O Bosque de Faias
Capítulo 17 – Coração partido
— Eu ainda não consigo entender — Rebecca voltou a questionar. — Por que uma pessoa age com tanta leviandade assim? Ele enganou até mesmo a mim, que jurei que o amor que sentia por Joana era verdadeiro. Se tudo era uma farsa, por que ele contou tudo no baile? Por que enfim decidiu revelar quem era de verdade? Por que não continuou a nos enganar, já que jamais desconfiamos dele?
— Ele disse que gostaria de ser sincero comigo a partir daquele momento, e que não havia mais razões para mentir — Sophie falou. — Disse que seu nome era Alexandre e só ocultou sua verdadeira identidade para ganhar tempo até conseguir me conquistar...
— Não! Ele só contou a verdade porque o verdadeiro Phillip chegou — Joana disse ao constatar aquele nome escrito em seu cartão de baile: Phillip M. Era o nome do único jovem com quem dançara naquela noite, o jovem dos olhos azuis mais perturbadores que Joana havia visto.
Capítulo 17 – Coração partido
Alexandre não conseguiu dormir naquela noite. As cenas do baile iam e voltavam em sua cabeça, atormentando-o. Assim que amanheceu desceu do seu aposento, passou pela sala e viu ao longe, através da janela, Caroline caminhando sozinha pelo jardim. Decidiu ir até ela e contar tudo o que havia acontecido, sem ocultar nada, desde o dia em que chegara ali. Não sabia exatamente o quanto confiar na irmã, mas estava desesperado e precisava de conselhos. Esperava que ela tivesse algum bom para lhe dar.
— Caroline — Alexandre a chamou descendo os degraus da mansão e a encontrando perto dos arbustos de cercas-vivas, que formavam um corredor até o meio do jardim.
— Bonjour — sorriu ao vê-lo. — Estou magoada com meu irmão — disse fazendo uma expressão desolada enquanto percorriam o amplo quintal.
— Magoada? Por quê?
— Depois que nos falamos ontem no baile eu não tornei a vê-lo. Havia deixado uma dança reservada para você — disse ela, passando seu braço entre o braço esquerdo do irmão.
— Ah, o baile... — proferiu aborrecido.
— O que foi? Não apreciou o baile? A julgar por sua expressão, acho que não.
— Não, não o baile em si...
— Então o que aconteceu? Percebo que está aflito. E mais do que isso, parece abatido. Não dormiu bem esta noite?
— Eu nem dormi esta noite — confessou desalentado. — Lembra-se da moça...
— A moça da vila dos camponeses? — Ela o interrompeu. — A que eu segui após vê-los juntos e descobri que era filha daquele senhor que esteve certa vez aqui nesta propriedade e que o chamava de...
— Isso, Caroline, essa moça. — Foi a vez dele de interromper.
— E o que tem ela? — inquiriu.
— Vou lhe contar... — disse ele, resoluto.
Então ela ouviu tudo com atenção, erguendo as sobrancelhas e arregalando os olhos em algumas partes da narrativa, rindo em outros momentos e quando Alexandre terminou de contar, ela parecia tão absorta que ele já não sabia se ela estava pensando em algo para ajudá-lo ou se sua mente já havia voado para outro lugar.
— Ainda está me ouvindo? — Alexandre perguntou.
— Sim, estou.
— E o que me diz?
— Que está mesmo enrascado, meu irmão. E veja bem — soltou o braço de Alexandre e gesticulou —, essa moça, Joana, não serve para você. Sabe bem que pode arrumar uma noiva de posição muito melhor.
— Ah, Caroline! Não me ouviu? Eu amo essa moça! — declarou. — Amo verdadeiramente! Eu que não sou digno dela! — falou em bom tom. — Perceba a minha aflição, Caroline. Estou como um louco, sem saber o que fazer, e tudo o que tem a me dizer é que ela não serve para mim? Como pode dizer isso, se depende dela toda a minha felicidade?
— Ah, meu irmão.... Desculpe-me — pediu olhando para ele e constatando sua sinceridade. — Então somos duas criaturas arrebatadas pelo amor...
— Sim, sinto-me agrilhoado pelas correntes do amor — declarou. — E quanto a você, cara irmã, volto a sugerir que esqueça Phillip.
