Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 14 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 11

 

 

GWEN LARGOU O TELEFONE E se afastou da janela.

Seus vizinhos, ambos nus, flutuavam de bruços na água. Mortos. Ela começou a tremer.

Precisava ajudá-los. Puxá-los para fora da água. Ligar para a polícia. Fazer alguma coisa.

— Gwen? Gwen? Caralho! Gwen?

Ela ouviu seu nome, mas não sabia de onde vinha.

O telefone.

Ela caiu de joelhos, e subitamente o alarme da casa disparou.

Deu um pulo e virou para a porta do quarto, imaginando que teria alguém ali. Mas estava vazio.

— Gwen?

Com a ponta dos dedos, ela encontrou o telefone.

— Neil?

— Meu Deus, Gwen.

— Eles estão mortos, Neil — disse ela, com a respiração entrecortada.

— Quem?

— O alarme. Meu alarme disparou. — Seu corpo inteiro tremia. O que está acontecendo?

— Eu disparei o alarme daqui. A polícia está a caminho. Quem está morto, Gwen?

Ela olhou mais uma vez pela janela.

— Os vizinhos. Na banheira. Eu preciso ir ver se posso ajudar.

— Não! Caralho. Não, Gwen, escuta! Fique dentro de casa. No seu quarto. Tranque a porta.

— Mas eu posso ajudar.

— Caramba, Gwen, não! Você precisa confiar em mim. Onde está a sua arma?

Arma? Por que preciso da arma?

Era difícil pensar com o barulho do alarme, que ecoava em cada canto da casa. Neil estava frenético, o que não ajudava a acalmá-la. Ela não devia ficar calma?

Enquanto se fazia essa pergunta, ela abriu a gaveta da mesa de cabeceira e pegou a arma.

— Está comigo.

— A porta do seu quarto está trancada?

Ela correu para a porta e a fechou com um estrondo.

— Sim. Você acha que tem alguém aqui? Tem alguém aqui, Neil?

Tinha alguém no quintal? Durante semanas ela sentira que alguém a estava vigiando. Será que Neil sabia de alguma coisa?

— Espere um pouco.

Ela deu uma olhada para fora de novo, mas manteve o corpo protegido pela janela.

Só se viam os vizinhos boiando. Luzes se acenderam em várias casas ao redor. Provavelmente por causa do barulho do alarme.

Ela se afastou da janela e apontou a arma para a frente enquanto checava o banheiro, debaixo da cama e o closet. Nada. Suspirou, trêmula.

Pelo telefone, ouviu Neil falar com outra pessoa:

— Bem atrás da casa. Minha cliente viu dois corpos em uma banheira de hidromassagem no quintal.

Gwen se jogou no meio da cama e ouviu Neil rosnar ordens e informações. Seu tom era assustador, como ela nunca tinha ouvido antes.

— Gwen?

— Estou aqui.

— Espere um pouco.

Como se ela pudesse fazer outra coisa. Perguntou-se por que queria morar sozinha. Isso não era liberdade... era medo. Puro e genuíno medo. Os segundos se transformaram em minutos. O corpo de Gwen sacudiu quando o alarme silenciou.

— Foi você que desligou o alarme? — ela perguntou a Neil, quase gritando.

— Sim. Estou no carro, a caminho. Não abra a porta para ninguém.

Ela já ouvia sirenes se aproximando lá fora.

— Mas a polícia... — começou a dizer.

— Para ninguém. Eu aviso quando chegar.

Era um trajeto de vinte minutos da casa de Blake até a dela. Gwen achava que não aguentaria esperar tanto tempo.

— O que está acontecendo, Neil?

Havia algo errado. Muito errado.

— Dez minutos.

Flashes de luz apareceram atrás de sua casa. Ela engatinhou até a janela e viu as lanternas da polícia vagando no quintal dos vizinhos.

— Gwen?

— A polícia chegou.

Um oficial foi tirar um dos vizinhos mortos da banheira, mas outro homem o deteve e o puxou de volta. Então ele jogou alguma coisa na água, que começou a soltar fagulhas.

— Meu Deus!

— Que foi? — Neil perguntou.

— A polícia está tentando tirar meus vizinhos da banheira, mas a água... está carregada. Formou um arco.

— Corrente elétrica?

— Acho que sim. Como é possível?

— Tem algum fio elétrico caído na água?

Ela olhou, mas não notou nada fora do comum.

