O Bosque de Faias
Capítulo 4 — O mal-entendido
Alexandre acordou cedo, ainda tinha mais alguns convites de baile para entregar. Rememorou as instruções de Phillip, que lhe disse para convidar mais pessoas do que confortavelmente poderiam ser acomodadas no salão da propriedade, porque era raro que todos os convidados aparecessem. Desta forma, para garantir que a pista de dança fosse preenchida, ele deveria convidar muitas pessoas, mais homens do que mulheres.
Relembrou alguns fatos dos dias anteriores, quando visitou a casa de alguns comerciantes da região. Em uma das casas uma jovem gritou entusiasmada e saiu correndo com o convite nas mãos. Ele sabia que não havia ali muitas formas de distração para aquelas moças além de visitar parentes e fazer bordados, então, claro, um baile era um momento muito empolgante, porém, não deixou de achar as atitudes muito exageradas. Em outra casa, uma jovem pôs-se a dançar um minuet sozinha no meio da sala, já ensaiando os passos miúdos, a fim de impressionar na dança quando chegasse o dia da festa.
Porém a visita mais inusitada aconteceu na casa de Frederico Hour. A esposa, ao ouvir o nome Lorde Louis Motier, foi prontamente julgando ser ele o sobrinho herdeiro do Lorde. Ficou eufórica, falava e o interrompia sem pausas. Ele tentou desfazer o mal-entendido por diversas vezes e dizer que na verdade havia sido um cavaleiro de Lorde Louis Motier, e que era amigo íntimo do senhor Phillip; este sim herdeiro das propriedades do tio falecido. No entanto, Alexandre logo viu que era impossível interromper os devaneios daquela mulher e acabou por desistir, considerando que seria melhor aceitar o convite para o jantar e conversar com senhor Hour a sós.
Porém à noite a cena repetiu-se. Frederico Hour ficou tão eufórico quanto a esposa e não media elogios à filha mais velha — a qual Alexandre não viu, porém imaginou que devia ser feia —, dizendo que era uma moça em idade de se casar e que era muito bela.
Falou tanto o homem, que deixou Alexandre aturdido. Serviu-lhe o melhor vinho e ofereceram a ele um belo jantar. Frederico Hour falou dos negócios, de política e conversaram sobre a recente batalha de Watterloo. Depois voltou a falar na filha e, no fim, só restou a ele ter paciência, aproveitar a cortesia e esperar que quando Phillip — o verdadeiro herdeiro — chegasse à propriedade com os outros irmãos, o senhor Hour e a esposa vissem que cometeram um engano.
***
Alexandre decidiu ir até a vila a cavalo e deixar a caleça na propriedade Motier, onde alguns criados já começavam a chegar. Deu ordens a alguns deles para arrumarem os aposentos, verificarem a mobília e cuidarem do jardim; e informou que retornaria mais tarde. Foi à cocheira e alisou os pelos do cavalo Percheron:
— Vamos, meu velho amigo? Hoje será o seu dia de passear pela vila — Alexandre montou o animal e partiu.
Atravessaram o prado que separava a propriedade do vilarejo, onde ele contemplou aquelas paisagens imensas, de flora exuberante. Ao longe viu as árvores Castanheiras e as imponentes Faias com suas folhas castanho-douradas. O Percheron negro percorria agilmente o percurso balançando sua crina lustrosa. Logo chegaram.
Passou pela região mais pobre da vila, já bastante movimentada, mostrando que ali todos acordavam muito cedo, talvez por volta das cinco da manhã, já que muitos trabalhavam no campo. Viu um uma mulher com seus filhos pequenos, cuidando da horta e dando grãos às galinhas. Mais adiante um interessante contraste começava a se moldar, as casas iam ganhando mais elegância, as ruas tinham pedras no chão e já não eram tão poeirentas. As moças andavam bem-vestidas, com vestidos muito rendados e rodados e com seus bonnets de abas largas na cabeça, onde laços e fitas de cetim lhe cobriam as orelhas e caíam sobre seus ombros. Alexandre não pôde deixar de observar como vestiam-se de maneiras distintas as damas inglesas e as damas francesas. As inglesas usavam vestidos mais justos e de tecidos com pouco enfeites. Elas também não usavam os cabelos sempre presos no alto da cabeça.
Foi permeado por estes pensamentos até que viu uma dama muito bela junto de outras duas jovenzinhas na calçada. A mais bonita de todas estava falando com as demais, sorria e apontava para a sua roupa, depois voltava os olhos para cima e gesticulava. Ele a olhou mais atentamente e então a reconheceu: era uma das filhas de Frederico Hour.