— Se eu pedisse que esquecesse essa moça, Joana... A esqueceria? — indagou. Ele apenas balançou a cabeça em negação. — E diga-me, o que Phillip pensa a respeito disso tudo? Já que agora ele sabe o que aconteceu...
— Custou a me entender, e mesmo agora ainda tem o equivocado pensamento de que usei seu nome para me aproveitar de Sophie.
— Por que Phillip pensaria isso?
— Ele a viu chorar no baile. Isso o fez imaginar que eu a magoei. Juro Caroline, nunca dei sequer qualquer sinal de interesse por Sophie. Disse isso inclusive para o senhor Hour...
— Essa moça é perigosa, meu irmão — Caroline concluiu.
— Perigosa, por quê?
— Porque são perigosas as moças apaixonadas e traiçoeiras. Posso afirmar com confiança de que ela planejou essa situação constrangedora que acabou de me narrar.
— Sim! Tem razão! Sophie estava usando o broche que enviei para Joana. Era a forma que encontrei de distingui-la entre todas as moças do baile. Não fosse por isso eu jamais a teria beijado. Foi por causa do broche que me confundi...
— Então... Ela pode ter roubado o broche de Joana?
— Não sei, a senhorita Joana teria visto o broche na irmã... E o cocher garantiu que entregou para a ela, em mãos.
***
Alexandre ainda conversava com Caroline no jardim quando Phillip desceu as escadarias da mansão e fez sinal para o cocheiro. Instantaneamente Alexandre soube que ele iria sair. Em seguida Patric também desceu as escadas e parou junto do irmão.
— Phillip!? — Alexandre chamou ao longe, fazendo sinal para que o esperasse. — Vai sair?
— Sim — limitou-se a dizer. Alexandre continuou a olhá-lo e esperar que dissesse algo mais. — Eu vou até o vilarejo, na casa do senhor Hour, desculpar-me pessoalmente. Embora tudo tenha ocorrido longe do meu conhecimento, devo fazer isso.
— Então vou acompanhá-lo. Preciso com urgência explicar-me a eles.
— Não, não. Desta vez eu vou sozinho — Phillip avisou. — Quer dizer, vou acompanhado de Patric, apenas. É prudente fazer isso, visto que o senhor Hour deve estar ainda muito afetado pelo ocorrido. Se o ver é capaz de matá-lo.
— Ele não faria isso...
— Quem há de saber? Deixe-me falar com ele e verei como reage.
— Certo... Mas antes de ir, deixe-me dizer que garanto que nunca fiz nenhum mal para aquela moça, Sophie. O senhor Hour queria que eu a desposasse, mas falei a ele que meu interesse era por sua filha mais velha... — Alexandre contou, surpreendendo Phillip.
— Pelo que vejo, esse equívoco, somado a sua fraude não planejada, foi muito mais longe do que eu imaginei. Como pôde tencionar cortejar uma das filhas daquele senhor usando meu nome?
— Não contesto a minha culpa, jamais o farei — Alexandre disse com firmeza. — Porém mesmo que eu estivesse vivendo uma mentira maior, tudo o que senti e sinto pela filha mais velha do senhor Hour sempre foi verdadeiro.
— Tudo bem, o defenderei como puder — Phillip garantiu, apoiando as mãos nos ombros de Alexandre. — É, as mulheres continuam sendo o seu ponto fraco, não é?
— Meu ponto fraco hoje tem nome e sobrenome. E provavelmente vocês a verão quando chegarem à casa do senhor Hour. Diga-lhe que sofro com o que houve e tentarei uma forma de me desculpar — Alexandre disse quando Phillip e Patric já estavam acomodados no interior da caleça. — Seu nome é Joana! — gritou para a caleça que já estava se afastando. Foi Patric quem assentiu com a cabeça e sorriu em resposta.
A moça com quem dancei no baile? — Phillip perguntou para si mesmo ao ouvir aquele nome.
***
As irmãs Hour estavam todas na sala. Sophie e Amália distraiam-se com um bordado, enquanto Rebecca brincava com um gatinho, ainda filhote, que passeava pela janela da casa, aprendendo a se equilibrar. Joana estava afundada em seus pensamentos, enquanto segurava um livro aberto no colo e fingia que o lia.
— Não vai virar a página desse livro? — Rebecca perguntou à Joana, aproximando-se enquanto segurava o gatinho no colo.
