O Bosque de Faias
Capítulo 9 - A surpresa
Nem ao menos sabia o que mais o deixava daquele jeito. Não sabia se era o fato de que veria Joana em breve e ficaria sem reação; se era o fato de se apresentar a ela como Phillip e mais uma vez se torturar com aquela mentira que tomava proporções cada vez maiores e difíceis de corrigir; ou se era o desconforto de imaginar a possibilidade de Joana o desprezar, sendo ele quem quer que fosse. Por um momento chegou até mesmo a imaginar que talvez ela se mostrasse amável ao pensar que ele era Phillip. Quem sabe fosse mais uma a suspirar pelos encantos afortunados do amigo. Balançou a cabeça para se livrar dessa tortura que ele mesmo tinha se metido quando resolveu não gritar a plenos pulmões: eu sou Alexandre Franz!
Capítulo 9 - A surpresa
Chegou à casa dos Hour e viu que a sala estava iluminada, bem como a janela do aposento em que vira Joana se pentear. Desceu do cavalo e deu leves batidas na porta, que prontamente foi aberta pelo senhor e senhora Hour, que exibiam um sorriso excessivo.
— Senhor Phillip, que alegria, entre — convidou Anastasia quando, olhando por trás de Alexandre, viu um cavalo remexer-se. — O senhor veio montado? Nesta escuridão?
— Sim, perdi a noção do tempo. Devia ter me adiantado e chegaria antes de escurecer. Vim montado porque gosto muito de cavalgar — disse ele com nervosismo, passando os olhos pelo ambiente atrás dos anfitriões, mas não viu ninguém.
— Senhor Phillip, entre e fique à vontade. Irei levar seu cavalo até a cavalariça — Frederico Hour rapidamente conduziu o Percheron para a sua pequena cavalariça enquanto Anastasia conduzia Alexandre até a sala de jantar.
— Acompanhe-me — Anastasia indicava o caminho enquanto ele ia sentindo uma quentura no rosto a consumi-lo.
Alexandre seguiu Anastasia com uma estranha expectativa. A cada passo seus olhos vasculhavam o local e sofriam com a possibilidade de encontrar Joana a qualquer instante. Notou que o ambiente era recheado de um acúmulo exagerado de almofadas, cortinas, tecidos, papéis de parede, quadros com molduras douradas, entalhadas ou recobertas de veludo, vasos e enfeites em profusão. Não era uma propriedade luxuosa, mas tinha sua elegância. As paredes internas eram pintadas de um tom de verde e os móveis eram de madeira requintada. Havia também algumas belas tapeçarias, sofás e poltronas que deixavam o ambiente confortável.
Seu coração saltou no peito quando pôs os olhos nas duas moças que conversavam no canto da sala. Uma delas estava de costas e ele teve a certeza de que era Joana, mas a sua decepção veio em seguida, quando constatou que era Sophie, ao lado de Amália.
Será que ela não vai aparecer novamente? — Seu coração doía e também se sentia aliviado com a possibilidade.
Frederico Hour e a esposa o conduziram até as filhas e prontamente elas o saudaram com um leve abaixar de cabeça e com um sorriso discreto. Já Sophie, lhe estendeu a mão em um gesto ensaiado e sorriu graciosa.
— Senhor Phillip, que bom que veio. — Ela disse.
Alexandre segurou a mão que Sophie lhe oferecia, mas apenas conseguiu balançar a cabeça e sorriu sem mostrar os dentes. Engoliu a seco e aspirou o ar com força.
— Obrigado — respondeu soltando as mãos dela.
— E então... — Sophie tentava engatar uma conversa. — Está gostando da região?
— Sim. Todas as pessoas são muito acolhedoras e é uma localidade muito bonita.
Joana descia as escadas quando ouviu aquela voz que não lhe era estranha. Franziu o cenho em dúvida e balançou a cabeça.
Não. Estou ouvindo coisas... — disse para si.
Ela espreitou-se na parede ao final da escada, espiou a sala e viu um jovem de costas conversando com seu pai e com Sophie. Deduziu ser o senhor Phillip. Apertou os olhos para enxergar melhor e seu coração tremeu.
Parece muito com ele... Parece o jovem do bosque
— Joana! O que está fazendo parada aí? — A mãe a surpreendeu.
— Oh! Mamãe, que susto!
— Não lhe disse para usar outro vestido? Esse é muito simples — Anastasia balançava a cabeça em sinal de reprovação. — Como é teimosa! Eu já estava indo procurá-la.
Enquanto a mãe a recriminava, Alexandre virou o corpo para falar com Frederico e Joana constatou de que era mesmo o jovem do bosque que estava ali em sua sala. Sentiu as pernas tremerem e o coração saltar.
— Está bem, eu colocarei outro vestido — respondeu e pôs-se a subir os degraus da escada, mas a mãe a segurou.
— Agora venha como está. Não é educado receber visitas e ficar se demorando para descer. Venha... — puxou-a pela mão.
