Noiva até Sexta

Catherine Bybee · Capítulo 19 de 41

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Noiva até Sexta

Capítulo 16

 

 

ELIZA ENCONTROU KAREN E MICHAEL no aeroporto. A “lua de mel” deles havia sido encurtada em dois dias. Michael sugerira que voltassem à França depois, entre as filmagens, para compensar a interrupção.

Karen correu para abraçar Eliza.

— Voltamos o mais rápido possível.

— Obrigada. Desculpem por interromper as férias de vocês — Eliza disse aos dois.

— Vizinhos mortos e pessoas desaparecidas estão mais para histórias de cinema do que para a vida real — apontou Michael.

Eliza assentiu com a cabeça.

— Desculpe, ainda não fomos apresentados... — disse, estendendo a mão para ele.

— Ops, foi mau. Michael, esta é Eliza Billings — disse Karen, apresentando-os enquanto trocavam um aperto de mãos. — Eliza, este é Michael Wolfe... meu marido temporário — sussurrou, para só os três ouvirem.

Ele deu uma piscadinha para Eliza.

— Desnecessário apresentar a primeira-dama do estado.

— O mesmo digo eu, sr. astro do cinema.

Michael sorriu, já à vontade na presença de Eliza.

Eles se dirigiram a uma limusine, que os esperava, acompanhados de um pequeno destacamento de seguranças. No banco de trás, Karen esperou até que a janela entre os passageiros e o motorista estivesse fechada.

— O que aconteceu? — perguntou.

— Acho que nenhum de nós sabe realmente. É por isso que precisamos que você nos dê qualquer informação que tiver, para nos ajudar a descobrir.

— Mas eu estava na França. Como posso saber de alguma coisa?

— Você morava com a Gwen. Sabia tudo sobre os hábitos dos seus vizinhos. Você sabe muita coisa.

— Tudo o que eu sei é que a Gwen e o Neil desapareceram e os vizinhos estão mortos. O Michael e eu rimos tanto dos vizinhos peludos e pelados. Deus, agora eu me sinto péssima.

— Como você poderia saber?

Karen deu de ombros.

— Não poderia. Da primeira vez que vi os dois lá, eu fiquei: “Vem depressa, Gwen. Olha isso!” — Ela afastou a lembrança, antes alegre, da cabeça. — Eles estão mesmo mortos?

O olhar de Eliza passou de Michael para Karen.

— Eletrocutados.

— E não foi um acidente?

— Não... Pelo menos nós achamos que não — Eliza respondeu, hesitante.

— Você acham que não?

— O Neil telefonou para o Blake pouco depois de acontecer. E a Gwen me ligou. O Neil parecia sombrio.

— Sombrio? — interrompeu Karen. — O Neil é sempre dolorosamente quieto.

— Nas palavras do Carter: “Nunca ouvi uma voz mais sinistra na vida”. Ele pediu para o Carter conseguir uma autorização para que ele pudesse investigar o quintal dos vizinhos depois que a polícia chegou. Segundo o Dean, eles encontraram um bando de pássaros mortos na banheira de hidromassagem, e o Neil pirou.

Karen ficou arrepiada.

— Pássaros?

— Sim, gralhas. Nem existem gralhas nesta parte da Califórnia.

Karen esfregou os braços, repentinamente gelados.

— Karen? — Michael perguntou, fitando-a. — Você está bem?

Não! Ela estava tudo, menos bem. Lembrou do pássaro morto, que pensara ser um corvo, mas que poderia ser uma gralha, no parapeito da janela e novamente na porta do carro, no restaurante. E agora duas pessoas haviam morrido.

— Karen?

— Tem certeza de que era uma gralha?

— Algumas, na verdade. Por quê?

— Eu acho que eles foram assassinados. O Neil precisava tirar a Gwen de lá.

E não havia nenhuma garantia de que a própria Karen estivesse segura também.

 

— Mastigue isso — disse Neil, enfiando um chiclete na boca de Gwen.

Eles estavam dento do carro, parados em uma estrada escura nos arredores da cidade. A julgar pelas luzes ao longe, era uma cidade pequena, com no máximo meia dúzia de hotéis.

— Por quê? — ela perguntou, aceitando o chiclete.

— Consegue mastigar de boca aberta?

Ela abriu a boca e tentou. Então começou a rir.

— Dormir no banco de trás parece bom para você, Gwendolyn?

Ela se esforçou mais, mas mastigar de boca aberta ia contra todos os seus princípios.

— Melhor assim?

Ele assentiu.

— Agora relaxe a postura.

Ela deixou cair os ombros para a frente, pensando em um banho quente.

— Ótimo — Neil elogiou.

Gwen ficou no banco do passageiro, corcunda, mastigando o chiclete feito uma vaca no pasto.

— Tudo bem, ótimo. — Ele esfregou as mãos na calça jeans antes de pegar o volante. — Vou entrar e pedir um quarto. Vou usar o nome Rex Smith.

