O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 5 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 5 – A propriedade Motier

 

Pela manhã um burburinho vindo da cozinha o lembrou de que não havia sonhado, Caroline estava realmente ali. Andava pela cozinha dona de tudo.

— Mandem o criado buscar lençóis de musseline de seda para minha cama. Oh! Meu aposento é tão escuro... preciso também de mais castiçais.

— Sim, senhorita Caroline. No entanto o tecido demorará a chegar. Teremos que pedir que tragam de Paris — dizia um dos criados, com ar sério.

— Caroline... — Ela virou-se e deu de cara com o irmão que a chamava com uma expressão nada aprazível.

— Irmão... escolhi um ótimo aposento. Precisa ver que bela tapeçaria e que dossel magnífico em uma cama ricamente esculpida... — narrava os detalhes do aposento, entusiasmada.

— Dá ordens aos criados como se fosse a dona desta propriedade? — inquiriu Alexandre. Os criados encaminharam-se para fora da cozinha e os deixaram a sós.

— Não me recrimine na frente dos criados, Alexandre! Para quem devo pedir as coisas que preciso?

— Não a recrimino, apenas peço que seja equilibrada. Devia ficar em um aposento de hóspedes e esperar Phillip chegar. Não duvido que tenha escolhido o melhor aposento da casa e deixado um inferior para o próprio dono.

— Escolhi um que fosse de acordo com minhas exigências de moça elegante. Uma dama precisa de espaço, conforto, um bom espelho e uma bela penteadeira, além de uma lareira quente para aquecer-se no inverno...

Alexandre cansou-se de ouvir a irmã e a deixou falando sozinha, pegando de cima da mesa apenas um pedaço de bolo e ignorando o discurso irritante que Caroline ia proferindo às suas costas.

— Aonde vai? — Ela quis saber.

— Vou ao vilarejo.

— Quero ir também.

— Pedirei a um criado que a leve na Caleça. Eu vou sozinho a cavalo.

— Eu também sei montar! Não há aqui muitos cavalos? Pois sei que há, eu já os vi.

— Caroline, você não conhece a região... Vamos os dois de Caleça então — deu-se por vencido.

— Pois bem, chame o cocher para nos levar — voltou a dar ordens.

— Eu sou o cocher, Caroline.

— Você? — arregalou os olhos.

— Não, não sou. O que quero dizer é que não chamarei um cocheiro para nos levar à vila. Já lhe disse, não estou aqui para dar ordens — disse ele. Caroline revirou os olhos enquanto o irmão falava.

— Que deselegante — comentou ela franzindo a testa. — Só dessa vez, Alexandre. Prometo que não peço mais nada.

— E devo acreditar em suas promessas?

— Juro!

— Se é assim, tudo bem. Só dessa vez. Depois, quando Phillip chegar, certamente deixará uma caleça e um cocheiro à disposição dos irmãos e você poderá utilizar quando necessário. No entanto, acredito que seja breve a sua estadia aqui.

Alexandre solicitou o cocher e rapidamente ele estava na frente da propriedade, com a mesma caleça que Alexandre tinha usado para ir à vila levar os primeiros convites do baile. Ele ajudou Caroline a subir e entrou em seguida. Era uma caleça pequena, para dois passageiros e puxado apenas por um cavalo — o cocher havia escolhido o de cor de trigo.

— O que é isso? — Caroline perguntou pegando um papel que estava caído aos seus pés. Juntou o impresso amassado e pôs-se a ler para si. — O quê? Um baile? Phillip dará um baile de máscaras quando chegar? — questionou ao irmão, com os olhos espremidos.

— Pois é o que acabou de ler — respondeu enquanto sentia o balanço da caleça pela rua.

— E não ia me contar? Não ia me contar, Alexandre? Por acaso não serei convidada?

— Caroline, acabou de chegar. Como quer estar à parte de todos os acontecimentos assim tão rápido?

— Oh! Mon Dieu!! Não tenho trajes adequados! Não tenho uma máscara bonita... Não tenho sapatilhas para tal evento — queixou-se. — Quando será o baile? — perguntou voltando a ler o convite e depois suspirando aliviada. — Ah, que bom, será ainda dentro de três meses. Talvez eu mande buscar um vestido novo em Paris, e uma máscara também.

— É só um baile, Caroline.

— É só um baile? Um baile é sempre um grande evento, meu irmão. De quem foi a ideia?

— De Phillip. Foi ele quem me pediu que viesse à propriedade antes de sua chegada. E pediu também que eu organizasse o baile.

— Mon Dieu. As moças dessa região vão querer agarrá-lo — preocupou-se.

