O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 35 de 45

Páginas do PDF

O Bosque de Faias

Capítulo 35 - Despedida

 

Tão logo Joana desapareceu entre as faias, Rebecca voltou seu olhar para Patric. Desta vez, ela não trazia um sorriso nos lábios, mas sim um semblante tenso, não deixando de considerar se realmente aquele era o Percheron de Alexandre, pois, àquela distância, poderiam ter se confundido, e aquele que viam ao longe poderia ser apenas um cavalo negro comum.

— Aquele é mesmo o cavalo do senhor Alexandre? — perguntou ela, os olhos apertavam-se para enxergar melhor.

Os dois pararam de galopar e Patric analisou-a, pensando se deveria dizer a verdade, de que havia ido até a sua casa e planejado o passeio para que Alexandre pudesse encontrar Joana. Não queria mentir, mas, de repente, se viu imaginando as mais diversas possibilidades de argumentos para explicar por que Alexandre estava à espera de Joana no bosque, e não deixar Rebecca imaginar que isso fosse a principal razão de estarem ali.

— É sim — disse ele, e respirou fundo para ganhar mais tempo para pensar no que diria a seguir, mas Rebecca, que estava curiosa demais para suportar que partisse dele aquela informação, resolveu questioná-lo logo:

— O senhor Alexandre estava à espera de Joana? — inquiriu reflexiva.

— Sim... Alexandre, ao saber que eu as convidaria, e sabendo que não seria bem-recebido em sua casa, esperou por Joana no bosque — disse, ocultando parte da verdade.

Naquele instante um pensamento lhe ocorreu, e ele experimentou ao menos um pouco da aflição que outrora Alexandre sentira, em que a verdade não era completamente revelada, mas ainda assim não possuía intenções vis. Ele não desejava de forma alguma magoar Rebecca, então dedicou-se a agradá-la e a mostrar que se sentia feliz em estar em sua presença, o que de fato era um sentimento genuíno.

Passaram a apreciar a paisagem e a falar sobre arte, música e de como toda aquela beleza era inspiradora até mesmo para um poema. Patric disse que gostava da neve, e de como a paisagem se transformava até chegar o verão. Rebecca disse sorrindo que gostava do clima mais ameno, mas concordou que era uma bonita paisagem, embora não muito auspicioso para um convescote, mas muito agradável para um passeio a cavalo.

O ar quente que saía de suas bocas evaporava conforme eles conversavam. Até que, já estando também próximos ao bosque, apearam os cavalos e sentaram-se em uma pedra baixa e alongada, muito propícia para servir como banco.

Um clima inquietante instaurou-se entre os dois quando se sentaram tão próximos um do outro e não sabiam mais o que poderiam dizer para continuar aquele diálogo que antes mantinham com naturalidade. Patric olhou-a de soslaio, ela olhava para frente, na direção do riacho, suas faces estavam avermelhadas, e ele pressupôs que ela pudesse estar com frio. Na verdade, o corpo inteiro de Rebecca estava aquecido, e suas faces cobriam-se de rubor devido ao seu coração, que se atropelava em batidas irregulares, fortes, fazendo com que ela temesse que qualquer palavra que dissesse naquele momento fosse considerada uma tolice sem sentido.

— Está com frio? — perguntou, fazendo menção em retirar o seu casaco e oferecer a ela.

— Não... O meu casaco é bastante quente — respondeu ligeira, olhando-o tão rápido quanto falou e depois voltando a fitar novamente o horizonte branco.

Depois de um pouco menos de um minuto Patric continuou a conjecturar de que ela pudesse estar com frio, então, retirou o seu casaco e o passou em volta do corpo de Rebecca, abrigando-a como se aquele fosse um cobertor e deixando seu braço repousar com suavidade sobre seus ombros, em um primeiro abraço um pouco desajeitado. Rebecca recebeu o toque e a gentileza com surpresa e seu corpo enrijeceu-se nervosamente. Ela suspirou e, olhando-o discretamente de lado, sorriu com timidez.

***

— Senti tanto a sua falta — Alexandre declarou após separar seus lábios dos de Joana. — Joana, não suporto mais um dia sem vê-la... — A essa declaração, Joana sorriu abertamente e suspirou.

