Noiva até Sexta
Capítulo 34
NEIL CONHECIA OS ARREDORES DA base melhor que qualquer outro fuzileiro naval. Quando anoiteceu, atravessar aquelas passagens conhecidas se tornou mais fácil. Não havia mudado muita coisa desde que ele era um garoto, ali com seu pai. Os adolescentes sempre queriam encontrar um jeito de sair da base. Quem diria que ele se esgueiraria para entrar, tantos anos depois?
Um único pensamento mantinha seus pés em movimento.
Gwen.
Chegar até ela e protegê-la. O pensamento mórbido de que talvez algo já tivesse acontecido com ela tentava se infiltrar em seu cérebro, mas ele se recusava a ouvir.
Ela está bem, dizia a si mesmo. Perfeitamente bem.
Demorou vinte minutos para atravessar a base e encontrar o pé da colina onde se empoleirava a casa de Blayney. Parou por um momento, olhando as janelas escuras.
O major estaria ali? E Gwen?
Neil apostava na possibilidade de que, sem notícias de Mickey, Chuck pensasse o pior de seu soldado. A lógica dizia a Neil que Chuck usaria Gwen como refém. A menos que ele tivesse desistido.
Mas Neil nunca encontrara um fuzileiro naval que desistisse. E Chuck não seria o primeiro.
Uma luz cintilou dentro da casa — sinal de que havia alguém lá dentro.
Ele contornou os fundos, pulou a cerca e se abaixou sob a janela escura da cozinha. Pegou um espelhinho na jaqueta e o inclinou perto do chão, para ver dentro da casa pela porta dos fundos.
A cozinha estava vazia. Havia uma luz acesa no hall.
Neil prendeu a respiração e esperou que o telefone tocasse. Havia dito a Blake que lhe desse quarenta minutos para estar em posição. Ainda tinha cinco minutos para esperar.
Cinco minutos de absoluto terror. Tempo demais de espera para ajudar sua esposa.
Pensar em Chuck a machucando o fez apertar o punho e os dentes. Ficar imóvel por cinco minutos o deixou tremendo. Quando o telefone por fim tocou, Neil quase não percebeu.
O segundo toque chamou sua atenção e ele entrou em ação.
Com facilidade, quebrou a tranca da porta de vidro dos fundos. O major não era extremamente vigilante em relação à segurança.
Que idiota.
Neil abriu a porta o suficiente para ouvir um lado da conversa.
— Sr. Harrison? Sim, me disseram que você esteve aqui.
Havia nervosismo na voz de Chuck — algo que Neil reconhecia, mas Blake não. Neil fechou a porta dos fundos, silenciosamente, e a trancou. Agachou atrás da ilha da cozinha antes de ir até o hall.
— Não — ouviu Chuck dizer.
Neil subia um degrau a cada vez que Chuck falava.
— Como você conseguiu meu número?
Neil hesitou.
— Ah, entendo. Sim, eles estiveram aqui.
Neil subiu até o quarto que ele e Gwen haviam compartilhado. Estava escuro. Uma parte dele esperava vê-la ali.
Mas ela não estava.
Andou silenciosamente pelo local procurando evidências de que ela estivera lá. Nada... No quarto vazio não havia nada pessoal.
Gwen havia desaparecido.
A casa ficou em silêncio. Ele não ouviu o major, não ouviu ninguém mais na casa. Saiu na ponta dos pés do quarto de hóspedes e olhou no quarto principal. Também estava escuro. Pelo que parecia, Ruth também não estava ali.
Embaixo, uma porta se fechou, e então o silêncio voltou. Neil apurou os ouvidos, desesperado para ouvir qualquer coisa no hall. Um barulho alto o fez tomar posição, e logo depois ouviu uma porta bater.
No meio da escada, ouviu a voz de Chuck:
— Sim. Estou esperando visitas.
Neil aguardou e desceu mais três degraus.
— Sr. Harrison. Certo. Em vinte minutos. Não, ele não vai ficar muito tempo.
Neil parou. Blake estava a caminho?
Recuou e desceu a escada dos fundos, para se preparar. Blake precisava ficar longe dali. A última coisa que Neil precisava era de um civil para atrapalhar, sendo que não tinha ideia de onde Gwen estava.
Pegou sua M9 e a posicionou em frente ao peito antes de começar a entrar no cômodo onde Chuck estava.