— Não. — Ouviu a buzina do carro de Neil. — Tenha cuidado.

— Você ainda está no quarto?

— Sim.

Os minutos custavam a passar. Por fim, Neil disse:

— Estou chegando na sua rua.

Ela fechou os olhos e agradeceu a Deus por Neil estar perto.

— Estou entrando na casa.

Ela o ouviu correndo pela escada. Ele deu um pontapé na porta para abrir, fazendo a madeira rachar ao bater na parede. Gwen jogou a arma na cama e pulou nos braços de Neil, que a envolveram em um casulo de segurança.

— Está tudo bem.

Ela o apertou, enterrando o rosto no peito dele.

— Shhh, está tudo bem — ele repetiu.

— Nunca senti tanto medo.

— Sinto muito.

— Srta. Harrison? — alguém chamou no andar de baixo. — Polícia de Tarzana.

Neil afrouxou o abraço e segurou o rosto de Gwen com uma das mãos.

Ele tentou sorrir, mas não conseguiu. Seu semblante estava angustiado.

— Srta. Harrison?

— Aqui em cima — Neil respondeu por ela.

O oficial subiu a escada ruidosamente. Olhou para a porta e em seguida para os dois. O rapaz, que não devia ter mais que vinte e cinco anos, observou ao redor.

— Srta. Harrison?

Gwen assentiu, insegura para falar qualquer coisa. Neil ainda a abraçava, e ela se deixou ficar ali.

— Foi você que viu os corpos e avisou a polícia, certo?

— Eu estava ao telefone com ela e acionei o alarme por acesso remoto — disse Neil.

O policial levantou a sobrancelha, interrogativo.

— Acesso remoto?

— Exato.

Gwen deslizou o olhar para as persianas. O oficial entrou no quarto e olhou pela janela.

— Bem fácil de ver. Você espia os vizinhos com frequência, srta. Harrison?

Neil a abraçou com mais força.

— Você está se excedendo, oficial — retrucou, com raiva controlada na voz.

— Anotado, sr...?

— MacBain — respondeu Neil. — Venha, Gwen, vamos sair daqui.

Ela ainda tremia enquanto descia as escadas abraçada a Neil. Quando fechava os olhos, via seus vizinhos boiando na água borbulhante. Por quanto tempo ficaria com essa imagem na cabeça?

Neil se acomodou na beirada do sofá e a fez sentar a seu lado.

Outro oficial entrou na sala.

— Vocês são os proprietários desta casa?

— Sou eu — respondeu Gwen.

— Foi você que relatou os corpos?

Ela piscou duas vezes.

— Então eles estão mesmo mortos?

O policial olhou para Neil e assentiu uma vez. Puta merda.

O oficial lá em cima chamou seu colega.

— Eu preciso falar com a polícia. Você vai ficar bem aqui? — perguntou Neil.

Gwen apertou mais o roupão ao redor do corpo.

— Sim, vou ficar bem.

— Onde está o seu celular?

— Na minha bolsa, por quê?

— Quero que ligue para a Eliza e peça para falar com o Carter, se for possível. Preciso que ele abra o caminho para eu poder ver com meus próprios olhos o que aconteceu lá.

Gwen se encolheu.

— Abrir o caminho? Eu não entendo... Deve ter sido uma fatalidade.

Neil olhou ao redor da sala, viu a bolsa de Gwen e pegou para ela.

— Ligue para a Eliza.

Gwen não fazia ideia de por que Neil insistia em meter o bedelho na investigação, mas falar com Eliza poderia ajudá-la a se acalmar. Enquanto ela pegava o telefone na bolsa, Neil subiu as escadas para falar com os policiais.

O telefone tocou duas vezes antes de Eliza atender.

— Oi, lady. Por que está ligando para esta...

— Eliza? — Gwen ouviu a angústia na própria voz.

— Ah, não. O que aconteceu?

Gwen fechou os olhos e viu os corpos.

— Os meus vizinhos... Eles estão, eles estão...

— Estão o quê, querida?

Gwen engoliu em seco.

— Mortos.

Eliza ofegou.

— Eu estava lavando a louça e o Neil ligou, puto da vida por causa dos monitores do quintal.

Pensando agora, ela lembrou como a voz dele estava angustiada. Mais que de costume.

— E?

— Os monitores têm andado malucos. Por algum motivo, não funcionam quando os vizinhos estão na banheira de hidromassagem.

— Os vizinhos pelados?