— Garanto que não. Nem ao menos saberão quem ele é. Esqueceu-se do que acabou de ler? É um baile de máscaras, minha irmã.

Alexandre permitiu-se ficar em silêncio o restante do caminho, apenas balançando a cabeça e fingindo ouvir a irmã falando de como tudo era maravilhoso na Inglaterra e do quanto sentiria falta das belezas e comodidades daquela terra. Queixou-se de Paris e disse que a propriedade deles estava quase em ruínas, e que por Alexandre quase não ir até lá, os empregados estavam desleixados e se sentindo os próprios donos do local.

Mais adiante passou a olhar tudo com curiosidade, e quando chegaram ao centro do vilarejo, Caroline mal piscava, olhando para as moças e rapazes por qual passavam.

— Olha, veja como se vestem exageradamente as moças francesas — percorria seus olhos pelas ruas e calçadas, casas e jardins.

— Não se esqueça de que você é uma moça francesa, Caroline — Alexandre a lembrou.

— Esses últimos anos na Inglaterra quase me fizeram esquecer disso.

— Pois volte a se lembrar, já que está aqui agora.

— O que veio fazer na vila, Alexandre? Além de acompanhar-me, é claro — Caroline mudou o assunto.

— Preciso de algumas ferramentas que o jardineiro solicitou, além de ferraduras e arreios novos para os cavalos.

— Ora — pareceu espantada —, agora faz compras para os criados, Alexandre? Será essa a sua função na propriedade Motier?

— Minha função é apenas ajudar, Caroline. Eu sou um amigo íntimo da família Motier, principalmente de Phillip e Patric, e em suas ausências farei o que puder para auxiliar.

Enquanto o irmão falava Caroline passou os olhos em uma vitrina, viu um elegante chapéu de musselina e exclamou:

— Olhe, é um bonito chapéu aquele! Vamos comigo, Alexandre?

— Oh, não. Ficarei aqui aguardando-a retornar.

— Por que não me faz companhia, irmão?

— Ora, é uma boutique feminina, Caroline. Vá antes que eu desista e mande o cocher voltar — perdeu a paciência.

Caroline assentiu e desceu rapidamente. Alexandre repousou as costas no assento da caleça e soltou um profundo suspiro. A irmã lhe sugava toda a paciência que tinha. Ah! Se ela soubesse como às vezes era entediante mudaria logo de comportamento, quem sabe assim um dia Phillip a olhasse com boa-vontade e desse a ela o merecido valor.

Fechou os olhos e deixou-se consumir novamente pela lembrança da beleza da filha mais velha do senhor Hour, foi quando se deu conta de que não sabia o nome dela. Claro que Frederico Hour havia dito, talvez até mais de uma vez, mas naquela ocasião ele não tinha dado a devida atenção e esquecera-se. Afinal, ele não ia atentar-se de gravar o nome de uma moça que de todo modo, achava que fosse feia. Não tinha culpa por pensar assim, foi o próprio senhor Hour e a esposa que o fizeram imaginar tal coisa. Ele logo pensou, que por ser a filha mais velha, não estar ainda casada e julgando o desespero dos pais e o fato de ela não ter sequer saído do aposento, o que mais ele podia supor? Que era horrorosa a coitada!

Quando tornou a abrir os olhos a imagem daquele anjo havia se materializado em sua frente. Piscou ainda algumas vezes para ter certeza do que via e teve a confirmação, era a filha mais velha de senhor Hour. Era a moça linda e irritada do bosque de faias.

Estava de braços dados com a mãe e com a irmã mais nova — Alexandre também não se recordava do nome desta — e entraram na mesma boutique onde estava Caroline.

— Vamos ver se encontramos algo aqui, mamãe — sugeriu a filha mais nova.

— Vamos sim, Rebecca. Vestidos novos para o baile! Minhas filhas serão as mais belas de todas as moças.

Oh, Rebecca é o nome da filha mais nova — Alexandre espremia-se no interior da caleça para não ser visto.

Dentro da boutique, Caroline olhava o chapéu que havia gostado e experimentava luvas de seda para usar durante o dia.

— De onde vieram essas luvas? — Caroline perguntava.

— De Paris, mademoiselle — disse-lhe a moça do outro lado do balcão.

— Quero encomendar um vestido de Paris. O que sugere?

— É para o baile? — Só se falava disso na região.

— Sim.

— As moças apreciam vestidos com babados, amarrações, fitas, algumas flores... — Ela lhe mostrava alguns modelos.

— Tudo muito excessivo — disse Caroline interrompendo-a. Nesse instante as irmãs Hour e a senhora Anastasia já olhavam Caroline com curiosidade. — Na Inglaterra a moda é muito diferente, sofisticada. A moda em Paris é extravagante demais!

