O Bosque de Faias
Capítulo 5 – A propriedade Motier
Pela manhã um burburinho vindo da cozinha o lembrou de que não havia sonhado, Caroline estava realmente ali. Andava pela cozinha dona de tudo.
— Mandem o criado buscar lençóis de musseline de seda para minha cama. Oh! Meu aposento é tão escuro... preciso também de mais castiçais.
— Sim, senhorita Caroline. No entanto o tecido demorará a chegar. Teremos que pedir que tragam de Paris — dizia um dos criados, com ar sério.
— Caroline... — Ela virou-se e deu de cara com o irmão que a chamava com uma expressão nada aprazível.
— Irmão... escolhi um ótimo aposento. Precisa ver que bela tapeçaria e que dossel magnífico em uma cama ricamente esculpida... — narrava os detalhes do aposento, entusiasmada.
— Dá ordens aos criados como se fosse a dona desta propriedade? — inquiriu Alexandre. Os criados encaminharam-se para fora da cozinha e os deixaram a sós.
— Não me recrimine na frente dos criados, Alexandre! Para quem devo pedir as coisas que preciso?
— Não a recrimino, apenas peço que seja equilibrada. Devia ficar em um aposento de hóspedes e esperar Phillip chegar. Não duvido que tenha escolhido o melhor aposento da casa e deixado um inferior para o próprio dono.
— Escolhi um que fosse de acordo com minhas exigências de moça elegante. Uma dama precisa de espaço, conforto, um bom espelho e uma bela penteadeira, além de uma lareira quente para aquecer-se no inverno...
Alexandre cansou-se de ouvir a irmã e a deixou falando sozinha, pegando de cima da mesa apenas um pedaço de bolo e ignorando o discurso irritante que Caroline ia proferindo às suas costas.
— Aonde vai? — Ela quis saber.
— Vou ao vilarejo.
— Quero ir também.
— Pedirei a um criado que a leve na Caleça. Eu vou sozinho a cavalo.
— Eu também sei montar! Não há aqui muitos cavalos? Pois sei que há, eu já os vi.
— Caroline, você não conhece a região... Vamos os dois de Caleça então — deu-se por vencido.
— Pois bem, chame o cocher para nos levar — voltou a dar ordens.
— Eu sou o cocher, Caroline.
— Você? — arregalou os olhos.
— Não, não sou. O que quero dizer é que não chamarei um cocheiro para nos levar à vila. Já lhe disse, não estou aqui para dar ordens — disse ele. Caroline revirou os olhos enquanto o irmão falava.
— Que deselegante — comentou ela franzindo a testa. — Só dessa vez, Alexandre. Prometo que não peço mais nada.
— E devo acreditar em suas promessas?
— Juro!
— Se é assim, tudo bem. Só dessa vez. Depois, quando Phillip chegar, certamente deixará uma caleça e um cocheiro à disposição dos irmãos e você poderá utilizar quando necessário. No entanto, acredito que seja breve a sua estadia aqui.
Alexandre solicitou o cocher e rapidamente ele estava na frente da propriedade, com a mesma caleça que Alexandre tinha usado para ir à vila levar os primeiros convites do baile. Ele ajudou Caroline a subir e entrou em seguida. Era uma caleça pequena, para dois passageiros e puxado apenas por um cavalo — o cocher havia escolhido o de cor de trigo.
— O que é isso? — Caroline perguntou pegando um papel que estava caído aos seus pés. Juntou o impresso amassado e pôs-se a ler para si. — O quê? Um baile? Phillip dará um baile de máscaras quando chegar? — questionou ao irmão, com os olhos espremidos.
— Pois é o que acabou de ler — respondeu enquanto sentia o balanço da caleça pela rua.
— E não ia me contar? Não ia me contar, Alexandre? Por acaso não serei convidada?
— Caroline, acabou de chegar. Como quer estar à parte de todos os acontecimentos assim tão rápido?
— Oh! Mon Dieu!! Não tenho trajes adequados! Não tenho uma máscara bonita... Não tenho sapatilhas para tal evento — queixou-se. — Quando será o baile? — perguntou voltando a ler o convite e depois suspirando aliviada. — Ah, que bom, será ainda dentro de três meses. Talvez eu mande buscar um vestido novo em Paris, e uma máscara também.
— É só um baile, Caroline.
— É só um baile? Um baile é sempre um grande evento, meu irmão. De quem foi a ideia?
— De Phillip. Foi ele quem me pediu que viesse à propriedade antes de sua chegada. E pediu também que eu organizasse o baile.
— Mon Dieu. As moças dessa região vão querer agarrá-lo — preocupou-se.