Alexandre retribuiu o sorriso com admiração, vê-la sorrir ainda era uma das visões mais fascinantes que ele tinha o privilégio de apreciar, e ver que aquele sorriso era agora direcionado a ele sem disfarces e repressões, o fazia sentir-se o homem mais feliz do mundo. Joana não era tão livre em suas palavras quando precisava falar sobre seus sentimentos, por isso ficou olhando para os olhos de Alexandre sem dizer nada que pudesse retribuir as calorosas declarações de saudades que ele lhe fazia.

— Não sentiu minha falta? — Ele perguntou. — É a sua vez de dizer alguma coisa — sorriu, instigando-a para que fosse como sempre era em todas as outras situações: verdadeira, objetiva, espontânea.

— É claro que sim — rebateu ligeiramente. — Preciso dizer?

— Saiba que sempre que não disser abertamente o que sente, eu consultarei seus sentimentos e a farei declarar em voz alta — disse sorrindo, divertindo-se. — E como eu poderei me deleitar com as lembranças desse encontro, rememorando suas palavras doces, se a senhorita só ficar calada?

— Está querendo me deixar constrangida, ou apenas está se divertindo às minhas custas? — Ela franziu o cenho, pressionando os lábios para não sorrir com os gracejos que ele lhe fazia.

— A senhorita é mesmo sempre assim? Responde todas as perguntas com outra pergunta? — Ele riu, lembrando-se do primeiro encontro que tiverem exatamente ali, onde estavam.

— Assim como o senhor, pelo que observo. — Ela devolveu a mesma resposta dos meses passados, mas em vez de manter uma postura altiva e petulante, ela permitiu-se gargalhar com a recordação, e pedir as mais sinceras desculpas pelo seu comportamento de outrora, afirmando que jamais teria agido daquela forma se não estivesse tão afetada pelas cobranças dos seus pais. De forma rápida explicou a ele como havia sido aquele seu dia, e deu crédito a isso para justificar seu temperamento indelicado.

— Não me deixou de forma nenhuma irritado — garantiu ele. — Mas não ter permitido que eu beijasse a sua mão e me apresentasse, foi uma atitude que me causou alguns problemas...

— Problemas maiores o senhor causou por si só, depois disso. — Ela o recriminou com brandura. — Mas hoje eu confio totalmente em suas palavras, o que também foi mérito seu, que sempre foi sincero em falar de seus sentimentos e me mostrou que eu também poderia me abrir. Jamais pense que eu algum dia duvidei do seu afeto, e se deixei que pensasse assim, foi somente para atormentá-lo. — E seus olhos brilharam brejeiros para ele.

— E confessa? Confessa que sentiu prazer em me ver desesperado, em dúvida se era correspondido? — Ele sorriu incrédulo, depois pegou as mãos de Joana e as beijou, uma após a outra, repetidas vezes. — Jamais me cansarei de beijar suas mãos. As beijarei todos os dias até que possa me preencher do vazio que foi ter me recusado tantas vezes — fez-se magoado.

— Então eu desejo que nunca se sinta completamente preenchido.

— Estarei preenchido pelo teu amor tão logo você aceitar ser minha.

— O que quer dizer com ser sua? Se já o entreguei meu coração, sinto que já sou inteiramente sua.

— Quando disser que se casará comigo — completou com ardor. — Quando disser olhando em meus olhos que me ama e quer ser minha para sempre.

Joana sentiu todo o seu peito contrair-se em ondas, como se o seu coração estivesse trabalhando em uma longa corrida. Era tamanha a força das batidas, que sentiu doer o peito. Podia então o amor doer fisicamente? Podia a felicidade fazer quase explodir o seu coração?

— Alexandre — disse aquele nome com tamanho carinho que ele chegou a fechar os olhos para sentir as palavras mais intensamente —, eu o amo com todo o meu coração. E tudo o que mais desejo é ser sua, para sempre — falou enfim, enquanto ele ainda permanecia de olhos fechados, sorvendo todas aquelas palavras, gravando-as em seu coração para ouvi-las sempre que precisasse de forças, como a que precisaria para passar os próximos dias longe dela. Alexandre aspirou o ar com intensidade, como se tudo à sua volta pudesse ser tragado para dentro da sua memória, depois abriu os olhos e olhou as árvores e o chão cobertos de neve, o tronco de faia com as iniciais de seus nomes gravadas nele e, por último, o doce sorriso de Joana.