— Veja esta revista de moda de Paris, mademoiselle. Espero que algum vestido lhe agrade.

— O que eu precisava era de um alfaiate, tecidos nobres. Há tão poucas opções aqui... — queixava-se. — Levarei apenas as luvas e o chapéu. Para o baile usarei um dos meus vestidos que trouxe da Inglaterra. São de maravilhar qualquer um...

Que esnobe — Joana pensou observando o ar presunçoso daquela desconhecida.

Caroline virou-se para o lado e viu Anastasia com as filhas e lançou um olhar arrogante na direção das moças, principalmente para as suas vestes, que julgou pobres demais, principalmente as de Joana, que era particularmente simples.

 

***

 

— Que jovem arrogante! — Anastasia comentou com as filhas assim que Caroline saiu da boutique.

— Será que é estrangeira? Se não gosta do nosso país, por que veio? — Rebecca reclamou.

— É espantoso! — expressou Joana.

— O que é espantoso? — Anastasia perguntou.

— Como algumas moças julgam todas do seu sexo como adversárias.

— Oh! Se for para competir com umas das minhas filhas, ela já está em desvantagem.

— Muitas moças olham para todas as outras como verdadeiras inimigas — Joana continuou.

— Esqueçamos disso e vamos escolher vestidos novos para vocês — sugeriu Anastasia. — Serão as mais bonitas daquele baile. — A mãe repetiu a fala que vinha afirmando desde o recebimento do convite.

— Não quero nada para mim. Economize no meu vestido e compre um ainda mais belo para Rebecca — Joana dizia sorrindo para a irmã.

— Nem pensar! — contestou Anastasia. — Economizar para deixar minhas filhas bonitas? Economiza-se agora e teremos que economizar a vida inteira!

Rebecca franziu o cenho, não compreendendo a que se referia a mãe, mas Joana entendeu muito bem o que ela queria dizer.

Do lado de fora da boutique uma elegante caleça ia se movimentando, levando os irmãos Franz para a propriedade Motier.

***

Na casa dos Hour, as irmãs Amália e Sophie conversavam sobre a festa e mostravam seus vestidos, rodopiando com a veste em frente ao corpo, imaginando o dia da festa.

— Ficará linda, Sophie. Este tecido lhe caiu muito bem — Amália elogiava a irmã.

— O seu também é muito bonito, embora eu tenha preferido o vestido rosa que provou ontem. Este azul claro a deixa pálida — Sophie falava com a irmã.

— Melhor assim... Uma palidez pertinente. Mamãe disse que isso mostra uma fragilidade ideal — ponderou. — Ah! Estou tão curiosa para saber o que Joana e Rebecca vão escolher — Amália olhava pela janela ansiosa pelo momento que veria a mãe chegar com as duas irmãs.

— Ali estão elas — Sophie apontou as três, que caminhavam de braços dados e aproximavam-se da casa.

Anastasia entrou com as filhas e encontrou o marido na sala, dormindo sentado com a cabeça pendendo para o lado enquanto roncava alto.

— Senhor Frederico! Está dormindo e roncando! — Ela o acordou, recriminando-o.

— Oh, eu acabei adormecendo. Estou velho! — disse ele recompondo-se. — O caso é que vim mais cedo para casa pois quero lhes comunicar que tomarei uma atitude.

— Que atitude? — perguntou a esposa, sem entender.

— Irei à propriedade Motier e falarei com senhor Phillip! — informou fazendo Joana arregalar os olhos.

— Pois deve ir, sim! — disse Anastasia, vibrante.

— Pois não deve ir, não! — Joana repeliu a ideia.

— E por que não? O baile demorará três meses. A esta altura é um milagre que ainda não tenha se formado filas de moças em frente à propriedade Motier.

— Tem razão, marido — concordou Anastasia. — Se não formos rápido, ele escolherá outra moça.

— Temos sorte que a notícia da vinda de senhor Phillip ainda não se espalhou. Estão todos pensando que vieram somente os empregados — disse Frederico à esposa.

— Ora, como? Não foi o próprio senhor Phillip quem entregou os convites do baile, papai? — Joana lembrou.

— Nas outras residências eu não sei, mas nesta casa foi o próprio — Anastasia garantiu.

— Deve ter ouvido falar da beleza das minhas filhas e quis conferir pessoalmente — Frederico Hour disse orgulhoso.

— Oh, papai, que fantasia! — Joana riu.

— Pois este pensamento não me ocorreu sem fundamento. Estive com senhor Loen esta manhã e ele contou que o convite lhe foi entregue por um criado de Phillip.