— Calma, mamãe, sei andar sozinha — Joana dizia em tom baixo. Sua vontade era voltar rapidamente para seu aposento e não sair mais de lá. Em silêncio se condenava por estar tão nervosa e, pior ainda, sentir-se preocupada de não estar bem trajada. Naqueles poucos segundos que a afastavam da sala, chegou até mesmo brotar em seu peito um discreto desapontamento por ser Sophie quem o pai queria agora que ele se interessasse.
Quando Joana entrou na sala Alexandre ficou paralisado. Não mexeu sequer um músculo do corpo. Apenas levantou o olhar na direção dos olhos de Joana, que se expandiam em surpresa. Joana não sabia como reagir, todo o seu corpo parecia ter vida própria e ela já não conseguia comandar aquela agitação que fazia tremer o seu interior de uma forma que não sabia que era possível.
Ele a cumprimentou cordialmente à distância com um aceno de cabeça e esperou que o senhor Hour lhes apresentasse. Aguardou que o pai de Joana discorresse sobre a beleza da filha e sobre os encantos que ela tinha. Alexandre não tinha dúvida nenhuma que ele faria isso naquele exato momento. Porém não foi o que aconteceu.
O senhor Hour ignorou completamente a chegada da filha e, ao seu lado, Sophie continuava a falar sem pausas sobre como estava ansiosa com o baile e como era uma raridade tais eventos naquela região
— Temos é claro, os bailes de debút. Eu mesma debutei este ano. No entanto, um baile de máscaras é algo especial. Não vejo a hora... — dizia sorridente. Alexandre reparou que Sophie era ainda mais entediante que Caroline. Aqueles minutos de conversa irritante foram o deixando sem paciência. Era impossível estar tão perto de Joana e não lhe dirigir o olhar, uma palavra. Isso estava o matando. Até mesmo o senhor Hour devia estar achando a conversa entediante, pois sentou-se na poltrona perto dos dois e ficou fingindo que prestava atenção.
— Com licença, senhorita. — Ele disse no meio de uma frase de Sophie, deixando-a com a boca aberta, prestes a completar seu raciocínio.
— Oh, é claro — disse constrangida com a falta de interesse dele no assunto.
— Madame Anastasia, creio que não me apresentei corretamente à sua filha — disse quando se aproximou de Anastasia e Joana, que estavam de pé próximas ao sofá.
— Creio que não — Joana repetiu as palavras dele com seriedade. — Então o senhor é Phillip Motier? — perguntou em seguida. A mãe franziu a testa.
— É o que dizem — Ele falou inquieto ao acatar aquela afirmação.
— Ora, que pergunta! É claro que é! E essa é Joana, senhor Phillip. É a nossa filha mais velha, que estava adoentada na primeira vez que esteve aqui — disse Anastasia.
— Noto que está melhor agora — disse ele. — Parece saudável... — completou.
— Dificilmente voltarei a adoecer. Digamos que o meu mal foi... curado completamente — disse ela.
— Joana! — A mãe a cutucou levemente.
— Fique à vontade em nossa casa, senhor Phillip — Joana falou e afastou-se dele, sentando-se no sofá, ao lado de Rebecca.
— Senhor Phillip, acompanhe-me — Anastasia o levou para junto de Sophie e do senhor Hour novamente.
Não estou entendendo.... Tenho a impressão que querem que eu permaneça ao lado da senhorita Sophie...
Nos minutos seguintes Sophie fez questão de mostrar que era prendada, falando de como bordava e desenhava bem. Alexandre estava entediado e sua vontade era fazer sumir todos naquela sala e ficar sozinho com Joana, para ver qual seria a sua reação sem a família por perto. Ele podia não a conhecer tão bem, mas sabia que ela não estava agindo com naturalidade.
Joana permanecia séria e mostrava uma indiferença que lhe doía. Ela não o olhava, não se aproximava. Aquilo era angustiante. Frederico Hour continuava sentado em sua poltrona e observava a tudo, ao seu lado direito estavam Joana, a esposa e Rebecca, sentadas no sofá; e ao seu lado esquerdo, próximos à janela, estava aquele a quem todos pensavam que era Phillip, conversando com Sophie e Amália.
— Joana, faça com que os olhos do senhor Phillip fiquem longe de você — exigiu Anastasia em tom baixo, notando qualquer coisa de diferente no modo com que ele olhava para a filha mais velha.
— Como? — Ela surpreendeu-se com aquela ordem de sua mãe. Olhou para Alexandre e viu que ele a observava enquanto fingia prestar atenção em Sophie. — Como quer que eu faça tal coisa, mamãe? Por acaso tenho eu o dom de direcionar olhos que não sejam os meus?
— Era para ele estar mais interessado em Sophie. Parece que ele mal está ouvindo o que ela diz — Anastasia notou.
— Que culpa eu tenho? — redarguiu impaciente.
— Eu a orientei tanto sobre como agir. Veja, Sophie não para de falar. Eu disse que fosse doce, tímida e uma boa ouvinte.
Sophie também já havia reparado onde se concentravam os olhos de seu pretendente. Ela ficou tão nervosa que acabou atrapalhando-se com as mãos e derrubando uma taça de vinho inteira no vestido.
— Oh, não — lamuriou-se. Sophie segurou as mãos de Amália e saiu correndo na direção da mãe. Elas puseram-se a subir as escadas rapidamente.
