O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 21 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 21 — A carta

— Tudo poderia ser desfeito. A não ser que tivessem se casado — disse Phillip.

— Não posso sequer imaginar essa possibilidade! — Madame Anastasia sacudiu a cabeça. — Na verdade, eu gostaria de um noivo como o senhor para minha filha. É claro, que isso também não é uma possibilidade, afinal....

— Por que não é uma possibilidade? — Phillip riu achando graça do embaraço de Anastasia.

— Oh, o que eu quis dizer é que o senhor é um homem de classe, e honrado. Qual família não se encantaria? Porém, é claro, deve haver muitas moças...

— Deve... — Ele concordou. — Não sei se alguma tão encantadora quanto sua filha — elogiou.

 

Capítulo 21 — A carta

 

— Sophie, não sei se poderei guardar este segredo — Amália disse à irmã quando estavam sozinhas no aposento que dividiam. Ela estava receosa de tocar em um assunto tão delicado, já que Sophie estava calada desde que chegaram do jantar na propriedade Motier.

— Pois não deve dizer nada. Não sabe as razões que me levaram a fazer o que fiz — Sophie voltou-se para a irmã com um olhar impositivo.

— Não me parece justo deixar que todos pensem que o senhor Alexandre a seduziu. Agora que sei dos verdadeiros sentimentos dele, sinto pena, pois imagino que deva estar sofrendo.

— Sofreria de qualquer maneira. Joana o ignora completamente. Há muito sabe que ela é completamente indiferente a ele. Já eu, gostei do senhor Alexandre e fui sincera em revelar isso desde o princípio. Ele escolheria a mim se Joana não fosse tão engenhosa, sempre querendo se fazer notada...

— Sophie — Amália a interrompeu —, Joana foi exatamente o contrário disso que você pauta. Ela esquivou-se de estar no primeiro jantar que papai ofereceu a ele e quando teve que comparecer, em outro momento, permaneceu distante, deixando-o totalmente entregue a uma conversação com você — lembrou-se.

— Pois foi uma indiferença totalmente calculada... — Sophie retorquiu.

— Não compreendo. Há pouco disse que Joana é completamente indiferente a ele. Agora diz-me que foi uma indiferença calculada? Acredita ou não na indiferença de Joana em relação ao senhor Alexandre? — indagou.

— O que acredito é que ela não o ame e não se importe com os sentimentos dele.

— Mas acha que Joana o esnobou apenas ter sua atenção? Apenas por capricho? Que tenha buscado cativar sua atenção usando como arma a indiferença?

— Até mesmo mamãe disse-lhe isto certa vez. Que o interesse de um homem é facilmente atraído por essas atitudes. Se a moça o esnoba, ele sente-se desafiado...

Amália ficou alguns segundos pensativa. Sophie olhava-a com preocupação.

— Por que pegou o broche de Joana? — Amália perguntou enfim.

— Joana não o usaria de qualquer forma! — disse Sophie. — Ouvi Joana dizer muitas vezes que jamais se casaria com alguém que papai indicasse, que não se casaria com quem não aprovasse. Ela deixou claro em suas ações e palavras, que não aprovava o senhor Alexandre. Eu só queria ter a oportunidade de ser notada por ele... Prometa Amália, que não dirá nada. Prometa! — insistia.

— Sophie, mas o senhor Alexandre disse-lhe que ama Joana, disse-lhe que mesmo que....

— Eu sei o que ele disse! — interrompeu zangada. — Ouça Amália, se tudo estiver acabado, se todas as minhas chances forem impossíveis, então desistirei de amá-lo, eu juro! Mas de que adiantaria dizer para Joana sobre o broche? Por que me envergonharia de tal maneira, se sabe que Joana não o ama? Sabe que ela até me agradeceria por ter usado aquele broche no baile. Sabe que ela só aceitou casar-se com ele porque papai a pressionou, mais do que isso, ele a obrigou! — Sophie estava exasperada.

— Eu... eu não sei. Joana pareceu ficar desapontada com o que houve. Por um momento cheguei a imaginar se ela não estava gostando do senhor Alexandre... — disse Amália, confusa. — Sabe que a amo demais, Sophie, e faria qualquer coisa para protegê-la, mas não se isso custar a felicidade de Joana.