— Então não foi o próprio senhor Phillip quem entregou o convite aos Loen?

— Não foi. Como eu disse, todos com quem conversei, citaram um jovem, senhor... Oh, senhor.... Não recordo o nome. Não importa. O que importa é que já sabemos que Phillip deverá escolher uma moça com quem se casar.

— Deverá? E qual moça ele deve escolher, papai? — Joana perguntou aborrecida.

— Ora, você! É claro!

— Declino dessa opinião — Joana rebateu.

— Pois eu vou até lá e farei o convite para que Phillip venha nos visitar outras vezes antes do baile. Vou insistir com isso. Quando esteve aqui, Joana estava adoentada — olhou para ela com desconfiança. — Certamente não voltará a adoecer neste mês novamente.

— Quem há de saber... — Joana murmurou.

— Pare de confrontar seu pai, Joana! — Anastasia clamou.

 

***

— Deixe-me ver, deixe-me ver seus vestidos! — Amália gritou assim que Joana e Rebecca entraram no aposento.

— Vejam como o meu é lindo! Vejam! — Rebecca desembrulhou o pacote e mostrou o vestido que escolheu na boutique.

— Veja, Amália! É o vestido rosa que você provou ontem. Era este que você deveria ter escolhido — Sophie falou.

— Gostei do azul — disse Amália.

— E você, Joana, escolheu algo para si ou irá com aquele indecente com o qual recebeu o senhor John? — Sophie provocou.

— Joana não queria vestido algum, mas mamãe insistiu. Escolhemos um lilás maravilhoso. Mostre Joana! — Rebecca pediu.

Joana mostrou o vestido lilás e todas ficaram admiradas com a beleza da peça e também com a falta de empolgação da irmã.

— O que foi, Joana? Não gostou do seu vestido? — Amália perguntou.

— Um vestido não seria responsável por alterar o meu humor. Pergunte para nossa mãe o porquê de eu estar assim — bufou.

— Papai foi agora mesmo até a casa de senhor Phillip — Rebecca contou.

— Foi fazer o que lá? — Sophie perguntou exasperada.

— Insistir que ele venha à nossa casa mais vezes. Ele quer que Phillip conheça Joana — disse Rebecca sorrindo.

Sophie saiu correndo pela casa procurando pela mãe a fim de queixar-se da sua desgraça de não ter nascido antes de todas as irmãs.

O que deu nela? — Joana perguntou-se.

***

Na propriedade Motier, Alexandre supervisionava o trabalho do jardineiro e dava sugestões de como deveria podar as cercas vivas a fim de que ficassem simétricas em suas formas. Pediu que limpassem o chafariz que ficava no meio do jardim e também uma escultura de um anjo mármore de Carrara que adornava as escadarias.

Estava em meio a esta tarefa quando visualizou que uma caleça parava lentamente junto ao portão. Alexandre se esforçou para ver quem estava no seu interior e viu quando um criado surgiu à porta e fez menção de verificar quem era o visitante. Foi quando Alexandre pôde enfim identificar o senhor Frederico Hour.

Alexandre apressou-se em subir as escadarias do jardim e em seguida voltou a descer rapidamente, dizendo aos criados que ele mesmo receberia o visitante. Viu-se nervoso, angustiado, andava de um lado para o outro no jardim sem saber o que fazer. Por fim, começou a andar lentamente na direção do portão.

O que ele quer aqui? Será que descobriu que não sou Phillip e agora vem acusar-me? Oh, não, nunca fiz tal afirmação! Senhor Hour e a esposa é que se enganaram e não me deixaram explicar....

Esses pensamentos se dissolveram assim que se aproximou do portão e viu um cordial sorriso no rosto de senhor Hour. Alexandre suspirou aliviado, ao mesmo tempo em que teve a certeza de que seria naquele dia que falaria de uma vez por todas quem ele era. Gritaria se fosse preciso para não ser interrompido.

— Senhor Hour! É um prazer recebê-lo — Alexandre cumprimentou.

— O prazer é igualmente meu — Frederico Hour caminhou ao lado de Alexandre para dentro da propriedade. — Que bela mansão! — dizia maravilhado com a magnitude da construção.

— É sim, uma bela propriedade. Senhor, queira me acompanhar até a sala. Creio que devemos conversar.

— Oh, sim. Foi também por isso que vim, senhor Phillip — disse Hour, estranhando alguma coisa que não conseguia entender o que era.

Caroline estava descendo as escadas do segundo andar e parou ao ouvir a conversa. Estava a uma distância suficiente para ouvir sem ser vista.

Senhor Phillip? Este senhor chamou meu irmão de senhor Phillip?