— O que houve com ela? — Rebecca perguntou.
— Sophie derrubou vinho no vestido — disse Joana.
— Coitada! Ela deve estar arrasada. Queria estar linda para Phillip e acabou manchando a roupa. Deve estar assolada pela vergonha — disse Rebecca. — Vou ver se precisa de ajuda.
A sala tornou-se um completo silêncio em frações de segundos. Estavam agora apenas o senhor Hour, Alexandre e Joana no local. Frederico Hour, que era habituado a dormir muito cedo, estava quase dormindo sentado na poltrona, com uma das mãos apoiadas no queixo, que de vez em quando escapava e dava-lhe um susto ao pender a cabeça para baixo. Joana continuava sentada no sofá e não ousava virar o pescoço na direção de Alexandre. Ele estava desconcertado. Sem mais aguentar, deu firmes passos na direção do sofá e ficou de pé na frente dela. Joana percebeu a aproximação e olhou para baixo.
— Está me ignorando, senhorita. Por quê?
— Não estou — respondeu ainda sem o encarar.
— É uma afirmação. Sei que está. Sua polidez tão fria, cerimoniosa... isso é pior do que tudo! — agitou-se.
— É mesmo, senhor Phillip? Por que não se apresentou no bosque? — questionou finalmente levantando os olhos na direção dele.
— A senhorita não perguntou; e também não me disse seu nome.
— Vejo claramente que eu não precisava ter me apresentado. O senhor não se mostrou nem um pouco surpreso ao me ver aqui hoje, pois é evidente que já sabia quem eu era quando nos encontramos. Ao menos na segunda vez, já sabia. Mesmo assim fingiu-se e perguntou o que significava a inicial que desenhei na árvore. Diga, senhor Phillip, qual a natureza do meu humor? — Joana o inquiriu com audácia.
— Não nego que a achei antipática e irritante quando a vi pela primeira vez. Já lhe disse isso pessoalmente.
— E depois, questionou meu pai sobre meu humor, por quê? Quando ele esteve em sua propriedade, esquivou-se de um novo jantar assim que soube que encontraria aqui a moça irritante e antipática? — perguntou audaciosa e arrependeu-se em seguida.
— Ao contrário! Senhorita Joana, devo lhe dizer que as minhas impressões sobre a senhorita mudaram completamente depois que estivemos juntos no bosque pela segunda vez — afirmou em tom baixo e olhou o senhor Hour, que estava ronquejando na poltrona.
— Pois eu devo lhe dizer que mantenha a sua primeira impressão. Sou mais irritante e antipática do que possa imaginar. — Ela disse desafiadora.
— Quem sabe não sejam esses adjetivos que a senhorita usa para se maldizer, que a tornem tão fascinante aos meus olhos? — Joana abriu a boca para responder, mas nada lhe vinha à mente. Não sabia o que falar. — Senhorita Joana, sem palavras? — Ele a olhou com seriedade. Ela bufou.
— Senhor Phillip, só lhe digo que não se preocupe, pois o senhor não terá que conviver muito com meus modos nada gentis. — Ela disse com firmeza.
— O que quer dizer? Afirma que me quer afastado da senhorita?
— O quanto mais o senhor puder estar — completou sem demora.
— Por que determina a mim tamanho desdém? — Ele quis saber. Joana, que estava tão habituada a ter sempre uma resposta rápida para replicar, ficou novamente embaraçada. Alexandre a olhava com seus olhos negros a esperar dela alguma resposta. Ela pôs-se a olhar para as paredes em uma inútil tentativa de se fazer de desentendida. — Senhorita, por que passou a apreciar tão avidamente os quadros da sua sala?
— Senhor Phillip, saiba que se mostra muito mais irritante do que um dia eu conceberia ser! — Ela disse ríspida e em um tom de voz que fez Frederico acordar.
— O quê? — Senhor Hour remexeu-se na poltrona e esfregou os olhos. — Onde estão sua mãe e suas irmãs, Joana? — perguntou ao constatar que estavam somente os três na sala.
— Estão em seus aposentos, papai. Vou ver se elas ainda demorarão... — Ela respondeu e abandonou a sala respirando com autocontrole.
— Senhor Phillip. Desculpe meu mau jeito. Estou velho! Preciso ficar de pé e com um copo na mão para não adormecer. Se fico um minuto sentado sem que falem comigo, eu logo cochilo — reclamou Frederico Hour.
— Não há o que se desculpar, senhor Hour. Eu estava conversando com a senhorita Joana e ela me fez companhia enquanto Madame Anastasia acudia Sophie.
— Acudir Sophie? O que houve? — perguntou alarmado.
— Nada sério. Apenas uma mancha de vinho no vestido.
— Disse que Joana lhe fez companhia? Devo lhe pedir desculpas por algo que ela tenha dito? — perguntou imaginando como deveria ter sido a conversa.
— De forma alguma. Sua filha é como a descreveu: um encanto de formosura — Alexandre defendeu-a e Frederico olhou-o com estranhamento.
Joana? Um encanto de formosura? — pensou o pai.