O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 1 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 1 — O encontro

O BOSQUE DE FAIAS

 

AMANDA BONATTI

Capítulo 1 — O encontro

 

Joana estava sentada no chão, recostada em um tronco cinzento e pálido de uma majestosa árvore de faia. A copa muito densa permitia que apenas uma tênue luz atingisse os seus cabelos alaranjados e o livro que repousava em suas mãos — do qual ela não desviava os olhos havia um par de horas.

Trouxera, além do livro, uma pequena manta para cobrir o solo, por estar repleto de folhas frias e molhadas depositadas umas sobre as outras. Tal acúmulo de folhas garantia uma beleza bucólica àquele lugar. Era bonito ver como o outono transformava a paisagem do bosque, deixando tudo dourado.

O bosque de faias não era o local mais apropriado para uma jovem dama frequentar, especialmente sozinha. Joana sabia disso, ainda mais após as constantes invasões e batalhas que antecederam a restauração do rei ao trono. Porém não conhecia outro lugar na redondeza onde pudesse ficar sozinha e ler sem ser incomodada; e naquele dia em particular, desejava mais do que algumas horas com a mente viajando em um livro, queria mesmo era esconder-se do mundo. Estava irremediavelmente zangada com os seus pais, novamente.

O silêncio do bosque com sua atmosfera enigmática e pouca iluminação era o seu refúgio perfeito desde a infância. Ali escondia-se das irmãs mais novas sempre que elas a incomodavam e tinha inclusive inventado que o lugar era mal-assombrado, para que não se atrevessem a ir procurá-la naquele local.

Cresceu e continuou indo ao bosque. Alguns bons minutos de caminhada pela estrada margeada por uma verde campina e mais um pouco por uma pequena trilha em meio às árvores e ela logo podia sentar-se em paz para ler ou apenas pensar.

Devido à insegurança que o bosque agora lhe oferecia, ficava em alerta ao menor ruído, assustava-se com qualquer crepitar de folhas ou galhos e apurava-se em vigilância. Após o período das crises e violências, das invasões estrangeiras ao seu país e a queda de Bonaparte, a paz parecia apenas uma palavra esquecida em um espaço qualquer.

Mesmo assim, entre as faias ela sentia uma aprazível felicidade, sua mente se esvaziava de todas as tolices românticas que ouvia das irmãs durante o dia inteiro, das imposições do pai, e dos discursos enfadonhos de sua mãe — sempre em favor do marido. Nos livros a realidade se mostrava sem disfarces, sem devaneios e ilusões tolas. Talvez por isso os melhores eram proibidos, e era um desses que Joana tinha nas mãos e que fazia seus olhos arderem por quase esquecer de piscá-los. A França vivia um grande período de transformação e os livros assumiam o dever de instruir as pessoas, lhes mostrando a verdade com sabedoria e propagando uma liberdade que não era aceita por alguns.

Joana estava no meio de uma reflexão sobre as linhas que acabara de ler quando um relinchar de cavalo a assustou e fez com que ela se levantasse com agilidade, abandonando o livro aos seus pés; porém, tão logo ao barulho, percebeu que alguém se aproximava. Ajeitou o vestido e firmou seu olhar à frente, procurando de onde vinha o som, foi quando viu surgir entre as árvores um enorme cavalo negro de pelos muito vistosos, montado por um jovem que Joana não conhecia.

— Quem é o senhor? — perguntou olhando para o alto, procurando sustentar uma postura firme e que não revelasse o medo que sentia.

Joana mantinha seus olhos resolutos na direção do jovem, o mesmo olhar altivo que lançava aos seus pais quando os desafiava ou teimava em ter razão — o que fazia constantemente —, porém também estava pronta para correr se fosse necessário.

— Mademoiselle. — Ele a saudou com um leve abaixar de cabeça. — O que faz sozinha neste bosque? Por certo deve ser perigoso, não? — perguntou segurando os arreios do cavalo, que se mexia impaciente erguendo o dorso.

— Perigoso? Devo preocupar-me com o senhor? — Joana atreveu-se a perguntar. Ele a olhou por breves segundos antes de responder.

— Asseguro-lhe que não.

— Pois bem, sendo assim, pode prosseguir viagem. — Ela retorquiu, procurando demonstrar segurança em sua voz.

— Vejo que está acompanhada — disse ele. Joana pareceu não compreender. — Refiro-me ao livro. É por isso que veio aqui? Para ler? — apontou com os olhos para o livro recém-abandonado no chão e depois encarou os olhos verdes de Joana.

— E por que isso lhe interessa? — Joana redarguiu com rudeza a fim de encerrar o assunto. O olhar que ele lhe lançou ao falar do livro a deixou constrangida e causou nela uma irritação singular. Joana devolveu o olhar da forma mais dura que conseguiu.

