Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 13 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 10

 

— VOCÊ PODE VOLTAR ATRÁS — disse Gwen.

Ela e Karen estavam sentadas em um canto, no fundo de uma churrascaria Ruth’s Chris.

Karen sacudiu a cabeça.

— De jeito nenhum. — Baixou a voz. — O dinheiro já está aplicado.

— Não importa.

Karen sorriu.

— Vai ser um ano ótimo, Gwen. Como longas férias pagas, em que eu vou conhecer novos amigos e mimar as crianças do clube.

Gwen sentia que era seu dever dar a Karen a chance de desistir, se ela quisesse. Em tese, casar por um curto período de tempo em troca de um monte de dinheiro parecia factível... até a hora do “sim”, quando as dúvidas surgiam.

Gwen levantou sua taça de champanhe e a bateu na de Karen.

— A um ano maravilhoso.

— É isso aí!

Elas beberam, e Gwen prosseguiu:

— Você vai estar de volta antes de Aruba, né?

— Claro. Vai ser numa sexta-feira?

— Sim, por quê?

Gwen havia confirmado as datas com Samantha e Blake, que planejavam ir de Albany direto para Aruba.

— O Michael disse que tem quase todas as sextas livres. Mesmo que ele não possa ficar em Aruba, vai estar lá no dia da festa.

— É uma viagem meio longa para passar um dia.

— Aparentemente ele não concorda. Ele falou que faz esse tipo de coisa o tempo todo.

— Eu e a Eliza vamos antes. Você podia ir com a gente, se der.

— Vou tentar. Imagino que a sua mãe vem, certo?

Gwen não pensava nela havia algum tempo.

— Com certeza. Mas acho que eu não vou suportar mais um olhar piedoso dela.

— Como assim?

— Sempre a madrinha, nunca a noiva.

— Ah — disse Karen, passando manteiga em um pedaço de pão. — Tenho certeza de que ela só quer te ver feliz. Como a maioria das mães.

— Se pelo menos eu arrumasse um noivo até sexta, ela guardaria esses comentários para si.

Karen ergueu as sobrancelhas.

— Você tem um bocado de homens no banco de dados para levar em consideração.

Gwen sorriu.

— Eu não tinha pensado nisso.

E se ela começasse a entrevistar alguns homens para encontrar um acompanhante para a festa, como se sentiria aquele que a vigiava?

— Por outro lado, eu vou ser convidada para todo tipo de festa da indústria do cinema no próximo ano. Nunca se sabe quem eu vou conhecer — disse Karen.

O garçom chegou com os pratos. O rico aroma das carnes dominou a mesa. O fato de poder cortar o filé com um garfo tornava a experiência ainda melhor. Depois de encher os copos, o garçom se afastou.

— Teve notícias do Neil?

Gwen usou a desculpa de mastigar a comida para não responder de cara.

— Nada.

Karen sacudiu a cabeça.

— Qual é a dele, afinal? Era foi fuzileiro naval, certo?

— Sim.

— Acho que isso explica por que ele é chefe de segurança do seu irmão. Mas isso deveria significar que ele estaria ao lado do Blake vinte e quatro horas por dia. Mesmo que para isso precisasse acompanhar o Blake e a Sam até a Europa.

— As únicas vezes que ele foi para Albany, foi para festas e eventos pessoais. Caso contrário, ele sempre ficou aqui — explicou Gwen.

— Para vigiar a casa? Parece um exagero, na minha opinião.

— O Blake disse que eles eram amigos antes de ele contratar o Neil como guarda-costas. A Samantha deu a entender que o Neil tem algum tipo de lealdade com o meu irmão, mas não sei o motivo.

Karen deu uma garfada no filé.

— Meu Deus, que delícia.

— O melhor.

— Você acha que o Neil salvou a pele do seu irmão em uma briga ou algo do tipo?

— O meu irmão não briga. — Não com os punhos, pelo menos.

Karen riu.

— Todo homem briga, se precisar. Está no DNA deles.

— Eu discordo completamente. Conheci homens que choravam com um corte no dedo com papel — disse Gwen.

Karen revirou os olhos.

— Tudo bem, eu quis dizer homens como o Blake e o Neil. O Blake não deixaria de socar alguém se fosse provocado.

