O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 13 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 13 - Revolta

— Apenas digo que informe a meu pai que aceito a sua proposta.

— O quê? — Ele endireitou o corpo e a olhou seriamente a fim de averiguar se havia entendido o que ela acabava de dizer. — Está dizendo que se casará comigo?

— Sim — assentiu, desviando os seus olhos dos dele.

— Por que quase nunca consegue me encarar, senhorita?

— Já lhe dei a minha resposta. Não deveria querer exigir mais.

— O que eu quero são os seus lábios dizendo que me ama.

— Casamentos arranjados quase nunca precisam que se usemos estas palavras. — Ela disse dando-lhe as costas e saindo do gabinete.

Ah! Eu sei que me ama, senhorita!

 

Capítulo 13 - Revolta

 

Joana saiu do gabinete do pai mostrando uma estranha tranquilidade.

Embora seu coração não se aquietasse dentro do peito, ela procurava não demonstrar isso à sua família. Em seguida Alexandre também saiu do escritório, ainda sem acreditar que tinha ouvido uma afirmativa de Joana. Sim, ele estava feliz, mas também muito perturbado, pois, por mais que acreditasse que ela também o amava, desejava que ela confessasse esse amor. Só assim sentir-se-ia menos culpado e plenamente feliz. A insegurança e o medo voltaram a consumi-lo e a torturá-lo assim que os planos de contar a verdade foram, mais uma vez, adiados.

Na sala todos da família Hour estavam emudecidos, esperando que Alexandre ou Joana dissessem alguma coisa. Os olhos de todos seguiam Joana, principalmente os de Sophie, mais curiosos do que qualquer outro naquele local.

— Senhor Hour. Sou muito feliz em dizer que a senhorita Joana aceitou o meu pedido — Alexandre enfim falou, ainda consternado, vendo todos ficarem boquiabertos. Ainda olhavam Joana, esperando dela alguma reação. Ela não esboçava qualquer atitude que pudesse exprimir o que estava sentindo.

— E você, minha filha, está feliz? — Anastasia perguntou sem mais poder esperar.

— O importante é que meu pai esteja — disse secamente. — Assim como você, mamãe, e as minhas irmãs.

— Dissimulada — Sophie falou em meio tom, mas que foi o suficiente para Joana ouvir. O rosto pálido de Sophie ganhava cada vez mais uma cor avermelhada, pelo sangue da raiva que lhe consumia.

— Por que me ofende, Sophie? — Joana a desafiou.

— É o que você é, Joana, uma dissimulada — disse com o rosto em brasa, depois encarou Alexandre. — Senhor Phillip, com certeza Joana está preparando algum plano para afastá-lo. É o que ela sempre faz. Não se sinta tão feliz. O último que aqui esteve também achou que Joana estava concordando com o casamento e saiu daqui tão abalado que jamais voltou — disse tremendo.

— Sophie. Não lhe demos permissão para intrometer-se nessa conversa, ou qualquer assunto que não lhe diz respeito. O único modo em que isso lhe afeta, é que agora poderá também se casar, em breve, depois de Joana — Frederico falou autoritário. Sophie bufou.

— Coitado do senhor. — Ela ainda disse olhando Alexandre. Os olhos de Sophie estavam vermelhos. Via-se que segurava um choro.

— Já basta. Retire-se para o seu aposento. — O pai ordenou.

Sophie atravessou a sala como um raio, subindo as escadas com batidas fortes no chão de madeira e trancou-se em seu aposento. Chorou raivosa debaixo de sua coberta, sentindo seu coração ferido pela rejeição e ciúme. Imaginou diversas vezes que seria ela quem se casaria com Phillip. Estava apaixonada.

Na sala, todos ficaram alguns segundos em silêncio e Frederico só voltou a falar quando ouviu a porta do aposento da filha bater com força.

— Perdoe-me, senhor Phillip. Infelizmente Sophie chegou a sonhar com a possibilidade de... o senhor sabe, já conversamos — Frederico desculpava-se constrangido.

— Não se preocupe, senhor — Alexandre quis aliviar a tensão.

