O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 37 de 45

Páginas do PDF

O Bosque de Faias

Capítulo 37 — As consequências

 

A notícia da partida de Alexandre foi confirmada ao senhor Hour pelo próprio Phillip, no dia seguinte, quando Phillip esteve na vila e encontrou Frederico com a esposa e Sophie. O casal estava passando com a caleça exatamente em frente à calçada onde Phillip estava.

Aquele encontro foi para todos uma grande coincidência, afinal, Phillip havia ido à vila apenas duas vezes desde que chegara à propriedade Motier. Madame Anastasia tratou logo de entrar no assunto e perguntar se era verdade o que ouvira de Catherine Loen ainda naquela manhã, de que uma caleça havia partido da propriedade Motier na manhã anterior com várias bagagens.

Phillip confirmou a informação, dizendo que era uma caleça levando Alexandre para Paris, mas não mencionou naquele momento que Johan também havia partido. Frederico Hour suspirou aliviado e fez votos de não voltar a encontrar Alexandre tão em breve.

— Desculpe se o ofendo, mas estou mesmo muito satisfeito com a partida daquele senhor, e até hoje não consigo entender como um indivíduo com aquela índole possa ser um amigo do senhor e de sua família — disse Frederico Hour.

— Certamente eu o entendo, e não me ofende. Alexandre cresceu junto de minha família... temos uma relação muito antiga, já de seu pai com o meu, ambos militares, ambos mortos em combate... Nossa amizade deu-se de forma natural — disse Phillip.

— Na verdade nunca sabemos com quem temos amizade até que eles nos apunhalem pelas costas. Com o perdão pelo meu exagero, mas uma mentira e uma traição também são boas adagas para se apunhalar um amigo. — E como viu que Phillip permaneceu em silêncio, continuou: — Espero não estar o ofendendo, mas eu não desejo mesmo voltar a olhar nos olhos daquele traiçoeiro.

— Mas talvez volte a olhar — disse Phillip em um ímpeto, sem refletir sobre as suas palavras. — Alexandre partiu, mas não por muito tempo. Logo ele retornará e quem sabe a sua casa seja a primeira que ele visite.

— Eu não o entendo — Frederico olhou-o com o rosto vermelho, com o sangue que lhe subiu rapidamente à face. — Ele não seria tão audacioso, a menos que quisesse morrer!

— Oh, querido, não exagere, ou o senhor Phillip pensará que é um homem violento; e isso o senhor não é, ah, não mesmo — Anastasia disse ao lado do esposo, enquanto tinha Sophie com os braços entrelaçados aos seus, ouvindo tudo muito atenta.

— Alexandre garantiu-me que tem ainda algumas questões a resolver aqui. E certamente a maior de suas questões é com o senhor... Penso que ele queira recuperar sua boa estima e apresentar uma proposta de casamento com a senhorita Joana.

— O homem perdeu o juízo? — O senhor Hour soltou uma gargalhada abafada. — Como pode cogitar a possibilidade de sequer estar em minha presença para me dirigir a palavra? Quanto mais entrar em minha casa ou ter a audácia de tomar a mão de Joana! — vociferou, desta vez mais nervoso.

— Oh, mas eu penso que há aí um terrível engano — disse Madame Anastasia. — Joana repele com pujança aquele senhor — fez-se chocada.

— Não sei se com tanta pujança assim, mamãe. Ele pode tê-la conquistado também — Sophie interveio agarrando-se ainda mais nos ombros da mãe, com os olhos marejados.

— Tenho certeza que Joana detesta aquele homem tanto quanto nós. Não há perdão para suas ações — disse Anastasia.

— E este assunto é algo dado como encerrado. Aquele senhor jamais terá a oportunidade de sequer estar de frente com uma das minhas filhas novamente — Hour disse com segurança. Phillip apenas assentiu com um súbito desdém àquela conversa, como se não fosse ele quem a tivesse iniciado.

— Senhor Phillip, venha jantar conosco amanhã — Anastasia convidou mudando o rumo da conversa. — A minha casa é sempre tão alegre quando o recebemos. Estendo o convite, é claro, aos seus irmãos, o senhor Patric e o senhor Johan — disse ela.

— Johan partiu ontem para Paris, de onde irá logo em seguida para a Escócia — Phillip finalmente anunciou, vendo que logo eles saberiam de qualquer forma. — Ele irá conhecer sua futura noiva e casará em breve — contemplou os olhos de Sophie e viu que eles passaram de serenos para o puro desespero

— Oh, que boas notícias — Madame Hour comemorou sem muita animação, afinal era ele um bom pretendente, segundo a sua opinião. Sophie estremeceu com a notícia e seus olhos encheram-se de lágrimas.

