia sido aprovado, era a vez dele de aprovar o currículo de Karen antes de se conhecerem.

Gwen atravessou os enormes portões da propriedade de Michael, bem longe das ruas principais de Beverly Hills. Qualquer mapa de celebridades comprado por uma mixaria indicaria a localização, mas um turista precisaria escalar um muro de quase quatro metros para ver o quintal.

O caminho de pedras a fez lembrar de sua casa perto de Londres, mas as semelhanças acabavam aí. A influência espanhola na arquitetura era evidente em todos os lugares por onde ela passava os olhos. Buganvílias subiam pelas colunas da entrada, recepcionando os convidados com tons de roxo e vermelho. As janelas e portas arqueadas a remeteram às muitas missões católicas espalhadas pela costa da Califórnia.

Michael saiu pelas largas portas da frente de braços abertos.

— Lady Harrison.

Deu-lhe dois beijos no rosto.

— Gwen, por favor. Ninguém me chama de lady Harrison, a menos que esteja querendo alguma coisa.

— Nós dois sabemos que eu quero alguma coisa. Entre.

— Sua casa é linda. — Ela estava esperando algo moderno, cheio de brilho.

— Não é o que você esperava?

— Sou tão transparente assim?

No interior da residência, os deleites visuais continuaram. Extensas paredes cobertas de obras de arte conduziam a tetos abobadados com lustres de ferro.

— É a coisa mais próxima de uma villa espanhola deste lado da fronteira. Pelo menos que eu tenha encontrado.

— É linda, Michael.

A Karen vai adorar.

— Tenho certeza de que, se tudo der certo, você vai vir aqui mais vezes para aproveitar.

Ele a levou até uma grande sala com vastas janelas que davam para um jardim. O som de água fluindo atraiu o olhar de Gwen para uma fonte no centro do pátio. Cores salpicavam e se misturavam a árvores e arbustos.

— Pensei que você tivesse uma queda por decoração moderna.

— Linhas retas, tudo em preto e branco... não combinam comigo. Talvez com alguns dos meus personagens. — Michael a convidou a se sentar. — Eu venho de uma cidade pequena, onde as pessoas se orgulham mais dos seus jardins que dos seus carros. Acho que um pouco disso me influenciou.

— Sinto admitir, mas eu não vi seus filmes.

— Sim, você me disse. E a mulher que vai me apresentar? Ela viu os meus filmes?

Gwen focou a atenção em seu cliente.

— A Karen soube quem você era assim que eu falei o seu nome.

— É minha fã?

— Fã seria abreviação de fanático. A Karen não se encanta com ninguém. Bem, talvez com uma criança com uma história triste para contar. Mas não com a fama. Nem com o dinheiro, acredite ou não.

Ele se recostou na cadeira e cruzou os braços sobre o peito largo.

— Então por que ela concordaria com esse casamento?

— Ela quer o dinheiro que o acordo vai lhe propiciar, sr. Wolfe, mas não para viver uma vida de opulência e ostentação — disse Gwen, estendendo os braços para indicar a sala em que estavam. — Este não é o tipo de vida que ela quer para sempre.

— Ainda não conheci ninguém que não quisesse isso.

Gwen pegou a pasta e estendeu para ele a ficha de Karen. Michael olhou a foto.

— Ela é linda.

Gwen deu de ombros.

— Se você se sentisse atraído por mulheres, poderia ficar tentado a manter esse casamento. Mas nós dois sabemos que isso não vai acontecer.

A checagem de Samantha havia encontrado o nome do primeiro amante de Michael, mas não muitos depois. Ele havia feito um excelente trabalho para manter sua vida pessoal em segredo.

Michael lhe ofereceu um meio sorriso e virou a página.

— Se importa se eu ler isto?

— Claro que não. É para isso que estou aqui.

— Posso lhe oferecer uma bebida?

— Água seria ótimo.

Ele foi até a cozinha e voltou com uma garrafa de água com gás para cada um. Ela pegou a sua e disse que ele não precisava se apressar.

Enquanto Michael lia as informações, Gwen foi até o jardim, deixando seu cliente à vontade para examiná-las. A ficha continha o perfil de Karen. Quais eram seus interesses, como ela se divertia... Até Samantha e Eliza a levarem para a Alliance, Karen havia administrado uma clínica para jovens com deficiência. Aparentemente, Karen tinha coração mole e gostava de ajudar pessoas menos afortunadas que ela. Sua única família era uma tia que havia se casado recentemente com um senhor rico que contratara a Alliance para lhe arranjar uma noiva. Ele queria uma mulher nova para irritar seus filhos e netos, que estavam brigando por sua riqueza. Karen aproximara sua tia Edie de Stanly e tudo saíra extraordinariamente bem.

— Essa mulher parece uma santa — disse Michael na porta.

— Vou falar isso para ela.

Ele se sentou em uma cadeira a seu lado, no jardim.

— Sério. Ninguém pode ser tão bom na vida real. — Jogou os papéis sobre a mesa. — Como ela é de verdade?