— Estamos todos muitos felizes com a sua decisão, minha filha — Anastasia disse à Joana, sorrindo e segurando as mãos da filha.

— Não é uma decisão, mamãe, é um acatamento — disse ela com rapidez, sem pensar, e olhando para Alexandre viu como ele ficou mexido com aquela afirmação. Sentiu-se imediatamente arrependida por ser tão dura com ele. Alexandre ficou constrangido e voltou os olhos para o chão.

— Não seja tão desagradável, minha filha — Anastasia a repreendeu ao pé do ouvido. O pai apenas a encarou desgostoso.

— Então eu me sinto quase plenamente feliz. — Ele disse. Joana não ousou perguntar o porquê de ele não estar totalmente feliz, seria uma tolice, ela sabia o motivo.

— A partir de hoje você tem permissão para frequentar a nossa casa, senhor Phillip. Esperamos em breve marcarmos o jantar de noivado — disse o senhor Hour.

— Claro, com satisfação, agradeço — disse ainda pouco à vontade. — Dentro de três dias acontecerá o baile, então...

— Oh, é mesmo! O baile — Anastasia disse eufórica. — Dentro de três dias, já? — viu-se apressada.

— Sim — Alexandre confirmou e andou até onde Joana estava, segurando suas mãos como despedida. — Não vejo a hora de tê-la em meus braços em uma valsa — falou perto do ouvido dela e depois beijou sua mão. — Vou procurá-la como se estivesse em um jardim repleto de flores de todas as cores e espécies; mas só a minha doce e branca rosa desejarei encontrar — disse poeticamente, nas entrelinhas, enquanto Joana franzia o cenho, sem entender a referência.

No sofá, Amália e Rebecca suspiravam ao ver como era bonito e galante o noivo da irmã; e até mesmo Rebecca começou a idealizar que quando chegasse a sua vez, talvez tivesse um noivo tão belo e apaixonado como o que Joana encontrara.

 

***

— Joana, ainda está acordada? — Rebecca sussurrou certo tempo depois de apagarem as luzes dos castiçais.

— Estou sim, Rebecca. O que foi? — Joana cochichou de volta

— Não está feliz, mesmo?

— Do que está falando?

— Do senhor Phillip. Não está feliz em ser sua noiva? — perguntou novamente, mas ouviu o silêncio como resposta. — Joana?

— O que foi, Rebecca? — Joana suspirou fundo, mostrando que aquele assunto a incomodava.

— Eu acho que você deveria se sentir feliz. Você teve sorte, irmã.

— Ah, você também diz isso?

— Não! Não digo que tem sorte pelos mesmos motivos que nossos pais consideram a sua sorte. Não digo pela fortuna, mas sim pelo amor — declarou. Joana sentiu uma pontada no peito ao ouvir aquela palavra, “amor”.

— O que você sabe sobre o amor, Rebecca? — Joana achou graça.

— Eu não sei nada, mas o senhor Phillip a olha de um jeito... Acho que ele a ama — falou. — Ao menos é assim que imagino que um homem apaixonado olhe para a sua amada. Como nos romances... — suspirou.

— Você é muito romântica. Vamos dormir — Joana cochichou antes de abrir um verdadeiro sorriso em meio à escuridão.

***

 

Pela manhã Joana encontrou Sophie ao pé da escada. Ela descia para o desjejum quando a encontrou no caminho contrário. Sophie estava com os olhos inchados e vermelhos. Os olhos dela ainda queimavam irritados.

— Não pense que me engana, Joana — disse antes de subir alguns degraus.

— Seja mais direta — Joana falou com tranquilidade, parando em seu caminho e olhando para a irmã.

— Joana, cadê a sua fúria? A moça irritada que não deixava os pais lhe forçarem a nada que não quisesse? Onde está a minha irmã desafiadora, que disse que só se casaria com quem e quando quisesse? Para que lutar, não é mesmo? Enquanto os pretendentes eram velhotes viúvos a sua indignação era crescente, mas com um noivo jovem, bonito... e rico — frisou bem a palavra —, ficou fácil acatar as vontades do nosso pai, não é?

