O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 19 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 19 — O passado

 

Johan estava debruçado sobre o parapeito da escadaria da mansão Motier. Ele olhava Caroline ao longe, andando no jardim, sozinha. Era hábito da moça fazer esse passeio todas as manhãs. Ela passava pelo chafariz, dava a volta pelo coreto, e depois contornava a cocheira onde os cavalos ficavam.

Johan sempre achara Caroline muito bela, mas ela nunca o olhou como olhava ao seu irmão, Phillip. Quando eram mais jovens e moravam todos em Paris, Caroline ia visitá-los com frequência junto de Alexandre e seus pais. Eles residiam tão próximos que se podia ir caminhando de uma propriedade à outra. Nessas ocasiões Johan tentava se aproximar dela, procurando algum assunto que fosse do seu interesse, mas ela mal olhava-o nos olhos e o esnobava enquanto suspirava por Phillip. Ele ficava irritado, pois parecia que ela fazia aquilo para provocá-lo e mostrar a ele quem era o alvo do seu verdadeiro interesse.

Quando Caroline tinha quinze anos — um pouco antes de se mudar para a Inglaterra e ir morar com a tia — Alexandre organizou um jantar de despedida para a irmã, na propriedade deles, em Paris. Na época, moravam apenas os dois na residência, pois o pai havia falecido um ano antes e a mãe naquele mesmo ano. Caroline estava deslumbrante em um vestido azul-claro. Os olhos de Johan percorreram o corpo da moça, que havia mudado muito naquele último ano. Ele a olhava e via a bela mulher que ela se tornaria. Caroline tocou pianoforte para todos os presentes e cantou. Sua voz suave fez o coração de Johan disparar. Com prazer ele observava que Phillip não demonstrava voltar nenhuma atenção a ela; enquanto ela, claramente esforçava-se para agradá-lo.

Eles jantaram, conversaram, e quase no fim da noite, ao ver que ambos haviam sumido, Johan foi procurá-los. Ao se aproximar da sacada da casa viu o irmão, no andar de baixo, conversando com Caroline. Ele não podia ouvir o que diziam, por causa da distância, mas viu claramente quando Caroline tocou o rosto de Phillip. Ele recuou e os dois quase saíram do seu campo de visão. Ele ainda via Caroline e parte de Phillip, sob a varanda do térreo. Ela voltou a tocar em Phillip, desta vez em seu peito — aquilo incomodou Johan de forma singular.

Phillip segurou os dois braços de Caroline e girou o seu corpo, ficando no lugar onde antes ela estava, e a distanciando mais uma vez. Então Johan viu algo que por muito tempo ele imaginou ter sido um devaneio seu. Caroline pegou as mãos de Phillip e as levou para junto do seu colo, passou os dedos sobre a alça do vestido e o afrouxou, deixando o tecido mais solto. Ainda segurando as mãos de Phillip ela incentivou que ele a acariciasse. Johan tinha dezessete anos na época, e Philip um pouco mais de dezoito. Ele não viu o que aconteceu em seguida, pois Patric o chamou na sala e quando lançou os olhos rapidamente para a varanda, não os viu mais.

***

 

Depois de cinco anos sem vê-la, Johan surpreendeu-se ao constatar como ela ainda o afetava, talvez não mais como naquele tempo, não mais de uma forma tão inocente. Olhava-a agora com mais luxúria, mas ainda com o coração saltitante de um apaixonado. Não conseguia ser indiferente à sua beleza.

— Gosta dela? — Uma voz soou atrás de Johan, fazendo-o sobressaltar.

— O quê? — virou-se e encontrou Phillip.

— Gosta da senhorita Caroline? — Phillip perguntou, colocando-se ao lado do irmão.

— Por que a pergunta?

— Estava aí, a admirando há tanto tempo. A considera especial? — inquiriu uma vez mais.

— Especial? — expressou-se com desprezo e uma risada. — É apenas como tantas outras.

— Nada especial? — replicou Phillip.

— Para mim nada — irritou-se com a insistência daquela conversa. — E para você? — encarou o irmão.

— Claro que não — disse Phillip surpreso.

— Não esperava vê-la aqui. Sabe por que ela veio?

— Para ficar junto de Alexandre, é claro.

— Sabe que não é a verdade.

— E qual é a verdade?

— Veio para conquistar um jovem herdeiro, solteiro e rico — disse Johan com ironia.

— Besteira! Caroline sabe que há muito somos apenas amigos e que minha amizade por ela se deve muito mais pela minha consideração a Alexandre.

— Então não a acha atraente? — Johan perguntou e Phillip o olhou aturdido.

— Que espécie de pergunta é essa? — redarguiu com seriedade.

— Uma pergunta comum, assim como a que me fez ainda há pouco. Não acha que a senhorita Caroline esconde, atrás do seu rosto de anjo, uma dissimulada sedutora? — Johan perguntou com audácia. — Talvez ela tenha muito mais experiência do que sua idade permitiria ter.

— Ouça o que diz! — Phillip o repreendeu. — Que juízo faz da moça, e sobre qual pretexto? Deve respeitá-la, é irmã de Alexandre.

— O que me importa o Alexandre? — deu de ombros. — Digo isso porque sou um bom observador. Caroline mudou muito, além da aparência, pode ter adquirido muita experiência sobre a vida, na Inglaterra.