— Tudo o que está aí é verdade.

— Tudo bem, entendi. Mas como ela é?

Gwen pensou em dizer que Karen era uma mulher gentil e espirituosa, que ele a adoraria, mas decidiu dizer algo mais:

— Ontem à noite, quando eu estava assistindo ao noticiário, a Karen me chamou lá em cima para espionar nossos novos vizinhos.

Michael ergueu a sobrancelha.

— Espionar?

— Aparentemente nossos novos vizinhos, um casal de idosos pouco atraentes, decidiram que o quintal deles, visível de todas as casas ao redor, é um retiro nudista.

O sorriso de Michael demorou a chegar, mas então ele começou a rir.

— A Karen não é uma santa. Sim, tudo o que está aí é verdade. Ela é muito inteligente e engraçada. A língua dela nunca falha, mesmo quando as coisas vão mal. Eu sei que você é a estrela nessa equação, mas a Karen é o prêmio. E, quando o acordo com ela for selado, eu aposto que vocês vão ser amigos para sempre.

— Quando podemos nos conhecer?

Gwen ergueu o queixo. Perfeito.

Uma hora mais tarde, Michael acompanhava Gwen até o carro. Ela olhou ao redor da porta, à procura das câmeras que sentia que os observavam, mas não viu nada.

— O que você está procurando? — ele perguntou.

— Onde estão as câmeras de segurança?

As da casa de Gwen ficavam escondidas sob o beiral, mas nenhum dispositivo desse tipo podia ser visto sob o de Michael.

— Tem uma câmera no portão e só. E um sistema de alarme.

Gwen girou nos calcanhares.

— Achei que você teria mais segurança.

— Isso vai ser um problema para a Karen?

Ela balançou a cabeça.

— Não, de jeito nenhum.

Gwen olhou para trás. A paranoia do Neil está me contagiando.

 

— Eliza! — Gwen exclamou, abraçando a amiga. — Que bom te ver. Como vai a primeira-dama da Califórnia?

Gwen se afastou para deixá-la entrar.

— Terrivelmente ocupada — disse Eliza. — Nunca imaginei que o trabalho do Carter seria tão exigente para mim.

— A Sam e eu te avisamos sobre a sua posição.

Eliza ajeitou uma mecha do cabelo escuro atrás da orelha e jogou a bolsa na mesinha de centro.

— Achei que vocês estavam exagerando. Tem pelo menos um jantar político por semana, às vezes dois, dependendo de quem estiver na cidade. Almoços de mulheres, das quais eu nem gosto. Eu poderia ficar o dia inteiro num almoço se fosse com vocês. Inaugurações, viagens para Washington...

Mesmo resmungando, Eliza sorria.

— Quer sua antiga vida de volta?

— Não, a menos que eu possa levar o Carter comigo. Ele está amando o novo cargo. Vai ser difícil mudar as coisas no nosso estado, mas, se alguém pode fazer isso, é ele. E você, como está?

— Tudo bem. Acho que a Samantha te falou sobre a Karen.

Os olhos de Eliza se iluminaram.

— Você acha que vai acontecer?

— Eu planejaria ir a dois casamentos este ano, se fosse você — respondeu Gwen.

Blake havia feito Samantha se casar com ele em Las Vegas da primeira vez e vinha compensando esse erro todos os anos desde então.

— Que legal! A Karen já o conheceu?

— O encontro “casual” deles vai acontecer daqui a uma hora. Ela está no Boys and Girls Club nesse instante, onde ele vai fazer uma aparição inesperada.

— Gostaria de poder ver.

— Isso seria óbvio demais. Agora é com eles dois.

Eliza olhou ao redor da sala.

— Ela ainda vai trabalhar aqui? Ou vocês não falaram sobre isso?

— A maior parte do trabalho dela é online ou por telefone, de modo que vamos ajeitar tudo para ela trabalhar da casa do Michael.

— O que significa que você vai ficar aqui sozinha.

Gwen se levantou do sofá.

— Ah, por favor. Você também? — resmungou, indo para a cozinha.

— Eu também? — disse Eliza, seguindo-a.

Gwen tirou uma garrafa de chardonnay da geladeira e a levantou para Eliza ver.

— Ainda é cedo demais para um vinho?

— Nunca é cedo demais para um vinho.

Ótimo. Porque a conversa “você vai ficar aqui sozinha” precisa de uma bebida.

— Estou ficando cansada de as pessoas me tratarem como se eu fosse criança, incapaz de morar sozinha. Pouco depois que você mudou daqui, a Karen veio. Eu adorei a companhia, mas não preciso de uma babá.

— Acho que eu não disse nada sobre babás.

Gwen viu a dúvida no olhar de Eliza.

— A Samantha mencionou que eu vou ficar sozinha, e o Neil não para de vir aqui desde que soube do Michael e da Karen.

Gwen abriu o vinho, encheu duas taças e entregou uma para a amiga.

— Tenho certeza de que ter o Neil por aqui não é um problema para você.