— Deixe-me, Rebecca — pediu com desânimo. — Distraio-me lendo essas linhas, mesmo que elas não façam sentido.
— Assim como não tem sentido tudo o que houve — disse Rebecca.
— Melhor assim, não é? Agora papai não me imporá outro casamento sem meu consentimento e terá mais cuidado em quem confia — Joana disse circunspecta.
— Eu não sei, Joana. Não acho que deva se fechar ainda mais para os sentimentos verdadeiros.
— E quais sentimentos são verdadeiros? — inquiriu firmemente. — O amor é um privilégio para poucas de nós, Rebecca. É um sonho vago, incerto. Na maioria das vezes, nos casamos porque nossos pais acham que aquele casamento é ideal para seus negócios. É um acordo. Os verdadeiros sentimentos não têm espaço para entrar no acordo, tampouco sobrevivem em meio às mentiras.
— É tão triste que seja assim — Rebecca suspirou. — Mesmo sendo como você diz, um privilégio para poucas, eu ainda sonho com um amor de verdade.
— Os sonhos... — Joana sorriu inabalável. — É melhor ficar com a realidade. Mas isso é algo que digo para mim — Joana ponderou ao perceber que estava sendo dura demais ao expressar a sua opinião para a irmã, que era tão doce e sonhadora. — Você está com os olhos brilhantes demais, Rebecca. Algo relacionado aos sonhos, ou aos sentimentos verdadeiros?
— Não. Apenas um quase sonho — Rebecca olhou para o alto e sorriu serenamente.
— Um quase sonho?
— Sim. Sonhei muito com o baile. Imaginei que algum cavalheiro me convidaria para uma valsa e então dançaríamos como se o salão fosse apenas nosso. Nossos olhos se encontrariam e ele se apaixonaria por mim mesmo sem ver o meu rosto.
— Oh, Rebecca, sinto muito que o seu primeiro baile não tenha sido como imaginou.
— Tudo bem, como eu disse, foi um quase sonho. Um cavalheiro veio até mim, parecia ser tão belo, seus olhos eram azuis como safiras e seu sorriso era doce e jovial. Ele convidou-me para uma dança, mas precisei declinar quando vi...
— Eu sei, foi quando viu o falso Phillip levar nossa irmã para fora do salão — Joana disse e Rebecca percebeu que ela não falou com indiferença, mas sim com ressentimento, parecia esforçar-se para não pronunciar o nome de Alexandre.
— Sim. Pedi desculpas a ele e recusei a dança com o coração partido. Seria a primeira vez que algum homem tocaria em minhas mãos. Minha primeira valsa — suspirou.
— Sinto muito. Veja, até nisso esse senhor... enganador, causou-nos uma desagradável situação.
— Você tem certeza de que não está sofrendo, Joana? Mesmo que não o amasse, mas todos nos sentimos enganados e tristes...
— Tenho certeza — disse tentando parecer firme. — Para mim esse homem é apenas um detestável mentiroso e quanto menos falarmos dele, melhor — pediu com as faces ruborizadas.
***
Pouco tempo depois uma criada anunciou que tinham visita, e qual foi a surpresa de Frederico Hour quando soube que era Phillip quem estava em sua casa. Seu primeiro ímpeto foi o de buscar a pistola na gaveta do seu escritório para defender a honra das filhas. Logo depois, recobrou a consciência e, mais calmo, percebeu que haveria de se tratar do verdadeiro Phillip, já que o outro não teria a audácia de voltar ali.
Do lado de fora da casa, Patric viu uma moça brincando com um gatinho. Não era bonita, mas sorria com doçura para o bichano enquanto assegurava-se de que ele não iria cair da janela. Frederico Hour pediu para a criada receber Phillip e o encaminhar para a sala de estar, onde estavam todos da família.
Phillip e Patric acompanharam a criada e quando puseram seus pés na sala, sentiram pelo menos seis pares de olhos a encará-los.
— Senhor Phillip? — disse Frederico, caminhando na direção dos irmãos Motier e titubeando para qual dos dois deveria dirigir-se.
— Prazer, eu sou Phillip Motier, e este é meu irmão Patric — apresentou-os formalmente. — Perdoe-me vir sem comunicar, porém, o assunto que me traz aqui não me deixou outra alternativa senão vir o quanto antes e esclarecer alguns acontecimentos.
— Sei do que se trata, se preferir podemos falar em meu escritório.