— Noiva? — repetiu ela segurando o choro. — O senhor Johan está noivo há muito tempo? — Com essa pergunta Anastasia e Frederico olharam para a filha e estranharam muito a sua agitação e aquele choro que estava prestes a cair.

— Não, na verdade ainda não está noivo, mas está indo para a Escócia para isso. Grizelda é o nome dela, filha de um importante Lorde escocês — disse sem compadecer-se dos olhos sofridos de Sophie, que já derramavam lágrimas pesadas enquanto ela parecia perder as forças nas pernas.

— Sophie? — gritou Anastasia acudindo a filha e levando-a, com a ajuda do esposo e de Phillip, para dentro da caleça que estava parada no outro lado da rua.

— O que ela tem? — Frederico Hour perguntou à esposa.

— Eu não sei. Pode estar fraca! Ultimamente ela anda tão abatida; e alimentou-se tão mal antes de sairmos. Pode ser isso, uma súbita fraqueza.

Com Sophie acomodada no interior da caleça, Anastasia dirigiu-se a Phillip e reafirmou o seu convite, o qual Frederico fez questão de dizer que sentiria grande prazer que ele aceitasse. E assim eles se despediram, com Phillip desejando melhoras para Sophie e recomendando que mandassem lembranças afetuosas à Joana, em seu nome.

***

A viagem seguia de forma tranquila para Johan e Alexandre, que haviam permanecido o dia anterior inteiro dentro da caleça, fazendo pequenas pausas para os cavalos se alimentarem, beberem água e descansarem. A paisagem era belíssima, a mesma que Alexandre havia contemplado há meses atrás, mas antes eram agraciadas com a beleza do outono, e agora ganhavam novos tons invernais cobrindo-se de neve. Vilarejos adormecidos, montanhas e extensas campinas retratavam toda a venustidade daquele país.

Na primeira noite pararam em uma pensão que lhes abrigou do frio e lhes ofereceu uma boa refeição, mas no dia seguinte tiveram que percorrer muitos quilômetros em estradas muito ruins até conseguirem um estabelecimento onde pudessem ter uma refeição completa durante o dia e que tivesse um local adequado para abrigar os cavalos do frio quando, em certo momento, começou a nevar.

Alexandre pensava em Joana a quase todo o instante e até mesmo quando adormecia ele sonhava com seus beijos. Seu único desejo era que aquela viagem chegasse logo ao fim e ele pudesse retornar para ela o quanto antes. Johan pensava em muitas coisas, mas sua mente quase sempre estava ou em Caroline, ou na expectativa de como seria Grizelda.

***

Deitada em sua cama, depois de beber um pouco de leite e comer uma fruta de forma quase forçada, Sophie parecia enfim um pouco refeita do mal-estar que a acometera. À sua frente a mãe e as irmãs olhavam-na preocupadas. As olheiras profundas e a palidez acentuavam uma expressão quase sem vida. Pressionada pela mãe, para que dissesse o motivo de ter ficado tão afetada com a notícia da partida de Alexandre e Johan, ela começou a chorar e a falar ao mesmo tempo.

— Oh, mamãe... Oh, querida mamãe... — Mas as palavras não conseguiam formar uma frase coerente. Sophie parecia estar à beira da morte e afundada em dor. Enquanto Anastasia e Amália abanavam Sophie sem nada entenderem, Joana e Rebecca entreolhavam-se, pois sabiam exatamente o motivo do sofrimento da irmã.

— Diga, minha filha... Minha menina, não sofra assim. Se estiver assim por causa daquele senhor, Alexandre — disse o nome com asco —, não se aflija, que ele jamais porá os pés nesta casa novamente. — Joana endureceu o corpo ao ouvir o nome de Alexandre e voltou a olhar para Rebecca, de soslaio. — Mas, querida, se for por causa do senhor Johan, eu não entendo... Seu coração estava esperançoso de que ele a escolhesse? Oh, querida... É por Johan que está sofrendo?

— Johan tem uma noiva? — Joana perguntou sobressaltada.

— Ele partiu com o senhor... Alexandre ontem pela manhã. O que acha disso, minha filha? Sabia que eles partiriam?