— Então não me ama o suficiente — Sophie irritou-se e enfiou o rosto no travesseiro.

Amália estava confusa, decidiu que observaria melhor o comportamento de Joana para ver se ela era realmente indiferente ao amor de Alexandre, antes de tomar a decisão de revelar tudo o que havia escutado.

 

***

 

O jantar na mansão Motier havia sido, sob a perspectiva de alguns, muito agradável, porém, para a maioria foi desconcertante. Joana detestou todas as dissimulações, a forma como precisou manter-se indiferente a Alexandre, quando queria gritar, lhe ofender de todos os modos possíveis. Tirar-lhe-ia satisfações e o acusaria de leviano, se pudesse. Odiava o que ele havia feito com ela, por ter sido tão insistentemente amável, declarando-se e fazendo nascer nela sentimentos que antes repugnava com todo fervor. Agora suas noites eram um tormento, em que a expressividade dos olhos de Alexandre, em cima dos seus, tirava-lhe o sono constantemente. Já havia quase uma hora que estava deitada e não conseguia adormecer.

— Joana? — Rebecca chamou-a.

— O que foi? — Joana olhou para o lado e pôde ver a irmã sentando-se na cama e estendendo-lhe a mão. — O que é isso?

— É uma carta do senhor Alexandre, para você — disse ela. Mesmo sem poder vê-la com clareza, Joana soube que a irmã estava triste. — O senhor Patric entregou-me.

— E por que está triste? — Joana não se moveu para alcançar a carta.

— Ah, Joana — suspirou —, só por um momento cheguei a pensar que fosse para mim. Mas vi que o selo tem a inicial A. Logo dei-me conta de que era para você — Rebecca ergueu o corpo e deixou a carta ao lado de Joana, na cama.

— Eu não quero ler. Pegue-a! Leve-a de volta assim como está, lacrada... — estendeu a mão a fim de devolver a carta.

— Não, Joana. Precisar ler. Quem sabe há algo que possa justificar...

— E há algo que possa justificar? — dolorosamente ela imaginava que não. — Se não a pegar, eu vou rasgá-la.

— Não, não rasgue — Rebecca pegou a carta e a guardou consigo. Joana sentou-se na cama e encarou a irmã, a pouca claridade que vinha da rua mostrava o semblante desapontado de Rebecca.

— O senhor Patric a admira, Rebecca — Joana falou de repente.

— Acha mesmo? — sorriu esperançosa.

— Não comece a se iludir — Joana interveio. — Disse apenas que a admira, o que é notável. Porém não deve alimentar esperanças. Ele parece ser um bom homem e pode apenas estar sendo gentil. A admiração nada tem a ver com romance. — Ela disse e Rebecca esmaeceu, magoada.

— É, tem razão. Sou boba e sonhadora demais.

— É romântica, Rebecca, apenas isso.

— Nunca foi romântica, Joana?

— Romântica? Sou lúcida demais para ser romântica — respondeu, querendo apagar da memória todas as vezes em que ficou acordada, relembrando os momentos em que esteve com Alexandre, suspirando com a lembrança dos sorrisos que deram juntos, das mãos dele segurando as dela, ou da vez em que ele a pediu para ser sua esposa, e que seus lábios estiveram a milímetros de se encostarem.

***

— Alexandre não devia ter se ausentado durante o jantar — disse Phillip a Patric, quando estavam a sós na biblioteca.

— Ele não se sentiu bem ao ser evitado por todos. Até mesmo a tapeçaria da sala recebeu mais atenção do que ele — disse Patric.

— Alexandre fez por onde — afirmou Phillip. — O seu papel como um verdadeiro homem era ter ficado naquela sala.

— Não vamos julgar Alexandre. Ele já se culpa e sofre o suficiente. Sabemos que é honrado.

— É, mas quase me deixa uma noiva como herança.

— Noiva? A quem se refere? — Patric não entendeu.

— Os pais da senhorita Joana disseram-me que imaginavam a mim como esposo da filha, afinal, quando aceitaram que Alexandre lhe fizesse a corte, era para Phillip Motier a quem estavam entregando a mão da jovem. Se visse os olhos de cobiça de Madame Anastasia sobre mim!

