Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 22 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 19

 

ELES PARARAM EM UMA CIDADEZINHA logo após a fronteira com o Colorado e foram comprar apetrechos de acampamento.

— Eu não acampo — Gwen sussurrou no ouvido de Neil. O mais parecido com acampar que ela fizera fora dormir no banco de trás do carro com o qual estavam atravessando o país.

Em resposta, Neil pestanejou, colocou a barraca no carrinho e continuou andando pelo corredor.

O que ela esperava? Que ficassem em um hotel todas as noites, agora que tinham curtido um? E por quantos dias e noites eles fariam isso, afinal? Até aquele momento, Gwen não havia pressionado Neil a lhe dar nenhum detalhe sobre nada. Ela queria que ele se abrisse a respeito de seus planos, mas ele não se abrira. Pelo menos não muito.

Gwen caminhou mais rápido para acompanhá-lo enquanto ele pegava sacos de dormir. Ficou olhando para eles.

— Não estou brincando. Deitar no chão frio não me atrai.

Neil pegou um saco de dormir para dois, a encarou e o jogou no carrinho. Talvez acampar com ele não fosse tão ruim. Não havia lugar no banco de trás para os dois. Com um meio sorriso, ela encontrou um tapete duplo para colocar embaixo da barraca e o acrescentou ao carrinho.

— Eu quero uma fogueira — disse ela. Neil e o calor acolhedor de uma fogueira? O que poderia ser melhor que isso?

Por um momento, ela pensou que ele não concordaria com a sugestão. Mas ele colocou um saco de marshmallows no carrinho.

Em silêncio, andaram pela loja. Ela pegou blusas de moletom para ambos. A dele era extragrande, e a dela, tamanho médio, as duas com a estampa das montanhas Rochosas. Ele pegou uma panela pequena e várias latas de comida, refrigerante, café instantâneo e água.

O rapaz do caixa conversava enquanto os atendia.

— Parece que vocês vão acampar.

Gwen sorriu, mas se lembrou de ficar calada.

— Parece mesmo — disse Neil.

— Vocês têm repelente?

— Temos.

— Nós vamos algumas vezes no verão — disse o rapaz, olhando para ela, atrás de Neil. — Para onde vocês vão?

Gwen notou os músculos da nuca de Neil se retesarem.

— Vamos descobrir quando chegarmos lá.

— Essas são as melhores viagens. — O rapaz disse o total e empacotou as compras. — Divirtam-se.

Neil pegou as sacolas.

— Com certeza.

Gwen deu um sorriso e o seguiu porta afora. No carro, ela por fim sentiu que podia falar.

— Da próxima vez, passe pelo caixa sem mim. Nunca imaginei que ficar quieta fosse tão difícil. Não sei como você consegue.

Ele abriu a porta para ela.

— Prática.

A estrada se estendia à frente deles, assim como o silêncio. Mas Gwen queria algumas respostas.

— Por quanto tempo mais vamos continuar assim?

Neil estreitou os olhos.

— Assim como?

— Na estrada. Em hotéis baratos e agora acampando. Quantos dias mais?

— Não muito.

— Isso não é resposta, Neil.

— Três dias, talvez quatro.

Não parecia tanto tempo.

— E depois?

— Vou te levar para um lugar seguro.

— E você, vai para onde ? Um lugar não seguro?

Gwen pôde vê-lo se fechar. Em um esforço para trazer de volta seu sorriso, colocou a mão na coxa dele.

— Por que não vamos os dois para um lugar seguro? Deixe a polícia cuidar de quem matou os meus vizinhos. Você acha que eles foram assassinados, não é?

— Eu sei que foram.

— Sabe como?

Neil ultrapassou um grande caminhão que subia com dificuldade a ladeira íngreme rumo às montanhas Rochosas.

— Como, Neil?

— Simplesmente sei. Você vai ter que confiar em mim.

— E você acha que eu não confio? Eu pensei que, depois da noite passada, você soubesse como eu confio. — Ela olhou para ele, que olhava para a estrada. — Eu não sou criança. Concordei com a viagem sem muitas perguntas. Nós dois estamos de acordo quanto a isso, certo?

Ele assentiu, sem uma palavra.

— Como você sabe que eles foram assassinados, que não foi um acidente?

Neil hesitou antes de responder.

— Pelas gralhas. O codinome da minha última missão na marinha era Gralha. As aves mortas que você encontrou eram para me provocar.

— E como um pássaro morto ao lado do meu carro provocaria você?

— Nosso sujeito é um covarde. Ele usa as mulheres para chegar até os homens.

— Então, quando eu não te contei sobre os pássaros mortos, o “nosso sujeito”, como você diz, procurou se certificar de que você soubesse que era ele quem estava causando todos os problemas?

Ela não queria pensar em um assassino como “nosso sujeito”.

— Exatamente. Ele sabia que eu agiria.

— Quantas pessoas sabiam da sua missão Gralha?

Neil alongou o pescoço enquanto dirigia. Gwen sabia que estava arrancando a informação dele à força, que não sairia espontaneamente. E, agora que havia começado a fazê-lo falar, não desistiria. Talvez fosse a única chance de saber alguma coisa.