— Eu... não lembro de alguém ter mencionado — disse sem saber se deveria falar a verdade ou não. Com Sophie passando mal talvez devesse esperar um pouco mais.

— Estou arruinada... — Sophie murmurou com sofrer, fazendo a mãe franzir o cenho em estranhamento.

***

Quando Joana estava a sós com a mãe na sala, interrogou-a sobre como a irmã havia passado mal. Anastasia explicou como tudo acontecera, sem deixar de mencionar o que Phillip dissera a respeito de Alexandre, e da audácia que ele teve em dizer que retornaria, como se tivesse assuntos pendentes com Joana.

— Um absurdo! Já ouviu um despropósito maior do que esse? Eu jamais ouvi! Seu pai é capaz de matá-lo. E isso foram palavras dele. Claro que eu não acho que chegue a tanto, mas foi o que disse o seu pai. Ele o detesta muitíssimo.

— Mamãe, por ora conte-me apenas sobre Sophie — Joana pediu.

— Ora, sim, fomos comprar vestidos novos para sua irmã, e então encontramos Phillip na calçada, mas não sei o que ele estava fazendo na vila. Oh, que homem elegante, que educação... Seu pai chegou a interrogá-lo sobre como ele podia ser amigo daquele senhor Alexandre... Pois bem, Sophie passou mal quando ele deu a notícia do noivado do senhor Johan, mas acho que foi pura coincidência, ela havia se alimentado muito mal pela manhã. Oh, está sempre tão tristinha. Tudo por culpa daquele senhor Alexandre, pois desde aquele dia do baile ela tem se tornado cada dia mais abatida.

— Faça Sophie abrir-se com a senhora. Ela está sofrendo, mas garanto que não é por causa do senhor Alexandre. Quando ela lhe disser a verdade, e o que sente, ficará tudo esclarecido.

Anastasia anuiu com a filha, mas estranhando o modo como havia falado, como se Sophie tivesse alguma declaração a dar, como se escondesse algo; então prometeu conversar com Sophie quando ela estivesse mais calma.

— E, Joana — Anastasia chamou-a quando Joana estava saindo —, o senhor Philip mandou recomendações a você... Como ele disse? Oh, sim, mande lembranças afetuosas à senhorita Joana. E sorriu tão lindamente que cheguei a corar, mesmo sendo uma senhora casada. Que sorte, minha filha, ele parece gostar de você.

— Sorte? Oh, mamãe, pare. Não há nenhuma sorte nisso — disse Joana saindo irritada com a empolgação da mãe.

Assim que Joana deixou a mãe a sós na sala, Madame Catherine Loen bateu à sua porta; e, depois de ser recebida e anunciada pelos criados, elas logo estavam conversando sentadas uma de frente para a outra enquanto tomavam um chá.

— Vim porque estava ansiosa para contar isso a alguém — disse Catherine com ares de fofoca. — Deve lembrar-se do senhor John.

— Sim, um senhor respeitadíssimo e muito rico que ficou viúvo tão jovem... Ele esteve em nossa casa há uns meses atrás — disse lembrando-se do jantar malsucedido.

— Pois sim, é este mesmo — concordou Catherine. — Ele esteve em minha casa ontem para jantar. Muito elegante e educado, visitou-nos em uma caleça muito luxuosa, assim como era requintada as suas vestes.

— Sim — Anastasia concordou, rememorando a forma primorosa como ele havia se apresentado quando ali esteve.

— Ele estava interessado em conhecer minhas filhas, e há muito tempo conversava com meu esposo sobre isso. Oh, fiquei muito contente, e o senhor Loen também. Mas hoje pela manhã fomos buscar referências a seu respeito e tomamos conhecimento de que ele está falido. O homem está completamente arruinado.

— Oh! — Madame Anastasia não deixou de exprimir sua surpresa. E assim elas passaram o resto da tarde cometendo indiscrições sobre a vida de todas as famílias que eram de seus convívios.

***

Joana já havia contado tudo para Rebecca sobre as intenções de Alexandre em conversar com seus pais e pedir o consentimento deles para casarem-se. Sabiam que não seria fácil, por isso a verdade precisava enfim chegar até eles. Joana aconselhou-se com a irmã e juntas uniram-se para tentar trazer um pouco de sensatez da parte de Sophie, então elas foram até o aposento ocupado pelas irmãs Sophie e Amália, pois aquela conversa não podia mais ser adiada.