— Aquela família é muito controversa! É risível a forma com que agem para casar as filhas — observou Patric.

— Mas não são diferentes da maioria das famílias onde existam moças em idade de se casar. Ontem mesmo recebi um senhor que veio falar sobre negócios e no final da conversa já discursava sobre uma das filhas — narrou Phillip. Patric achou graça e não pôde deixar de rir.

— Sim — Patric concordou —, mas o senhor Hour e Madame Anastasia são descomedidos! E que absurdo! — balançou a cabeça.

— O que é absurdo?

— Você... e Joana... — tornou a balançar a cabeça.

— E por que é um absurdo?

— Porque é. — Ele mediu o irmão, analisando sua expressão zombeteira. — Não pode estar falando sério! Depois dessa história toda...? E sabendo que Alexandre ama a moça.... Consideraria?

— Claro que não! — Phillip respondeu rindo.

[...]

— Irmãos. Por isso eu não os encontrava — disse Johan ao entrar na biblioteca, trazendo consigo uma garrafa de vinho e caminhando até a cristaleira de onde retirou três taças. — Que noite! Estou impressionado com a beleza das irmãs Sophie e Joana.

— Ainda esse assunto? — Patric franziu o cenho, enquanto pegava a taça de vinho que Johan lhe oferecia.

— É minha culpa que elas sejam tão belas? Não consigo evitar o comentário. — Ele se defendeu, e ofereceu o vinho a Phillip, que aceitou a taça.

— Belas ou não, qualquer uma delas parece ser sinônimo de confusão — considerou Phillip, enquanto bebia o vinho tinto.

— Esse vinho é muito bom — Johan elogiou, após beber uma taça inteira e voltar a enchê-la.

***

— Veja, meu amor, a que ponto chegou minha covardia. Será que a perdi? — soou a voz de Rebecca pelo aposento.

— O quê? O que está dizendo? — Joana perguntou à irmã, olhando para a cama ao lado e vendo Rebecca sentada, próximo ao castiçal, segurando a carta em mãos. — Eu não acredito!

— Sou hoje um desgraçado, lamentando a minha dor. Por que eu nada disse, enquanto tinha tempo e oportunidade? Priva-me agora de debruçar os meus olhos sobre os seus e dizer-lhe que a amo, com toda a minha alma. Ah, se soubesse o quanto isso me destrói.

— Pare, Rebecca! Que atrevimento. Não acredito que esteja fazendo isso!

— Perdoe-me se causei-lhe algum sofrimento. Jamais o quis fazê-lo. Não estou empenhado em me justificar, tampouco saberia fazê-lo, sou mesmo culpado por ter adiado em dizer-lhe toda a verdade...

— Dê-me esta carta, Rebecca! — Joana fez menção de levantar-se e ir até a irmã.

— Nem quero imaginar que tenha me esquecido. Nem posso imaginar que não a verei mais entre as faias, ou voando em seu cavalo branco pelos prados. A visão dos teus olhos, teus cabelos emoldurando sua face, e cada sarda em sua pele, são toda fonte do meu respirar. É com a esperança de revê-la sorrir para mim que durmo e levanto todos os dias, sonhando com a oportunidade de pedir-lhe perdão. A omissão foi o meu único pecado, nada mais do que isso, eu lhe juro... — Rebecca fez uma pequena pausa.

— E isso é tudo? — Joana perguntou procurando não demonstrar ansiedade.

— Não... ainda há mais. Quer que eu continue?

— ...Continue — disse a contragosto. — Já que começou...

— Garanto que era meu desejo dizer a verdade logo. Ensaiei formas de revelar tudo, porém fraquejei, tomado pelo medo de lhe perder antecipadamente. Julgam-me agora como um mentiroso, porém o meu amor sempre foi o mais verdadeiro e continua a crescer a cada dia, e já não mais depende de ser correspondido para existir.

— Mentiroso! Isso não explica o que fez à Sophie.... Tudo o que ela nos contou naquela noite... As palavras que ele lhe disse. — Seus olhos arderam.