— Garanto que não. Nem ao menos saberão quem ele é. Esqueceu-se do que acabou de ler? É um baile de máscaras, minha irmã.
Alexandre permitiu-se ficar em silêncio o restante do caminho, apenas balançando a cabeça e fingindo ouvir a irmã falando de como tudo era maravilhoso na Inglaterra e do quanto sentiria falta das belezas e comodidades daquela terra. Queixou-se de Paris e disse que a propriedade deles estava quase em ruínas, e que por Alexandre quase não ir até lá, os empregados estavam desleixados e se sentindo os próprios donos do local.
Mais adiante passou a olhar tudo com curiosidade, e quando chegaram ao centro do vilarejo, Caroline mal piscava, olhando para as moças e rapazes por qual passavam.
— Olha, veja como se vestem exageradamente as moças francesas — percorria seus olhos pelas ruas e calçadas, casas e jardins.
— Não se esqueça de que você é uma moça francesa, Caroline — Alexandre a lembrou.
— Esses últimos anos na Inglaterra quase me fizeram esquecer disso.
— Pois volte a se lembrar, já que está aqui agora.
— O que veio fazer na vila, Alexandre? Além de acompanhar-me, é claro — Caroline mudou o assunto.
— Preciso de algumas ferramentas que o jardineiro solicitou, além de ferraduras e arreios novos para os cavalos.
— Ora — pareceu espantada —, agora faz compras para os criados, Alexandre? Será essa a sua função na propriedade Motier?
— Minha função é apenas ajudar, Caroline. Eu sou um amigo íntimo da família Motier, principalmente de Phillip e Patric, e em suas ausências farei o que puder para auxiliar.
Enquanto o irmão falava Caroline passou os olhos em uma vitrina, viu um elegante chapéu de musselina e exclamou:
— Olhe, é um bonito chapéu aquele! Vamos comigo, Alexandre?
— Oh, não. Ficarei aqui aguardando-a retornar.
— Por que não me faz companhia, irmão?
— Ora, é uma boutique feminina, Caroline. Vá antes que eu desista e mande o cocher voltar — perdeu a paciência.
Caroline assentiu e desceu rapidamente. Alexandre repousou as costas no assento da caleça e soltou um profundo suspiro. A irmã lhe sugava toda a paciência que tinha. Ah! Se ela soubesse como às vezes era entediante mudaria logo de comportamento, quem sabe assim um dia Phillip a olhasse com boa-vontade e desse a ela o merecido valor.
Fechou os olhos e deixou-se consumir novamente pela lembrança da beleza da filha mais velha do senhor Hour, foi quando se deu conta de que não sabia o nome dela. Claro que Frederico Hour havia dito, talvez até mais de uma vez, mas naquela ocasião ele não tinha dado a devida atenção e esquecera-se. Afinal, ele não ia atentar-se de gravar o nome de uma moça que de todo modo, achava que fosse feia. Não tinha culpa por pensar assim, foi o próprio senhor Hour e a esposa que o fizeram imaginar tal coisa. Ele logo pensou, que por ser a filha mais velha, não estar ainda casada e julgando o desespero dos pais e o fato de ela não ter sequer saído do aposento, o que mais ele podia supor? Que era horrorosa a coitada!
Quando tornou a abrir os olhos a imagem daquele anjo havia se materializado em sua frente. Piscou ainda algumas vezes para ter certeza do que via e teve a confirmação, era a filha mais velha de senhor Hour. Era a moça linda e irritada do bosque de faias.
Estava de braços dados com a mãe e com a irmã mais nova — Alexandre também não se recordava do nome desta — e entraram na mesma boutique onde estava Caroline.
— Vamos ver se encontramos algo aqui, mamãe — sugeriu a filha mais nova.
— Vamos sim, Rebecca. Vestidos novos para o baile! Minhas filhas serão as mais belas de todas as moças.
Oh, Rebecca é o nome da filha mais nova — Alexandre espremia-se no interior da caleça para não ser visto.
Dentro da boutique, Caroline olhava o chapéu que havia gostado e experimentava luvas de seda para usar durante o dia.
— De onde vieram essas luvas? — Caroline perguntava.
— De Paris, mademoiselle — disse-lhe a moça do outro lado do balcão.
— Quero encomendar um vestido de Paris. O que sugere?
— É para o baile? — Só se falava disso na região.
— Sim.
— As moças apreciam vestidos com babados, amarrações, fitas, algumas flores... — Ela lhe mostrava alguns modelos.
— Tudo muito excessivo — disse Caroline interrompendo-a. Nesse instante as irmãs Hour e a senhora Anastasia já olhavam Caroline com curiosidade. — Na Inglaterra a moda é muito diferente, sofisticada. A moda em Paris é extravagante demais!
