O Bosque de Faias
Capítulo 42 — O Noivado
Nos três dias que se seguiram à chegada de Delphine e Louise a Paris, Alexandre lhes fez companhia, dedicando a elas toda a sua hospitalidade. Passou as manhãs com a tia no jardim de sua propriedade ouvindo-a rememorar sua infância, perdida nas recordações sobre a amizade que tinha com a irmã, mãe de Alexandre. Eram reminiscências de um passado longínquo, mas que ainda viviam nos pensamentos de Delphine. Quase se podia ver um sorriso faceiro de criança brotar em seus lábios, quando contava as peripécias dos tempos em que ainda eram meninas, no interior da Inglaterra. Foi olhando aquele rosto longevo, mas ainda conservado, que Alexandre viu como o tempo havia passado. A última vez que tinha visto a tia, ele ainda era um menino, e sua prima Louise não devia ter mais de cinco anos de idade. Delphine era muito parecida com sua mãe, e isso o fez imaginar como seria a sua aparência se ainda estivesse viva. Seria com certeza parecida com a tia; o sorriso de ambas era idêntico.
O tempo havia trazido a ela muito mais do que algumas rugas no canto dos olhos; Alexandre percebeu que Delphine tinha a voz cansada e que sua saúde já não era mais a mesma.
Com alguma insistência da parte das hóspedes, Alexandre passeou com elas pelas ruas da cidade, porém estava quase sempre presente apenas fisicamente. Todo o seu pensamento estava em seu desassossego em querer voltar logo para a vila onde Joana morava e, de uma vez por todas, resolver suas questões com Anastasia e o senhor Hour.
Não queria demonstrar a sua ansiedade em ver a tia partir, mas foi impossível que ela não percebesse a sua inquietude.
— Então ficou quase cinco meses na propriedade do senhor Phillip Motier? Conte-nos como é o lugar... — Delphine perguntou enquanto caminhavam. Louise seguia fascinada com cada loja que via e com as diferenças entre a moda francesa e a inglesa
— A propriedade é ótima, e todo o vilarejo e as pessoas que lá vivem também. A paisagem é surpreendente. E há um bosque de faias que é a própria contemplação do que podemos chamar de fantástico — recordou-se de Joana entre aquelas árvores e suspirou quando o sorriso dela presenteou sua memória.
— Oh, por isso adoro o interior! — exprimiu-se Delphine, fazendo uma breve parada para retomar o fôlego. Aquela simples caminhada parecia a cansar mais do que deveria.
— Espero que estejam gostando de Paris — sondou Alexandre, olhando para a tia e oferecendo a ela o seu braço, para que ela pudesse se apoiar. — E que seja ao menos um pouco do que Louise idealizou — voltou seus olhos para a prima.
— Estou apreciando muito esta viagem. Desde que saímos da Inglaterra vimos paisagens tão belas. Mar, colinas, prados... E Paris é linda! — Louise disse sorrindo, com a sua voz doce e seu jeito reservado.
— Na próxima semana quero levá-la a alguns parques belíssimos que sei que existem aqui — Delphine disse para a filha. — Será ótimo ter sua companhia, Alexandre — falou com a voz entrecortada, como se estivesse sem ar, o que fez Alexandre sugerir que voltassem para casa, para que ela pudesse descansar.
As intenções de Delphine foram confirmadas com aquelas palavras, e Alexandre soube que elas permaneceriam por mais uma semana em Paris. Aquilo o afetou, embora fosse completamente esperado que elas ficassem por mais tempo. Delphine e Louise haviam chegado há apenas três dias, de uma viagem que lhes tomou mais de dez dias. Estavam cansadas, a saúde da tia parecia ser frágil e certamente aquela seria uma visita prolongada. Alexandre considerou então que devia ser sincero, e dizer que não poderia ficar ao lado delas o tempo todo enquanto permanecessem em sua propriedade, mas que suas presenças o alegrava e que faria de tudo para que se sentissem acolhidas.
— Oh, mas que assuntos podem ser tão importantes que o levarão de nós em menos de uma semana?
— Questões do coração, titia — revelou ele. — Eu deixei meu coração naquela Vila. E também preciso ir em duas propriedades resgatar aluguéis. Pretendo fazer isso no meu retorno. Porém Caroline deve estar vindo para Paris. Eu a instruí para que viesse assim que pudesse. Se ela se curou completamente da sua enfermidade, já deve estar a caminho. Poderá lhe fazer alguma companhia, se minha tia não se opuser, e poderão conversar. Espero que não guarde mágoas de Caroline. Tudo o que ela fez foi vergonhoso, mas desejo muito que consiga reerguer sua honra. Quero que Caroline se case, tenha filhos e viva com dignidade.
