O Bosque de Faias
Capítulo 6 – A visita
— Sente-se, senhor Hour. Vou pedir a uma criada que nos sirva algo para beber — disse Alexandre inquieto.
Frederico Hour balançou levemente a cabeça em afirmativa e quando Alexandre saiu, franziu o cenho. Começou a entender o que estava lhe causando o estranhamento. Aquele homem não se portava como o dono daquela propriedade. Estranhou o fato de ter sido o próprio quem o recebeu no portão, e agora, ia ele atrás dos criados? Por que os criados não foram lhes atender?
Quando Alexandre voltava da cozinha, viu a sombra de sua irmã ao pé da escada, esgueirando-se atrás de uma coluna.
— Caroline?
— Alexandre... Eu estava... — gaguejou tomada pela surpresa.
— Estava escondida espiando — completou ele.
— Eu não estava espiando. Acabei de descer as escadas e tive uma queda de pressão. Passei mal e então segurei-me nesta coluna... — fingiu-se.
— Pois eu não acredito! O que ouviu?
— Nada.
— Não ouviu nada?
— Já disse. Não ouvi nada — respondeu e subiu correndo de volta para o seu aposento.
Alexandre viu quando o criado passou com a bandeja e as taças em direção à sala e o seguiu, bufando irritado com o comportamento da irmã.
— Desculpe a minha demora, senhor Hour. Agora podemos conversar — disse sentando-se ao lado de Frederico, em uma poltrona de carvalho estofado com um rico tecido verde-esmeralda.
— Senhor Phillip, antes de tudo, quero reiterar que foi um prazer recebê-lo em nossa casa. Consideramos uma honra que tenha reservado aquela noite para estar conosco.
— Senhor, o prazer também foi meu... — Alexandre passava as mãos no suor que brotava em sua testa.
— No entanto, naquela noite minha filha Joana estava adoentada. Joana é a minha filha mais velha, acho que já mencionei isso.
Joana? Então ela se chama Joana? — Alexandre sentiu uma estranha satisfação ao ouvir aquele nome.
— Sim, senhor Hour, eu creio que mencionou sim...
— O caso é que Joana não se conforma em não o ter conhecido. Ela ficou muito triste — mentiu. — E por isso eu tomei a liberdade de vir até aqui convidá-lo para estar conosco essa semana em um novo jantar. Desta vez faço questão de que conheça minha filha.
— Oh, entendo. Então é uma posição da sua filha? — interessou-se. — Digo, é do agrado dela que eu vá? — Alexandre atropelava-se nas palavras e censurava a si mesmo por ainda não ter falado toda a verdade. O caso era que a curiosidade o instigava a perguntar mais.
— Sim, sim, Joana faz muito gosto...
— Senhor Hour... Qual a natureza do humor da sua filha? — atreveu-se a perguntar.
O estômago de Frederico embrulhou-se. Ele sentiu tudo remexer-se dentro de si ao ouvir aquela pergunta. E agora? O que falaria? Diria que a filha era afável e calma? Ou diria que a filha era carrancuda e muito desagradável quando lhe convinha?
Oh, Deus! Ele já deve ter ouvido falar de Joana — imaginou Hour.
— Senhor Phillip... — Frederico tornou a falar. A garganta de Alexandre dava um nó sempre que era chamado pelo nome do amigo. — O que posso dizer de Joana é que ela é... um encanto de formosura — escolheu bem as palavras a fim de não mentir, mas também de não contar sobre o humor severo da filha.
— Desculpe se meu questionamento foi inoportuno. Apenas pergunto, pois, quando estive em sua casa, pareceu-me que... talvez, ela não quisesse receber-me naquele momento.
E sem falar do encontro que tive com a moça no bosque — lembrou-se, mas guardou o pensamento para si.
— De forma alguma, senhor — Frederico Hour arregalou os olhos e fez-se de ofendido. — Joana realmente sentiu-se mal, e lamentou por isso. Garanto que seria motivo de extrema felicidade para ela se o senhor pudesse voltar em nossa casa em outro momento... antes do baile — frisou as últimas palavras.
