Noiva até Sexta
Capítulo 25
COMO ELE A DEIXARIA? VOCÊ está envolvido, Mac. Envolvido demais.
Eles haviam feito amor tantas vezes na noite anterior, e em tantas posições, que ele achava que ela não conseguiria andar de manhã. Felizmente conseguiu. Toda a cautela fora por água abaixo pelo fato de eles não usarem camisinha, mas Neil estava tranquilo. Pensar que ela poderia carregar um filho seu o fazia se sentir um deus. E isso era novidade para ele.
Ele praticamente intimidara Gwen para se casar e mentira para conseguir o que queria. Em algum momento, teria que confessar. Mas isso ele faria depois.
Bem cedo, ligou para Rick para saber se o amigo estava perto. Ele havia feito um ótimo tempo e estava subindo a montanha para achar o acampamento. Rick também ligara para a linha fixa de Neil, na Califórnia, para chamar a atenção do canalha que os perseguia. Ele e Rick tinham que pensar em todas as possibilidades. O Gralha poderia ter acesso a um avião ou a um voo comercial, que o levaria para lá em questão de horas. Ou talvez fosse de carro. Era difícil saber. Neil não tinha condições de concluir se esperariam o sujeito por algumas horas ou alguns dias. Nesse meio-tempo, não podia arriscar entrar em contato com Gwen. Neil queria que o Gralha pensasse que os dois estavam se escondendo juntos. Esse homem procurava uma mulher vulnerável como isca, e Neil exploraria isso ao máximo.
Gwen afofou os travesseiros pela terceira vez em dez minutos, sem conseguir esconder a ansiedade.
— Você vai estar a salvo aqui.
— Não estou preocupada com a minha segurança.
— Não precisa se preocupar comigo.
— Tarde demais — disse ela, tentando sorrir. — Eu me sentiria melhor se soubesse o que você planeja fazer.
Gwen pegou um dos travesseiros e o puxou para o colo enquanto se sentava na beirada da cama.
— Nós vamos atrair o desgraçado e entregá-lo para a justiça.
Falar era fácil; fazer, nem tanto.
— Parece fácil. Como você sabe que ele vai te encontrar lá em cima?
— Não vai ser difícil me encontrar.
— Ele não vai perceber? Pode descobrir que é uma armadilha e não aparecer.
Essa era sempre uma possibilidade.
— Duvido que isso aconteça. Quanto mais tempo esse sujeito ficar escondido, mais pessoas vão estar de olho nele. Agora, com você em segurança, ele não vai ter escolha a não ser vir atrás de mim.
— A menos que ele desista.
— Eu poderia avaliar isso melhor se soubesse exatamente por que ele está atrás de mim. Mas não sei. Duvido que ele desista, Gwen.
Ele foi até ela e pegou a carteira do bolso de trás da calça, de onde tirou uma foto dele e do seu regimento, antes da última missão.
Ela pegou a foto das mãos dele e apontou:
— Este aqui é você.
Vários anos mais jovem, com menos peso sobre os ombros.
— E este é o Rick — disse ele, indicando o homem ao seu lado. — Nós o chamávamos de Smiley. É ele que está vindo para me ajudar a encontrar o sujeito.
Gwen apontou para o homem seguinte.
— Quem é este?
— O Billy. O que dizem que cometeu suicídio.
— Ele parece tão jovem.
— E era. — Agora, estava morto. — E este aqui é o Mickey, o outro que ainda está vivo.
— Você sabe onde ele está?
— As missões são ultrassecretas, não faço a menor ideia. Estes são o Boomer e o Robb. — Não havia sobrado muito deles para trazer de volta ao país e enterrar, mas Neil não disse isso a Gwen. — O Linden quase conseguiu sair vivo. Eram ótimos caras. Eu falhei com eles uma vez e não posso fazer isso de novo.
Gwen colocou a mão no braço dele.
— Tenho certeza que eles não te culpam.
Alguém na missão culpava... todos eles.
— Eu liderava a operação, Gwen. Fui responsável pela morte deles.
Ela endireitou os ombros e lhe lançou um olhar severo.
— É mesmo? Você apertou o gatilho? Você os jogou de um avião sem paraquedas?
— Não.
— Então não quero mais ouvir você falar que é culpado por essas mortes infelizes. Se os seus superiores achassem que você era culpado, você estaria preso, e não foi isso que aconteceu. É hora de se perdoar pela morte dessas pessoas, Neil. Quando fizer isso, poderá seguir em frente com a sua vida. Caso contrário, não vai conseguir dormir e não vai ter um minuto de paz.
Isso descrevia a existência dele até então, ou melhor, até ela entrar em sua vida.
— Como você é tão esperta? — ele perguntou, pegando sua mão e a beijando.
— Escola de Princesas. Está no meu currículo — ela respondeu, rindo.