Pelados e mortos. Gwen mordeu o lábio inferior e se recusou a deixar que as lágrimas caíssem.

— O Neil me pediu para ir ver se eles estavam na banheira. Eu fiquei brava com ele, Eliza, me dando ordens... Falei que era a última vez que corria pela escada para olhar os vizinhos. E então... então... eu vi. O alarme da casa disparou, e o Neil me mandou trancar a porta e esperar por ele.

— Meu Deus, Gwen. Que coisa horrível!

— O Neil precisa falar com o Carter. Ele está aí?

— Não. Mas eu vou ligar para ele e pedir que retorne para o Neil imediatamente.

— Tudo bem. Obrigada, Eliza.

— Já ligo de volta.

Eliza desligou e Gwen manteve o telefone no colo. Luzes brilhavam pelas janelas da frente e de trás.

Duas pessoas estavam mortas. E Gwen não sabia se poderia morar sozinha ali, depois de tudo aquilo.

 

— Você notou alguma coisa diferente no sistema de vigilância? — perguntou o policial novato e irônico.

Neil mentiu:

— Sim.

— O quê?

— Vou mandar o meu assistente fazer um arquivo digital para você examinar.

O que Neil necessitava agora era sair do quarto e pular a cerca do quintal dos vizinhos para verificar a cena sozinho.

— Você conhecia as vítimas?

— Não.

— E a srta. Harrison?

— Vai ter que perguntar a ela.

— Qual é a sua relação com a srta. Harrison?

Neil estreitou os olhos.

— Eu cuido da segurança dela.

— Este não é um bairro sofisticado, sr. MacBain. Parece que o sistema de segurança e vigilância que você tem aqui é um tanto exagerado.

Ele apertou o maxilar.

— Se me der licença, preciso investigar a cena.

— Seguranças privados não têm autorização para isso, sr. MacBain. Tenho certeza de que conhece as regras.

Neil apertou os punhos. O celular tocando em seu bolso desviou sua atenção e o impediu de cometer um crime.

— MacBain — atendeu.

— Neil? É o Carter. O que está acontecendo?

Neil virou as costas para os policiais.

— Os vizinhos da Gwen estão mortos.

— Foi o que a Eliza acabou de me dizer.

— Sr. MacBain, ainda estamos analisando a cena, e nós não... — começou a dizer o oficial.

— Preciso de autorização do chefe da polícia de Tarzana para investigar a cena do crime. E preciso antes que eles remexam e estraguem tudo.

Os policiais se entreolharam com um leve sorriso nos lábios.

Garotos arrogantes.

Neil ouviu Carter falar com outra pessoa antes de voltar ao telefone. Se havia alguém que podia providenciar uma autorização, era o governador.

— Tenho alguém cuidando disso. A Eliza acabou de ligar para o Dean.

Ótimo. Dean era detetive da polícia de Los Angeles e amigo íntimo de Eliza.

— Você acha que foi assassinato? — perguntou Carter.

— Não vou saber enquanto não investigar. Espero que não.

— Sr. MacBain?

— Tenho que desligar — Neil disse a seu amigo. — Ligue para o Blake, diga que a Gwen está segura.

— Pode deixar. Eu ligo de volta se houver algum problema.

Quando Neil desligou, os policiais começaram a interrogá-lo novamente.

— Onde você mora?

Onde ele morava não era relevante, e responder às perguntas daquelas crianças enquanto os outros policiais andavam por ali era um desperdício de tempo valioso. Neil lhes deu um chega para lá:

— Eu falo com vocês depois que vir a área.

Voltou até Gwen. Ela não havia saído do sofá.

— Você está bem?

Ela começou a assentir, mas logo balançou a cabeça.

— Você não acha que foi um acidente, não é?

Neil não confirmou nem negou.

— Foi por isso que disse para eu ficar no quarto e pegar a arma.

Aqueles poucos momentos em que ela gritara e não respondia ao telefone haviam sido os mais longos da vida de Neil. Ele saíra correndo de casa e violara todas as leis de trânsito para chegar até ela. As palavras de Rick ficavam se repetindo em sua cabeça: Acho que eles estavam só querendo foder com ele, fazer ele sangrar por dentro, sabe?

Neil viu os oficiais descerem as escadas e saírem pela porta dos fundos. Enfiou a mão no bolso e tirou o jornal amassado com a foto de Gwen, Karen e o pássaro morto.