Embora Gwen nunca tivesse confirmado seus sentimentos por Neil, Eliza sempre desconfiara de que eram mais profundos do que aqueles que uniam dois amigos. Só que Gwen nunca diria nada em uma casa monitorada por Neil, pois isso denunciaria como ela pensava nele.

— Está gostoso lá fora. Vamos até o quintal — ela sugeriu.

Lá a transmissão de áudio não era tão clara quanto Neil gostaria.

Sentada com seu vinho, Eliza começou:

— Muito bem, Gwen. O que está acontecendo?

— Ter o Neil por perto não é uma dificuldade, é um lembrete constante de que eu não fiquei com ninguém desde que me mudei para cá. Minha vida amorosa pode não ter sido ideal em casa... Na verdade, foi bem tediosa depois de um tempo. Relacionamentos previsíveis que geralmente acabavam uma semana depois de começar.

Eliza bebeu o vinho.

— Onde você conheceu os homens que namorou?

— Eram amigos da família, filhos de homens com quem meu pai trabalhava quando era vivo. Chatos, previsíveis. Nunca tive vontade de continuar com nenhum deles.

— Falando assim, parece que foram muitos.

— Nem tanto. Nos últimos meses, eu percebi como fui protegida. Morar aqui, embora seja muito diferente de morar em Albany, ainda é uma extensão dessa proteção. Tem sempre olhos me vigiando. Ultimamente até adquiri o hábito de olhar por cima do ombro para ver se tem alguém me seguindo.

— Pode ser o seu subconsciente. Você está acostumada com a segurança de ter pessoas por perto... Câmeras, alarmes...

Gwen brincava com a haste da taça, perseguindo a condensação com a unha bem tratada.

— Isso não é vida real, é?

— É a sua vida.

— Uma vida superprotegida, que eu não quero nem necessito.

Eliza se inclinou para a frente e baixou a voz:

— Ninguém sabe mais do que eu o que é ter seguranças indesejados observando cada movimento nosso. Mas você não pode ignorar o fato de que o seu irmão é um duque, e muito rico. Você tem um fundo fiduciário tão gordo que não consigo nem imaginar, e existem pessoas lá fora que não pensariam duas vezes em se aproximar de você só para se aproveitar. Eu entendo que você queira ter a sua liberdade. Aliás, você está muito mais esperta desde que se mudou para cá. Mas, para que possa se livrar de todo esse cuidado que as pessoas têm com você, vai ter que provar que é capaz de se cuidar sozinha. E provar não apenas para o seu irmão e para o Neil, mas para si mesma.

Gwen sabia que sua amiga estava certa. Olhar por cima do ombro era, em parte, insegurança e, em parte, paranoia. E ambas as coisas a faziam buscar o refúgio de sua casa ou a privacidade de seu carro. Para um dia ter sua própria vida e parar de depender de seu irmão, ela teria que começar a fazer algumas mudanças.

— Você está certa.

Eliza sorriu, satisfeita.

— Então temos um casamento na ilha para planejar.

— E você vai ser responsável pelos vestidos — disse Gwen, rindo.

Gwen havia escolhido os vestidos amarelos de madrinha que elas usaram no ano anterior na cerimônia de renovação de votos de Blake e Sam no Texas. Eliza odiara o vestido e se oferecera para escolher o de Aruba. Mas Gwen teria oportunidade de se redimir, já que Blake e Samantha renovavam os votos todo ano.

— É uma ilha... Estou pensando em algo mais simples. Uma cerimônia na praia, comida local, flores...

Gwen pensou no mar banhando a areia suavemente e sendo levado para longe com o pôr do sol.

— Vai ser lindo.

— Ótimo. Vou escolher os vestidos e os acessórios aqui, e vamos para a ilha alguns dias antes para concluir os detalhes necessários. Essa cerimônia vai ser menor. A Samantha quer apenas família e amigos íntimos.

— Nem todos os eventos precisam ser grandiosos — comentou Gwen.

— Ainda mais se você casa todo ano.

Gwen revirou os olhos.

— Eu ficaria satisfeita em casar uma vez só, muito obrigada.

Eliza terminou o vinho e entrou para pegar a garrafa.

— Você tem vontade de casar?

— Não quero morrer solteirona. — Ser a tia Gwen, a mulher que nunca se casou, nunca teve uma família própria. Não. Ela não queria isso como legado.

— Não seria difícil encontrar um marido, Gwen. Você só precisa estar disponível. Esperar que você-sabe-quem tome a iniciativa, o que talvez nunca aconteça, é desperdiçar o seu tempo.

Eliza encheu a taça de Gwen e a dela.

— Não estou esperando ninguém.

— Sei! Se você está mesmo querendo assumir as rédeas da sua vida, pode começar arrumando um encontro.

Gwen odiava o fato de sua amiga estar certa. Odiava ainda mais a covarde que espreitava dentro de sua cabeça e a impedia de ir ao bar mais próximo e escolher um homem, mesmo que para passar uma única noite.