— Esse também é meu maior desejo. De Caroline guardo apenas a mágoa de ter nos deixado sem nos avisar. No mais, sinto que falhei com minha responsabilidade de zelar por sua reputação, e às vezes culpo-me por tudo o que houve, como se eu a houvesse negligenciado de alguma forma.
— Não se culpe, sei que não fez isso. Caroline é indomável. Sempre foi livre em suas escolhas e muito certa sobre seus atos, mesmo os mais inconsequentes. Conheço minha irmã.
Foi no meio desta conversa, enquanto tomavam o caminho de casa, que Alexandre enxergou Johan vindo na sua direção. Ele também os viu e acenou, indo até eles. Depois das apresentações, e de Johan ter beijado as mãos de Louise com tanto entusiasmo que a fez corar, Alexandre questionou sobre sua permanência na cidade.
— Decidi ficar mais algumas semanas. A viagem cansou-me, e só em pensar em enfrentar uma nova jornada até a Escócia já sinto dores nas costas — disse retorcendo o rosto em uma expressão dolorosa. — Notícias da propriedade Motier? — perguntou com um falso desdém, como se não se interessasse de fato. Johan queria perguntar se Caroline viria para Paris, ou se já estava a caminho, mas seu orgulho o impediu de fazer a pergunta.
— Não, por enquanto não. Todos sabem que minha permanência aqui será breve e, neste caso, não se faz necessário correspondências. Não imagino que novidades possam surgir em apenas três semanas — Alexandre objetou quando passaram em frente à casa da família de Phillip, e a qual o mesmo herdara.
Despediram-se formalmente e cada um seguiu o seu caminho. Alexandre voltou com a tia e a prima para casa, e Johan seguiu frustrado por não ter conseguido fazer a pergunta que queria ter feito.
— Oh, querido, dê-nos apenas mais uma semana — Delphine pedia insistentemente para que Alexandre não partisse na manhã seguinte, como ele mencionara ser a sua intenção. — Viemos de tão longe para tê-lo por tão pouco tempo. E quem sabe quando tornaremos a nos ver...
Alexandre prometeu que iria pensar sobre o assunto naquela noite. Apenas uma semana a mais em companhia da tia não o atrasaria tanto, e ele poderia usar os dias seguintes para ir às suas propriedades alugadas e tornar para casa no mesmo dia, já que as duas casas ficavam em um povoado a menos de dez quilômetros de Paris, às margens do rio Sena.
***
As melhores louças, taças e talheres estavam dispostas na mesa de jantar da família Hour. Anastasia e Frederico estavam tão elegantes que suas vestes poderiam equiparar-se a uma usada em grandes recepções. Velas foram acesas nos castiçais e nos candelabros. As criadas andavam devagar arrumando os últimos detalhes, previamente instruídas pela matriarca da família.
No meio da tarde chegaram dois buquês de rosas brancas na casa dos Hour, enviados por Phillip, um para Joana e outro para Anastasia. As flores foram colocadas na sala e ajudaram na ornamentação do ambiente.
No aposento das filhas, sobre cada cama havia um vestido, cada qual de uma cor diferente, escolhidos a dedo por Anastasia, que havia dedicado o dia para preparar o jantar do noivado de Joana e Phillip. A sua euforia era tanta que acabou por não ir em busca de um médico para Sophie, o que jurou para si mesma que faria no dia seguinte, sem mais desculpas. Sabia que no fundo queria postergar aquele desgosto ao menos por mais um dia.
Joana já conhecia aquele ritual, já tinha participado de vários jantares contra a sua vontade, ao menos dos que não conseguiu evitar. Mas aquele tinha um gosto muito mais amargo para ela. Não era um jantar para apresentar um noivo, era o próprio jantar de noivado.
A cada hora daquele dia o seu coração se tornava mais inquieto, mais apertado. Uma dor no estômago era sentida com algum desconforto, revelando que o seu nervosismo já afetava mais do que apenas as suas emoções. O vestido de Joana era azul, avolumado, com muitas rendas e laços e com pequenas plumas que circulavam seu peito, ombros e costas. Ela sentiu vontade de rasgar aquele tecido ao meio assim que o viu. Foi até a janela e inspirou o ar com força, sem saber exatamente como agir naquela noite, tentando encontrar meios para conseguir evitar aquele noivado. A caleça de Phillip parou em frente à sua casa e em seguida a mãe irrompeu no meio do amplo espaço do aposento que Joana e Rebecca dividam, arregalando os olhos por encontrar Joana ainda sem o vestido.
— Ainda não está pronta? Venha, venha — puxou a filha pelo braço e a retirou da janela, levando-a em frente ao espelho da penteadeira. Seus dedos agilmente desfizeram as fitas do vestido simples que Joana usava, tirando-o do seu corpo.
— Mamãe, acalme-se. Joana não está bem — Rebecca pediu à mãe que fosse mais gentil, ao menos com os sentimentos da filha.