— Volto a desculpar-me, senhor. Eu faria muito gosto de voltar à sua casa. Não duvido de que sua filha seja encantadora; no entanto cheguei há pouco tempo na região e tenho tido muito trabalho nesta propriedade... — procurou arrumar uma desculpa.
— Um trabalho que será feito pelos criados, imagino — Frederico riu nervoso.
— Oh! Sim... mas devo acompanhar-lhes, dar-lhes instruções...
— Compreendo. Nada melhor do que os olhos do próprio dono para fazer andar bem seus negócios. Sei disso perfeitamente, em minhas terras não é diferente. Quando passo um tempo sem inspecionar, o serviço não rende. Tenho que estar sempre acompanhando. No entanto, permito-me o descanso, uma folga... O senhor também, é claro.
— Claro! Eu...
— Então eu o esperarei em uma noite dessas em minha casa, antes do baile. Uma noite em que o senhor esteja descansado, que tenha organizado melhor a sua recente chegada — disse pondo-se de pé.
— Oh, sim, tudo bem... — disse vencido pela insistência e pela coragem que lhe faltava novamente. — Avisarei da minha ida assim que possível...
— Antes do baile?
— Antes do baile — concordou.
Droga! Por que simplesmente não conto tudo? Por que a curiosidade grita tão alto que mal posso esperar para pôr meus olhos novamente naquela moça? Joana. Então ela se chama Joana....
***
Alexandre subiu para o seu aposento rapidamente assim Frederico Hour foi embora. Entrou no cômodo e fechou as portas, como se até mesmo para pensar precisasse estar a sós, como se pudessem adivinhar os seus pecados, a sua omissão. Deixou-se cair na cama e voltou a se atormentar com o mau julgamento que fazia de si mesmo. Deveria ter dito a verdade, mas não o fez. O fato é que uma força o atraia para aquela situação. A esta força ele chamava de curiosidade. Foi levado por essa força que ele resolveu ir ao bosque, na esperança de reencontrá-la.
***
Era dia de sol, mas com uma ligeira névoa que não permitia ver nitidamente ao longe. Montado no Percheron negro, Alexandre seguia em direção ao bosque, e em pouco tempo já conseguia ver aquele cenário que parecia uma tela pintada com tinta a óleo por um pintor impressionista.
Ocultou-se em um monte mais elevado e passou a observar o bosque até ficar consumido pela paisagem imóvel. Deixou que seus pensamentos o levassem longe, rumo às lembranças que não lhe eram agradáveis. Recordou a batalha de Watterloo — a última em que estivera — e os dias difíceis que passou naquela ocasião. Lorde Louis Motier havia se aliado ao grande império da França e seguiu com seus homens para o campo de batalha, mas não obtiveram êxito. Os vitoriosos ocuparam a França, restabeleceram a
monarquia dos Bourbon e conduziram ao trono Luís XVIII, restaurado para aquilo que consideravam como sua posição de direito.
Alexandre era fiel em lutar por causas que acreditava, e uma das coisas que ele mais queria era igualdade para o povo e o fim dos excessivos privilégios do clero e da nobreza. Lutaria ainda mil vezes por isso se fosse preciso, por mais que não gostasse de estar de frente para a morte e tampouco tirar a vida de outro homem.
Perdeu-se no tempo enquanto sua mente divagava com estas recordações e ideais, até ver que ao longe alguém se aproximava do bosque. Era uma moça e estava sozinha. Era Joana. Foi quando Alexandre começou a se arrepender de ter ido até lá.
O que eu pretendo com isso, afinal? Por que vim até aqui? Sou louco! O que direi? Estou mesmo cogitando ir até ela?
[...]
Era meio da tarde e Joana sabia que não poderia demorar-se para retornar. Tinha se esforçado para ficar em casa, para submeter-se às loucuras do pai, às importunações das irmãs, mas não conseguiu. Eles não a deixavam pensar, não a deixavam quieta. Por isso ela precisou fugir para o bosque.
