Noiva até Sexta
Capítulo 10
— VOCÊ PODE VOLTAR ATRÁS — disse Gwen.
Ela e Karen estavam sentadas em um canto, no fundo de uma churrascaria Ruth’s Chris.
Karen sacudiu a cabeça.
— De jeito nenhum. — Baixou a voz. — O dinheiro já está aplicado.
— Não importa.
Karen sorriu.
— Vai ser um ano ótimo, Gwen. Como longas férias pagas, em que eu vou conhecer novos amigos e mimar as crianças do clube.
Gwen sentia que era seu dever dar a Karen a chance de desistir, se ela quisesse. Em tese, casar por um curto período de tempo em troca de um monte de dinheiro parecia factível... até a hora do “sim”, quando as dúvidas surgiam.
Gwen levantou sua taça de champanhe e a bateu na de Karen.
— A um ano maravilhoso.
— É isso aí!
Elas beberam, e Gwen prosseguiu:
— Você vai estar de volta antes de Aruba, né?
— Claro. Vai ser numa sexta-feira?
— Sim, por quê?
Gwen havia confirmado as datas com Samantha e Blake, que planejavam ir de Albany direto para Aruba.
— O Michael disse que tem quase todas as sextas livres. Mesmo que ele não possa ficar em Aruba, vai estar lá no dia da festa.
— É uma viagem meio longa para passar um dia.
— Aparentemente ele não concorda. Ele falou que faz esse tipo de coisa o tempo todo.
— Eu e a Eliza vamos antes. Você podia ir com a gente, se der.
— Vou tentar. Imagino que a sua mãe vem, certo?
Gwen não pensava nela havia algum tempo.
— Com certeza. Mas acho que eu não vou suportar mais um olhar piedoso dela.
— Como assim?
— Sempre a madrinha, nunca a noiva.
— Ah — disse Karen, passando manteiga em um pedaço de pão. — Tenho certeza de que ela só quer te ver feliz. Como a maioria das mães.
— Se pelo menos eu arrumasse um noivo até sexta, ela guardaria esses comentários para si.
Karen ergueu as sobrancelhas.
— Você tem um bocado de homens no banco de dados para levar em consideração.
Gwen sorriu.
— Eu não tinha pensado nisso.
E se ela começasse a entrevistar alguns homens para encontrar um acompanhante para a festa, como se sentiria aquele que a vigiava?
— Por outro lado, eu vou ser convidada para todo tipo de festa da indústria do cinema no próximo ano. Nunca se sabe quem eu vou conhecer — disse Karen.
O garçom chegou com os pratos. O rico aroma das carnes dominou a mesa. O fato de poder cortar o filé com um garfo tornava a experiência ainda melhor. Depois de encher os copos, o garçom se afastou.
— Teve notícias do Neil?
Gwen usou a desculpa de mastigar a comida para não responder de cara.
— Nada.
Karen sacudiu a cabeça.
— Qual é a dele, afinal? Era foi fuzileiro naval, certo?
— Sim.
— Acho que isso explica por que ele é chefe de segurança do seu irmão. Mas isso deveria significar que ele estaria ao lado do Blake vinte e quatro horas por dia. Mesmo que para isso precisasse acompanhar o Blake e a Sam até a Europa.
— As únicas vezes que ele foi para Albany, foi para festas e eventos pessoais. Caso contrário, ele sempre ficou aqui — explicou Gwen.
— Para vigiar a casa? Parece um exagero, na minha opinião.
— O Blake disse que eles eram amigos antes de ele contratar o Neil como guarda-costas. A Samantha deu a entender que o Neil tem algum tipo de lealdade com o meu irmão, mas não sei o motivo.
Karen deu uma garfada no filé.
— Meu Deus, que delícia.
— O melhor.
— Você acha que o Neil salvou a pele do seu irmão em uma briga ou algo do tipo?
— O meu irmão não briga. — Não com os punhos, pelo menos.
Karen riu.
— Todo homem briga, se precisar. Está no DNA deles.
— Eu discordo completamente. Conheci homens que choravam com um corte no dedo com papel — disse Gwen.
Karen revirou os olhos.
— Tudo bem, eu quis dizer homens como o Blake e o Neil. O Blake não deixaria de socar alguém se fosse provocado.
