Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 17 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 14

 

— COMO ASSIM, VAMOS DORMIR aqui?

Neil levou o carro para longe da estrada, parando atrás de um afloramento de rochas que cobria o deserto de Nevada. Haviam rodado até o anoitecer e, pelo que Gwen sabia, tinham atravessado o deserto de Nevada muito devagar. Atravessado não, serpenteado. Tinham seguido para leste, depois para norte, em seguida para oeste por uma grande rodovia, mas por pouco tempo, e depois para nordeste. E, como estava empenhada em ganhar o jogo do silêncio, Gwen manteve a boca fechada. Nem o lanche que Neil lhe jogara para comer fizera sua língua destravar.

Até agora.

— Sim, aqui.

Ela olhou pela janela e viu o paredão de pedra que se erguia à esquerda do carro.

— Não estou vendo nenhum hotel.

Neil deu ré até o penhasco, puxou o freio de mão e saltou. Do porta-malas, tirou um travesseiro e um cobertor e os jogou no banco de trás.

— Você vai dormir atrás — disse, pelo vão do porta-malas.

— Está falando sério?

— Algum problema, Gwendolyn?

Ela desceu e olhou para ele por cima do capô.

— Sabe, eu achava um doce quando você usava o meu nome inteiro, mas agora percebo que é uma ironia mal disfarçada. Algo que poderia ser divertido depois de um banho e uma boa noite de sono, mas acho que tudo isso vai ter que esperar.

— Vamos para um hotel assim que for seguro.

— E se eu tiver que usar o banheiro?

Ele abriu os braços e olhou em volta.

Claro. Então ela soube que os banheiros sujos nos postos eram um luxo.

— Pelo menos você se lembrou de pegar uma escova de dentes para mim?

Ele voltou para o porta-malas e procurou dentro da mochila dela com uma lanterna.

Gwen ficou ao lado de Neil para ver exatamente o que ele havia pegado para ela.

Ele tinha posto as calcinhas de um lado, uma camisola, meias, um sutiã, uma calça jeans e duas blusas. Esbarrou em uma escova de cabelo e um desodorante antes de encontrar a escova de dentes e um tubo de pasta.

— Isso é tudo o que você pegou para mim?

— Vamos encontrar um lugar para lavar suas roupas.

Ela o empurrou para o lado, pegou a lanterna e olhou de novo. Mas, não importava quanto revirasse, o resultado era sempre o mesmo.

— Você espera que eu use só duas roupas?

— Uma para lavar, outra para vestir.

O rosto de Neil era totalmente inexpressivo. Ela apontou a luz para ele, que se virou.

— Onde está a minha maquiagem?

— Desculpe, Gwendolyn — ele disse ironicamente. — Achei que encontrar um lugar seguro era mais importante que pegar sua pintura de guerra. Além disso, você fica mais bonita sem ela.

— Pintura de guerra?

— É uma máscara que os homens põem no rosto antes da batalha.

— Sim, sim, eu sei o que é pintura de guerra. Por que você chama a minha maquiagem de pintura de guerra?

Neil afastou a lanterna do rosto.

— É um jeito americano de falar.

— Ah.

Ela espantou um inseto do feixe de luz e se voltou para a escuridão. Depois de deixar a escova de dentes e a pasta no banco de trás, encontrou um guardanapo que sobrara de seu patético jantar — hambúrguer e batatas fritas — e começou a se afastar do carro.

— Aonde você vai?

Ela parou, virou para ele e levantou o braço, indicando:

— Ao banheiro. O que você acha?

A lanterna a impedia de tropeçar em pedras e arbustos.

— Cuidado com as cobras.

Ela hesitou, mas continuou andando. Claro. Ele tinha que escolher uma parte do mundo infestada de cobras venenosas para se esconder. Uma grande rocha a separava de Neil. Ela estava prestes a acender a lanterna quando ele gritou:

— E com os coiotes. Eles correm em matilhas. Se você vir um, vai ter mais três atrás.