Sophie estava sentada em sua penteadeira, alisando seus cabelos ondulados e ruivos, sem muito ânimo. Amália estava recostada na cama e lia um livro. A entrada de Joana e Rebecca fez com que Amália abandonasse o livro e sorrisse para elas, enquanto Sophie permaneceu estática, penteando-se e olhando a sua própria imagem refletida no espelho, que mostrava uma jovem muito bela, mas completamente debilitada.

— Sophie, está melhor? — Joana perguntou aproximando-se mais dela e tocando em seus ombros.

— Um pouco. Você sabia, Joana, que Johan foi embora? — disse ela, e seus olhos voltaram a encherem-se de lágrimas. — Sabia que ele está indo para a Escócia para se casar?

— Eu não sabia sobre a noiva — Joana condoeu-se do estado lastimável em que a irmã estava.

— Mas sabia que ele partiria, não é? — perguntou em um sussurro, com as lágrimas escorrendo de seus olhos e parando no canto de seus lábios. — Eu sei que sabia.

— Sophie, escute o que eu tenho para lhe dizer. Nós não podemos ser felizes com tanto peso para carregar em nossa consciência. Eu a amo infinitamente, minha irmã, mesmo que a nossa afinidade não seja imensa, mas somos irmãs, e não quero vê-la sofrer. As nossas atitudes do passado sempre terão consequências e devemos enfrentá-las com coragem mesmo que o caminho pareça difícil. Eu também errei muito, levada pelo meu orgulho, por não saber como me abrir diante dos meus sentimentos e paguei o preço por isso.

— Não um preço tão alto quanto o que estou pagando — disse Sophie ainda em meio às lágrimas, com a cabeça encurvada olhando para suas mãos.

— Precisa contar para mamãe o que fez. Precisa fazer isso por mim e por você mesma. Todos erramos, levados por nosso orgulho, por ambições, medos... Mas não é justo permanecer no erro quando ele impede que outras pessoas possam ser felizes.

— O que quer de mim, Joana? Quer que eu lhe dê a sua felicidade em troca da minha ruína? — Sophie inquiriu chorosa.

— Eu quero apenas que fale a verdade sobre o que fez; sobre o broche, sobre o baile. Quero que conte para eles que Alexandre não é tão culpado quanto pensam. Você precisa fazer isso — preceituou fazendo com que Amália ficasse surpresa com aquela conversa, porque pensava que Joana ainda não soubesse a verdade.

— O broche? Sabe sobre o broche? — perguntou Sophie olhando para Amália, condenando-a com os olhos por pensar que ela tivesse dito algo para Joana. — Por que quer que eu faça isso, Joana? Alexandre já partiu para Paris, foi embora e a deixou aqui, assim como Johan deixou a mim...

— Johan? — Amália exprimiu sua confusão. — Sophie? O que tem o senhor Johan a ver com tudo isso? Eu não estou entendendo.

— Alexandre voltará em breve — Joana anunciou antes que Sophie pudesse responder a pergunta de Amália. — E quando isso acontecer ele virá à nossa casa conversar com nosso pai. Eu o amo, Sophie, amo muito e preciso que conte a verdade — disse Joana ainda ao lado da irmã, procurando buscar as palavras certas para que Sophie concordasse com a ideia.

— Você, Joana — disse Sophie em um choro compulsivo —, quer que eu conte a verdade para ser feliz ao lado do seu amado? — riu enquanto chorava. — Quer que eu diga como roubei o broche que Alexandre enviou para você, e depois conte a todos que me deixei ser beijada por ele enquanto ele sussurrava o seu nome diante de meus lábios? Quer me ver destruída para que possa ser feliz do lado de Alexandre, o primeiro homem pelo qual eu me apaixonei; e que teria visto a mim, apenas a mim, não fosse a sua petulância, sua dissimulação diante dos sentimentos dele?

— Oh, pare Sophie. Jamais dissimulei o que sinto, apenas escondi-me por medo... O que você acha que o casamento e o amor representavam para mim? O que ele representa para muitas de nós? Foi por medo que não disse o que sentia, mas eu já amava Alexandre muito antes que você confessasse o que sentia por ele, muito antes do baile... muito antes de ele estar em nossa casa pela primeira vez. Eu o amei desde o primeiro momento em que o vi.

Sophie e Amália olharam para Joana muito surpresas. O coração de Amália pulsou cheio de dor e arrependimento, lembrando-se de quando ouviu Alexandre confrontar Sophie e punindo-se mentalmente por não ter dito logo toda a verdade para Joana.