Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 31 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 28

 

O JANTAR DA NOITE ANTERIOR havia sido tenso. E não ajudara o fato de o vento e a ameaça de chuva terem feito Gwen se perguntar onde estaria Neil. Ela seguira o caminho patético de alegar uma dor de cabeça e se retirara cedo para o quarto, para evitar conversar com seu anfitrião.

Ela não conseguia saber o que mais a incomodava em Charles: a trama silenciosa que parecia existir por trás de seu olhar ou o sorriso que lembrava um palhaço de circo. Nenhuma das duas eram qualidades redentoras em uma pessoa. Tenho certeza de que ele é um ótimo instrutor de recrutas.

Gwen andou silenciosamente pela casa depois da hora do café da manhã. Estava tudo tão quieto que ela se perguntou se não estaria sozinha. Na cozinha, colocou uma xícara de água no micro-ondas para fazer um chá. Com exceção de algumas nuvens, o céu estava limpo.

— Esteja seguro, Neil — sussurrou para si mesma.

Quando o micro-ondas apitou, Gwen se voltou para pegar a xícara. Charles estava parado atrás dela, com o lábio ligeiramente curvado. Ela gritou e deu um passo para trás, batendo o quadril no balcão.

— Caramba! — exclamou, ofegante.

— Não tive intenção de assustá-la — disse Charles.

O sorriso tímido de Gwen desapareceu, substituído por uma expressão preocupada.

Até parece.

— Eu não ouvi você entrar.

Ela esfregou o quadril, desejando que a pulsação se acalmasse.

— Queria ter certeza de que você não precisa de nada — disse Charles, afastando-se alguns passos.

Se ele se afastasse até outro condado, teria sido melhor. O homem estava exatamente com a mesma roupa que usava desde que Neil partira. Estava limpa e passada, mas exatamente do mesmo estilo militar. Charles não saíra de casa, nem recebera visita alguma. Para um homem de sua patente, Gwen esperava um vaivém maior.

— Sua esposa me mostrou onde ficam as coisas na cozinha.

Charles foi para trás do balcão e puxou um banco alto.

Ah, ótimo... companhia.

Gwen encontrou o chá e lentamente retirou o saquinho da embalagem de papel. Estava claro que Charles não iria quebrar o gelo.

— Tem notícias da Ruth?

— Ela chegou na Flórida.

Gwen mergulhou o saquinho de chá na água e esperou uma resposta mais elaborada.

— Como a sua filha está?

— Feliz por estar com a mãe.

Gwen recordou a si mesma que Neil também dava respostas curtas e precisas. Mas o tempo que haviam passado sozinhos mudara isso.

— Ninguém substitui a nossa mãe quando estamos doentes — ela comentou.

Charles ergueu novamente o canto da boca em um sorriso.

— Essa é uma das coisas em que as mulheres são boas.

É impossível sorrir rangendo os dentes.

— Há muitas mulheres sob o seu comando?

O sorriso dele desapareceu.

— Algumas.

— E você não aprova... — Ela podia ver isso no rosto dele.

— Mulheres devem ficar em casa fazendo chá, e não lá fora eliminando alvos.

Gwen atravessou o ambiente, certificando-se de ter uma saída sem precisar passar por ele.

— A permissão para as mulheres se alistarem deve ter sido difícil para você aceitar.

Ele deu de ombros.

— Eu sou um soldado. Faço o que me mandam fazer.

— Como major, você não dá a maioria das ordens? — ela perguntou, soprando o chá.

Charles descansava a mão sobre o balcão e começou a tamborilar o indicador lenta e intermitentemente.

— Sempre existem pessoas acima.

Ela pensou na foto que Neil tinha lhe mostrado, de sua tropa, ou seja lá como eles se chamavam. Amigos.

— É verdade. E os que estão sob o seu comando nem sempre sobrevivem às missões. Deve ser difícil.

Ela não podia imaginar mandar tropas para a batalha e depois saber que alguns não voltariam para casa. Todo o conceito de guerra a aturdia. Como era possível os seres humanos desejarem outra coisa que não casa, comida, uma família feliz e saudável? Um mundo no qual seus filhos pudessem desenvolver ao máximo suas habilidades e formar uma família? Na realidade, o que mais era necessário na vida? Por que lutar? Isso não fazia sentido para ela.

— Sempre existem danos colaterais — disse ele, tamborilando o dedo um pouco mais forte. — Um líder não pode ficar pensando na morte. Não aqui.