Que olhar atrevido e arrogante. — Ele pensou analisando-a.

— A senhorita é sempre assim, arredia, e responde todas as perguntas com outra pergunta?

— Assim como o senhor, ao que observo. E me chama de arredia? Quem pensa que é para falar assim? Nem ao menos o conheço — retrucou com sua costumeira ousadia.

Ao ouvir tais palavras ele saltou do cavalo e caminhou na direção de Joana, tomando-lhe a mão e repousando nela um beijo — para seu total espanto e constrangimento.

— Pois então deixe que eu me apresente... — disse de modo cortês. Jamais tinha visto uma jovem tão ousada... e tão bela.

— Não perca seu tempo com apresentações. — Ela o interrompeu, desvencilhando sua mão das dele. — Não desejo conhecê-lo mais do que já o conheço — afastou-se.

— Quanta antipatia para uma jovem tão formosa — resmungou para si mesmo em tom baixo, no entanto, Joana pôde ouvir. — Pois bem, se é assim, também não desejo conhecer uma moça tão irritada quanto a senhorita. Adeus! Só deixe-me olhá-la melhor, para poder evitá-la caso a encontre novamente.

O efeito de tais palavras foi imediato e Joana acentuou a expressão de altivez ao encarar o rapaz, que naquele momento revelava um sorriso de divertimento.

— Pois olhe bem; porém espero não precisar encontrá-lo tão em breve — falou pondo-se quase de costas para o jovem e espiando-o apenas com o canto dos olhos. Só por isso ela deixou de notar um sorriso de malícia que ele abria no exato momento em que buscava as palavras que usaria para irritá-la ainda mais.

— E eu desejo o mesmo! — retrucou ele enfim, voltando a montar o cavalo com agilidade e, depois, a cumprimentando cordialmente com a cabeça. — Boa leitura. Cuidado para não se influenciar com más ideias.

Mas que insolente. — Ela pensou.

Joana sentiu seu rosto arder, tamanha indignação sentiu com aquele comentário atrevido. Recolheu a manta do chão, dobrando-a rapidamente com o livro escondido dentro, e apressou o passo para fora do bosque. Fitou os montes verdes que figuravam a paisagem por detrás da vila, e ao longe ainda pôde vê-lo galopar o robusto animal para bem longe dali.

[...]

Tal jovem não tinha culpa pelo tamanho mau humor de Joana, mas sim os pais dela; eram deles a culpa por ela estar a ponto de ser tão grosseira com qualquer um que cruzasse o seu caminho. Tudo havia começado há algumas semanas, quando os dois vieram com conversas sobre casamento com um homem o qual Joana nem fazia ideia de quem fosse — novamente aquele assunto.

Ele é um homem muito rico e encantador — relembrou as palavras da mãe, sabendo que o primeiro adjetivo era o mais atrativo aos olhos de seus pais. Talvez fosse o único atributo que importasse a eles.

Esse poderia ser o desejo de muitas moças que conhecia, e de fato era: encontrar um adorável e abastado homem para se casar. Para muitas donzelas isso era tudo, viviam a sonhar com príncipes e belas histórias de amor, mas acabavam se conformando com casamentos arranjados pela família, apenas para firmação de acordos e negócios. No fim a riqueza sempre superava o “encanto”.

Joana diferia em muito disso. Ela se recusava a aceitar que lhe metessem em um tipo de acordo como estes. Na verdade, naquele momento não considerava a hipótese de encontrar qualquer pretendente, nem que o tal partido fosse feito todo de encantos, muito menos que seu maior valor fosse ter um corpo coberto de ouro e suas maiores virtudes papéis de escrituras de terras.

Pensava que viver suspirando pelos cantos por conta de paixões e expectativas era coisa de moças tolas, e estava certa de que não queria depreender seu tempo e juventude em busca de encontrar um casamento que de todo modo só serviria para tirar sua liberdade e agradar aos seus pais. Quanto a apaixonar-se verdadeiramente, ela também não se desesperava frente à possibilidade de que, talvez, isso nunca fosse acontecer.

Joana queria ser livre em suas escolhas e, por isso, quanto mais o pai insistia, mais ela recuava. Teimosia era sua característica mais forte e a que mais a colocava em guerra com a família. O último pretendente a quem o pai queria entregar-lhe a mão, tinha quase o dobro de sua idade. Joana ficou furiosa quando os pais tiveram a audácia de preparar um jantar ao ancião. Ela se recusou a aparecer na sala de jantar. Uma das irmãs — Sophie — quase chorou, suplicando que Joana tivesse dó da solteirice dela.

[...]