— Acabou de preencher-me. Sou inteiramente completo e seu, amada Joana — abraçou-a com amor.

— É também assim que me sinto, completa, mas não posso negar que muito preocupa-me a reação de meus pais. Como faremos para que enxerguem que estão errados a seu respeito sem que Sophie confesse como interferiu e o que fez para nos separar?

— Se Sophie não disser, Amália poderá dizer. René poderá dizer... Patric, Rebecca... Eles precisarão acreditar.

— Amália? Como Amália pode saber de algo? Se ela estava o lado de papai, de mamãe, e de Rebecca, quando viu o senhor e Sophie juntos no corredor daquele baile na propriedade Motier... beijando-se — disse amarga, sentindo as palavras carregarem-se de ciúmes, que já não fazia mais menção de esconder.

— Oh, Joana, como eu gostaria de poder fazer com que aquele dia não tivesse existido. Culpei-me tanto por aquele beijo, culpei-me tanto por não ter reconhecido Sophie... Sofri por imaginar que pudesse tê-la magoado, mesmo que esse jamais fosse o meu desejo, ao contrário, tudo o que eu queria era vê-la sorrir para mim, como havia sorrido em nosso segundo encontro no bosque; ou quando me contou sobre como as marcações nas faias não desaparecem jamais, mas que se expandem sem distorções. Assim também cresceu o meu amor, expandiu-se sempre imutável, cada dia mais forte. Como sofri pela desaprovação de sua família, por me verem com os piores olhos que poderiam... sabendo que a minha culpa era muito menor, e ainda assim sem poder fazer nada para provar o contrário. Mas Amália, já há algum tempo sabe de toda a verdade, ouviu-me discutir com Sophie na propriedade Motier quando lá estiveram para jantar. Amália ouviu-me confrontar Sophie e a ouviu confessar que fizera tudo por... porque... — Alexandre parou a narrativa ao ver os olhos sofridos de Joana lacrimejarem.

— Não, por favor, pode prosseguir. Mesmo que doa em mim...

— Não preciso dizer nada mais, só lhe garantir que há quem possa interceder por nós. Se Sophie deixar que o orgulho a consuma e se negar a confessar, Amália poderá dizer. E se não disser, e seus pais não me aprovarem jamais, ainda assim eu não desistirei do seu amor, Joana, e agora que sei que é minha, eu a levo embora comigo.

— Sim — assentiu confiante. — Eu vou, Alexandre. Juro que se papai não nos der o consentimento, eu irei... Ninguém nos negará a felicidade.

— Precisarei muito dessas palavras nos dias que se seguirão...

— Por quê? — Ela não o entendeu.

— Precisarei ir a Paris. — O semblante de Alexandre logo ficou pesado, e ele não conseguiu mais esconder a sua aflição por ter que deixá-la, mesmo que por alguns dias. Segurou as mãos de Joana e, beijando seus dedos, tentou ser sereno e passar confiança ao comunicar a sua viagem. Disse apenas o essencial, que tinha assuntos a resolver, que receberia a visita da única tia materna ainda viva, que vinha da Inglaterra especialmente para vê-lo, e que retornaria tão rapidamente que Joana nem daria conta de que ele tinha partido.

— Então não demorará mesmo em retornar? — perguntou, sem se importar de demonstrar o quanto ficou aflita com a notícia.

— Quanto tempo acha que posso ficar longe dos teus olhos? — Ele sorriu e beijou-lhe as mãos ainda com mais ardor. — Tão logo eu chegar a Paris, meus pés já irão querer retornar para junto de ti.

— E quando partirá?

— Amanhã pela manhã, se tudo ocorrer bem. Caroline irá comigo, então iremos com uma caleça e dois cavalos. Acredito que em dois dias chegaremos a Paris. Prometo escrever assim que chegar. Mas a carta será enviada para Patric, e ele entregará em suas mãos.