Ele a beijou suavemente, como fazem as pessoas quando se despedem.
— Você vai ficar bem aqui. Fique na base — disse ele. — E não saia de casa sozinha.
— Quando você acha que vai voltar?
— Em poucos dias. — E, como tinha de dizer algo para o caso de não voltar, acrescentou: — Se eu não voltar em uma semana, o Chuck vai entrar em contato com o Blake.
O sorriso de Gwen desapareceu.
— Você vai voltar.
Ou morrer tentando.
Blake estava ao lado de seu melhor amigo, Carter, e olhava pelo vidro espelhado enquanto Dean e Jim interrogavam o pobre adolescente apaixonado por Karen. Não haviam se passado nem dez minutos de interrogatório e Blake sabia que estavam procurando no lugar errado.
— Este não é o nosso homem.
Carter sacudiu a cabeça.
— Concordo.
Na sala ao lado, Juan finalmente entendeu o problema e começou a ficar preocupado.
— Alguém está tentando machucar a srta. Jones? É isso que vocês acham que eu faria?
— Não sabemos, Juan. Por que você não conta para a gente? — Jim perguntou.
— Ela é como a nossa mãe.
— Mãe? — Dean perguntou.
— Tudo bem, talvez não mãe. Está mais para uma tia gostosa, mas é como se fosse da família. Se alguém está tentando machucar a srta. Jones, vocês deviam estar lá tomando conta dela, em vez de ficar aqui, falando comigo.
Blake se afastou do espelho.
— Estamos um passo à frente, garoto — disse.
Carter sacudiu a cabeça.
— Perda de tempo. Se tivermos sorte, vamos pegar o sujeito em alguma câmera quando estiver fugindo.
— Que confusão. Eu queria que o Neil estivesse aqui. — Assim ele teria uma coisa a menos para se preocupar.
Dean saiu da sala de interrogatório e foi até Blake e Carter.
— Não é ele.
— Logo imaginamos.
— Está pronto para mexer nas coisas do Neil?
Blake odiava invadir a privacidade de Neil assim, mas que escolha ele lhe deixara? Passou a mão pelos cabelos.
— Deve ter alguma pista de onde ele está — disse Carter.
Blake saiu da sala.
— Vamos acabar logo com isso.
Dean os acompanhou para fora da delegacia.
— Nos encontramos em uma hora. Tem algumas pistas que quero checar primeiro.
No caminho de volta a Malibu, Blake contou a Carter a boa-nova.
— A Samantha está grávida.
Carter girou no banco e tirou os óculos escuros.
— Está brincando?
— Estávamos falando sobre isso já fazia um tempo — Blake continuou, se misturando ao fluxo da California Interstate.
— Parece que vocês fizeram mais que falar.
Blake sorriu, lembrando as noites sem conversa com sua esposa.
— O enjoo matinal está acabando com ela. Quero resolver logo toda essa merda e voltar para a Sam, Carter. É só por isso que eu vou invadir a privacidade do Neil.
— Eu entendo. O Neil é um cara muito fechado. E, quando esse cara foge pensando que tem um assassino na cola dele, não pode dizer o que está acontecendo. O Neil não esperava que você ficasse de braços cruzados, sem fazer nada.
— Ele esperava que eu confiasse nele.
Carter colocou os óculos escuros novamente.
— Se surgisse algum fato para a gente acreditar que realmente tem alguém jogando sujo com a Gwen ou o Neil, seria muito mais fácil confiar nele.
De volta a Malibu, Blake e Carter entraram na casa de Neil. Era uma casa de hóspedes, que imitava a casa principal em estilo e estrutura. O espaço interno, esparsamente decorado, adequava-se às necessidades de um homem solteiro. Um quarto era dedicado ao monitoramento da casa principal e da casa de Gwen e Karen em Tarzana, e o outro era um dormitório, com o mínimo de móveis. Embora a cozinha, pequena, tivesse tudo o que era necessário para alimentar uma família, as únicas coisas que pareciam usadas eram a geladeira e o micro-ondas.
Na sala de estar havia um sofá de couro e uma poltrona reclinável, além de uma televisão de tela plana na parede.
— Por onde começamos?
— Vou começar pelo escritório dele — disse Blake. — Você olha o quarto.
Carter virou a esquina e entrou no quarto de Neil.
— O que estamos procurando exatamente? — perguntou.
— Qualquer coisa pessoal. Fotos, endereços de amigos, família.
— Os pais dele não estão mortos?
Blake se sentou na cadeira de Neil e abriu a gaveta superior da mesa.
— Estão, mas me lembro de ouvi-lo falar de uma avó.
A gaveta continha o esperado: canetas, blocos de notas, contas antigas e recibos de itens diversos.
— Se o Neil achava que alguém estava atrás dele, acho que não levaria ninguém até a família dele.