Sophie Hour e as irmãs. Certamente está já a sonhar com o baile... — Alexandre imaginou.
Poucos metros adiante avistou a casa da família Hour e pensou se deveria parar ali para apresentar-se corretamente e finalmente desfazer o engano, ou se deveria esconder-se para não ser visto por Madame Anastasia. Ele observou melhor a residência; era uma casa bonita, de cor clara. Na sua fachada via-se uma grande porta com duas janelas às suas laterais. No andar de cima mais três janelas e um telhado com três solares.
Assim que pôs seus olhos em uma das janelas ele viu uma moça por entre as cortinas entreabertas. Ela estava sentada de perfil em uma banqueta e com os braços apoiados em uma penteadeira. A jovem mexia em alguns objetos e, pegando um pente, soltou os cabelos que estavam presos no alto da cabeça. Grossos fios de cabelos ondulados e ruivos lhe caíram até a cintura. Ela separou os cabelos em duas mechas e passou a alisá-los com os dedos, depois penteou as pontas avermelhadas com cuidado, até chegar ao alto da cabeça. Quando terminou, virou-se para a sua direita para alcançar um enfeite de cabelo qualquer e então ele pôde vê-la. E como era linda a filha mais velha de senhor Hour. Como ele havia se enganado em julgar que a moça deveria ser feia.
Ela se levantou e ele continuou a acompanhá-la com os olhos. Analisou seu corpo bem-feito, a cintura fina, os braços alvos, os olhos....
Olhos atrevidos e arrogantes! — Ficou atônito.
— Senhor Phillip? — Alguém o chamou.
Senhor Phillip? Oh, não! Quem me chama por este nome?
Olhou para baixo, segurando os arreios do cavalo, e viu Sophie Hour sorridente.
— Senhor Phillip? — tornou a chamá-lo. — Por que está olhando para nossa casa? Meu pai não está, mas se quiser posso chamar mamãe e...
— Oh não, não é necessário — pour l'amour de Dieu! — Eu... estava apenas passando e...
Sophie ruborizou. Certamente ele tinha voltado ali para vê-la e agora não sabia o que dizer. Ele estava visivelmente constrangido e Sophie tentou minimizar o seu incômodo fazendo-se de distraída e mudando o assunto. Seu coração deu alguns pulos dentro do peito.
Alexandre voltou a olhar rápido e discretamente para a janela onde tinha visto aquela moça, mas não a encontrou mais ali. A cortina ainda estava aberta e o pente repousava na penteadeira.
— Foi muito agradável recebê-lo em nossa casa, senhor Phillip.
— Sua família é muito amável, senhorita. Mande lembranças minhas a seu pai. Agora, preciso ir. Há ainda algumas moças à espera destes convites — falou mostrando os papéis no interior do seu casaco.
Sophie suspirou olhando para aquele rosto bonito e curvou a cabeça, despedindo-se. Ficou ainda alguns minutos olhando-o ao longe, elegantemente montado no cavalo negro, cativando os olhares e sorrisos de muitas moças por onde passava.
Quando viu a mãe à porta correu para contar-lhe tudo. A mãe sorriu satisfeita com o interesse do moço, mas depois ponderou melhor e achou por bem repreender a filha:
— Sophie, sei que é motivo de alegria para esse coraçãozinho de moça receber atenção de tão distinto rapaz, mas convém lembrar-lhe que não é adequado que dê abertura para que ele pense que é correspondido. Ele deve interessar-se por Joana...
— Ah, mamãe, Joana o espantará na primeira oportunidade. Fará com que queira distância de todos dessa casa — disse ela. Anastasia torceu a boca. No fundo, Sophie tinha razão.
— Acho prudente que seu pai fale com o rapaz, que prepare o caminho e faça de Phillip Motier um amigo de nossa família. Penso que estando em nosso convívio ele naturalmente conheça Joana e se interesse por ela. Quem sabe ela retribua, vendo como é jovem e bonito...
— Isso é tão injusto mamãe. Ele gostou de mim primeiro! — lamentou.
— Phillip tem ainda dois irmãos mais novos — relembrou-a com um olhar sugestivo.
— Mas eu já gosto desse — disse emburrada.
***
Quando terminou de entregar os convites, Alexandre retornou à propriedade Motier. Desta vez não prestou muita atenção na paisagem, seus pensamentos o levavam direto para aquela janela, na qual vira a moça ruiva penteando-se.