— Acho que você tem razão. Eu não sei o que aconteceu entre eles que levou o Neil a trabalhar para o meu irmão. Mas acho que um dia vou descobrir.

Talvez fosse o momento de perguntar ao seu irmão, ou pedir a Samantha que descobrisse isso para ela.

— O Neil parece tão bravo o tempo todo...

Gwen sentiu necessidade de defendê-lo.

— Alerta, não bravo.

Ela recordou a expressão do rosto dele quando brigara com os caubóis no Texas. Seus olhos cor de avelã se transformaram em uma sombra escura, e os músculos do pescoço se retesavam a cada respiração. Ali sim ele estava bravo.

— Alerta, bravo, dá na mesma. Acho que nunca o vi sorrindo.

— É devastador quando ele sorri... — Gwen ficou ofegante só de pensar no sorriso de Neil.

— Caramba, você está mesmo de quatro. Espero que não perca tempo com ele.

— Posso te contar uma coisa?

Karen se inclinou para a frente.

— Um dia desses, quando fomos ao campo de tiro... eu podia jurar que ele ia me beijar.

Karen piscou.

— E?

— Não sei. Ele recuou. Fugiu, na verdade. Como se eu o tivesse mordido ou algo assim. Você acha que o Neil não está aproveitando o que eu disse com todas as letras que ele poderia ter porque trabalha para o meu irmão?

Karen balançou a cabeça.

— Não. Tenho certeza que não. Se trabalhar para o seu irmão fosse um obstáculo para chegar em você e ele te quisesse, ele pediria demissão.

Gwen suspirou.

— Acho que isso significa que ele não me quer.

— O cara te segue e te vigia como se você fosse de vidro.

— A obrigação de cuidar de mim não significa que ele me quer.

— Você disse que ele quase te beijou — apontou Karen, dando um gole no vinho.

— E depois fugiu. A gente não se vê desde aquele dia.

— Algo o está impedindo, Gwen. Descubra o que é — disse Karen — e você vai encontrar o problema.

Ela tinha razão.

— Será que teve alguma outra mulher... alguém que o machucou?

— Nunca se sabe.

Gwen remexeu a comida.

— Mesmo se eu descobrir o que é, não existe nenhuma garantia de que ele vai voltar a se aproximar — disse, e o pensamento a deixou deprimida.

— É verdade. Mas você prefere nunca saber se as coisas poderiam ter dado certo com ele? Enquanto ele trabalhar para o seu irmão, você vai vê-lo o tempo todo.

— Não sei o que fazer — admitiu Gwen.

— A vida é uma só, Gwen. E você é a pessoa mais romântica que eu conheço. Siga o seu coração.

— Então eu devo esperar por ele?

— A espera pode ser longa. Eu nunca diria para você ter esperança se ele não demonstrasse interesse. Acho que você deve estabelecer um prazo para você mesma e depois partir para outra. Eu sei que você deu um ultimato para ele aquela noite, mas você não está pronta para seguir em frente.

— Não depois do campo de tiro.

Karen sorriu.

— Só me promete que não vamos ter essa mesma conversa na minha festa de divórcio no ano que vem... Se o Neil não tomar a iniciativa, vou fazer você superá-lo na marra.

— Vamos brindar a isso.

E foi o que fizeram.

Em seguida acabaram de comer e foram para o estacionamento. Desde que Karen tinha começado a namorar Michael, a mídia e muitos fotógrafos estavam sempre por perto.

— Parece que os paparazzi tiraram a noite de folga — disse ela.

Gwen pegou as chaves na bolsa enquanto caminhavam até o carro.

— Ainda assim, sinto que alguém está me observando — comentou.

— Eu diria que você é paranoica, mas tenho que concordar. Desde que eu e o Michael começamos a namorar, sempre sinto olhos colados em mim. — Karen girou sobre os calcanhares. — Se alguém está nos observando, acho que o negócio é com você. Os caras que me perseguem não se importam de ser vistos.

— O Neil? — Gwen riu. — Você acha?

Talvez ele gostasse dela, afinal.

Karen estava indo para o lado do passageiro quando gritou:

— Eca!

— Que foi?

Ela se afastou do carro e olhou para o chão.

— O que está acontecendo com esses pássaros suicidas?

A seus pés havia outro corvo morto, maior que o último.

— Será que alguém descobriu que você detesta pássaros?