— O que aconteceu aqui?

Gwen alisou o papel no colo.

— Eu e a Karen fomos jantar fora. Quando estávamos indo embora, ela encontrou o pássaro morto no chão, ao lado do carro.

— Você parece contrariada na foto.

— Nós ficamos um pouco preocupadas. A Karen tinha encontrado um corvo morto do lado de fora da janela do quarto dela, na floreira, uns dias antes. Ela odeia pássaros, então pediu para... — Gwen continuou falando, mas Neil não ouvia.

Dois... dois corvos mortos?

— Não pensei muito no corvo da janela. Mas esse parecia maior, como uma gralha. Eu pesquisei. Gralhas não são naturais desta região.

— Estou com o Gralha na mira, Mac.

Billy estava segurando sua arma de atirador de elite, e Neil estava prestes a dar a ordem para atirar, livrando-os do problema de precisarem se aproximar, para poderem sair logo dali.

— Maldição! — disse Billy, recuando.

— O que foi?

— Crianças. Os filhos pularam no colo dele.

— Espera. Vamos nos aproximar. Fazer um serviço limpo.

Menos danos colaterais.

— Neil? — A mão de Gwen no braço dele o fez voltar à realidade.

— Por que você não me contou sobre isso?

Ele precisava tirá-la dali.

— Pensamos que era com a Karen. Algum fã maluco do Michael.

Podia ter sido Gwen boiando na piscina, não os vizinhos.

— Com a Karen?

— Ela detesta pássaros. Nós os encontramos na janela do quarto dela e no lado do passageiro, o lugar dela no carro.

— Sr. MacBain? — chamou o oficial na porta dos fundos. — Seu acesso está liberado.

Valeu, Carter!

— Vá lá para cima, Gwen. Faça uma mala. Você não vai mais ficar aqui.

Ele não esperou para ouvi-la protestar. Saiu pela porta dos fundos e pulou a cerca.

Os corpos haviam sido tirados da água e estavam cobertos com lençóis. Uma dúzia de policiais apontava as lanternas ao redor.

— Quem está no comando? — Neil perguntou enquanto caminhava até a parte de trás da banheira de hidromassagem.

— Eu.

Neil olhou e notou um oficial uniformizado.

— Foi o primeiro a chegar?

— Exato.

O que significava que ele estava esperando um superior aparecer para assumir.

— O que você sabe?

— Ambas as vítimas têm queimaduras, uma na mão e outra na lateral do rosto.

Eletrocutados.

— Onde você desligou a energia?

— No quadro de luz.

Neil foi até a lateral do quintal. Dois policiais olhavam para o quadro, e um deles tirava fotos.

— Neil?

Ele virou e viu Dean e seu parceiro, Jim, se aproximarem.

— Obrigado por terem vindo.

— Com licença — disse o oficial-chefe, abrindo caminho.

Dean e seu companheiro mostraram os distintivos.

— Você está fora da sua jurisdição, detetive.

Dean apontou para a casa de Gwen.

— Sabe quem morava naquela casa?

O policial balançou a cabeça.

— A esposa do governador. Qualquer coisa que aconteça em um perímetro de até dois quilômetros desta casa é da minha jurisdição. Agora, diga a seus rapazes para recuarem, eles estão pisando na cena do crime.

O oficial fez o que Dean pediu e se afastou.

— Eu adoro dizer isso — Dean brincou, e seu sorriso fácil se espalhou pelo rosto. — O que aconteceu?

Neil informou, mas omitiu o detalhe dos pássaros. Pelo menos por enquanto.

Dean olhou ao redor.

— Você acha que foi homicídio?

— Quando foi a última vez que você ouviu falar de um casal fritando em uma banheira de hidromassagem? — perguntou Neil.

Voltaram para a banheira. Os policiais observavam.

Jim levantou uma lona. Neil não viu o que tinha embaixo, nem precisou.

— A eletricidade viaja pelo corpo e sai por qualquer lugar, fritando tudo no caminho.

— A água ainda estava eletrificada quando os policiais chegaram — disse Neil.

Ele se ajoelhou diante da porta do motor da banheira. Um dos oficiais já a havia aberto.

— Tem uma lanterna? — pediu.

Jim lhe entregou uma.

Neil olhou lá dentro. Qualquer possibilidade de que fosse um acidente se dissipou quando ele viu os pássaros mortos.

— Que merda é essa?

— Gralhas — respondeu.