— Quanto tempo demorará em retornar? Preciso que me diga o dia que voltará — disse imperiosa, angustiada por um sentimento precipitado de saudade, que já sentia arder em seu peito. — Preciso que me diga exatamente quando voltará ou passarei os dias consumida pela aflição.

— Um pouco mais de duas semanas, talvez três semanas... — disse ele incerto, sem poder ser preciso quanto ao número de dias que precisaria ficar em Paris. — Não mais do que isso, não mais do que posso suportar sem vê-la. Prometo que minha ausência será o mais breve quanto puder ser. — E abraçou-a com todo seu amor, já consumido pela saudade.

Toda a sua preocupação restante ficou somente guardada para si. Alexandre não disse para Joana sobre a discussão com Phillip, porque ainda sentia dor e vergonha em sequer lembrar do ocorrido. Joana também guardava com ela a preocupação pelo futuro de Sophie, e embora soubesse que Alexandre já tinha em mente o ocorrido entre sua irmã e Johan, sentia vergonha de mencionar aquele assunto tão íntimo, sabendo que Johan naquele momento já poderia até mesmo ter ido embora da França.

***

Ainda sentados um ao lado do outro, na pedra próxima à entrada do bosque, à espera de Joana e Alexandre, estavam Rebecca e Patric. Os braços dele ainda abraçavam o corpo trêmulo de Rebecca, que tremia não pelo acometimento do frio, mas pelo contato com as mãos de Patric sobre os seus ombros. Tinham, depois de sentarem-se ali, trocado poucas palavras, e quem mais falou foi Patric, contando a ela um pouco das viagens que fizera e os lugares bonitos em que tinha estado.

— A senhorita está bem? — perguntou ele, lançando a ela um olhar expressivo de muita preocupação. — Está tão calada... Se estiver indisposta posso levá-la novamente até a sua casa — disse retirando o seu braço, o qual Rebecca já sentia com prazer em seus ombros, e afastou-se dela somente o suficiente para olhá-la melhor.

— Eu estou bem. Vamos esperar por Joana e o senhor Alexandre. Eles devem ter muito o que falar... — E depois de uma pausa continuou: — Torci tanto para que Joana pudesse enxergar seu sentimento e enfim o confessasse, embora soubesse o quão difícil era isso para ela — falou rapidamente, desejando que ele não percebesse o atropelo de suas palavras.

— Falar sobre nossos próprios sentimentos parece sempre uma tortura.

— Mas o que torturava mesmo Joana era a sua teimosia, seu orgulho, e não o constrangimento ou insegurança — disse pensativa, avaliando também os seus próprios sentimentos.

— Imagine as loucuras que poderíamos cometer, não fosse o receio, a meditação... Talvez alguns precisem de um pouco mais de tempo para ter coragem... — exprimiu-se verdadeiramente. O coração de Patric aqueceu-se como uma chama no meio da neve, mas seu suspiro baixo não chegou aos ouvidos de Rebecca.

***

Em um dos melhores aposentos da propriedade Motier, aquecida pela lareira, Caroline andava impaciente apenas com sua roupa de dormir, de um lado para outro à espera da criada que providenciaria os utensílios que ela havia solicitado. Logo a criada entrou, trazendo um pequeno balde com água e panos limpos. Caroline ordenou que saísse tão logo a mulher entrou, e antes de fechar a porta, disse que gostaria de ver Alexandre assim que ele retornasse. A criada assentiu e deixou o aposento com um semblante contraído, sem entender o porquê daquele pedido.

Caroline passou algum tempo na janela olhando para os portões de ferro da entrada da mansão, e assim que viu Patric e Alexandre ela correu na direção da lareira e retirou o balde de água quente, que ao lado do fogo havia ficado tempo suficiente para estar quase fervendo. Torceu o pano na água escaldante e o colocou sobre a testa e peito, deixando sua pele avermelhada e muito quente, depois ocultou o balde debaixo da cama. Porém, quem primeiro bateu em sua porta não foi seu irmão, mas sim Johan, que após insistentes batidas sem ser atendido, abriu a porta vagarosamente e espiou o interior do cômodo. Encontrou Caroline deitada na cama, com os olhos fechados e o corpo tremendo.

Depois de certificar-se de que não havia ninguém dentro do amplo aposento, além de Caroline, ele foi até ela, chamando-a pelo nome.