— Poucas. Era uma missão secreta. Éramos um grupo de elite.

— Quantos homens faziam parte da sua equipe?

— Sete.

Ela esfregou a testa, tentando ver o que Neil via.

— Seis homens participaram da missão com você. Quantos mais sabiam que você estava lá?

— Uma dúzia, talvez menos. Quanto mais secreta a missão, menos pessoas ficam sabendo.

— Então provavelmente você não poderia pedir ao governo que interviesse e ajudasse.

— A base geral do governo não sabe nada sobre a Operação Gralha. Só o secretário de Defesa, o presidente e um ou dois que respondem diretamente a eles.

— Você acha que um dos outros seis homens está por trás disso?

Neil a olhou brevemente pela primeira vez durante a conversa. E ela viu um flash de dor em seus olhos.

— Só restamos três.

O coração de Gwen se apertou.

— Ah, Neil... Sinto muito.

— Foi há muito tempo.

— O que não torna as coisas mais fáceis. Eram seus amigos.

Ele assentiu.

— Eram os melhores. Quatro de nós saímos vivos. Um... morreu recentemente.

— Você não acha que um dos seus amigos fez isso... acha?

Neil bufou.

— Isso é como perguntar se você acha que o Blake é capaz de te matar.

— Que absurdo!

— Exatamente.

— Eu já li muita ficção — disse Gwen —, e parece que o herói está sempre tentando entrar na mente do assassino. O que está motivando esse cara? Por que ele está atrás de você? Tinha algo referente à missão que você sabia e os outros não?

— Eu liderei a missão. Mas todos nós sabíamos o objetivo.

— Talvez alguém esteja buscando vingança pela própria missão.

Uma parte dela queria perguntar qual era a missão, mas ela se lembrou da noite agitada de Neil. Talvez fosse melhor não saber todos os detalhes.

Ele sacudiu a cabeça.

— Gralha era uma pessoa. E ele está morto.

A convicção nas palavras de Neil deu a ela certeza de que ele sabia desse fato porque o vira com os próprios olhos.

— Esse Gralha tinha um irmão?

Neil apertou a mandíbula.

— Talvez.

Mas a lógica de Gwen também não fazia muito sentido.

— Claro, se o Gralha tiver um irmão, como ele saberia do codinome? Imagino que Gralha não era o nome verdadeiro dele.

— Não.

— Se alguém está querendo se vingar pelo Gralha, e não é uma vingança dirigida exclusivamente a você, seus colegas podem estar correndo risco também. Talvez você devesse avisá-los.

Ele olhou para ela e deu um breve sorriso.

— Você já fez isso.

Ele sorriu de novo.

Gwen relaxou no banco e olhou a paisagem, que ia se adensando de árvores conforme subiam a montanha. Não era de admirar que Neil fosse tão calado. Era muita informação para processar. Muitas possibilidades, mas apenas algumas probabilidades.

Se nenhum dos homens da unidade dele era o assassino e Gralha estava morto, só sobrava alguém leal ao Gralha, ou alguém envolvido na missão que queria Neil morto, assim como aos outros.

Gwen pensou no que Neil havia dito sobre a morte recente de um de seus homens.

— Seu amigo que morreu recentemente... O que aconteceu?

— Oficialmente, suicídio.

Nada incomum entre militares reformados que vivenciaram muitos combates.

— Mas você não acredita nisso.

Neil sacudiu a cabeça.

Então só restava uma conspiração do governo, ou a gente leal ao Gralha.

Na cabeça de Gwen, uma conspiração do governo era algo praticamente impossível. Se Neil mencionasse a possibilidade de uma conspiração, as pessoas pensariam que ele havia levado tiros demais. O transtorno de estresse pós-traumático podia transformar homens saudáveis em paranoicos.

Mas os vizinhos mortos e os pássaros deixados à vista não eram falsos.

Contudo, em seu íntimo, Gwen pensava na fobia de Karen... e em como, no início, elas pensaram que os pássaros mortos eram destinados a ela.

 

— Não sei o que pensar, Sam — disse Blake, olhando a cidade pela janela de seu escritório na costa Oeste. — Eu confio nele. Confio mesmo.

— Você parece ter dúvidas.

— E se eu estiver errado? E se ele pirou e anda perseguindo sombras? Quando nos conhecemos, ele não era nada estável. Mas, verdade seja dita, ele não fez nada desde então que me fizesse questionar qualquer coisa.

Ele odiava duvidar de Neil.

— A guerra foi um inferno para ele — completou Blake.

— Ele costuma falar sobre isso?

— Não. Só naquela primeira noite, quando nos conhecemos. Alguns dos homens dele explodiram em mil pedaços bem na frente dele. E ele se culpa. Isso é tudo o que eu sei.

— Não deve ser fácil.

— Não.

— Mas tem uma coisa em que você pode confiar — disse Sam. — Se o Neil estiver perseguindo sombras, uma hora ele ou a Gwen vão perceber que não tem ninguém atrás deles e vão voltar para casa.