— Parece comum.

— E é. Tudo o que você precisa fazer é sair do carro e se inclinar sobre o capô. Se eu olhar para você, sorria e pense em cada filme pornô que você já viu.

Ela engasgou.

— Eu nunca...

Ele interrompeu sua negativa com um olhar.

— Preciso te lembrar de quem esteve ouvindo suas conversas no último ano?

— Isso não é justo! Eu só disse, uma única vez, que nunca tinha visto um homem atraente nesses filmes. — E fora em uma conversa na véspera do casamento de Eliza, quando ela estava bêbada.

Neil esperou que ela terminasse.

— Como eu estava dizendo... pense nas mulheres desses filmes e atue para as câmeras.

— Tem alguma coisa que você não saiba sobre mim?

O olhar dele recaiu sobre seus seios e voltou ao rosto. Gwen sentiu um calor percorrer seu corpo.

— Muita coisa.

Ela desviou o olhar e olhou pela janela.

— Muito bem, vamos lá. Lençóis limpos e um chuveiro quente nos esperam.

Conforme os últimos quilômetros foram ficando para trás, Gwen se sentiu mais à vontade mastigando o chiclete, que quase caía da boca.

Neil atravessou a cidade duas vezes antes de se decidir por um hotelzinho com uma placa indicando vagas.

— O show começa quando estacionarmos. Você é o meu entretenimento desta noite, e quem estiver observando precisa perceber isso.

Gwen tirou o cinto de segurança e se aproximou dele. Descansou a mão em sua coxa e se curvou para perto.

— Está bom assim?

Neil alongou o pescoço grosso.

— Bom.

Já que ela teria de atuar, podia muito bem se divertir.

 

Um ventilador soprava ar quente na recepção do hotel. Recepção era um termo vago para o pequeno espaço designado para registrar os hóspedes durante a noite. Neil tocou a campainha, mantendo o rosto o mais inclinado possível, longe da câmera que apontava para ele. Mesmo buracos como aquele gostavam de segurança. Provavelmente gravavam por cima dos CDs em questão de dias, para evitar ter que armazenar dados. Lugares como aquele não tinham necessidade de atualizar seu sistema para que os arquivos de vídeo pudessem ser armazenados no computador e nada precisasse ser apagado. O pensamento padrão era: “Se deu certo até agora, para que mudar?”

Neil tocou a campainha uma segunda vez e olhou para Gwen por cima do ombro.

Ela estava apoiada no carro com uma perna dobrada. Acenou, enquanto se abanava, e ergueu o queixo, forçando os seios contra o tecido da camisa.

Ele tinha de admitir que ela estava incrivelmente sexy.

O som da TV na outra sala baixou, e Neil tocou a campainha pela terceira vez.

— Estou indo — disse alguém.

Um homem de meia-idade saiu da sala dos fundos. A barriga de cerveja o precedia quase trinta centímetros.

— Desculpa, não ouvi por causa da TV.

Provavelmente uma velha, com botão seletor de canais e tudo.

— Sem problemas.

— Precisa de um quarto?

Não. Ele estava ali para cuidar da saúde.

— Uma noite — disse Neil.

— Tem cartão de crédito? — o sujeito perguntou, puxando o livro de registro.

— Então... sobre isso... — Neil se pôs de lado e olhou para Gwen.

O barrigudo seguiu seu olhar.

Vamos lá, Gwendolyn, capricha.

Ela olhou para ele e virou de frente para o carro. Empinou a bunda e se inclinou sobre o capô, para que os seios escapassem pelo tecido do sutiã, claramente visível. Depois de lhe soprar um beijo, lambeu os lábios devagar, de um jeito que deixaria orgulhosa qualquer prostituta de Las Vegas.

— Preciso pagar em dinheiro — disse Neil, acenando para ela. Então virou e viu os olhos cheios de luxúria do barrigudo fixos em Gwen.

Neil se mexeu a fim de bloquear a visão.

— Não quero lançamentos no cartão... que outra pessoa possa ver, entende?

O barrigudo ergueu uma sobrancelha.

— Eu largaria essa pessoa e ficaria com ela — disse.

— E desistir do trailer? Acho que não. — Neil pegou um maço de cigarros e o bateu na mão.

O dono do hotel olhou por cima do ombro de Neil novamente, escreveu algo no livro e perguntou:

— Quer TV?

— Melhor ar-condicionado e TV.

— Cinquenta dólares.

Neil olhou em volta. Por este buraco? Tirou o dinheiro da carteira.

— Prefiro que a patroa, ou o irmão dela, não saibam que estive aqui.

O barrigudo girou o livro para Neil, que escreveu o nome falso.

— O quarto fica nos fundos.

Neil acrescentou mais vinte dólares, que desapareceram no bolso do sujeito.