— Que ótimo — ela sussurrou para si mesma.

Passou a lanterna em um círculo ao redor, certificando-se de que estava sozinha. Quando terminou, voltou rapidamente para o carro. Neil se inclinou sobre o capô, com os braços cruzados.

— Não foi tão ruim, foi?

Ela pegou sua escova de dentes, a pasta e uma garrafa de água.

— Nada mau... para quem gosta de se aliviar com cobras e coiotes.

Gwen bateu no braço para afastar um inseto antes de jogar água nas mãos, em uma frágil tentativa de lavá-las. Depois de encher a ponta da escova com pasta de menta, levou-a à boca e tentou se livrar da comida gordurosa do dia.

Neil a observava com um sorriso no rosto.

— Qual é a graça? — Ela nunca o via sorrir, mas agora ele o fazia à custa dela.

— Só você consegue fazer com que mijar nos arbustos pareça elegante.

— Eu não fiz isso.

O sorriso dele só crescia com a agitação dela. Gwen foi atrás do carro, enxaguou a boca e voltou até ele. O feixe de luz encontrou o rosto de Neil novamente.

— Você está rindo de mim.

— Relaxa, Gwen. Não estou rindo de você.

Ela matou outro inseto e encontrou mais três, prontos para atacá-la. Neil desencostou do carro e pegou a lanterna da mão dela. Então a desligou, mergulhando-os na escuridão.

— Pronto. Sem luz, sem insetos.

A luz da lua mal era visível quando ela lançou os olhos para o céu. Ofegou.

— Uau.

— É lindo, não?

— Magnífico. — Longe das luzes da cidade, o céu noturno exibia milhões de estrelas. — Eu nunca vi o céu assim.

Olhando para o alto, Gwen não se importava mais em ficar naquele fim de mundo.

— O deserto tem a melhor vista do universo — Neil murmurou.

Ela se encostou no carro e inclinou a cabeça para trás. Depois de alguns minutos, indagou:

— Você já se perguntou se existe alguma coisa além daqui?

— Vida inteligente?

— Sim.

Neil suspirou.

— Espero que sim.

Ela sorriu.

— Eu também. Eu odiaria pensar que só existe a gente.

— Quando criança, eu queria ser astronauta — Neil confessou.

Gwen virou para ele.

— É mesmo?

— É.

— E por que não foi?

— Não sei. Perdi o interesse. Mudei de ideia.

Ela entendia bem isso.

— E eu queria ser bailarina.

— O que te impediu?

Os pelos dos braços se arrepiaram e a noite fria a fez estremecer.

— Você vai rir se eu contar.

— Eu nem sorrio, então rir está fora de questão.

Ela riu, completamente despreparada para uma piada da parte dele. Neil tentou esconder o sorriso.

— Eu era muito gorda.

Ele ficou perplexo.

— Você não tem um grama sobrando.

— Eu sei. Nunca tive, mas primeiras bailarinas só comem salada, e sem molho. E eu gosto muito de comer. — Ela voltou o olhar para as estrelas, esfregando os braços. — Eu ainda gosto de balé. A graça e a beleza da dança...

Neil tirou a jaqueta e a colocou nos ombros de Gwen. Ela se aconchegou a seu lado, e, surpreendentemente, ele manteve o braço nos ombros dela.

— Obrigada.

Ele deu um sorriso rápido e olhou para cima de novo.

— Eu nunca fui a um espetáculo ao vivo. Só show de rock.

— É mesmo? Por quê?

— Nunca pensei em ir.

A cabeça de Gwen descansava no ombro dele enquanto conversavam.

— Acho que a riqueza que sempre me cercou me proporcionou muitas coisas boas na vida. Mas sabe de uma coisa?

— O quê?

— Eu nunca tinha visto isso, um céu noturno tão nítido e claro, com estrelas que parecem o mais puro diamante.

— As melhores coisas da vida são de graça.

Verdade.

Uma estrela cadente atravessou o céu.

— Você viu? — ela perguntou.

— Sim.