— Sophie, não quero irritá-la mais do que já está, mas não sou culpada, nem por ter nascido antes de você, nem por ser a mim quem o senhor Phillip quis escolher — Joana falou pausadamente. — Saiba que isso não me agrada e que tudo tentei para que fosse diferente, nosso pai chegou até mesmo a encurralar o senhor Phillip, dizendo que era você quem ele deveria querer. Então, não me culpe por isso — falou tentando não ser irônica e já ia pondo-se de costas quando Sophie voltou a falar.

— Ao menos, tente assumir que gosta dele — disse com raiva.

— Sophie, isso não lhe diz respeito.

— Você fez tudo de propósito — gritou enquanto gesticulava as mãos. — Fingiu que o desprezava só para vê-lo sentir-se desafiado a conquistá-la. O senhor Phillip me queria até você fazer seu jogo apenas por capricho.

— Capricho? Oh, mon Dieu! Você está apaixonada pelo senhor Phillip? — Joana constatou, arregalando os olhos.

— Isso não lhe diz respeito! — gritou.

— Tudo bem. Eu apenas sinto muito, de verdade — Joana disse ao encarar as lágrimas que já caíam livremente pelo rosto da irmã. — Não é assim como você pensa. Eu sempre quis, sim, e ainda quero a minha liberdade de escolha; e sempre lutarei por ela. Por hora, me sinto vencida! — Joana disse verdadeiramente.

— Não lutou tão bravamente — Sophie rebateu. — Nosso pai não a obrigaria se...

— Eu lutei sim... — interrompeu a irmã, depois deu-lhe as costas.

Eu lutei sim, minha irmã, mas não sou tão forte como imaginei ser. O que me venceu foi muito maior e mais forte do que a autoridade do nosso pai — pensou consigo.

***

 

Aquela conversa com Sophie a deixou triste e confusa. Não queria que Sophie sofresse por sua causa. Era mesmo culpada? Aquela era, provavelmente, a primeira desilusão amorosa da irmã. Essa era mais uma das razões pelas quais Joana lutava contra seus sentimentos. Nunca tinha visto de perto, mas sabia que muitas moças beiravam à loucura frente a uma rejeição, ou um amor não correspondido.

Não era bem o seu caso, ela era correspondida, ao menos sim, se permitisse que seu coração acreditasse nas palavras que outrora ele lhe dissera:

Eu a amo profundamente, senhorita — relembrou.

Há muito essas palavras ecoavam e ganhavam espaço em seu coração. Talvez não devesse mais ser tão dura com ele. Talvez devesse-lhe mostrar que não era tão indiferente... Talvez devesse falar tudo o que estava sentindo...

Sentiu uma grande necessidade de estar sozinha, escondida, como que esconder-se das pessoas, fizessem-na ficar escondida de seus próprios sentimentos. Foi à cavalariça e montou no cavalo, depois, rumou para o bosque de faias. Na maioria das vezes preferia caminhar até o bosque, mas, desta vez, quis estar no seu refúgio com urgência. Galopou com rapidez, sentindo o vento gelado bater em sua face e queimar a sua pele. O vapor quente que saía por sua boca formava nuvens esbranquiçadas à sua frente e a neblina baixa fazia o mesmo efeito sobre as campinas. Parecia que estava cavalgando sobre nuvens.

Chegou ao bosque, prendeu seu cavalo branco em uma árvore e adentrou pela estreita trilha. O coração ainda se agitava dentro do peito quando relembrava as palavras da irmã:

Ao menos, tente assumir que gosta dele.

Joana caminhou um pouco mais para dentro do bosque. Ainda não conseguia enxergar com nitidez, pois a copa das árvores e tudo um pouco mais distante dos seus olhos estava encoberto pela neblina.

Quando o sol começou a atingir com mais força o solo, lançou filetes de luzes por entre os galhos das faias. Era uma visão esplêndida, certamente digna da admiração e inspiração de um pintor. Joana lembrou-se quando ele lhe dissera que os pintores românticos deviam estar por ali, escondidos. “Assim, sem que você os veja, poderiam pintar sua beleza junto com as árvores” — foram as palavras dele.