O homem estava parado em frente a sua mesa, no escritório. Havia uma ponta de cigarro em um cinzeiro ali perto. Neil não lembrava que o major fumava. Seria possível que esse homem, que o apoiara no início de sua carreira militar, fosse o responsável por tanta dor? Pela morte de Mickey? De Billy?
De costas para Neil, Chuck olhava pela janela.
— Você vai usar essa arma, soldado?
Neil manteve a arma firme. Sua mandíbula se enrijeceu e ele relembrou tempos melhores. Balançou a cabeça.
— Onde está a Gwen?
Chuck pegou o cigarro, tragou e soltou a fumaça por entre os dentes.
— Não sei por que eu parei. Não há nada melhor que equilibrar a vida e a morte por meio de um dispositivo tão simples. — Olhou para a ponta do cigarro e deu outro trago.
Neil sentiu um espasmo no dedo do gatilho.
— Onde ela está?
Chuck olhou para o chão, por cima do ombro.
— Largue a arma, Mac.
— Onde está a minha esposa?
Chuck riu, e o som arranhou os nervos à flor da pele de Neil. O major deu meia-volta, tirou o cigarro dos lábios e soltou a fumaça acima da cabeça, como se não tivesse nada com que se preocupar.
Isso deixou Neil puto da vida.
— Onde ela está?
— Largue a arma.
Neil o encarou.
— Por que eu deveria?
— Se quiser ver a sua esposa de novo, largue a arma.
O filho da puta arrogante deu outra tragada. Ele sabia muito bem que Neil não apertaria o gatilho sem saber onde Gwen estava. O inimigo de Neil conhecia sua fraqueza e a usava contra ele.
Neil se aproximou dois passos antes de desengatilhar a arma e jogá-la no chão, fora do alcance de Chuck.
O homem recebeu com um sorriso o som da arma deslizando no chão.
— E as outras?
Neil engoliu em seco. Não adiantava fingir não saber o que o homem a sua frente havia lhe ensinado. Ergueu a perna direita, tirou o revólver menor e o jogou no chão.
Chuck observava tudo como se estivesse entediado. Fez um movimento giratório com os dedos, e Neil tirou uma terceira arma das costas. Exceto o celular e uma faca, não sobrara mais nada.
Blayney se aproximou lentamente da mesa.
Neil estava muito longe para apressá-lo, de modo que esperou o próximo movimento.
O major puxou uma arma das costas. Nenhuma surpresa.
Instintivamente, Neil virou de lado. Não tem por que facilitar o alvo.
— Para trás, Mac.
Neil deu dois passos para trás e se manteve firme.
— Onde ela está?
Chuck olhou de relance além de Neil, na direção da cozinha. Acenou com a arma.
— Nos fundos.
— Já estive na cozinha. Ela não está lá.
O major sorriu.
— Você não olhou direito, soldado. — E acenou com a arma de novo.
Neil seguiu o cano e deu vários passos para trás. Quando a ilha da cozinha encontrou suas costas, Chuck passou por ele em direção à despensa e abriu a porta. Com a cabeça, indicou a Neil que entrasse.
— Vá.
Neil pensou naquele espaço pequeno e concluiu que ficaria preso se entrasse.
— Vá se foder.
— A Gwen está aí.
Neil hesitou. Não a ouvia, tampouco a via.
— Vá se foder — repetiu.
— A Gwen está aí dentro, Mac. Por que eu mentiria para você agora?
Neil se encolheu. Os pesadelos que tivera com o corpo mutilado de Gwen vieram à tona. Será que Chuck a matara e a escondera na despensa? Só havia uma maneira de descobrir. E se ela estivesse morta realmente, o que seria dele? Poderia sobreviver à morte dela? Valia a pena viver sem a luz de Gwen?
Ele entrou na despensa e notou uma porta ali.
— Abra — ordenou Chuck.
Neil sentiu o estômago na garganta quando pôs a mão na maçaneta. Ao virá-la, encontrou pouca resistência. A falta de uma tranca o fez pensar o pior. Chuck trancaria a porta se houvesse uma pessoa viva ali dentro, certo?
Incapaz de se conter, Neil abriu a porta e encontrou uma escada de madeira que descia até um porão. Havia luzes ali embaixo.
— Vá.
Neil pôs um pé no degrau, depois outro... e então ouviu. Uma voz aguda e abafada.
Desceu pulando os degraus e a viu. Viva.