É claro que é ela! É a moça do bosque de faias!
Alexandre riu sozinho ao relembrar daquele inesperado encontro... Ele vinha de uma viagem muito longa e preferira fazer o trajeto a cavalo, pois considerava ser melhor do que carruagens duras, que trepidavam e chacoalhavam nas estradas ruins. Ao final de sete dias de jornada, quase alcançando seu ponto de chegada, adentrou no bosque de faias. Foi uma das paisagens mais belas que vira em todo o caminho.
O céu fundia-se com o dourado das folhas em um cenário intenso. Seu corpo acalmava-se com a sombra fresca e, ao longe, ele já parecia ouvir o som dos rebanhos e o vento ligeiro a abanar os ramos de trigo. Algumas folhas caíam sobre sua cabeça e partiam-se secas e crocantes debaixo dos cascos do cavalo.
E quando pensou que seus olhos não podiam ver algo ainda mais belo, ele a encontrou. A moça parecia fazer parte daquela paisagem alaranjada, como se fosse um fruto dourado e misterioso que pertencia ao local. Seus olhos verdes eram de um profundo brilho cintilante e ele ficou envolvido neles, quase em transe...
Mas não era de um néctar doce aquele fruto, era selvagem e amargo.
Alexandre balançou a cabeça para arrancar do pensamento essas divagações disparatadas, de ficar rememorando aquele encontro desagradável que tivera com aquela moça tão mal-humorada.
***
Chegou à propriedade Motier e adentrou pelo portão de ferro, ladeado pelos enormes muros de pedra. Passou pelo extenso jardim — que estava malcuidado naquela ocasião — e viu que próximo à porta de entrada havia uma carruagem. Observou como era bela a residência, também feita de pedras. Havia ali inúmeros aposentos, salas de banho, cozinhas, amplos espaços para recepções, salões de festas, uma capela e uma área separada da casa, onde ficava as habitações dos criados.
Alexandre levou o cavalo até a cocheira e assim que pôs os pés nas escadarias da entrada da casa, ouviu uma voz que lhe era muito familiar.
— Caroline?! O que faz aqui?
— Com que alegria me recebe o meu irmão? — disse a recém-chegada, colocando as mão na cintura. — Então não se alegra em me ver?
— Claro que me alegro! Surpreendi-me, apenas — estendeu-lhe os braços.
— Vim para ficar ao seu lado — declarou. — Cansei-me de viver sozinha na Inglaterra, irmão.
— Sozinha? Caroline, nossa tia vem zelando por você todos esses últimos anos. Não esteve sozinha.
— Sim, devo muito a ela, mas refiro-me a ficar sem você por perto, meu irmão. Sinto-me só por estarmos tão afastados.
— Compreendo, embora estranhe sua chegada sem avisar. Nossa tia não me escreveu, tampouco você, dizendo que viria.
— Quis lhe fazer uma surpresa — sorriu.
— E como você soube onde me encontrar? Esteve em Paris?
— Sim, assim que retornei da Inglaterra fui para a nossa casa em Paris, e lá avisaram-me que você já havia partido para cá.
— E Phillip, sabe que veio?
— Sabe. Escrevi para ele quando eu ainda estava na Inglaterra. Não houve tempo de receber uma resposta dele, mas tenho certeza de que ele consentiria, faria gosto — sorriu com malícia. — Mas quando cheguei a Paris, soube que ele havia viajado para a Escócia.
— Faria gosto... — repetiu ele descontente com as intenções claras da irmã.
— Sem ciúmes, meu irmão, por favor.
— Tenho motivos para tal?
— Claro que não. O que é uma pena; afeiçoo-me por Phillip, sabe disso.
— Sei... E sei também que se fosse para correspondê-la, ele já o teria feito. Há quantos anos se conhecem? Há quanto somos amigos?
— Ainda não deu por si. Aliás, o que Phillip foi fazer na Escócia? — perguntou curiosa.
— Ora, isso não é assunto que lhe interesse, Caroline. São questões particulares — repreendeu-a.
— Quem me escreveu foi Johan, que informou que ele e Patric também virão para cá. Pretendem fixar-se aqui — contou-lhe passeando os olhos pelo teto e mobília da residência.
— Então Johan virá mesmo? Pensei que não viria...
— E por que não ele viria? Veja essa propriedade! É magnífica!
— Johan é orgulhoso. Aqui terá que viver sob os desmandos do irmão, afinal a casa agora pertence a Phillip.