— Acho que você tem razão. Eu não sei o que aconteceu entre eles que levou o Neil a trabalhar para o meu irmão. Mas acho que um dia vou descobrir.
Talvez fosse o momento de perguntar ao seu irmão, ou pedir a Samantha que descobrisse isso para ela.
— O Neil parece tão bravo o tempo todo...
Gwen sentiu necessidade de defendê-lo.
— Alerta, não bravo.
Ela recordou a expressão do rosto dele quando brigara com os caubóis no Texas. Seus olhos cor de avelã se transformaram em uma sombra escura, e os músculos do pescoço se retesavam a cada respiração. Ali sim ele estava bravo.
— Alerta, bravo, dá na mesma. Acho que nunca o vi sorrindo.
— É devastador quando ele sorri... — Gwen ficou ofegante só de pensar no sorriso de Neil.
— Caramba, você está mesmo de quatro. Espero que não perca tempo com ele.
— Posso te contar uma coisa?
Karen se inclinou para a frente.
— Um dia desses, quando fomos ao campo de tiro... eu podia jurar que ele ia me beijar.
Karen piscou.
— E?
— Não sei. Ele recuou. Fugiu, na verdade. Como se eu o tivesse mordido ou algo assim. Você acha que o Neil não está aproveitando o que eu disse com todas as letras que ele poderia ter porque trabalha para o meu irmão?
Karen balançou a cabeça.
— Não. Tenho certeza que não. Se trabalhar para o seu irmão fosse um obstáculo para chegar em você e ele te quisesse, ele pediria demissão.
Gwen suspirou.
— Acho que isso significa que ele não me quer.
— O cara te segue e te vigia como se você fosse de vidro.
— A obrigação de cuidar de mim não significa que ele me quer.
— Você disse que ele quase te beijou — apontou Karen, dando um gole no vinho.
— E depois fugiu. A gente não se vê desde aquele dia.
— Algo o está impedindo, Gwen. Descubra o que é — disse Karen — e você vai encontrar o problema.
Ela tinha razão.
— Será que teve alguma outra mulher... alguém que o machucou?
— Nunca se sabe.
Gwen remexeu a comida.
— Mesmo se eu descobrir o que é, não existe nenhuma garantia de que ele vai voltar a se aproximar — disse, e o pensamento a deixou deprimida.
— É verdade. Mas você prefere nunca saber se as coisas poderiam ter dado certo com ele? Enquanto ele trabalhar para o seu irmão, você vai vê-lo o tempo todo.
— Não sei o que fazer — admitiu Gwen.
— A vida é uma só, Gwen. E você é a pessoa mais romântica que eu conheço. Siga o seu coração.
— Então eu devo esperar por ele?
— A espera pode ser longa. Eu nunca diria para você ter esperança se ele não demonstrasse interesse. Acho que você deve estabelecer um prazo para você mesma e depois partir para outra. Eu sei que você deu um ultimato para ele aquela noite, mas você não está pronta para seguir em frente.
— Não depois do campo de tiro.
Karen sorriu.
— Só me promete que não vamos ter essa mesma conversa na minha festa de divórcio no ano que vem... Se o Neil não tomar a iniciativa, vou fazer você superá-lo na marra.
— Vamos brindar a isso.
E foi o que fizeram.
Em seguida acabaram de comer e foram para o estacionamento. Desde que Karen tinha começado a namorar Michael, a mídia e muitos fotógrafos estavam sempre por perto.
— Parece que os paparazzi tiraram a noite de folga — disse ela.
Gwen pegou as chaves na bolsa enquanto caminhavam até o carro.
— Ainda assim, sinto que alguém está me observando — comentou.
— Eu diria que você é paranoica, mas tenho que concordar. Desde que eu e o Michael começamos a namorar, sempre sinto olhos colados em mim. — Karen girou sobre os calcanhares. — Se alguém está nos observando, acho que o negócio é com você. Os caras que me perseguem não se importam de ser vistos.
— O Neil? — Gwen riu. — Você acha?
Talvez ele gostasse dela, afinal.
Karen estava indo para o lado do passageiro quando gritou:
— Eca!
— Que foi?
Ela se afastou do carro e olhou para o chão.
— O que está acontecendo com esses pássaros suicidas?
A seus pés havia outro corvo morto, maior que o último.