Karen arregalou os olhos.

— Ah, você não acha que... Ai, caramba! Você acha que isso aqui é proposital?

Gwen se abaixou e jogou o pássaro num canto.

— Duas aves mortas em duas semanas. Acho que é possível.

— Isso é doentio.

— Anda, vamos para casa.

Nessa noite, elas trancaram todas as portas de casa e checaram todas as janelas... duas vezes.

 

A notícia do casamento de Michael e Karen estava por toda parte na sexta-feira à noite. A imprensa os seguira até Nova York e relatara que eles haviam partido em um jato particular, cortesia de lorde e lady Harrison, rumo à França.

Samantha insistira em emprestar o avião. Um voo de lua de mel até a França era uma lembrança para os recém-casados.

No domingo à noite os repórteres, que tentaram tirar informações de Gwen, já tinham abandonado o bairro. Ela recebera três telefonemas nas últimas trinta e seis horas: um de Eliza, querendo saber como ela estava; um de Samantha, que ligara para ver se Gwen “precisava de alguma coisa”.

E um de sua mãe.

— Você devia voltar para Albany.

— Isso não vai acontecer, mãe.

Linda sempre fora muito correta e direta.

— Você não está preparada para viver sozinha, Gwendolyn. O Blake e a Samantha nem estão aí.

— Mãe, por favor, eu não sou mais criança.

Ah, Deus, o Neil deve estar adorando essa conversa. Isso, claro, se ele estivesse ouvindo. Gwen olhou para o monitor de vídeo e revirou os olhos.

— E se eu disser que me sinto sozinha? — Linda perguntou.

— Eu sugeriria que você arranjasse um amante.

Isso deve calar a mamãe.

— Gwen!

— Que foi?

— As pessoas não saem simplesmente e arranjam um amante.

Gwen riu.

— Tem razão. As pessoas escolhem um amante.

Linda fez uma pausa.

— Foi isso que você fez? Tem um homem na sua vida?

— Se eu te dissesse que sim, você me deixaria em paz?

— Eu insistiria em conhecê-lo — argumentou Linda.

— Nesse caso, não vou dizer.

— Você não era tão difícil quando morava aqui.

Não. Ela sempre fora perfeita: a filha perfeita, a irmã perfeita. Talvez fosse isso que a atraía em Neil. Ele não era perfeito. Tinha um jeito duro, ríspido e difícil.

— Gwendolyn? Você ainda está aí?

— Sim. E é exatamente onde pretendo ficar.

— Ah, muito bem. Mas esteja preparada para se sentir culpada quando nos encontrarmos em Aruba.

Gwen riu.

— Eu não esperaria nada menos. Te amo.

— Eu também te amo, querida.

Gwen sorria ao desligar o telefone.

 

Neil virou a arma de choque nas mãos. Aquela maldita coisa era rosa.

Ele sentiu um sorriso genuíno nos lábios quando olhou para aquilo. Somente Gwen usaria uma arma de choque cor-de-rosa. No começo ele pensara: Pelo amor de Deus... Eu não vou comprar uma arma cor-de-rosa.

Mas era para Gwen, sua bolinha de fogo loira que portava uma arma com orgulho e determinação. Sua? Ele precisava mesmo parar de pensar nela como sua.

O celular tocou, afastando Gwen e a arma de choque cor-de-rosa de sua cabeça.

— Alô?

— Oi, Mac.

— Rick.

— Parece que o Mickey voltou ao trabalho diário.

— Confirmado?

— Porra, Mac. Você sabe que isso é impossível. Quando se está na surdina, ninguém sabe merda nenhuma.

Neil lembrava. Sua última missão havia sido tão camuflada que ele e seus homens não sabiam o que fariam até estarem no ar. Não havia ordens oficiais nem arquivos. O que acontecera no Afeganistão não acontecera. Não oficialmente, pelo menos.

As mortes em sua equipe foram malditos “acidentes de treinamento”.

— Eu me sentiria melhor se soubesse onde ele está.

— Nós dois, parceiro.

— Para onde você vai agora?

— Para a casa do Billy.

— Pode ser uma armadilha.

Neil devia ir com ele.

— Eu não sou casado, Mac. Minha família acha que eu sou louco e mantém distância. Não tem nenhuma bobagem emocional que esse bosta possa usar contra mim.