— E que felicidade do destino! — Ela riu girando o corpo e contemplando novamente a residência.
— Chama de felicidade a morte do tio de Phillip?
— Não! Isso foi uma fatalidade, uma lástima; mas não haveremos de chorar para sempre por nossos infortúnios. De todo modo, é uma generosa herança a que Phillip recebeu do tio. Felicidade é ele ser o sobrinho mais velho e que o tio não tivesse filhos, nem irmãos herdeiros, já que o pai de Phillip morreu há muitos anos. Um dia tudo isso seria de Phillip de qualquer jeito.
Nesta hora uma criada interrompeu-os, perguntando qual o aposento que Caroline Franz ocuparia.
— Um reservado a hóspedes, claro! — Alexandre disse à criada.
— Ora, Alexandre Franz! Não serei hóspede! — disse ela aborrecida e voltou-se para a criada: — Leve-me para conhecer os aposentos. Escolherei um do meu agrado.
Alexandre a confrontou com os olhos endurecidos, de modo a pedir-lhe que não lhe causasse aborrecimentos.
— Alexandre... não me olhe assim ... — Caroline sibilou e depois lançou um sorriso na direção do irmão.
Alexandre deixou-se cair na poltrona da sala. Temia que a irmã lhe causasse problemas, conhecia sua personalidade muito bem; era imperiosa e estava acostumada a ter sempre tudo o que queria. Seu único desejo ainda não atendido era ter o amor de Phillip. Ela nutria sentimentos que iam além da adoração por ele desde mocinha. Alexandre sempre buscou colocar juízo na cabeça da irmã, pedindo que ela o esquecesse e dizendo-lhe que Phillip jamais tinha lhe dirigido sequer um único olhar de interesse. Tudo em vão, parecia que quanto mais Phillip a desprezava, mais ela o queria.
Alexandre pôs-se a pensar no que Caroline havia dito, sobre a vinda dos irmãos de Phillip. Ele não ficou contente ao ouvir que Johan também viria a residir ali. Isso sequer tinha passado em sua cabeça, afinal os irmãos não se relacionavam bem. Johan e Phillip tinham quase a mesma aparência e um pouco mais de um ano de diferença na idade, porém, no restante, eram totalmente desiguais.
Na visão de Alexandre, Phillip era decente, obstinado e zeloso. Já Johan, também aos seus olhos, era sórdido, inconstante e preguiçoso. Viviam assim em constante atrito. Já Patric — o mais novo dos irmãos —, era calmo, alegre e pacificador, e era um dos melhores amigos de Alexandre desde a infância.
As suas famílias eram amigas antes mesmo de nascerem os filhos. Primeiro veio Phillip Motier, e no mesmo ano Alexandre Franz vinha ao mundo. No ano seguinte nasceu Johan Motier e dois anos mais tarde nasceram Caroline Franz e Patric Motier. Parecia que os pais de Alexandre tinham combinado com os pais de Phillip para terem sempre os filhos no mesmo ano. De tal modo, cresceram todos juntos em Paris, frequentavam a casa uns dos outros.
Alexandre estudou na mesma universidade que Phillip, tinham as famílias praticamente a mesma posição social. Anos depois, Alexandre entrou para a tropa de cavalaria do Lorde Louis Motier, esteve em algumas batalhas ao lado do tio de Phillip e o viu morrer em Watterloo. Com a morte de Louis — que era viúvo e sem filhos ou irmãos — todos os bens passaram a ser do sobrinho mais velho por parte de pai, ou seja: Phillip.
Alexandre Franz poderia vir a ser, além de amigo, um oficial das tropas de cavalaria que agora seriam lideradas por Phillip, que lhe fizera a proposta e pediu que pensasse sobre o assunto. Porém os seus ideais políticos divergiam muito e Alexandre não estava propenso a permanecer ali ou liderar as tropas. Conversariam mais sobre o assunto em hora oportuna; viera para a propriedade Motier com o intuito de organizar a vinda de Phillip e seus irmãos. Phillip dizia que ali era um ótimo lugar para fixar-se e fazer negócios. Pretendia comprar terras e torná-las produtivas. Em épocas difíceis de escassez de grãos, principalmente o trigo, ele poderia aumentar a fortuna deixada pelo tio, plantando e exportando para outras regiões.
***
Alexandre acabou adormecendo na poltrona de mogno irlandês, sendo acordado no meio da noite por um criado, que o lembrava de recolher-se no seu aposento, a fim de descansar com mais comodidade.