— Será que alguém descobriu que você detesta pássaros?
Karen arregalou os olhos.
— Ah, você não acha que... Ai, caramba! Você acha que isso aqui é proposital?
Gwen se abaixou e jogou o pássaro num canto.
— Duas aves mortas em duas semanas. Acho que é possível.
— Isso é doentio.
— Anda, vamos para casa.
Nessa noite, elas trancaram todas as portas de casa e checaram todas as janelas... duas vezes.
A notícia do casamento de Michael e Karen estava por toda parte na sexta-feira à noite. A imprensa os seguira até Nova York e relatara que eles haviam partido em um jato particular, cortesia de lorde e lady Harrison, rumo à França.
Samantha insistira em emprestar o avião. Um voo de lua de mel até a França era uma lembrança para os recém-casados.
No domingo à noite os repórteres, que tentaram tirar informações de Gwen, já tinham abandonado o bairro. Ela recebera três telefonemas nas últimas trinta e seis horas: um de Eliza, querendo saber como ela estava; um de Samantha, que ligara para ver se Gwen “precisava de alguma coisa”.
E um de sua mãe.
— Você devia voltar para Albany.
— Isso não vai acontecer, mãe.
Linda sempre fora muito correta e direta.
— Você não está preparada para viver sozinha, Gwendolyn. O Blake e a Samantha nem estão aí.
— Mãe, por favor, eu não sou mais criança.
Ah, Deus, o Neil deve estar adorando essa conversa. Isso, claro, se ele estivesse ouvindo. Gwen olhou para o monitor de vídeo e revirou os olhos.
— E se eu disser que me sinto sozinha? — Linda perguntou.
— Eu sugeriria que você arranjasse um amante.
Isso deve calar a mamãe.
— Gwen!
— Que foi?
— As pessoas não saem simplesmente e arranjam um amante.
Gwen riu.
— Tem razão. As pessoas escolhem um amante.
Linda fez uma pausa.
— Foi isso que você fez? Tem um homem na sua vida?
— Se eu te dissesse que sim, você me deixaria em paz?
— Eu insistiria em conhecê-lo — argumentou Linda.
— Nesse caso, não vou dizer.
— Você não era tão difícil quando morava aqui.
Não. Ela sempre fora perfeita: a filha perfeita, a irmã perfeita. Talvez fosse isso que a atraía em Neil. Ele não era perfeito. Tinha um jeito duro, ríspido e difícil.
— Gwendolyn? Você ainda está aí?
— Sim. E é exatamente onde pretendo ficar.
— Ah, muito bem. Mas esteja preparada para se sentir culpada quando nos encontrarmos em Aruba.
Gwen riu.
— Eu não esperaria nada menos. Te amo.
— Eu também te amo, querida.
Gwen sorria ao desligar o telefone.
Neil virou a arma de choque nas mãos. Aquela maldita coisa era rosa.
Ele sentiu um sorriso genuíno nos lábios quando olhou para aquilo. Somente Gwen usaria uma arma de choque cor-de-rosa. No começo ele pensara: Pelo amor de Deus... Eu não vou comprar uma arma cor-de-rosa.
Mas era para Gwen, sua bolinha de fogo loira que portava uma arma com orgulho e determinação. Sua? Ele precisava mesmo parar de pensar nela como sua.
O celular tocou, afastando Gwen e a arma de choque cor-de-rosa de sua cabeça.
— Alô?
— Oi, Mac.
— Rick.
— Parece que o Mickey voltou ao trabalho diário.
— Confirmado?
— Porra, Mac. Você sabe que isso é impossível. Quando se está na surdina, ninguém sabe merda nenhuma.
Neil lembrava. Sua última missão havia sido tão camuflada que ele e seus homens não sabiam o que fariam até estarem no ar. Não havia ordens oficiais nem arquivos. O que acontecera no Afeganistão não acontecera. Não oficialmente, pelo menos.
As mortes em sua equipe foram malditos “acidentes de treinamento”.
— Eu me sentiria melhor se soubesse onde ele está.
— Nós dois, parceiro.
— Para onde você vai agora?
— Para a casa do Billy.
— Pode ser uma armadilha.
Neil devia ir com ele.
— Eu não sou casado, Mac. Minha família acha que eu sou louco e mantém distância. Não tem nenhuma bobagem emocional que esse bosta possa usar contra mim.