— Veja esta revista de moda de Paris, mademoiselle. Espero que algum vestido lhe agrade.
— O que eu precisava era de um alfaiate, tecidos nobres. Há tão poucas opções aqui... — queixava-se. — Levarei apenas as luvas e o chapéu. Para o baile usarei um dos meus vestidos que trouxe da Inglaterra. São de maravilhar qualquer um...
Que esnobe — Joana pensou observando o ar presunçoso daquela desconhecida.
Caroline virou-se para o lado e viu Anastasia com as filhas e lançou um olhar arrogante na direção das moças, principalmente para as suas vestes, que julgou pobres demais, principalmente as de Joana, que era particularmente simples.
***
— Que jovem arrogante! — Anastasia comentou com as filhas assim que Caroline saiu da boutique.
— Será que é estrangeira? Se não gosta do nosso país, por que veio? — Rebecca reclamou.
— É espantoso! — expressou Joana.
— O que é espantoso? — Anastasia perguntou.
— Como algumas moças julgam todas do seu sexo como adversárias.
— Oh! Se for para competir com umas das minhas filhas, ela já está em desvantagem.
— Muitas moças olham para todas as outras como verdadeiras inimigas — Joana continuou.
— Esqueçamos disso e vamos escolher vestidos novos para vocês — sugeriu Anastasia. — Serão as mais bonitas daquele baile. — A mãe repetiu a fala que vinha afirmando desde o recebimento do convite.
— Não quero nada para mim. Economize no meu vestido e compre um ainda mais belo para Rebecca — Joana dizia sorrindo para a irmã.
— Nem pensar! — contestou Anastasia. — Economizar para deixar minhas filhas bonitas? Economiza-se agora e teremos que economizar a vida inteira!
Rebecca franziu o cenho, não compreendendo a que se referia a mãe, mas Joana entendeu muito bem o que ela queria dizer.
Do lado de fora da boutique uma elegante caleça ia se movimentando, levando os irmãos Franz para a propriedade Motier.
***
Na casa dos Hour, as irmãs Amália e Sophie conversavam sobre a festa e mostravam seus vestidos, rodopiando com a veste em frente ao corpo, imaginando o dia da festa.
— Ficará linda, Sophie. Este tecido lhe caiu muito bem — Amália elogiava a irmã.
— O seu também é muito bonito, embora eu tenha preferido o vestido rosa que provou ontem. Este azul claro a deixa pálida — Sophie falava com a irmã.
— Melhor assim... Uma palidez pertinente. Mamãe disse que isso mostra uma fragilidade ideal — ponderou. — Ah! Estou tão curiosa para saber o que Joana e Rebecca vão escolher — Amália olhava pela janela ansiosa pelo momento que veria a mãe chegar com as duas irmãs.
— Ali estão elas — Sophie apontou as três, que caminhavam de braços dados e aproximavam-se da casa.
Anastasia entrou com as filhas e encontrou o marido na sala, dormindo sentado com a cabeça pendendo para o lado enquanto roncava alto.
— Senhor Frederico! Está dormindo e roncando! — Ela o acordou, recriminando-o.
— Oh, eu acabei adormecendo. Estou velho! — disse ele recompondo-se. — O caso é que vim mais cedo para casa pois quero lhes comunicar que tomarei uma atitude.
— Que atitude? — perguntou a esposa, sem entender.
— Irei à propriedade Motier e falarei com senhor Phillip! — informou fazendo Joana arregalar os olhos.
— Pois deve ir, sim! — disse Anastasia, vibrante.
— Pois não deve ir, não! — Joana repeliu a ideia.
— E por que não? O baile demorará três meses. A esta altura é um milagre que ainda não tenha se formado filas de moças em frente à propriedade Motier.
— Tem razão, marido — concordou Anastasia. — Se não formos rápido, ele escolherá outra moça.
— Temos sorte que a notícia da vinda de senhor Phillip ainda não se espalhou. Estão todos pensando que vieram somente os empregados — disse Frederico à esposa.
— Ora, como? Não foi o próprio senhor Phillip quem entregou os convites do baile, papai? — Joana lembrou.
— Nas outras residências eu não sei, mas nesta casa foi o próprio — Anastasia garantiu.
— Deve ter ouvido falar da beleza das minhas filhas e quis conferir pessoalmente — Frederico Hour disse orgulhoso.
— Oh, papai, que fantasia! — Joana riu.
— Pois este pensamento não me ocorreu sem fundamento. Estive com senhor Loen esta manhã e ele contou que o convite lhe foi entregue por um criado de Phillip.