Se Gwen tivesse que adivinhar, diria que Charles não pensava muito nisso. Na verdade, achava que provavelmente ele apagava o nome do morto e passava para o próximo. Frio assim.

Ela preferia o seu Neil, que pensava nos homens que o haviam seguido na batalha. Ocorreu-lhe então que, se um homem voltasse da guerra sem se afetar, ela não gostaria de conhecê-lo.

Gwen viu uma árvore pela janela da cozinha e notou que se curvava ao vento. O desejo de abandonar a companhia do major levou seus pensamentos para o jardim. Não fossem os músculos de suas costas, que gritavam desde que ela acordara, ela teria dado uma desculpa e ido trabalhar em um canteiro de flores.

— Acho que eu nunca seria um bom soldado. Tenho dificuldade de esmagar até uma barata.

— Deixe o Neil acabar com as baratas.

Ela deu um sorriso fugaz. Não, o Neil toca as baratas para fora para que se virem sozinhas.

— Você se incomoda se eu for olhar a biblioteca de novo? Parece que o livro que eu escolhi não está me ajudando a passar o tempo.

Na verdade, ela havia notado alguns álbuns de fotos que Ruth mencionara e pensou que ajudaria olhá-los. Talvez Charles nem sempre tivesse sido tão estressado.

— Fique à vontade.

— Obrigada.

Ela saiu da maneira mais graciosa que pôde. Estava com fome, mas não o suficiente para ficar ao lado daquele homem.

Em vez de fazer o piloto voar para o Colorado e atrair o inimigo de Neil, Blake ligara para Carter de seu escritório, na esperança de manter em sigilo um pouco do que tinha a dizer. Tendo conversado com seu melhor amigo, começou a tentar arrancar os favores mais difíceis.

— Você tem algum contato no Pentágono? Quem pode pesquisar onde o Neil foi treinado, e com quem? E quem eram os homens da equipe dele? Alguma coisa?

O desespero penetrara seus ossos. Mais que a falta de controle sobre tudo que estava acontecendo, Blake odiava o desconhecido. Onde Neil estava, e onde havia escondido sua irmã para protegê-la? Ele nem sequer pensara no anel de diamante comprado e o significado por trás dele.

— Os meus contatos lá são superficiais, na melhor das hipóteses — informou Carter. — Mas nós dois conhecemos alguém que pode conseguir as informações que queremos.

Blake apertou os olhos.

— Seu tio?

— Isso mesmo.

O senador Maxwell Hammond estava no jogo da política desde o ensino médio. Blake não confiava nele. Não que ele fosse sabidamente um político corrupto, mas Blake acreditava que Max não teria problema algum em enfiar os pés na lama para conseguir o que quisesse. Ah, ele os lavaria antes de calçar os sapatos, mas sempre restava um pouco de sujeira. Blake preferia não dever nada ao homem.

Mas que escolha ele realmente tinha?

— Tem certeza de que está pronto para usar esse trunfo?

— Precisamos saber quem é o homem-pássaro. E encontrar o Neil e a Gwen. Essa coisa toda está atrapalhando a nossa vida. Demos ao Neil o tempo que ele pediu, mas não temos notícias há quanto dias? Três, quatro? Pode ter acontecido alguma coisa.

— O que vamos pedir que o Max procure?

— O Neil me disse para entrar em contato com o presidente e usar o codinome Gralha. Isso tem algo a ver com sua época de fuzileiro naval. Eu sei que o Neil passou um tempo em uma base militar no Colorado, mas tem um monte delas, várias em Colorado Springs. Precisamos começar por aí. Será que ele escondeu a Gwen com um dos amigos dele? Pediu ajuda a um velho conhecido? Precisava de algo para pegar o sujeito que só encontraria em um arsenal militar?

— Você pensou bastante nisso — disse Carter.

— É tudo em que tenho pensado. Isso e na saudade que sinto da minha mulher e do meu filho.

— Você está com a foto que achou no quarto do Neil?

Blake abriu a gaveta da mesa e pegou a pasta do guarda-costas.

— Sim.

— Digitalize e me mande. Talvez alguém o reconheça... ou reconheça alguém na foto.

Enquanto falavam, Blake colocou a foto no scanner e fez a cópia.

— Gostaria de ter conversado mais profundamente com ele.