— Senhorita? Caroline? — encostou sua mão no braço dela e sacudiu seu corpo.

— Johan? — Caroline perguntou ensaiando uma voz debilitada, após abrir um pouco seus olhos e ver que ele estava sozinho ali. Johan se aproximou mais dela e tocou em seu rosto, sentindo a ardência de sua pele falsamente febril.

— A senhorita está febril! Desde quando está sentindo-se mal?

— Desde essa tarde... mas não deve ser nada — garantiu ela com os olhos semiabertos. — O que veio fazer aqui? — perguntou curiosa, abrindo um pouco mais seus olhos e encarando-o à espera da resposta.

— Vim para falar com a senhorita — disse ele sem protelar, mas contraindo a testa e depois sentando-se em uma cadeira ao lado da cama de Caroline. — Eu vou partir amanhã e...

— Oh! — Ela interrompeu-o e fechou os olhos com força. Se não estivesse atuando teria revirado os olhos e bufado em desagrado. — Todos vão partir amanhã... — suspirou cansada.

— Por que está dizendo isso? Quem mais irá partir? — disse colocando as mãos novamente em sua testa, supondo que ela estava delirando devido à febre. — Caroline? — chamou-a e depois praguejou em baixo tom. — Eu não posso dizer o que tenho para dizer com a senhorita assim.

— Chame meu irmão, Johan... Chame Alexandre — pediu esforçando-se para mover os braços.

Johan a deixou e atendeu ao seu pedido, mesmo a contragosto foi até Alexandre e disse-lhe que Caroline estava passando mal e que ele devia ir vê-la. Alexandre bufou enquanto subia as escadas no interior da mansão, sabendo que, o que quer que fosse, devia ser obra da birra de Caroline para não ter que viajar no dia seguinte. Mas, ao entrar no aposento da irmã, Alexandre viu que ela realmente estava abatida. Ao ouvir a voz do irmão, Caroline voltou a tremer e reclamar do frio. Sua testa estava molhada, e Alexandre imaginou que fosse suor. Ela ainda tinha a pele muito corada e quente, então ele aquiesceu com a ideia de que ela realmente estava doente. Passou alguns minutos sentado na cadeira ao lado da cama, e quando viu que a irmã parecia com a temperatura mais amena disse-lhe calmamente para que descansasse para estar mais disposta para a viagem na manhã seguinte.

Caroline queria gritar, mas teve que se controlar ou Alexandre perceberia sua atuação. Assim que o irmão saiu do aposento ela chorou, consumida pela tristeza e pela raiva, que só se intensificou quando a noite correu apressada e Phillip sequer veio vê-la.

Phillip soube através de Patric que Caroline estava doente, e que Alexandre pretendia partir para Paris na manhã seguinte. Abalou-se muito mais com a segunda informação do que com a primeira, e logo questionou Patric sobre os verdadeiros motivos para Alexandre partir.

— O que Alexandre quer fazer é fugir. Pois que fuja — cuspiu as palavras com o rosto avermelhado. — Alexandre é teimoso e orgulhoso, e está colocando o que ele diz ser suas convicções acima do que é o correto fazer. Quer viver no meio da revolução propagando seus ideais de liberdade, igualdade... — disse com asco, balançando a cabeça em negação.

— Phillip... Alexandre não pensa apenas em suas conquistas individuais, mas sim nas conquistas da sociedade...

— Se ele quer partir eu não me oporei — Phillip o interrompeu. — Se ele está resoluto em sua decisão e tem total consciência que isso causará uma ruptura em nossa ligação, pois que o faça. Eu não o teria pedido que viesse se soubesse que me daria as costas tão rapidamente. Ele sabia que eu contava com seu apoio e experiência militar. Sabia dos meus planos de treinar homens, servir a minha pátria, lutar como homem! — bradava nervosamente.

— Alexandre veio muito mais pela afeição a você e a mim do que por qualquer outra coisa. Ele sempre soube que suas opiniões políticas divergiam. Veio atendendo a um pedido seu, o que qualquer amigo estimado faria de bom grado, e foi o que ele fez. Acho sinceramente que deveriam conversar antes que ele parta. E há ainda outras questões entre vocês.