— Então não foi o próprio senhor Phillip quem entregou o convite aos Loen?
— Não foi. Como eu disse, todos com quem conversei, citaram um jovem, senhor... Oh, senhor.... Não recordo o nome. Não importa. O que importa é que já sabemos que Phillip deverá escolher uma moça com quem se casar.
— Deverá? E qual moça ele deve escolher, papai? — Joana perguntou aborrecida.
— Ora, você! É claro!
— Declino dessa opinião — Joana rebateu.
— Pois eu vou até lá e farei o convite para que Phillip venha nos visitar outras vezes antes do baile. Vou insistir com isso. Quando esteve aqui, Joana estava adoentada — olhou para ela com desconfiança. — Certamente não voltará a adoecer neste mês novamente.
— Quem há de saber... — Joana murmurou.
— Pare de confrontar seu pai, Joana! — Anastasia clamou.
***
— Deixe-me ver, deixe-me ver seus vestidos! — Amália gritou assim que Joana e Rebecca entraram no aposento.
— Vejam como o meu é lindo! Vejam! — Rebecca desembrulhou o pacote e mostrou o vestido que escolheu na boutique.
— Veja, Amália! É o vestido rosa que você provou ontem. Era este que você deveria ter escolhido — Sophie falou.
— Gostei do azul — disse Amália.
— E você, Joana, escolheu algo para si ou irá com aquele indecente com o qual recebeu o senhor John? — Sophie provocou.
— Joana não queria vestido algum, mas mamãe insistiu. Escolhemos um lilás maravilhoso. Mostre Joana! — Rebecca pediu.
Joana mostrou o vestido lilás e todas ficaram admiradas com a beleza da peça e também com a falta de empolgação da irmã.
— O que foi, Joana? Não gostou do seu vestido? — Amália perguntou.
— Um vestido não seria responsável por alterar o meu humor. Pergunte para nossa mãe o porquê de eu estar assim — bufou.
— Papai foi agora mesmo até a casa de senhor Phillip — Rebecca contou.
— Foi fazer o que lá? — Sophie perguntou exasperada.
— Insistir que ele venha à nossa casa mais vezes. Ele quer que Phillip conheça Joana — disse Rebecca sorrindo.
Sophie saiu correndo pela casa procurando pela mãe a fim de queixar-se da sua desgraça de não ter nascido antes de todas as irmãs.
O que deu nela? — Joana perguntou-se.
***
Na propriedade Motier, Alexandre supervisionava o trabalho do jardineiro e dava sugestões de como deveria podar as cercas vivas a fim de que ficassem simétricas em suas formas. Pediu que limpassem o chafariz que ficava no meio do jardim e também uma escultura de um anjo mármore de Carrara que adornava as escadarias.
Estava em meio a esta tarefa quando visualizou que uma caleça parava lentamente junto ao portão. Alexandre se esforçou para ver quem estava no seu interior e viu quando um criado surgiu à porta e fez menção de verificar quem era o visitante. Foi quando Alexandre pôde enfim identificar o senhor Frederico Hour.
Alexandre apressou-se em subir as escadarias do jardim e em seguida voltou a descer rapidamente, dizendo aos criados que ele mesmo receberia o visitante. Viu-se nervoso, angustiado, andava de um lado para o outro no jardim sem saber o que fazer. Por fim, começou a andar lentamente na direção do portão.
O que ele quer aqui? Será que descobriu que não sou Phillip e agora vem acusar-me? Oh, não, nunca fiz tal afirmação! Senhor Hour e a esposa é que se enganaram e não me deixaram explicar....
Esses pensamentos se dissolveram assim que se aproximou do portão e viu um cordial sorriso no rosto de senhor Hour. Alexandre suspirou aliviado, ao mesmo tempo em que teve a certeza de que seria naquele dia que falaria de uma vez por todas quem ele era. Gritaria se fosse preciso para não ser interrompido.
— Senhor Hour! É um prazer recebê-lo — Alexandre cumprimentou.
— O prazer é igualmente meu — Frederico Hour caminhou ao lado de Alexandre para dentro da propriedade. — Que bela mansão! — dizia maravilhado com a magnitude da construção.
— É sim, uma bela propriedade. Senhor, queira me acompanhar até a sala. Creio que devemos conversar.
— Oh, sim. Foi também por isso que vim, senhor Phillip — disse Hour, estranhando alguma coisa que não conseguia entender o que era.
Caroline estava descendo as escadas do segundo andar e parou ao ouvir a conversa. Estava a uma distância suficiente para ouvir sem ser vista.
Senhor Phillip? Este senhor chamou meu irmão de senhor Phillip?