— Há muito mais que eu gostaria de falar-lhe. Amanhã à tarde, onde nós nos vimos pela primeira vez. Estou pedindo que me dê a oportunidade de me explicar. Com todo amor, Alexandre Franz — Rebecca concluiu a leitura. — Onde se viram pela primeira vez? Não foi em nossa casa, no primeiro jantar que papai ofereceu a ele, quando veio entregar o convite para o baile? E por que ele fala sobre as faias? — Rebecca tentava entender.

— Eu preciso dormir, Rebecca... — Joana sentiu seu rosto arder, como se um choro fosse tomá-la a qualquer instante.

— Não, Joana. Diga-me o que sente pelo senhor Alexandre e eu farei tudo para ajudá-la.

— Rebecca, minha irmã... — Joana respirou para buscar forças. — Não sinto nada por esse senhor, além de desprezo...

— Eu não consigo acreditar. Eu a conheço Joana. Sempre foi tão forte e verdadeira, nunca escondeu seus sentimentos e brigava por eles... e agora vejo claramente como mudou. E vejo que está sofrendo...

— Rebecca, não conte para ninguém sobre essa carta — Joana pediu, de seus olhos rolaram algumas lágrimas.

— Eu não vou contar — Rebecca esticou os braços e entregou a carta para Joana.

***

 

A escuridão já tomava conta dos corredores e de quase todos os aposentos na mansão Motier. Apenas uma luz no final do corredor ainda permanecia com a chama acesa. Caroline preparava-se para dormir quando ouviu passos no corredor. O som pareceria estar longe e foi aumentando até ela perceber que estava próximo do seu aposento. Ela segurou um castiçal e aproximou-se da porta, abrindo-a lentamente. Os passos pararam. Ele virou-se para trás e encarou Caroline.

— Algum problema?

— Nenhum — paralisou. — Apenas ouvi barulhos no corredor e vim averiguar.

— É assim tão corajosa? — Ele sorriu

— Eu estou em segurança. Certamente não encontraria perigo algum aqui. Imaginei que poderia ser o meu irmão, ou...

— Cuidado, senhorita — ele a interrompeu —, não sei o quanto realmente está em segurança, especialmente a esta hora e trajando-se apenas com esse leve tecido — disse olhando-a com avidez.

— Eu... estava preparando-me para dormir. — Ela disse rapidamente, voltando um passo para dentro do aposento, que estava iluminado pela lareira.

— É um belo aposento. — Ele deu um passo à frente e olhou para o interior do mesmo. — Posso vê-lo melhor?

— Agora? — perguntou receosa, corando.

— Não é apropriado? — Ele deu mais alguns passos à frente e pôs uma de suas mãos na porta, junto da dela.

— Nem um pouco apropriado. — Ela respondeu.

— Qual a distância que existe entre o que é apropriado e o que é muito desejado?

— Uma longa distância — Caroline disse, entrando no aposento e sendo seguida por ele.

— E não me deseja tanto quanto eu a desejo?

— Uma moça não deve jamais falar sobre seus desejos...

— Às vezes não é necessário falar. — Ele disse, encostando a porta atrás de si e indo cada vez mais próximo do rosto de Caroline, encostando o nariz em sua orelha. Ela arfou enquanto sentia um calafrio arrepiar os pelos do seu corpo.

Ele afastou os longos cabelos negros dela, que caíam sobre os braços, e os colocou para trás do pescoço, deixando a pele livre para ser beijada. Ela não resistiu, fechou os olhos e sentiu o aroma que vinha da pele dele e o cheiro de vinho que exalou da sua boca. Com agilidade soltou dos ombros dela a camisola branca de tecido fino, deixando que caísse no chão, enquanto beijava-lhe com ardor o pescoço, fazendo com que Caroline pendesse a cabeça para trás e arquejasse de prazer. Ela retribuiu, enlaçando a cintura dele com as pernas e o trazendo para mais junto de si, puxando a camisa que ele usava e cravando com força as unhas em suas costas expostas.

Ele a segurou no colo e caminhou com Caroline presa ao seu corpo até encontrarem a cama macia, onde renderam-se à paixão.