Ao terminar de anotar a reserva, o barrigudo lhe desejou uma noite divertida e o observou sair pela porta.

Neil foi direto até Gwen, enlaçou sua cintura fina e se aninhou bem perto da sua orelha.

— Ele ainda está olhando?

Sentiu Gwen erguer uma perna e deslizá-la ao longo da sua.

— Sim — disse ela, mordiscando sua orelha.

Neil sentiu o calor percorrer seu pau. Beijou o pescoço de Gwen e a afastou antes de abrir a porta. E, como não conseguia se conter, beliscou seu traseiro antes de empurrá-la para dentro do carro.

Gwen deu um gritinho e um sorriso perverso.

Quando chegaram aos fundos do hotel, ele estacionou o carro em uma vaga e saltou. Gwen o seguiu. Havia uma fileira de doze quartos, três dos quais estavam iluminados. Noite tranquila.

— Mal posso esperar pelo banho — disse ela.

— Não espere muita coisa.

— Não pode ser tão ruim.

Os aparelhos de ar-condicionado encaixados nas paredes do hotel barato ofegavam no esforço de funcionar. Ainda fazia trinta e dois graus, mesmo depois do pôr do sol.

Ele passou o cartão pela fechadura e esperou a luz verde acender. Algo lhe dizia que a fechadura moderna era o único luxo que aquela espelunca se permitia.

Abriu a porta.

— Muito pior.

A cama king size ocupava o centro do quarto e ostentava um edredom verde-escuro e vermelho. Havia uma cômoda à direita, com uma televisão antiga em cima, e uma cadeira para lá de suja ao lado. Tudo isso regado a cheiro de sexo e cerveja rançosa, borbulhando a uma temperatura dez graus superior àquela do lado de fora.

O choque no rosto de Gwen se transformou em um ataque de riso.

— Tem certeza? — ele perguntou.

Ela passou por ele.

— Nada vai me impedir de tomar um banho.

Quando entrou no quarto, sua risada cresceu. Ela passou o olhar pelo papel de parede descascado e subiu até a mancha escura no teto.

— Ainda bem que não está chovendo.

Sua risadinha estava começando a contagiá-lo. Apesar da disparidade entre o quarto e a natureza angelical de Gwen, Neil se viu sorrindo. Ele se inclinou para o ar-condicionado e girou o botão.

— Vou pegar as nossas coisas.

Gwen olhou para ele por cima do ombro, enquanto observava o banheiro.

Ele jogou as mochilas sobre o ombro e pegou a caixa de armas. Deu uma última olhada no lado de fora; não notou nada estranho. Uma espelunca em uma cidade com dois semáforos. Não achava que alguém os estivesse seguindo, mas não facilitaria as coisas.

Jogou os pertences na cama e deu um chute na porta para fechá-la.

— Neil, você pode vir até aqui?

Ele foi até o espaço apertado que era o banheiro e encontrou Gwen com um grande inseto na palma da mão.

— Isso aqui é um louva-deus? — ela perguntou, rindo.

— Acho que sim. Onde você encontrou?

— Na toalha nada limpa.

A toalha manchada podia ter sido branca um dia, mas agora tendia para um tom de cinza.

— Você disse cama e água corrente — ele a lembrou, estendendo a mão e abrindo a torneira da pia. — Água corrente.

Ela riu e lhe entregou o inseto.

— Eu dormi no meio dos insetos por duas noites. Por favor, leve isso para fora.

O inseto aceitou o passeio e ficou sentado na grade antes de ir embora. Mais uma vez, Gwen havia impressionado Neil. Não só não fizera escândalo por encontrar um bicho na toalha imunda como rira, em vez de dar meia-volta e sair daquele buraco.

Quando Neil voltou para o quarto, ela havia tirado o edredom da cama e o colocado na cadeira suja. Mas mudou de ideia e o estendeu no chão.

— O que está fazendo? — ele perguntou.

— O chão está imundo, e todo mundo sabe que colchas de hotel nunca são limpas. Não quero tomar banho e acabar com os pés sujos.

Essa mulher não parava de surpreendê-lo. Justo quando ele achava que ela tinha perdido um pouco da afetação de uma lady, seu lado princesa aparecia.

— Tome banho primeiro — disse ele.

Ela vasculhou na mochila e ergueu duas caixas de tinta de cabelo.

— Morena ou ruiva?

Ele adorava o cabelo dela do jeito que era.

— Você não precisa...

— Neil, por favor, olhe para mim. Estou vestida como uma garota comum. Tenho certeza de que uma cor diferente de cabelo ajudaria o meu disfarce, mais do que essas roupas. Não é nada permanente. Na verdade, na caixa diz que a tinta sai em uma semana.

Ela balançou as caixas no ar. Sem poder discutir, ele disse simplesmente:

— Me surpreenda.

Ela pegou a mochila e desapareceu no banheiro.

— Chuveiro quente, aqui vou eu.