Blake passou a mão pelos cabelos.

— Não sei se isso me faz sentir melhor. Não quero nem pensar que tem alguém atrás deles. Mas pensar na minha irmã apaixonada por um cara que persegue sombras...

— Tem certeza que a sua preocupação não tem a ver com a sua irmã estar apaixonada por alguém? Mesmo que seja o Neil?

Blake se afastou da janela e foi para a mesa.

— Talvez quando ela tinha vinte anos. Agora, o que eu mais quero é que ela encontre alguém.

Havia uma foto de Sam e Eddie em sua mesa. Ele a puxou para mais perto. Sou um homem de sorte.

— Alguém estável — Sam comentou.

— Sim. — Mesmo em um dia normal, Blake não tinha cem por cento de certeza de que Neil era estável. Mas odiava pensar assim.

— Quando você vai ter notícias de novo?

— O Dean disse que teremos notícias amanhã. E então três dias depois.

— Isso é muito tempo.

— Uma eternidade. Segundo o Dean, o caso dos vizinhos eletrocutados está sendo tratado como homicídio. Eles têm mais perguntas a fazer para a Gwen e o Neil, e não estão nada satisfeitos com a fuga dos dois.

— Mas não suspeitam deles, né?

— O Jim e o Dean não. Mas não posso dizer o mesmo dos colegas deles.

— A coisa só piora... — disse Sam.

— Ajudaria se encontrássemos a pista de que ele falou. Mas o Dillon não encontrou nada.

— O Dillon não tem a experiência do Neil em serviço secreto. Ele não era do setor de Operações Especiais ou algo assim?

Mais uma vez, Blake se lembrou de como sua esposa era perspicaz.

— Era.

— Humm — Samantha suspirou. — Quer a minha opinião?

Ele já estava sorrindo.

— Como se eu pudesse escapar.

Ela riu.

— Me lembra de te dar um tapa depois.

— Promessas, promessas.

— Eu acho — ela começou — que você precisa dar esse tempo ao Neil, esses quatro dias. Se você for atrás deles agora e atrair quem quer que os esteja seguindo, você nunca se perdoaria. E, se não tiver ninguém atrás deles, acho que isso vai ficar evidente no quarto dia. O Neil nunca machucaria a Gwen. E a Gwen... Bem, todos nós sabemos o que ela sente pelo Neil.

— Eu com certeza não sabia.

— Eu tentei te falar depois que o Carter e a Eliza ficaram juntos. Mas você, meu duque, simplesmente não me ouve.

— Ouço sim. — Talvez não tanto quanto antes de casar.

— É mesmo? — ela perguntou.

Sam tirava parte do peso do cotidiano dos ombros de Blake. Mesmo nesse momento, só de conversar com ela, ele já se sentia mais calmo.

— Eu estou grávida.

Em um minuto, ele estava arrasado por saber que Gwen gostava de Neil, e então... O quê?

— O que você disse?

Ela começou a rir.

— Não era virose, afinal.

Ainda bem que ele estava sentado.

— Grávida? Tem certeza?

— Tenho. Já passei por isso.

Eles não estavam tomando precauções. E estavam treinando para engravidar, não exatamente planejando uma gravidez. Mas Eddie já estava andando, e os dois queriam mais filhos.

— Ah, Sam. Eu te amo. — Ele não conseguia parar de sorrir.

— Eu também te amo. Pensei em esperar para te contar ao vivo, mas nós dois sabemos que eu não sou boa em guardar essa coisa de gravidez para mim.

— Quer que eu volte para Albany?

— Não seja bobo. E eu não vou andar de avião até melhorar do estômago. Vou esperar para contar ao Eddie quando estivermos juntos.

Blake se recostou na cadeira de couro alta.

— O Eddie vai ser um irmão mais velho maravilhoso.

— Se ele puxar o pai...

— Eu estou tão feliz de saber que vou ser pai de novo... e me sentindo culpado também.

— Pare com isso, Blake. Se a Gwen estiver correndo perigo de verdade, não existe ninguém melhor que o Neil para protegê-la. E, se não tiver ninguém atrás deles, pelo menos os dois vão poder dar um jeito naqueles olhares que vêm trocando no último ano.

— Eu nunca vi nada disso. — Pensar em sua irmã como uma pessoa sexuada lhe dava calafrios.

— Você não estava prestando atenção.

— Ainda bem.

— Pobre Blake. Se o Neil engravidar a Gwen, não esqueça que ele é especialista em armas.

— Isso não significa que eu não o obrigaria a se casar com ela.

— O Neil é um homem correto. Não é desse tipo.

— Vai ser, se engravidar a minha irmãzinha.

Samantha ria tanto que mal conseguia falar.

— A sua irmãzinha é mais velha que eu!

— Podemos conversar sobre outra coisa agora? — ele rosnou.

Sam continuava rindo.

— Tudo bem. Que tal sobre enjoo matinal? Lembra como era divertido? E fraldas. Ah, que alegria... quanta diversão.

Blake já sorria novamente.