— Fazer isso com o Neil é o quê, exatamente? Ele responder duas frases seguidas?

Blake sorriu.

— Ele é o melhor segurança que eu já tive.

— Bem, esteja preparado, Sua Graça. O Neil pode ter sido promovido a melhor cunhado que você já teve.

— Obrigado por me lembrar, governador. A Gwen poderia conseguir alguém pior.

Agora que Blake sabia que Neil não estava maluco, suas preocupações sobre ela estar transando com o homem diminuíam.

— Tudo bem, recebi o e-mail. Vou ligar e ver o que o Max pode fazer. Me avise se tiver alguma notícia.

— Você vai ser o segundo a saber, depois do Dean — disse Blake.

Eles se despediram e desligaram.

Blake olhava a fotografia, memorizando os rostos. Os homens eram todos fortes, como imaginava que seriam os fuzileiros navais. Um deles tinha um enorme sorriso nos lábios e outro segurava um rifle em cada mão e tinha cintos de munição nos ombros. Dois deles tinham um frescor nos olhos que fez Blake se lembrar daqueles meninos que viviam em fazendas no Kansas. Um tinha cabelo tão curto que as orelhas pareciam enormes. Ou talvez elas fossem grandes mesmo.

Seu celular tocou no bolso. Olhou o identificador antes de atender. Era Dean.

— Alguma notícia?

— Do Neil? Não. Estou na casa dele, com a sua equipe de segurança. Ken Sands chamou um especialista que lida com alguns dos grampos de tecnologia mais avançada já vistos nos círculos políticos.

Blake sentiu a pele arrepiar.

— Adivinhe o que encontramos.

— A escuta do Neil.

— E umas merdas de alta tecnologia também. Estou falando de coisas confidenciais, de espionar o presidente. O Sands mandou uma equipe para Tarzana para verificar o sistema de lá. O departamento de homicídios estava quase encerrando o caso dos vizinhos na banheira como acidente. Vou mandá-los chamar a polícia militar e olhar de novo.

Blake olhou para a foto que tinha nas mãos.

— Identificaram o motorista? — perguntou.

— Ainda não. Quem dera eu tivesse impressões digitais. Todos os militares colhem impressões digitais, amostras de sangue e são fotografados quando entram. Conseguimos limpar a imagem um pouco, mas mesmo assim não ficou boa.

— Me mande uma cópia. Vou virar a casa do Neil de cabeça para baixo e compará-lo com todas as fotos que ele possa ter.

— Você acha que esse sujeito conhece o Neil? — perguntou Dean.

— Não sei. Pode ser que alguém tenha dado uma descrição detalhada dele.

Dean soltou um palavrão.

— Isso está me cheirando a merda.

— Nem me fale.

 

O Gralha tirou o carro da estrada e dormiu por quatro horas seguidas. Nem se incomodou em ligar para o chefe e avisar que estava na cidade. Como era impossível pegar Mac dormindo, esperaria até que o inimigo estivesse exausto e ele mesmo descansado.

Saiu do carro para o ar frio e úmido das montanhas Rochosas. A poucos metros de distância havia um pinheiro alto. Mijou nele e limpou as mãos na calça. É ótimo estar ao ar livre. Uma linda cabana na floresta, longe de tudo e de todos, seria perfeito para ele e sua garota. Ele poderia caçar, e ela, cuidar da casa. Assim que ele resolvesse uns pequenos problemas do passado, tudo voltaria ao lugar.

A perna esquerda se endureceu no frio, fazendo-o lembrar a dor que sofrera. Tudo porque Mac não ordenara o tiro a tempo.

Maldito Billy por não ter passado por cima de Mac e feito a coisa certa. Billy sabia o que aconteceria e amarelara por causa de uma criança. Uma criança idiota que teria crescido odiando todos eles, de qualquer maneira.

Mas tudo bem. Billy pagara o preço. E ele pegara a garota de Billy, a enchera de explosivo e a fizera ir pelos ares. Que lindo.

O Gralha não podia contar essa parte ao chefe. Não seria inteligente fazê-lo pensar que ele gostava de explodir pessoas. Quando voltara para casa, conversara com tantos psiquiatras que sabia exatamente que perguntas eles fariam. E, mais importante ainda, que respostas queriam ouvir.

Ele voltou para o carro e jogou um punhado de balas azedas na boca.

Depois de ligar o telefone, fez uma chamada para ver onde seu alvo estava.