O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 32 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 32 — O som do amor

 

— Joana não está em nenhum lugar — Madame Anastasia exclamou preocupada, colocando mais desespero na voz do que a situação realmente merecia. Já tinham olhado a biblioteca e a galeria.

— Se a senhorita Joana tivesse me comunicado, eu teria solicitado que os criados fizessem uma busca pela joia perdida — disse Phillip estafado de ter que aguentar Madame Anastasia ao seu lado, exagerando o sumiço de Joana, como se ela estivesse em situação de perigo. — No entanto, logo havemos de encontrar sua filha, Madame.

Ao virarem o corredor avistaram a cozinha e a adega. Phillip pediu licença e, deixando-as esperando no corredor, foi até a cozinha, depois voltou com um castiçal e entrou na adega, analisando cada parte daquela sala. Ele não era tão atencioso assim para saber se estava faltando alguma bebida, nem qual delas poderia ter sido pega, mas sabia que alguém estivera ali há poucos instantes e remexera em seu estoque de vinho. O cheiro de vela ainda estava no ar e as garrafas desordenadas de uma forma incomum. Phillip tocou a cera e sentiu que ainda estava quente e foi nesse momento que Alexandre lhe veio à mente.

— Ela não está aqui, vamos procurá-la novamente na galeria e na biblioteca. Ou quem sabe, ela já tenha retornado para a sala de música — disse Phillip, já mais ansioso.

Enquanto Madame Anastasia e Phillip prosseguiam procurando por Joana, Rebecca dirigiu-se à sala de música para verificar se ela já havia retornado para lá.

***

No jardim, Alexandre e Joana ainda corriam de mãos dadas. Ele ia mais à frente, segurando a garrafa de vinho em uma mão, olhando o caminho que já lhe era conhecido, enquanto Joana segurava a sua mão livre, apressando o passo para acompanhá-lo. Em um primeiro momento ela estava assustada com a iminente possibilidade de alguém os ver juntos, mas depois permitiu-se até mesmo achar graça daquela fuga, e num misto de euforia e felicidade abriu um sorriso, acompanhado de uma gargalhada. O som daquela risada ecoou dentro dos ouvidos de Alexandre, e foi para ele o som mais deleitável que há muito já tinha ouvido. Imediatamente ele parou de correr e a abraçou, trazendo o corpo da sua amada para muito junto do seu. O frio era cortante e as copas das árvores e o chão ainda tinham um pequeno acúmulo de neve que caíra nos dias anteriores. Os dois ofegaram juntos e Joana tremeu em seus braços, um tremor de frio e também de prazer. O abraço de Alexandre era o lugar mais confortável em que já estivera.

— O som da sua risada... — disse ele, de olhos fechados, com a cabeça de Joana ainda apoiada em seu peito. — Eu amo esse som.

— E eu amo este que estou ouvindo — disse ela com firmeza ao escutar as fortes batidas do coração de Alexandre. Ao ouvir aquelas palavras foi impossível que seu coração não palpitasse ainda mais forte.

Continuaram a caminhada apressada pelo jardim, circundando a casa até chegarem ao coche dos cavalos e, mais à frente, ao centro do jardim. Ao longe viram as luzes que vinham da janela da sala da lareira e do grande salão principal e pararam para ver se não havia ninguém por perto.

— Se soubesse o quanto destruído eu me senti ao vê-los juntos... — Alexandre exprimiu sua angústia. — Foi tudo mesmo um mal-entendido? Eu pude sentir as intenções de Phillip e pegar com as minhas próprias mãos, tão palpáveis me pareceram. Eu a amo, Joana! Amo de verdade e não suportaria perdê-la.

— Só posso falar sobre meus sentimentos e intenções; e eles nunca incluíram o senhor Phillip — disse Joana quase em um sopro. Não disse nada sobre o que aconteceu depois que Alexandre havia saído da galeria, sobre a lisonja de Phillip e aquela declaração que ele lhe fizera.

— Agora que sei que me ama... não vamos nos separar mais — disse Alexandre abraçando-a novamente.

— Pareceu-me que o senhor sempre soube que eu o amava — disse ela sorrindo.

— Eu só podia contar com isso, com minha esperança... Mas ouvi-la confessar foi infinitamente melhor do que a minha certeza, sempre contrariada por suas palavras... — disse lançando um olhar divertido na direção de Joana.