Joana pôs-se a andar ainda mais rapidamente, refazendo o trajeto de uma hora antes. O bosque ficava um pouco afastado da vila e ela havia ido a pé. Apertou contra o peito o livro escondido na manta e seguiu para sua casa. Assim que chegou, sequer deu-se o trabalho de dar satisfações à mãe. Passou por ela e pelas outras irmãs sem olhá-las e dirigiu-se até o seu aposento, fechando a porta com força.

Agilmente subiu em uma banqueta e abriu o armário de roupas, colocando o livro no lugar mais alto que conseguiu alcançar, por detrás das roupas de cama e travesseiros que ali ficavam guardados.

Isso deve bastar — assegurou-se de esconder bem o livro proibido.

Foi somente o tempo de descer e a mãe e todas as suas irmãs estavam à porta, batendo para que Joana abrisse e as deixassem entrar.

— Ficar assim não vai adiantar em nada, Joana. Desde cedo eu estive procurando-a e não a encontrava em lugar nenhum. Por que faz isso? — dizia Anastasia aflita do outro lado da porta, dando leve batidinhas na madeira.

— Eu estou farta, mamãe — deixou-se cair na cama. — Só precisava de tempo para pensar um pouco!

— Espero que esse tempo tenha lhe feito bem e trazido algum juízo à sua cabeça. Amanhã o senhor John virá jantar conosco. Não faça desfeita a seu pai desta vez. Abra a porta, Joana.

— Desfeita? Meu pai é que me faz a desfeita de querer me casar com um viúvo com quatro filhos, mamãe — retrucou abrindo a porta e encontrando a mãe e as três irmãs com o rosto colado na madeira.

— Joana, você tem vinte e dois anos! Já debutou há alguns anos e sabe que depois de ser apresentada à sociedade uma jovem não deve esperar muito tempo para noivar.

— Mamãe, eu sei a idade que tenho — irritou-se.

Joana sabia que o seu pai fazia questão de seguir uma das principais regras do casamento entre as classes médias e altas, e casar as filhas mais velhas antes das mais novas. Ela era a filha mais velha; e, como tal, a primeira que deveria casar. As irmãs saltitavam ao seu redor apontando-lhe pretendentes e implorando que aceitasse logo qualquer um deles que fosse.

— O adequado é que a moça fique noiva no primeiro ano em que frequenta a sociedade. Aparecer por tantos anos seguidos na temporada social sem conseguir um casamento pode abrir espaço para...

— Fofocas. Eu sei, mamãe, ouço a mesma coisa todos os dias.

— E não se importa? Não se importa se disserem que, talvez, você não seja virtuosa; ou, pior, que não tem um dote atraente? Assim as suas possibilidades de fazer um bom casamento diminuirão cada vez mais.

— Importo-me tanto com isso quanto vocês se importam em levar em consideração as minhas afeições, ou a falta delas, pelo noivo sugerido! — Quase gritou.

— A questão é que você não se afeiçoa por ninguém. Poderia escolher seu noivo, desde que escolhesse um — disse Anastasia com ar insatisfeito. — Claro, um que não estivesse abaixo de suas possibilidades. Desde que não escolhesse alguém que estivesse numa posição social inferior, ou que não fosse pelo menos tão rico quanto nossa família.

— Quantas objeções! Noto que ainda não estão tão desesperados — Joana provocou. Não entendia o porquê dos seus pais quererem arrumar um casamento para ela com tanta urgência. Não era tão velha assim, mesmo que com vinte e dois anos a maioria já estivesse casada e com herdeiros. Acreditava que o maior interesse do pai era mesmo o de arranjar um casamento lucrativo.

— Conte a ela, mamãe — Amália cutucava os ombros da mãe com as pontas dos dedos.

— Contar o quê? — Joana perguntou desafiadora. Imediatamente percebeu que a novidade seria algo que a desagradaria. Anastasia abaixou os olhos sem saber como iniciar o assunto.

— O senhor John esteve aqui hoje e apresentou uma proposta de casamento. Seu pai... praticamente já aceitou o acordo — informou Anastasia em tom decidido. Joana arregalou os olhos e apertou os lábios com força, agitando-se desesperada.

— Sem meu consentimento? Pois diga a meu pai que este foi o ato mais leviano que ele já tomou — gritou fechando a porta novamente, quase acertando os narizes das irmãs.

— Joana, o senhor John é um bom homem. Ao menos tente conhecê-lo — insistia a mãe do outro lado da porta, clamando por um ato de conformidade da filha.

Alguns segundos de silêncio preencheram o ambiente antes que Joana voltasse a falar:

— Pois bem, irei conhecê-lo. Diga a meu pai que eu o receberei amanhã no jantar.

Anastasia ergueu as sobrancelhas e depois franziu o cenho estranhando a rápida mudança de posição da filha. Apesar disso, sorriu satisfeita. Joana apenas respirou profundamente e um sorriso capcioso surgiu em seus lábios sem que ninguém visse.

Então é assim?