— Ora! Esteve sob os cuidados da tia. A senhorita Caroline não é uma moça solta no mundo. Não me desagrade criando conflito, ou situações vexatórias. Se não consegue respeitá-la, mantenha-se distante! — ordenou.

— Para mim isso será mais fácil do que para você, meu irmão. Já que de mim ela foge, enquanto se faz sua sombra... — disse Johan. Phillip apenas o encarou irritado e o deixou falando sozinho.

[...]

— Alexandre, precisamos conversar — disse Phillip quando o viu passar com rapidez em frente à porta do seu escritório.

— Sim... — Alexandre falou, parando de imediato. — Não vi que estava aí — disse, parecendo incomodado. — Podemos falar depois? Tenho que sair...

— Aflito como está? Aonde vai?

— Preciso ver Joana, esses dias têm sido um pesadelo. Patric me contou como foi a conversa com o senhor Hour ontem, a forma como aquele homem me odeia... Mas, ao mesmo tempo, disse-me algo que deu-me...

— Pretende ir à casa dos Hour? — Phillip o interrompeu e franziu o cenho, como a advertir-lhe de que isso não era o certo.

— Não, eu sei que não seria bem-recebido. Mas há outro lugar que talvez eu possa encontrá-la.

— Encontrar-se escondidos?

— Não escondidos, mas a sós — Alexandre o corrigiu.

— Não vai encontrá-la hoje, seja lá onde for esse lugar a que se refere. Veja, acabo de receber o bilhete do senhor Hour. Ele e sua família vêm estar conosco hoje para um jantar. Eles chegarão cedo, antes do pôr-do-sol — disse estendendo o bilhete a Alexandre.

— Os convidou? Por quê? — Alexandre quis entender.

— Um pedido de desculpas.

— Acha que há alguma possibilidade do senhor Hour desculpar-me? — Ele perguntou. Phillip apenas pressionou os lábios e meneou a cabeça em dúvida.

 

***

Ao cair da tarde, Joana andava dentro do aposento, sem saber o que fazer. O pai havia dito que ela iria àquele jantar de qualquer forma. Ela tentou fazer com que o pai desistisse da ideia, mas não houve jeito.

— Joana, está tão nervosa — disse Rebecca, percebendo a inquietude da irmã mais velha.

— E não é para estar? Veja a situação a que nosso pai nos expõe! Agora ele e mamãe acham que vão conseguir casar uma de vocês com o senhor Phillip — disse aturdida. — Isso é tão...

— Joana — interrompeu Rebecca —, lembra-se do jovem que me convidou para uma valsa no baile, e a qual tive que recusar?

— Sim, lembro...

— Era o irmão do senhor Phillip.

— O que esteve aqui ontem? O senhor Patric? — Joana surpreendeu-se.

— Sim, tenho certeza de que era ele.

— E como sabe?

— Ele me reconheceu, perguntou sobre meu sinal — disse olhando para o braço —, então não pude negar. Foi o único jovem com quem conversei no baile. Quem mais poderia ter percebido o meu sinal, se não estivesse tão próximo a mim?

— E você gostou dele? Quer dizer, o que achou dele? — Joana sorriu, embora soubesse que pela expressão da irmã, ela havia gostado dele sim.

— Eu o achei encantador — disse ruborizando as faces —, e também atencioso e respeitável.

— Papai o detestou. Parece-me que apenas o senhor Phillip ganhou dele algum respeito.

— Se papai não o aprovou foi por ele ter defendido o senhor Alexandre — suspirou —, o que eu achei um gesto muito honroso, de um amigo para com o outro. Joana, provavelmente vai reencontrá-lo hoje na mansão Motier, como se sente com isso?

— Rebecca! — Joana lhe acertou um olhar duro. — Não me sentirei afetada se encontrá-lo — disse mais para si mesma. — Se há alguém que deve se sentir mal, não sou eu, mas sim aquele senhor...

— Por favor, Joana, se é mesmo tão indiferente, deveria parar de evitar dizer o nome dele — Rebecca riu.

***

— Eu acho totalmente indevido este jantar ser oferecido àquela família — disse Caroline a Alexandre, quando estavam somente os dois na sala de estar.

— Não importa o que acha, Caroline — Alexandre rebateu ríspido.

— Vou considerar a grosseria como um instinto do nervosismo a qual deve estar acometido. Sei que está nervoso — disse ela soltando o ar com força. — O que eu quis dizer é que Phillip não precisava oferecer um jantar a eles, como pedido de desculpas, sendo que você nada fez.

— Eu sei o que eu fiz, Caroline, e acredite, este jantar não abonaria em nada as minhas falhas, mesmo se fosse essa a intenção. Porém sei também o que não fiz, e ficar com esta culpa eu não aceito. Joana precisa saber que eu nuca fiz nenhum mal à Sophie e meus olhos e coração foram sempre dela, nunca de outra.

— É, mas quem há de acreditar em um homem, se ele já não diz a verdade desde o princípio? — disse ela. Alexandre apenas a acertou com um olhar irritado, ao constatar que ela estava certa.

— Pensa que não sei disso? Com o que acha que torturo os meus pensamentos a todo momento?