Ela fechou os olhos e desejou que conseguissem chegar em casa em segurança.

— O que você está fazendo? — ele perguntou.

Gwen abriu os olhos e viu que ele a encarava.

— Um pedido. Você sabe, fazer um pedido para a estrela cadente... Tenho certeza que você já ouviu falar disso.

— Ah...

Ele estava sorrindo novamente, e a visão deixou Gwen sem fôlego.

— Você vai fazer um pedido? — ela quis saber.

Ele negou com a cabeça.

— Por que não? — Ela virou para ele, que descansava a mão no braço dela.

— Não acredito em pedidos para a estrela cadente.

Ela se encolheu debaixo da jaqueta.

— É só uma fantasia, um desejo. É para ser divertido.

O sorriso de Neil se apagou e seu olhar deslizou até os lábios dela.

— Tudo bem se divertir de vez em quando, Neil.

Ela encontrou novamente os olhos dele e se afogou em seu olhar. Ele se inclinou, e ela fez um segundo pedido — que ele não recuasse dessa vez.

Neil correu a mão pelo braço de Gwen e a puxou mais para perto antes que o desejo dela se tornasse realidade. Ali, no meio do deserto cheio de animais selvagens e um zilhão de estrelas, ele a beijou. Foram beijos ardentes e desesperados, que preencheram cada poro do corpo de Gwen.

Ela passou as mãos por seu peito firme, se agarrou ao seu corpo e se abriu para ele, aceitando a sensação da língua dele em sua boca. Ela mal podia respirar, de tão apertado que era seu abraço. Mas nada mais importava. O momento era de sentir. Sentir a mão dele encontrando sua nuca, guiando-a para onde queria. E então ela soube que lhe daria qualquer coisa que ele pedisse.

Seus sonhos não a prepararam para o toque de Neil. Ela se apertou contra ele, sentiu sua excitação e quis mais.

E, se o beijo de Neil era um indicativo, ele também a queria. Então por que começou a afastá-la?

Gwen sentiu a respiração dele esquentar seu rosto.

— Gwendolyn — ele disse em um suspiro.

— Não quero que você pare — ela confessou.

Os braços ao redor dela se enrijeceram.

— Você é uma distração. Distrações são letais.

Ele estava dizendo isso para si mesmo ou para ela?

— Não tem ninguém aqui além de nós dois.

E sexo selvagem, ardente, mesmo no capô do carro, era melhor que retroceder agora.

— Não podemos fazer isso — ele continuou, tomando o rosto de Gwen com as duas mãos e olhando-a nos olhos. — Agora não.

Ela podia sentir o argumento na ponta da língua. Mas o engoliu.

Eu esperei tanto tempo... Posso esperar mais um pouco. Agora que ela o provara, sentiria o gosto de seus lábios toda vez que pensasse nele.

 

Blake pretendia seguir o conselho de Neil, até saber que ele e Gwen tinham saído no meio da noite e não eram vistos desde então. Naquele momento, pediu a seu piloto que abastecesse o jatinho e deu um beijo de despedida em sua esposa e em seu filho.

Samantha não estava feliz por ficar em Albany, mas uma virose a impediu de acompanhá-lo. Se as preocupações de Neil fossem sequer parcialmente fundamentadas, Blake não precisava de sua família no caminho ou correndo perigo enquanto procurava sua irmã e seu guarda-costas.

Quando o jatinho pousou na extremidade oeste da pista e a alfândega o liberou, Blake foi até o carro que o esperava para levá-lo para casa.

— Sr. Harrison?

Não acostumado a ver ninguém além de Neil como seu motorista, Blake observou o homem com atenção.

— A First Class Services me enviou, senhor.

First Class Services era uma empresa de transporte executivo que Blake havia usado algumas vezes. Precisava lembrar de agradecer a Sam quando falasse com ela à noite.

Ele assentiu com a cabeça e entrou no banco de trás. Dean estava sentado no banco oposto, com um sorriso no rosto.

— Bem-vindo, Sua Graça.