O extremo se deu naquele mesmo dia, mais cedo, quando o pai anunciou que iria à propriedade Motier para convidar Phillip novamente para ir até a sua casa. Assim que chegou, Frederico Hour contou às filhas e à esposa que a sua visita tivera sido um tanto quanto estranha. Disse que Phillip esquivou-se de tornar a visitá-los e não deu a data certa para ir jantar com eles. Quando Frederico falou às filhas e à esposa sobre a pergunta que Phillip fizera, Sophie e Anastasia se exaltaram.
— Mon Dieu! A sua reputação de moça irritada já se espalhou! — Anastasia constatou com horror nos olhos, encarando Joana. — O que ele falou exatamente, meu marido?
— Perguntou sobre a natureza do humor de Joana — Frederico repetiu as mesmas palavras.
— Oh, mamãe... Haverão de pensar que somos todas assim — Sophie reclamou chorosa.
— É bom que pensem mesmo! Assim me poupam de ter que receber pretendentes toda semana — Joana disse furiosa. — Pedi para papai não ir à propriedade Motier. Sinto-me envergonhada, papai! Não posso nem imaginar a forma como me ofereceu ao rapaz — disse irritada e saiu correndo para fora de casa.
— Joana!! — A mãe fez menção de segui-la
— Deixe, querida. Deixe ela ir... — Frederico Hour pediu à esposa. — O caso é que eu também me sinto envergonhado...
— Ora, papai. Por quê? — Amália perguntou. — Você só quer o nosso bem.
— E Joana não entende — Sophie complementou. — É egoísta!
— Joana não é egoísta. Ela só está cansada — Rebecca defendeu-a.
— Deixe a irmã de vocês pensar um pouco. Se ela não quiser conhecer outros pretendentes, se não quiser se casar, então que assim seja... — determinou o pai.
— Como? — Madame Anastasia perguntou sobressaltada.
— Então que não se case! — concluiu irritado.
— Ora, meu marido! Não diga uma besteira dessas...
— Sophie se casará primeiro — disse ele, e a filha arregalou os olhos. — Por hora, desistiremos de Joana. Será Sophie quem terá a oportunidade. Se souber aproveitá-la, se casará com Phillip — deu-se por vencido e jogou-se exausto no sofá.
Os olhos de Sophie brilharam extasiados.
[...]
Alexandre ainda analisava se devia ou não se aproximar. Pensava no que diria, ensaiava em mente algumas frases, até que não a viu mais. Joana adentrava o bosque e saía do seu campo de visão.
Tomado por um impulso ele voltou a montar no cavalo e rumou para o bosque.
***
Deixou o Percheron negro preso à uma árvore e infiltrou-se entre as faias. Caminhava com passos vagarosos, olhando atentamente o lugar e esforçando-se para ouvir o menor ruído que fosse. Poucos minutos depois ele viu Joana ao longe, sentada no chão e abraçando as suas próprias pernas. Joana estava visivelmente triste, mas ele não conseguiu identificar se ela estava chorando.
Viu quando ela se levantou e tirou de dentro das meias um tipo de adaga, encostou-se em uma faia e pôs-se a olhar a lâmina daquele punhal. Alexandre prendeu a respiração. Joana passou as mãos no tronco da árvore e passou a entalhar a inicial “J”. Assim que terminou de inscrever a primeira letra do seu nome na madeira, encostou a testa na árvore e a abraçou, deixando-se cair em um choro suave e comovente.
Alexandre não sabia por que a moça chorava e, mais ainda, não sabia por que aquele choro o afetava. Decidiu ir embora sentindo-se um espreitador inconveniente, mas, ao virar o corpo, ouviu o som de folhas secas partindo-se e o relinchar do Percheron na sua direção. O animal logo surgiu estendendo o pescoço e levantando a cabeça antes de um novo relincho.
— Zut! — Alexandre xingou. — Você se soltou? Como fez isso? — olhou para o cavalo e quando voltou seus olhos para encarar Joana, ela já estava de pé e segurava o punhal com as mãos trêmulas.