O Bosque de Faias
Capítulo 10 - A indiferença
— Obrigado, senhor Phillip. Minhas filhas são um orgulho para mim. Diga-me o que achou de Sophie — quis saber.
— É agradável a sua filha, senhor Hour — limitou-se a dizer algo que era na verdade o contrário do que ele realmente achava.
— Sabe, senhor Phillip, minhas filhas são, como o senhor pôde ver, jovens e bonitas... — começou a falar.
— Sim — Alexandre concordou, embora discordasse que todas fossem tão bonitas quanto o pai afirmava.
— Eu sou um homem de tradição e que respeita o convencional. Sempre afirmei que minhas filhas mais novas só se casariam quando as mais velhas já estivessem casadas. No entanto, às vezes os filhos são teimosos e querem algo diferente de nós. Fazem a questão de fazer tudo diferente daquilo que procuramos instrui-los. Joana tem um temperamento forte, ela se recusa a aceitar qualquer pretendente. Por isso, senhor Phillip, se assim for de uma recíproca, peço que volte sua atenção para Sophie e tente conhecê-la mais. Minha filha está encantada pelo senhor.
— Joana se recusa? — Ele parou de ouvir o restante das palavras de Frederico Hour assim que ele fez tal afirmação. — O senhor disse encantada? — balançou a cabeça para reorganizar os pensamentos.
— Sophie. Eu disse que Sophie está encantada pelo senhor — Frederico Hour repetiu.
Estou muito enrascado!
Capítulo 10 - A indiferença
Na manhã seguinte Alexandre remexia-se na cama. O sol entrava pela janela e mostrava que o dia já estava alto. Ele sentou-se na beirada do colchão e relembrou o jantar da noite anterior. Fora dormir pensando nisso e logo ao acordar tudo voltava à sua mente. A indiferença de Joana, as lisonjas do senhor Hour e da esposa, os suspiros de Sophie direcionados a ele e, por fim, a revelação de que Joana não aceitava nenhum pretendente. O senhor Hour dissera com todas as palavras para que ele voltasse a sua atenção para Sophie. No entanto ele só conseguia pensar em Joana e rememorar cada palavra que ela havia dito naquela noite.
Não foram palavras amigáveis, ainda assim ele preferia estar em sua companhia e vê-la ficar irrita, bufar e corar, do que suportar a chateza que era conversar com Sophie.
Durante o jantar ele tentou sentar perto de Joana, mas Madame Anastasia o colocou entre Sophie e Rebecca, e Joana estava tão à sua esquerda que ele não pôde trocar com ela sequer um olhar. À sua frente estavam o senhor Frederico, Madame Anastasia e a filha Amália. Após jantarem eles voltaram para a sala de estar e Joana voltou a ignorá-lo. Sentou-se ao lado das irmãs mais novas no sofá e fez questão de se posicionar quase de costas para ele. Alexandre começava a considerar se já não havia ido longe demais em deixar que aquela mentira se prolongasse por tanto tempo. Ele precisava fazer alguma coisa.
***
— Onde esteve ontem à noite, Alexandre? — Caroline o interrogou com naturalidade assim que se encontraram no jardim da propriedade Motier, ainda pela manhã.
— Por que acha que preciso lhe contar por onde ando? — Ele disse muito irritado.
— Não precisa, se não quiser — olhou-o de soslaio. — Que nervoso está o meu irmão nesta manhã.
— Estou sim. Já aviso que não é somente impressão sua, minha irmã — disse ele fitando-a —, mas não quero falar sobre isso.
— Meteu-se em alguma confusão? — insistiu.
— Ora, já não acabei de dizer que não quero falar sobre isso?
— Alexandre! Quer me enlouquecer? Com quem devo me distrair nessa casa, se não tenho ninguém para conversar? Estou sozinha, entediada — falou chorosa.
— Caroline, já disse que não devia ter vindo. Aqui não é Paris, tampouco a Inglaterra.
— Que ingrato! Vim para ficarmos juntos.
— Veio para rondar Phillip. Isso preocupa-me. Não quero que sofra.
— Por que acha que vou sofrer? Acha-me tão inferior? Acha que não sou digna de Phillip?
— Não disse isso. Apenas quero alertá-la. Se realmente gosta de Phillip, isso poderá feri-la.
— Como pode saber? Eu mudei, meu irmão. Não sou mais aquela menininha que Phillip se recorda. Como garante que ele não me notará?