— Ah, ela está ótima. Linda, corada — virou Joana para si e abraçou-a. — Veja meu coração, como bate. Oh, que noite mais especial essa! — disse após trazer as mãos de Joana para seu peito e exprimir a sua felicidade com um sorriso e mais abraços.
— Pois o meu, nem sei como ainda palpita. Meu coração está sangrando, mamãe. Devia ao menos tentar ocultar a sua felicidade, quando sabe que a minha está sendo completamente destruída — Joana afastou-se dela e Rebecca correu para abraçá-la.
— Que monstro de mãe pensa que sou? É claro que quero vê-las todas felizes. Hoje pensa que esse casamento é sua desgraça, mas no futuro verá que alegria melhor não existe. Ao lado de Phillip, que é o homem mais elegante e bonito que já vi, rodeada de riqueza, criados, vestidos, caleças... Ser infeliz está longe de ser uma possibilidade. É isso que fazem as mães, elas levam os seus filhos para o caminho certo, mesmo quando eles consideram o contrário como correto. A paixão deixa muitas moças cegas para a realidade, trazendo o infortúnio para suas vidas. Quando veem, o amor que juravam sentir acabou, e então estão vivendo em um lar medíocre, passando necessidades. Não deixaria jamais algo assim acontecer com uma de vocês.
Joana ficou tão amortecida com aquelas palavras e com o pensamento insensível da mãe, que nem retrucou. Seus olhos quase morreram na inexpressividade. Anastasia trouxe o vestido azul, fez com que a filha o vestisse e depois ajustou os botões e fitas nas costas. Ela mesma puxou a cadeira da penteadeira para Joana sentar, penteou os fios ruivos com uma certa demora e colocou em seu pescoço um colar de prata. Depois beijou o topo da cabeça da filha e puxou com delicadeza os seus ombros para trás, corrigindo a postura caída.
Os olhos de Rebecca encheram-se de lágrimas ao ver a tristeza de Joana. Anastasia deixou-as dizendo que esperava Joana na sala em alguns minutos. Rebecca tornou a abraçar Joana, os lábios apertavam-se nervosos.
— Irá descer?
Joana caminhou pensativa até a janela e fitou o horizonte escuro. O ar frio arrepiou sua pele, quando a brisa gélida tocou seus ombros. Ela passou as mãos sobre a pele exposta e sentiu o toque das plumas macias sobre suas mãos. Puxou com delicadeza uma delas e soprou. A pluma pequenina e branca girou no ar em várias direções, destacando-se na escuridão, rodopiando à escolha do vento.
— Hoje eu sou essa pluma, Rebecca.
***
Phillip não imaginava que um jantar como aquele podia deixá-lo tão nervoso, mas todo seu corpo reagia com uma inquietude fora do comum. No trajeto pegou-se imaginando o que Joana diria, se ela se recusaria a recebê-lo, se ela o insultaria. Em qualquer das hipóteses ele só conseguia imaginar que, no final de tudo, a teria para si.
Insegurança era um sentimento novo para ele. Rejeição, algo que jamais soubera o que era até o presente momento. Ele estava tão elegantemente trajado que conseguia estar ainda mais bonito. Sabia que qualquer moça se sentiria afetada por ele, mas por que só aquela que ele queria lhe era tão indiferente? Sentiu inveja de Alexandre, pelo sentimento que Joana ousou confessar a ele quase gritando naquela manhã. Ouvi-la dizer com tanto ardor que amava Alexandre foi algo mais desagradável do que imaginava. Mais do que inveja, naquele momento ele sentiu uma odiosidade nascer em seu peito, em relação àquele que já considerara seu amigo.
Se esses eram os sentimentos que o tomavam enquanto ainda estava em sua caleça, tudo aflorou-se em dobro assim que chegou à casa dos Hour e foi encaminhado até a sala de estar e convidado a sentar. Anastasia e Frederico eram somente elogios, sorrisos e bajulações; algo que ele nunca gostou que lhe fizessem, embora se sentisse envaidecido, também se sentia desconfortável.
Quando viu Joana descer as escadarias rumo à sala, ele sentiu pela primeira vez o que era o coração bater na garganta. Sorriu como se estivesse vendo o próprio sol descer aqueles degraus. Os cabelos ruivos brilhavam como um dia de verão e Phillip sentiu-se aquecido. Mas, ao contrário da sua beleza acesa, tudo mais nela estava apagado. Joana não sorria e seus olhos eram como geleiras. As pequenas plumas brancas nos seus ombros e colo mexiam-se conforme ela andava, ou expelia o ar de sua boca. Phillip ergueu-se e Joana parou à sua frente, curvando-se em um gesto polido, elegante, mas completamente ensaiado, sem nenhuma vivacidade, sem nenhuma alegria.