— É verdade, mas a avó pode saber onde ele deixaria a Gwen segura para pegar o bandido — disse Blake.
— Você acha que foi isso o que ele fez?
— Com certeza ele não iria fugir para sempre.
A próxima gaveta tinha arquivos com datas de compra de equipamentos e atualizações de softwares. Havia fichas impressas dos empregados. Blake se perguntou por que ele imprimira uma coisa dessas e por que não deixara tudo no disco rígido do computador.
Pensando isso, ligou os monitores e esperou. A parede de telas iluminou a sala com imagens de toda a casa de Malibu e a de Tarzana. Blake clicou na tela principal e navegou pelas imagens. Cada uma abria o áudio do cômodo onde estava a câmera. Na casa de Malibu, Mary estava na cozinha, cantarolando.
O telefone na mesa de Neil tocou, e Blake esticou o braço para atender.
— Alô?
— É o Dillon, sr. Harrison. Notei que alguém está no canal do Neil. Ele voltou?
— Não. Sou eu.
— Ah. Alguma notícia?
— Nenhuma. Nada do seu lado?
— Nada. Desculpe incomodá-lo, sr. Harrison.
Antes que o homem desligasse, Blake o deteve.
— Espere, Dillon. Antes de o Neil partir, aconteceu alguma coisa que pareceu estranha? Algo diferente nele?
— Ele... ele estava um pouco mais nervoso. Não sei bem se isso não é normal. Ele sempre trabalhou até tarde, e não me pedia muito para assumir enquanto o senhor e a sra. Harrison estavam fora.
Nada disso parecia estranho para Neil.
— Conseguiu encontrar os grampos de que ele falou?
— Quem me dera. Teve interferência na casa de Tarzana, sem dúvida. Mas de um modo estranho.
— Como se tivesse sido plantada?
— Gostaria de poder afirmar isso com certeza.
Tudo parecia estranho.
— Obrigado, Dillon.
— Não por isso.
Blake desligou o telefone e continuou vasculhando a mesa. Não havia nada pessoal ali. Só pilhas de faturas relacionadas ao trabalho.
Carter entrou na sala com uma foto na mão.
— Encontrei isso.
Era uma fotografia de Neil com alguns de seus amigos, fuzileiros navais.
— O Neil parece mais forte ainda. Não achei que isso fosse possível.
Carter riu.
— Já viu essa foto antes?
— Não. Ele não fala dessa parte do passado dele. Exceto uma vez, no bar.
— Acha que esses são os caras que morreram?
Blake pegou a fotografia e olhou cada rosto. Seu olhar se estendeu para Neil e outro cara que lhe pareceu familiar, mas que ele não conseguia localizar.
— Pode ser. Nem todos morreram, só alguns. — Mas quais? — Você já pensou em pedir um favor e tentar descobrir que negócio é esse de Gralha? — perguntou Blake.
Carter se encostou na mesa antes de responder:
— Muitas missões secretas são feitas todos os anos no exterior. As forças armadas não aceitam gentilmente que elas cheguem aos ouvidos das pessoas. Embora eu seja o governador, sou uma dessas “pessoas” no momento. Se esgotarmos todos os nossos recursos e não tivermos notícias do Neil ou da Gwen, vou pedir ajuda. Mas não quero causar mais problemas e fazer o Neil ir parar em uma corte marcial por ser paranoico demais. Nós devemos isso a ele.
Blake concordou.
— Toc-toc — disse Dean, entrando na casa de Neil.
— Estamos aqui.
Ele se abanava.
— Estou cansado desse calor — disse. — Encontraram alguma coisa?
Blake lhe entregou a foto e deu de ombros.
— Uma foto e um monte de contas.
— Eu sempre esqueço como o Neil é grande — disse Dean.
— Não é todo mundo que tem condições de provocar esse cara.
O detetive deixou a foto na mesa.
— Bem, aconteceu algo novo — disse.
Blake se endireitou na cadeira.
— O quê?
— Parece que o Neil bobeou e usou o cartão de crédito.
— Onde?
— Colorado Springs.
— Achei que a Karen tinha dito alguma coisa sobre o Canadá — disse Carter, evidentemente confuso.
— Bem, a menos que eles tenham ido de avião para o Colorado, e nesse caso teríamos sabido antes, eles não estavam perto da fronteira.
Blake não gostava muito do sorriso presunçoso de Dean.
— O que você está escondendo?
— Adivinhe para que o Neil usou o cartão de crédito.
— Hotel? — perguntou Carter.
— Aluguel de carro? — sugeriu Blake.
Dean sacudiu a cabeça.
— Munição?
O homem sorriu e olhou para Blake.
— Um anel de diamantes muito grande e muito caro.
O sangue sumiu do rosto de Blake novamente.
— O quê?