Neil passou a mão pelo queixo barbado.

— Seria bom algum apoio, cara — Rick falou.

Neil olhou para a arma de choque. Talvez fosse hora de seguir em frente.

— Só preciso cuidar de umas coisas antes.

Rick deu um assobio, animado.

— Caralho! Eu sabia que podia contar com você.

— Onde você está?

— No estado de Washington. Vamos nos encontrar no Colorado daqui a quatro dias. É tempo suficiente para você?

Neil olhou as paredes vazias do que ele chamava de lar.

— É.

— Rock and roll! Vai ser como nos velhos tempos.

Neil pensou naqueles que não voltaram para casa. Espero que não.

 

Por mais que Neil quisesse deixar a atuação para o homem com quem Karen havia acabado de se casar, ele precisava pôr fim a todas as ideias românticas que Gwen tinha em relação a ele. Ele iria jogar com a mente dela e acabar com qualquer coisa que pudesse ter existido entre eles.

Precisava fazer isso.

Sua conversa com Smiley o fizera lembrar por que homens como ele não tinham uma vida normal. Vide o que o amor custara a Billy. Duzentos soldados talibãs armados até os dentes, dispostos a se explodir por uma causa, não haviam pegado Billy... Mas mexeram com a mulher dele, e agora seu amigo estava morto. E as chances de encontrá-la viva eram menores que zero.

Neil poderia ser responsável pela própria vida, mas não pela de Gwen.

Ele foi até os fundos da casa de Malibu e entrou na cozinha. Mary estava à mesa, rodeada por tubos de cola e jornais.

— O que está fazendo?

— Posso garantir que não estou cozinhando.

Os recortes de jornal eram fotos de Karen e Michael estampadas em todos os tabloides de Los Angeles. Neil notou uma de Karen e Gwen na varanda de um café.

— É um álbum de recortes para a Karen. O que você acha: estou entediada ou não?

Mary era uma boa mulher.

— Mulheres gostam dessas coisas — Neil observou.

Ela levantou um jornal e olhou o que estava embaixo.

— Sim, gostam.

Gwen era como uma obra de arte diante da lente de uma câmera, pensou Neil. Olhou a foto mais de perto.

As duas estavam ao lado do carro de Gwen, que segurava algo preto na mão.

Neil pegou o jornal.

— Ei, você vai estragar a minha organização! — Mary o repreendeu.

Ele leu a legenda abaixo da foto: “Lady Gwen não é tão frágil quanto parece. Foi ela quem tirou um corvo morto do caminho de Karen Jones”.

Cada músculo do corpo de Neil se contraiu. Virou o jornal nas mãos; o artigo havia sido publicado uma semana atrás.

— Jesus...

Um corvo morto. As palavras de Rick voltaram a sua mente. Encontraram uma gralha morta enfiada no casaco do Billy.

— Neil? Qual é o problema?

— Tenho que ir.

Ele correu da casa principal para a dele. Checou os monitores e as transmissões de Tarzana. Viu Gwen de roupão lavando a louça. Pegou o telefone e viu quando ela atendeu.

— Oi, Neil.

Os detectores de movimento do quintal estavam confusos novamente.

— Neil?

— O que está acontecendo no quintal?

— De novo isso? Lembra o que falamos? Um simples “oi”...

— Caramba, Gwendolyn. Corta esse papo.

— Não seja grosso comigo, Neil MacBain, ou eu desligo o telefone. Não está acontecendo nada no meu quintal.

Ela estava irritada. Não era algo que ele via com frequência, mas pelo menos Gwen havia respondido à sua pergunta.

— Os vizinhos estão na banheira de novo?

Havia um leve brilho além do alcance dos monitores.

— Não sei. Acho que sim.

— Vá verificar.

— Neil, que bobagem. Nós dois sabemos que não tem ninguém andando no meu quintal.

Ele apertou o telefone com tanta força que o ouviu estalar.

— Por favor, Gwen. Vá olhar.

Ela virou as costas para a câmera da cozinha, jogou o pano de prato no balcão e subiu as escadas.

— Esta é a última vez, Neil. Da próxima vez que esse detector ficar maluco, você vai ter que vir aqui checar.

Gwen entrou em seu quarto, fora do alcance dos monitores de vídeo.

E então gritou.