Blake apertou a mão do detetive.

— Não me venha com essa merda de Graça, Dean. Que raio está acontecendo?

O homem acenou com a cabeça para o motorista, que arrancou.

— Todos os motoristas da empresa são checados antes de assumir o volante — Blake explicou.

Dean respirou fundo.

— Não sei o que está acontecendo, Blake. A Eliza me ligou, falou sobre os vizinhos mortos. Nós sintonizamos na rádio dos homens de Tarzana, ouvimos telefonemas indo e voltando. Eles não ficaram satisfeitos por terem que deixar o Neil fuçar lá, e ainda menos ao nos verem chegar. À primeira vista, parece que alguns pássaros fizeram ninho dentro do sistema elétrico da banheira.

— E à segunda vista?

— Ainda não sabemos. O departamento de homicídios está examinando o local agora. Ninguém acha que foi um acidente. Eletrocussões espontâneas em banheiras de hidromassagem não acontecem assim, do nada. A não ser que a fiação tenha sido adulterada. O que nos leva às próprias vítimas.

— O que tem elas?

— Eram invasores.

— Invasores?

— O país inteiro está cheio deles. Pessoas que vão morar em casas abandonadas ou que pertencem a bancos. Bancos odeiam ser proprietários de imóveis, e muitas das casas que eles tomaram nos últimos cinco anos ainda estão vagas. As pessoas se mudam, colocam uma ou duas contas em seu nome e então o banco tem que despejá-las. Existem grupos de pessoas que organizam invasões.

Blake sacudiu a cabeça.

— E essas pessoas moram de graça por quanto tempo? Seis meses?

— Um ano, às vezes mais. Só quando um corretor de imóveis aparece para inspecionar é que encontram o problema. É um inferno. Bancos de San Francisco podem ter casas em Los Angeles e usar corretores de San Diego para cuidar da venda. Desnecessário dizer que muitas vezes o corretor nem vê a casa. É uma bagunça.

— Como é que eles conseguem eletricidade?

— Nesse caso específico, eles estavam roubando energia dos vizinhos, inclusive da Gwen e da Karen.

— O Neil me disse que os monitores da casa davam problema toda vez que os vizinhos usavam a banheira de hidromassagem.

— E ele nunca encontrou o problema porque não tinha acesso à casa dos vizinhos. O fato de os invasores terem feito uma gambiarra para roubar energia me leva a crer que pode haver uma explicação plausível para a morte deles.

Agora Blake estava muito confuso.

— Se isso for verdade, então a reação do Neil foi exagerada?

— Não estou dizendo isso, ainda. O Neil não me parece um cara impulsivo. Ele é tão calado que na maioria das vezes não faço ideia do que está passando pela cabeça dele.

Sim, mas Blake se lembrava de uma época em que Neil era impulsivo como um adolescente que tivesse transado pela primeira vez.

— Onde é que ele está?

— Não sei. Ele estava revirando tudo quando eu saí da sua casa. Você vai ver a bagunça que ele deixou para trás. Todo o equipamento dele está no seu escritório. É como se ele estivesse instalando uma fortaleza ali. Deixou a Mary assustada.

— E a Gwen?

— Ela estava abalada por causa dos vizinhos. Voltei ontem de manhã e descobri que eles tinham desaparecido. O Dillon me entregou isto.

Dean passou a Blake um bilhete manuscrito.

Dean,

Só converse fora das casas de Malibu e Tarzana. Tudo o que eu montei está

comprometido.

Vou entrar em contato em setenta e duas horas com mais informações. Se não tiver notícias minhas, peça para o Carter entrar em contato com o comandante

em chefe. Diga o meu nome. E o codinome Gralha.

Mac

— Setenta e duas horas?

— Trinta e seis desde hoje de manhã.

Blake passou a mão pelos cabelos.

— Comandante em chefe? De quem ele está falando?

Dean o encarou.

— Acho que está falando do presidente.

Blake sentiu a pele gelar. Em que merda Neil havia envolvido sua irmã?