— Será que poderá me perdoar por isso? — cobriu seu rosto, muito ciente do seu erro e de como fora dura com ele o tempo todo.

— Perdoar? Não há nada que a senhorita tenha feito para que eu precise perdoá-la... Ouça, Joana, meu objetivo agora será a luta para ficarmos juntos.

— Não será uma luta fácil — disse ela perdendo o ânimo, lembrando-se de que seus pais não seriam a favor daquele romance. Pensou também em Sophie e seu coração doeu.

— Será mais fácil do que tem sido até agora, mas eu sou um soldado, não se esqueça disso — sorriu com prazer. — E um soldado apaixonado não pode ser derrotado. Joana, se soubesse o quanto feliz me fez essa noite — suspirou. — Minha paz se resume agora em saber que acredita em mim, que me ama... e o seu sorriso. São esses os três motivos da minha felicidade.

— Eu acredito — disse ela derrubando uma nova lágrima. — Mas Sophie fez um buraco no meu coração, porque não consigo deixar de amá-la. E agora não sei se posso perdoá-la pelo que fez, ao mesmo tempo que ainda não suporto vê-la sofrer, desta vez por...

— Por Johan. Eu sei — antecipou-se em dizer.

— Sabe? Como? — Joana o olhou com espanto.

— Eu não sei qual o tipo de promessa ele lhe fez, nem como ou quando estiveram juntos, mas sei que ele a iludiu e agora deseja fugir...

— Fugir? — perguntou atordoada.

— Eu sei que há muito mais para falarmos, e eu passaria o restante dessa noite, ou até mesmo de meus dias, declarando o meu amor e a ouvindo repetir que me ama, mas precisa voltar para aquela sala, ou logo todos irão parar de procurá-la dentro da mansão e virão para o jardim — beijou-lhe as mãos. — Vá, eu vou em seguida.

— Sim — disse ela e depois se lançou para os braços de Alexandre, com tanto amor e energia que ele se desequilibrou. Surpreendido com aquela atitude, mas muito feliz para questionar, ele a envolveu em seus braços em um beijo apaixonado. Com os olhos cheios de promessas eles se separaram.

Alexandre segurou a garrafa de vinho e, mentalmente, traçou o plano de que se fosse visto por alguém nos corredores baixos da mansão Motier, ou próximo à entrada de seu aposento, diria que havia descido para buscar uma bebida, a fim de ajudá-lo a dormir mais relaxado.

Joana correu pelo jardim, parando somente quando chegou em frente à escadaria, quando, por um breve instante, ofegou tentando controlar a respiração. Naquele mesmo minuto chegava na porta da mansão Rebecca, Patric, Amália, e Frederico Hour.

— Ali está ela — disse Rebecca apressando o passo na direção da escada, pronta para descer a escadaria e encontrar Joana.

— Cuidado. A escada pode estar escorregadia — Patric colocou-se ao seu lado e estendeu o braço para Rebecca se apoiar. Puseram-se a descer juntos os degraus, e juntos viram quando Joana abaixou-se e fingiu pegar um objeto do chão.

— Encontrei — disse ela. — Encontrei minha pulseira — Joana anunciou erguendo a joia que estava em sua mão o tempo todo.

— Onde estava, Joana? — Anastasia interrogou acentuando seu tom sério. — Estivemos à sua procura por toda parte.

— Perdi minha pulseira. Pensei que tivesse sido na galeria de arte, mas estive lá e não a encontrei, então vim procurar aqui fora — justificou-se subindo os degraus, acompanhada de Patric e Rebecca.

Phillip, naquele mesmo instante, descia as escadas de dentro da mansão Motier. Quando todos estavam procurando Joana ele subiu até o corredor dos aposentos e bateu na porta de Alexandre. Ele não o atendeu, então abriu a porta e confirmou a sua suspeita de que ele não estava ali dentro.

Desceu as escadarias, ainda pensando sobre como proceder, quando viu que todos já haviam encontrado Joana. Ouviu as vozes na entrada da casa e foi até eles. Joana estava explicando o porquê de não ter chamado ajuda para encontrar a joia.

— Nesse frio, sozinha na noite escura à procura de uma pulseira. Joana, que inconsequente — Frederico a repreendeu.