Nunca na vida Neil sentira vontade de chorar de alegria. Mas, nesse instante, foi o que ele fez. Correu até ela, se colocando entre Gwen e Chuck. Levou a mão à mordaça que ela tinha na boca, viu as marcas vermelhas no rosto e o hematoma que se formara na bochecha.
Os olhos de Gwen encontraram os dele e lágrimas brotaram.
— Me perdoe — ele disse suavemente.
Tudo aquilo era culpa dele. Ela não estaria ali se Neil não tivesse depositado toda a sua fé em Chuck.
— Você está aqui! — ela exclamou, sufocando, por entre os lábios rachados.
— Que meigo. Os pombinhos juntos novamente.
Neil se voltou para o homem que um dia chamara de amigo.
— Por quê, Chuck? Por que nos sacrificar?
Chuck estreitou o olhar.
— Sua missão era acabar com o Gralha discretamente, não explodir a maldita família toda. Isso era imperativo para a missão.
— Nós não fomos responsáveis pelas bombas.
— Você sabia do que ele era capaz. Elimine o único alvo e volte para casa. Assim, Washington teria ficado feliz. Eles não precisavam saber quem tinha dado a ordem. Não precisavam saber.
Neil estreitou os olhos.
— Washington não sabia da Operação Gralha? Você deu a ordem por conta própria?
— Aqueles engravatados não sabem comandar uma guerra. Acabar com os líderes e com os malditos dispostos a matar seus próprios filhos pela causa... Era isso que tinha que acontecer.
Neil estava começando a entender.
— Você está quase se aposentando. Ninguém teria sabido...
— Tem um processo de entrevista para sair. Já tinham chamado o Billy para perguntar sobre mim. Qualquer um de vocês poderia dizer alguma coisa e destruir quarenta anos de serviço dedicado. Eu não podia arriscar.
O irônico era que Neil não teria dito nada. Nem Rick, nem Billy.
— O Mickey está morto — disse Neil, esperando ver algum tipo de emoção reconhecível no rosto de Chuck.
Mas ele deu de ombros.
— Dano colateral — disse. — Agora, para trás.
Neil se voltou abruptamente para Gwen, mantendo-a atrás de si. Pela primeira vez desde que entrara no porão, ele notou as luzes cintilantes, a arte adolescente e as lembranças espalhadas pelo chão. Parecia que Gwen se mantivera ocupada. Bela jogada.
Chuck passou os olhos pela sala, e o braço que segurava a arma começou a vacilar.
— Nós nos conhecemos há muito tempo, Chuck. Você conheceu o meu pai.
Gwen se apertou contra as costas dele. Seu corpo tremia. Ele esticou o braço para trás e a abraçou. Chuck estreitou os olhos.
— Eu conheci muitos soldados mortos. Que diferença faz mais um?
Atrás de Neil, Gwen se contorceu. Ele a segurou pelo braço para impedir que fosse para a sua frente. Então seus dedos pousaram em algo duro na mão dela. Demorou um segundo para ele perceber o que ela estava segurando.
O alívio correu por suas costas. Ele queria elogiá-la naquele momento, mas não o fez. Pegou a arma e manteve a mão atrás das costas.
— Então você me mata, mata a Gwen, e depois? Você não acha que eu viria aqui sem avisar ninguém, não é?
— Ele falou que o Blake está a caminho — disse Gwen. — Disse que o mataria se eu fizesse algum barulho.
Chuck pestanejou, os olhos viajando entre as luzes e o rosto de Neil.
— O Blake sabe que estou aqui. E ele não vai chegar sem reforços. — Neil avançou. — Acabou, Chuck. Você não tem saída.
Os olhos de Neil estavam fixos no cano da arma apontada para eles. Ele prendia a respiração e se encolhia a cada movimento de Chuck.
A ponta do cano foi se inclinando para baixo. Ao menor sinal de desistência de Chuck, Neil deu um pulo para a frente e apontou a arma de Gwen para o peito do major.
— Largue a arma — disse Neil, com voz mortal. Ele não queria matar o major. Mas mataria, se fosse preciso. — Faça o que é certo, Chuck. Largue a arma.
Os olhos do homem pousaram na arma que Gwen havia levado para o porão e ele soltou uma gargalhada. O humor fora de lugar era mais uma prova de seu estado mental. Chuck deixou a arma pender para o lado.
— Você sempre foi o mais esperto. Eu devia ter mandado o Mickey te matar primeiro.
Então, sem nenhum aviso, o major Chuck Blayney levou o cano da arma para a própria cabeça e apertou o gatilho.