— Apenas digo que garanto. — Ele disse e ela bufou irritada.
— Diz que não quer que eu sofra? Então como quer arrancar de mim todas as esperanças? Diga-me, Alexandre, como pode ter certeza de que Phillip irá me desprezar?
— Devo dizer? E antecipar para agora mesmo a sua dor?
— O que quer dizer? Já me faz sofrer com essa expectativa. Diga-me...
— Phillip ficará noivo.
— O quê? — expandiu os olhos em surpresa e sentiu uma dor no peito.
— Phillip já deve estar noivo — corrigiu-se. — Ele foi à Escócia conhecer a moça e provavelmente ela virá com ele para cá. Quem sabe já retorne casado — exagerou.
— Não pode ser verdade... — Ela gemeu enquanto lágrimas brotavam em seus olhos.
— É verdade. Lorde Louis Motier arranjou a noiva para Phillip antes de morrer. Ela é filha de um rico Lorde escocês. Eles tinham relações políticas e combinaram o casamento há alguns anos.
— Então Phillip sequer conhece a moça?
— Foi para a Escócia para isso.
— Maldito Lorde!
— A quem se refere?
— Ao tio de Phillip, é claro! Que está morto e ainda lhe dirige a vida! — Ela esbravejou.
— Ninguém dirige a vida de Phillip. Ele foi porque quis.
— Oh, meu irmão! Sofro com esta notícia — lacrimejou.
— Não sofra. Aceite a verdade. Phillip nunca lhe deu esperanças — disse já condoído.
— Eu pensava que era por sermos jovens demais — lamuriou-se.
— Minha irmã... — Ele a abraçou. — Talvez fosse melhor não estar aqui para vê-lo chegar noivo, ou até mesmo casado — Alexandre arriscou dizer.
— O quê? E deixar de olhar Phillip e a escocesa nos olhos? Quero vê-los entrar por aquele portão — disse ressentida. — Também não perco o baile por nada. E meu irmão, há ainda a possibilidade de a escocesa ser tão feia que Phillip pegará o primeiro navio de volta, e sozinho.
— Não alimente esperanças. A moça é linda. Vimos o seu retrato.
Os olhos de Caroline flamejaram e todo o seu rosto ardeu em um rubor de fúria. Ela correu pelo jardim e subiu as escadas rapidamente.
Ah, irmã! Você não está com mais problemas do que eu — pensou ele.
***
Na manhã seguinte Alexandre saiu cedo, decidido a encontrar Joana. Foi até a entrada do bosque pelo caminho que sabia que ela costumava fazer e ficou por horas contemplando as árvores e aguardando algum movimento. Aflito com a sua demora, considerou que talvez ela não aparecesse naquele dia, por isso decidiu ir até a vila na esperança de encontrá-la, mas suas pretensões foram canceladas quando passou pelo vilarejo pobre dos camponeses.
Ele viu ao longe uma moça com um largo chapéu de palha que lhe escondia quase todo o rosto, mas algumas longas mechas de cabelos ruivos caíam-lhe sobre os ombros. Ela estava com uma cesta em uma das mãos e segurava os arreios de um cavalo branco com a outra mão. Estava próxima de algumas crianças e parecia lhes oferecer algo que retirava de dentro daquele cesto de palha. Ele firmou seus olhos no horizonte e aproximou-se, montado no Percheron negro.
Ele sabia que já tinha visto aquele vestido cinza, simples. Joana usara um igual no dia em que ele jantou em sua casa. Quando estava bem próximo a ela, uma das crianças olhou na sua direção e ela voltou-se para trás para ver quem se aproximava.
— Senhor Phillip? — perguntou muito surpresa.
— Senhorita — curvou gentilmente a cabeça.
— O que faz aqui?
— Pensei tê-la visto de longe quando passava para ir à vila — disse ele.
— Pensou certo. — Ela franziu o rosto. — Senhor Phillip, eu estou achando suspeito a frequência com que encontro o senhor subitamente.
— É pesaroso perceber como a senhorita fala isso com tanto dissabor — disse ele descendo do cavalo e aproximando-se dela.
— Já lhe disse que este é um pensamento equivocado que o senhor tem de mim. Não o desmereço, mas prefiro que fique afastado.
— Penaliza-me com a indiferença, que dói ainda mais do que o desprezo.
— Nem meu desprezo nem a indiferença deveriam causar algum mal ao senhor.