— Está tudo bem. Devo ter perdido a pulseira quando chegamos, ao descer da caleça — Joana justificava-se. — Mas ela estava aqui, no primeiro degrau da escada.

Ao longe, ocultado por algumas árvores e cercas-vivas, Alexandre esperava que todos entrassem, a fim de aguardar alguns minutos para depois entrar na mansão.

Phillip manteve seus olhos serenos sobre Joana enquanto ela falava, certo de que ela estava mentindo. Lembrava-se com muita clareza que ela estava com a pulseira o tempo todo. Sentiu o metal frio encostar em seus dedos quando havia tocado suas mãos na galeria de arte.

Ela está mentindo. Estava com Alexandre — pensou para si mesmo enquanto um estranho sentimento crescia dentro dele. Naquele momento Phillip definiu esse sentimento como “rivalidade”, pois detestava perder, e Joana era grande alvo de seu interesse. Estava certo de que a queria. A queria muito.

***

Alexandre assistiu, da janela do seu aposento, a caleça da família Hour mover-se para fora dos portões da mansão Motier. Seu coração ainda vibrava ao relembrar as doces notas da voz de Joana a lhe confessar o seu amor. Sentiu que cada dia que havia passado em angústia valeram aquele momento. A certeza de um futuro doce e florescente ao lado de Joana voltou a fazer morada em seu coração.

Em pouco tempo a mansão Motier ficou completamente entregue ao silêncio e às penumbras. Apenas um ou outro castiçal ainda mantinha as suas velas acesas, quase derretidas por completo. Alexandre bebeu um pouco de vinho e, deitado nos braços da esperança, adormeceu.

***

A alguns dormitórios à frente, Caroline recebia uma visita. Ele chegou sem avisos, não bateu à porta nem pediu licença. Invadiu o aposento sorrateiramente, mas Caroline ouviu o ranger da pesada madeira e o encarou quase no mesmo instante. O castiçal preso à parede e outro que repousava ao lado da cama, iluminaram o rosto bonito e masculino, emoldurado por um sorriso tentador e um par de olhos azuis repletos de intenções.

***

Após preparem-se para dormir, Joana e Rebecca foram cada uma para sua cama, foi quando Rebecca, não suportando mais esperar que viesse de Joana a iniciativa de começar aquela conversa, puxou o assunto:

— Joana, já me fez sofrer em expectativa, espero que agora seja a hora oportuna para conversamos...

Joana sentou-se na cama, de frente para a irmã, e suspirou. Pretendia ser sincera, o quanto mais pudesse ser, por isso decidiu que deveria contar também sobre o seu próprio tormento. E foi falando sobre ela e Alexandre, que iniciou aquela conversa. Deixou sua mente viajar longe, nos meses passados, e contou sobre o primeiro encontro que teve com Alexandre, no bosque, quando ainda não sabiam nem o nome um do outro. Nesse trecho da narração Rebecca arregalou os olhos, dizendo que o bosque era muito perigoso para ir sozinha, que sempre desconfiara que Joana tivesse um refúgio, mas que julgava ser nos arredores do bosque, no prado, ou até mesmo na vila dos camponeses... mas não no interior do bosque.

— Não seria um refúgio se fosse tão óbvio. O bosque é, há muito tempo, o melhor lugar que encontrei para pensar, para ler... e para fugir. Lembra-se de certa vez que papai quis que eu o acompanhasse em uma viajem a Paris, e soubemos que, além de negócios na cidade, ele tinha interesse de me levar junto para que eu conhecesse um pretendente? Foi no bosque que me escondi até ver partir a caleça de nosso pai.

— Sim, e ele resolveu ir sozinho depois de muito procurá-la por toda parte. Naquele dia papai foi até o prado montado a cavalo, e depois até a vila dos camponeses, enquanto mamãe a procurou no interior da igreja, na casa dos Loen e até no nosso estábulo... — riu. — Jamais suporíamos que estivesse no bosque. Além de correr o risco de se perder, ou encontrar com caçadores, poderia ter se deparado com homens cruéis ou até mesmo invasores estrangeiros.