Neil passou a mão pelo queixo barbado.
— Seria bom algum apoio, cara — Rick falou.
Neil olhou para a arma de choque. Talvez fosse hora de seguir em frente.
— Só preciso cuidar de umas coisas antes.
Rick deu um assobio, animado.
— Caralho! Eu sabia que podia contar com você.
— Onde você está?
— No estado de Washington. Vamos nos encontrar no Colorado daqui a quatro dias. É tempo suficiente para você?
Neil olhou as paredes vazias do que ele chamava de lar.
— É.
— Rock and roll! Vai ser como nos velhos tempos.
Neil pensou naqueles que não voltaram para casa. Espero que não.
Por mais que Neil quisesse deixar a atuação para o homem com quem Karen havia acabado de se casar, ele precisava pôr fim a todas as ideias românticas que Gwen tinha em relação a ele. Ele iria jogar com a mente dela e acabar com qualquer coisa que pudesse ter existido entre eles.
Precisava fazer isso.
Sua conversa com Smiley o fizera lembrar por que homens como ele não tinham uma vida normal. Vide o que o amor custara a Billy. Duzentos soldados talibãs armados até os dentes, dispostos a se explodir por uma causa, não haviam pegado Billy... Mas mexeram com a mulher dele, e agora seu amigo estava morto. E as chances de encontrá-la viva eram menores que zero.
Neil poderia ser responsável pela própria vida, mas não pela de Gwen.
Ele foi até os fundos da casa de Malibu e entrou na cozinha. Mary estava à mesa, rodeada por tubos de cola e jornais.
— O que está fazendo?
— Posso garantir que não estou cozinhando.
Os recortes de jornal eram fotos de Karen e Michael estampadas em todos os tabloides de Los Angeles. Neil notou uma de Karen e Gwen na varanda de um café.
— É um álbum de recortes para a Karen. O que você acha: estou entediada ou não?
Mary era uma boa mulher.
— Mulheres gostam dessas coisas — Neil observou.
Ela levantou um jornal e olhou o que estava embaixo.
— Sim, gostam.
Gwen era como uma obra de arte diante da lente de uma câmera, pensou Neil. Olhou a foto mais de perto.
As duas estavam ao lado do carro de Gwen, que segurava algo preto na mão.
Neil pegou o jornal.
— Ei, você vai estragar a minha organização! — Mary o repreendeu.
Ele leu a legenda abaixo da foto: “Lady Gwen não é tão frágil quanto parece. Foi ela quem tirou um corvo morto do caminho de Karen Jones”.
Cada músculo do corpo de Neil se contraiu. Virou o jornal nas mãos; o artigo havia sido publicado uma semana atrás.
— Jesus...
Um corvo morto. As palavras de Rick voltaram a sua mente. Encontraram uma gralha morta enfiada no casaco do Billy.
— Neil? Qual é o problema?
— Tenho que ir.
Ele correu da casa principal para a dele. Checou os monitores e as transmissões de Tarzana. Viu Gwen de roupão lavando a louça. Pegou o telefone e viu quando ela atendeu.
— Oi, Neil.
Os detectores de movimento do quintal estavam confusos novamente.
— Neil?
— O que está acontecendo no quintal?
— De novo isso? Lembra o que falamos? Um simples “oi”...
— Caramba, Gwendolyn. Corta esse papo.
— Não seja grosso comigo, Neil MacBain, ou eu desligo o telefone. Não está acontecendo nada no meu quintal.
Ela estava irritada. Não era algo que ele via com frequência, mas pelo menos Gwen havia respondido à sua pergunta.
— Os vizinhos estão na banheira de novo?
Havia um leve brilho além do alcance dos monitores.
— Não sei. Acho que sim.
— Vá verificar.
— Neil, que bobagem. Nós dois sabemos que não tem ninguém andando no meu quintal.
Ele apertou o telefone com tanta força que o ouviu estalar.
— Por favor, Gwen. Vá olhar.
Ela virou as costas para a câmera da cozinha, jogou o pano de prato no balcão e subiu as escadas.
— Esta é a última vez, Neil. Da próxima vez que esse detector ficar maluco, você vai ter que vir aqui checar.
Gwen entrou em seu quarto, fora do alcance dos monitores de vídeo.
E então gritou.