Ele acompanhou o seu gesto e beijou sua mão, depois Joana sentou-se na poltrona ao lado e lá permaneceu emudecida, com o rosto sereno, que de tão quiescente parecia ser o de uma boneca de porcelana. Aquilo incomodou Phillip, por aquela indiferença cheia de polidez, e pela ausência de toda a sua vivacidade, que era o que ele mais admirava nela. Queria que ela sorrisse para ele, que sua alegria fosse por estar com ele, que seu rosto corasse quando ele a elogiasse. De repente sentiu muita raiva de si mesmo e respirou controlado por estar ali para ser tão ignorado por Joana.
Amália tocava algumas notas ao piano, seus olhos também eram tristes, assim como eram tristes os olhos de Rebecca e de Sophie, mesmo que os de Sophie já estivessem apagados há mais tempo e por razões diferentes. Mas as outras irmãs sofriam por Joana ter que entregar seu bem mais precioso, sem amor, a Phillip.
Frederico Hour e Anastasia pareciam de verdade nem reparar em nada. Estavam apenas concentrados em agradar Phillip e tornar Joana sua noiva naquela noite.
A ausência de Patric foi percebida com certa estranheza por parte de Anastasia e de Frederico, mas Phillip tratou de desconversar, já que não conseguiu pensar tão rápido em alguma desculpa que realmente justificasse o seu não-comparecimento.
O jantar seguiu-se de forma pomposa, as criadas nunca foram tão exigidas como naquela noite. A refeição farta incluía mais de dez tipos de pratos e sobremesas. Antes de jantarem, o propenso noivo ergueu-se e fez o pedido oficialmente, entregando um anel para Joana, uma joia belíssima com pequenas pedrinhas de diamantes. Foi grande a alegria que explodiu ao seu redor, vindo dos lábios e olhos de Frederico e Anastasia. Joana continuava com seu olhar de causar dó. Phillip ficou pálido como um bloco de gelo quando Joana não lhe deu a mão para que ele vestisse o anel, bebeu na mesma hora quase uma taça inteira do seu vinho.
— Está se sentindo indisposta, senhorita? — perguntou ele, e segurou as suas mãos, alisou-a e usou da oportunidade para tocar em seus dedos e lhe vestir o anel. Beijou suas mãos em seguida, tudo com muita sutileza.
— Talvez — disse ela, sentando-se na cadeira novamente, sentindo o metal frio aquecer aos poucos com o contato com sua pele.
Phillip ainda disse algumas breves palavras que, de tão entorpecida, Joana não deu atenção. Olhava para ele, via seus lábios mexerem, via seu sorriso, mas a dormência em seus sentidos a impediram de compreendê-lo.
Anastasia ergueu-se segurando uma caixinha nas mãos e entregou para Joana presentear Phillip. Ela não sabia o que havia na caixa, hesitou um breve momento e sob os olhares atentos de todos entregou a caixinha para Phillip. Era um medalhão com uma gravura de Joana e uma mecha de cabelo ruivo preso por uma fitinha azul. Joana franziu o cenho para aquilo, reconhecendo ser aquela uma mecha do seu cabelo, a qual não sabia quando a mãe havia cortado, sem que ela percebesse.
Os olhos verdes de Joana encheram-se de água e Anastasia fingiu acreditar ser emoção, embora todo o rosto da filha mostrasse o contrário; era aquela uma espécie de emoção que em nada se aproximava à felicidade. Depois do jantar as mulheres se reuniram na sala de estar para tomarem chá, enquanto Frederico Hour combinava com Phillip os detalhes do casamento, que estava marcado para acontecer dali a duas semanas. Phillip anunciou que em sua propriedade os preparativos já estavam acontecendo e informou que havia contratado uma orquestra, a qual pediu que viajassem imediatamente, especialmente para tocarem no casamento. Frederico Hour maravilhou-se com a agilidade do noivo.
— O casamento poderá ser realizado em qual data, senhor Phillip? — inquiriu Frederico Hour.
— Em exatos dez dias. Se autorizar, mandarei fazer e entregar os convites para esta data. Os músicos chegarão em sete ou oito dias.
E assim ficou acertado, diminuindo ainda mais o tempo que Joana apenas queria prolongar. Seu coração apenas desejava que Alexandre já estivesse quase chegando.
Phillip foi convidado a voltar na sua casa em todos os próximos dias, para cortejar Joana, se assim desejasse. Na oportunidade ele não ficaria a sós com ela, mas sim apenas na sua presença junto com Anastasia e as outras irmãs.
***
— Fiz o que me pediu — disse Patric para Caroline naquela mesma noite. Ambos estavam a sós na sala da lareira, na propriedade Motier. — Escrevi para Alexandre e enviarei a carta amanhã para Paris.