— Tracei uma trilha para não me perder e sempre estive atenta. Alexandre foi o único encontro inesperado que tive no bosque. Isso porque ele havia se perdido ao cortar caminho para a nossa vila. A trilha é estreita demais para caleças, sendo possível seu acesso apenas a pé ou a cavalo. O fato é que, naquele encontro, não nos apresentamos, ele causou tanta irritação em mim... E eu, que já estava nervosa demais com nossos pais, acabei descontando nele todo meu descontentamento. Ao vê-lo novamente em nossa casa, quando já pensávamos que ele fosse Phillip, e a cada novo encontro que tínhamos, ele sempre conseguia me tirar a paz, me irritando de uma forma singular. Nossos diálogos eram repletos de ironias, implicâncias e eu sempre achei que seria impossível detestá-lo mais. Mas então nossos pais acharam que seria ele o melhor pretendente para mim, e isso fez com que eu determinasse que ele seria minha última escolha. Fazê-lo querer estar distante de mim era o que eu mais desejava, por isso não me importava em ser descortês com ele sempre que tinha oportunidade, mas ele não desistia de me afrontar, como se cada palavra amarga que eu lhe dirigia fosse um estímulo para prosseguir com sua insistência. Ele dava indícios de seus sentimentos e eu o ignorava o quanto podia. Até que um dia ele se declarou, disse que me amava, com tanta emoção e verdade que me senti abalada. Oh, Rebecca, como fui orgulhosa, sentia meu coração tremer quando estava ao seu lado e negava para mim mesma que estava me sentindo afetada por ele — Joana contraiu o rosto e curvou-se, pondo as mãos no rosto, envergonhada. — Sinto vergonha da forma com que agi, depreciando o que sentia e também repelindo os sentimentos de Alexandre com frieza. Sophie teve o coração magoado pela rejeição, mas também porque eu não queria aceitar que o amava... Como se confessar isso fosse me rebaixar ao título de fraca, entregando-me aos desejos e caprichos de nossos pais, aos seus planos unicamente inspirados pela ganância. E mesmo quando finalmente o aceitei, foi dizendo que fazia aquilo por obrigação, por ordens de nosso pai. Disse, olhando nos olhos de Alexandre, que sentimentos como o amor não caberiam jamais em nosso relacionamento, pois eu estava sendo condenada a um casamento forçado, por conveniência — confessou enquanto lágrimas quentes escorriam de seus olhos.

— Joana, então você realmente o ama? — Rebecca questionou maravilhada. — Estou tão feliz que tenha finalmente se aberto comigo. Sempre soube que Alexandre lhe afetava de alguma maneira, embora realmente você tenha se empenhado em nos fazer acreditar no contrário. Joana... — disse levantando-se da cama e indo até a irmã, segurando-lhe as mãos. — Como deve ter sido doloroso ter que suportar ouvir Sophie narrar os acontecimentos daquele baile. Há alguma justificativa que possa explicar o que aconteceu? Por que depois lutar tanto para tê-la, Alexandre agiu daquela maneira?

Joana passou as duas horas seguintes contanto tudo para Rebecca. A história do broche roubado, e como Alexandre disse que sua única culpa era ter omitido quem era, e depois deixar que aquela farsa se estendesse até que fugisse de seu controle poder voltar atrás. Narrou sobre como Sophie mentiu para o cocher, se passou por ela no baile e se deixou ser beijada por Alexandre, sabendo que ele pensava ter Joana em seus braços. Rebecca, horrorizada, também chorou. Um choro manso de decepção cortou seu coração. Compadeceu-se do sofrimento de Joana, e admirou-se com a sua força, por ter suportado tudo aquilo sozinha e em silêncio. Ao final da sua narrativa Joana disse-lhe que se sentia liberta, por finalmente ter confessado a Alexandre que o amava.

— Como gostaria que tivesse divido sua aflição comigo antes. Porém entendo os seus motivos. Vocês serão felizes, Joana, tenho certeza que sim. Sophie terá que confessar aos nossos pais o que fez, e então restará apenas a culpa de Alexandre em ter omitido sua verdadeira identidade. Faremos com que entendam que Alexandre agiu por amor e, mesmo assim, que se arrependeu.

— Não estou tão confiante nisso, só a mentira de Alexandre já é o bastante para que nossos pais o censurem, e Sophie não aceitará falar a verdade assim tão facilmente.

— Ah, Sophie... — Rebecca repetiu o nome da irmã com certa introspecção. — Conte-me, Joana, sobre o que me disse esta noite... Sophie gosta do senhor Johan?