— Então confirma que são estes os seus sentimentos? — perguntou desapontado. Ela apenas o olhou e nada disse. — Mesmo o seu silêncio me revela indiferença — falou aproximando-se ainda mais dela.
— Eu imploro que pare de falar sobre sentimentos que não compreende. — Ela pediu.
— Meus sentimentos não são difíceis de entender, nem tão incoerentes quanto a senhorita julga. Fala dos seus próprios sentimentos? Sim, eu não os compreendo, mas posso lhe dizer que sinto que toda sua indiferença é tão ilógica que talvez seja apenas um disfarce. Ou a senhorita me odeia, e se for assim diga-me o porquê; ou a senhorita apenas ainda não se deu conta de que...
— Pare! Pare com isso, senhor Phillip. Muito mais sábio será fazer o que meu pai lhe pediu. Volte sua atenção para Sophie. Esqueça-me.
— É o que deseja? É o que realmente deseja? — Ele a olhava perturbado, com os olhos agitados, querendo tirar dela algo que lhe desse alguma esperança.
Joana nada respondeu. Subiu em seu cavalo e cavalgou com rapidez para longe dali. Alexandre a seguiu, percebendo que ela estava avançando na direção do bosque. Ela disparou tão rapidamente que o chapéu que usava voou de sua cabeça e caiu no chão. Compridos fios de cabelos ondulados e dourados agitaram-se com o vento em uma das imagens mais fascinantes que Alexandre já havia contemplado. Ele bateu com os pés contra o Percheron e sacudiu os arreios para o animal galopar com mais rapidez. Joana olhou para trás e viu que ele a acompanhava.
— Não me siga, senhor Phillip — gritou indômita.
Ela parou na entrada do bosque e desceu do cavalo. Alexandre parou junto dela logo em seguida.
— Eu pedi para não me seguir — disse ofegante e com os olhos ainda severos na sua direção.
— Não podia deixar que saísse daquele jeito. Tenho algo a dizer e peço que me ouça — suplicou; e vendo que ela não fez objeções, continuou: — Há algo na senhorita que me envolve. Não é algo que eu possa evitar. Eu a vejo e logo não posso mais controlar essa agitação que cresce em meu peito. Eu aprecio tudo na senhorita, mesmo quando me olha com irritação, ou quando finge que me ignora. Eu confesso que adoro quando fica ruborizada, como está agora. Confesso que fico sem ar e enfeitiçado quando a senhorita rebate todas as minhas perguntas com outras perguntas e me desafia; mas, acima de tudo, nada me deixou mais louco do que quando a vi sorrir. Sorria mais para mim, senhorita — pediu pousando sua mão levemente no rosto de Joana. — Sorria para mim e eu serei um homem mais feliz.
Joana estava aturdida com aquela declaração. O seu coração palpitava tão rápido em seu peito que parecia que estava pulsando também em sua garganta, dando pequenos socos que quase chegavam a doer. Os lábios tremiam discretamente e seus olhos estavam prestes a lacrimejar, mas ela continuava emudecida.
— Não diga nada, se não puder, mas me deixe senti-la perto de mim — Alexandre segurou as suas duas mãos e as trouxe para perto do seu peito, depois soltou uma das mãos e alisou uma mecha do cabelo de Joana, entrelaçando-a entre os dedos. Acariciou em seguida o seu rosto com suavidade enquanto Joana fechava os olhos em êxtase. Ele passou os seus dedos sobre os lábios dela e desejou beijá-la.
— Quero lhe pedir algo — continuou a falar. — Peço que a senhorita jamais esqueça de como estou agora em sua frente, rendido em meus sentimentos, mostrando-me como realmente sou. Não se esqueça de que agora me conhece verdadeiramente, pois sabe o que existe dentro do meu coração. Esse é quem eu sou. Nada em mim exala mais verdade do que esta minha declaração. Eu a amo profundamente, senhorita.
Joana ainda estava inerte, envolvida demais para reagir, as palavras não queriam vir até os seus lábios. Ela então fez algo que sempre fazia quando seus sentimentos se agitavam: ela correu. Disparou rapidamente para dentro do bosque e, desta vez, Alexandre não a seguiu.
Joana correu o quanto pôde, até ficar exausta, depois sentou-se recostada em um tronco de faia, sem se dar conta que perto dali havia duas letras desenhadas em uma das árvores. As iniciais J e A estavam cicatrizadas.
Ela ficou longos minutos rememorando as recentes palavras que ouvira. Jamais havia se sentido tão confusa quanto sentira-se naquele instante.