Neste instante Joana emudeceu. Um assunto tão delicado como aquele precisava ser dito com cuidado, não queria ser tendenciosa ao falar do comportamento de Johan e de Sophie, nem julgar seus sentimentos. Acreditava que Sophie tinha sido ingênua e ao mesmo tempo embevecida pelas promessas de Johan. Em seu íntimo, culpava até mesmo seus pais por aquela atitude inconsequente de Sophie, pois um casamento lucrativo sempre rondava os pensamentos imaturos da irmã, plantados pelos ideais de seus pais, e repetidos diversas vezes para todas as filhas.... E Sophie havia se entregado a Johan por uma promessa... Por uma ilusão.

— É um assunto muito difícil este, mas que preciso lhe contar... — E assim Joana contou para Rebecca tudo o que viu no prado, isentando-a de seus próprios julgamentos, apenas narrando as cenas e a conversa que tivera com Sophie naquele dia e depois a que tivera com Johan, na propriedade Motier dias mais tarde.

— Meu Deus! — Rebecca chorou completamente aflita depois de ouvir tudo. — Isso parece impossível. Joana, se eu não estivesse ouvindo de você, eu não acreditaria. Como puderam? Johan nem ao menos a ama? Por que ele não a procurou mais desde então? Ele não pretende se casar com ela?

— Não... Johan pretende fugir. Alexandre disse-me hoje... Ele não pretende cumprir com sua palavra. Hoje mesmo o confrontei... Johan apenas quis divertir-se e brincou com os sentimentos e sonhos de Sophie... — Não conteve o seu julgamento impetuoso.

— Fugir? Que raiva estou sentindo do senhor Johan por isso — disse Rebecca secando as novas lágrimas que caíam. — Isso até parece algum tipo de punição à Sophie... Como deve estar sofrendo... Não sei o que nosso pai será capaz de fazer quando souber — falava agitada.

— Calma, não falaremos nada ainda. Vamos deixar que o tempo nos mostre o que devemos fazer — Joana pediu. Rebecca assentiu, ainda atordoada com toda aquela história.

— Joana, como conseguiu suportar tudo isso sozinha? Como fui desatenta em não perceber que algo de errado estava acontecendo com você, com Sophie...

— Não... Não pense que poderia ter feito algo para ser diferente.

Também me senti assim, impotente e culpada, mas não temos culpa pelas escolhas que não são as nossas, nem por atitudes sobre as quais não temos controle. No fim, cada um de nós terá a sua própria dose de culpa e de dor, que será quase ou igualmente proporcional ao erro que cometemos. Eu também sofri e ainda sofro por ter sido orgulhosa, Sophie por ter sido irresponsável, Alexandre por ter nos enganado... Johan também pagará um dia — suspirou fazendo uma pausa. — Mas sinto-me feliz por tê-la ao meu lado, com sua amizade e confiança, fortalecendo minha esperança — Joana a abraçou. — Vê-la feliz ao lado de Patric contribuiu muito para a minha decisão em declarar o que sinto por Alexandre. Sua espontaneidade, sua entrega diante dos seus sentimentos, me inspiraram a também me abrir. Eu não sei sobre o futuro, e meu romance com Alexandre é ainda muito incerto, mas você será feliz, porque os olhos de Patric já transbordam amor por você.

— Joana! Está dizendo isso apenas para me fazer feliz? — Rebecca enrubesceu e seu corpo reagiu aquecendo seu peito.

— Posso estar sendo insensata em lhe dizer isso, mas foi tudo o que vi nesta noite nos olhos de Patric... Uma profunda admiração... Uma admiração transbordante, que certamente você estava extasiada demais para ter reparado. Estava diante dele mas flutuava entre o nervosismo e a emoção. Mas eu vi tudo. E não fui a única.

— Vou torcer para que esteja certa, mas já antecipo minha felicidade somente em ter essa dúvida comigo. Mais feliz ainda porque você quase sempre tem razão em tudo o que diz, Joana — riram juntas.

As irmãs passaram metade da noite conversando como melhores amigas e confidentes, e a diferença de idade entre elas era cada vez mais um detalhe sem importância. Rebecca, apesar dos seus dezesseis anos recém-completos, era muitas vezes a mais madura e sensata de todas as irmãs Hour.