O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 18 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 18 - Aqueles olhos

Antes deixe-me apresentar minha família. Minha esposa Anastasia, e minhas filhas Amália, Rebecca, Sophie e Joana — apresentou-as de acordo com a disposição em que estavam no sofá.

Joana, a moça a quem Alexandre se referiu — Patric atentou-se, admirado com a beleza dela.

A moça com quem dancei no baile! Sim, era este o seu nome, Joana! — Phillip recordou, olhando-a bem a fim de reconhecer nela os traços dos olhos e lábios, os quais tanto olhou enquanto dançavam.

 

Capítulo 18 - Aqueles olhos

 

As quatro filhas de Frederico Hour curvaram levemente a cabeça cumprimentando os irmãos Motier. Quando Joana levantou novamente o olhar, encontrou dois pares de olhos azuis a encará-la. Tanto Patric quanto Phillip olhavam-na sem discrição, o que prontamente foi percebido por Sophie, que acompanhou tudo com desagrado.

Phillip e Patric acompanharam Frederico Hour até o seu escritório e lá se acomodaram em poltronas dispostas ao lado de uma mesa, logo atrás de uma pequena biblioteca particular. O senhor Hour observou que os irmãos eram parecidos; tinham a mesma cor clara de pele, os mesmos olhos azuis de um tom raro, a mesma altura e a mesma cor de cabelo. No entanto, Phillip tinha o corpo mais robusto, forte, e sua voz era mais grave, falava manso e pausadamente, tinha um refinamento incomum. Patric, por ser mais novo, tinha a pressa nos gestos e palavras, era vibrante em sua alegria. Fisicamente tinha o corpo magro, os cabelos loiros e ondulados e uma vivacidade que se notava logo pelo seu olhar.

— Senhor... Hour — Phillip começou a conversa, falando pausadamente a fim de ganhar tempo para organizar suas palavras —, ontem, no baile... o que aconteceu foi muito...

— Chocante, odioso, repulsivo — Frederico recomeçou a sua lista de insultos.

— Calma, senhor. Sim, foi muito desagradável. O que quero lhe dizer, e por isso vim até aqui, é que isso ocorreu totalmente fora do meu conhecimento — disse Phillip.

— Não o questiono por isso, mas sim por ter em sua confiança um homem tão miserável e mentiroso como esse senhor... Alexandre — retorceu os lábios. — Sinto uma tontura só em citar este nome.

— O senhor Alexandre cometeu um grave erro — Phillip concordou. — Não pretendo retirar qualquer culpa que ele realmente tenha, mas não posso deixar de mencionar que esse ato me deixou completamente surpreendido...

— Alexandre — Patric o interrompeu — não é o tipo de homem que não inspire boa reputação. Ele é mais do que alguém de nossa confiança; é um amigo que estimamos desde a infância. Por isso não considero justo que o ofenda de tal maneira — disse serenamente ao senhor Hour.

— O senhor é que me ofende — Frederico avermelhou-se. — Tenho eu todo o direito de desferir minha indignação por esse homem, o qual o senhor chama de seu amigo. Ele enganou a mim e a toda minha família, passou-se pelo seu irmão, seduziu as minhas duas filhas mais velhas... — disse furiosamente dirigindo seu olhar à Patric.

— Aí está algo que ainda não entendi — disse Phillip. — Recordo-me que no baile uma de suas filhas chorava nos ombros da mãe. O que exatamente aconteceu com ela?

— Constranjo-me em dizer, mas... minha filha, inocente como é, foi seduzida e conduzida até um corredor de sua propriedade, onde foi beijada contra a sua vontade por esse senhor, Alexandre. Seu amigo não lhe contou?

Phillip recordou as palavras de Alexandre: “Antes de ir, deixe-me dizer que garanto que nunca fiz nenhum mal para aquela moça, Sophie. O senhor Hour queria que eu a desposasse, mas falei a ele que meu interesse era por sua filha mais velha”.

— Conversei com Alexandre ontem depois do baile — disse Phillip —, mas ele estava muito nervoso, então não nos aprofundamos na conversa. Senhor Hour, como é o nome da sua filha mais velha? Joana?

— Sim, minha filha mais velha se chama Joana. E ela estava praticamente noiva desse impostor — Frederico enraiveceu.

— Noiva? — Tanto Phillip quanto Patric surpreenderam-se com a revelação. Alexandre ainda não havia dito nada sobre isso. — O senhor está me dizendo que Alexandre estava comprometido com sua filha Joana, mas foi surpreendido beijando sua outra filha... Sophie? — Philip perguntou.

— Sim, é exatamente o que lhe digo e é toda a verdade. Ainda acha pouco a minha indignação? Outro homem em minha situação lavaria a honra de suas filhas com sangue — irritou-se.

Phillip passou as mãos pelos cabelos e encarou Patric, que estava com os olhos arregalados e igualmente surpreso com a revelação.

— Senhor Hour. Eu estou perplexo com o que acabo de ouvir. Eu não quero questioná-lo ou duvidar da sua palavra, mas isso não parece em nada com algo que Alexandre faria — disse Patric.

— Mas fez! Você custa a acreditar porque ele o enganou tão bem quanto enganou a mim, minha esposa e filhas.

— Alexandre confessou que se passou, por um certo tempo, pelo meu irmão — disse Patric —, mas certamente seu desejo era revelar tudo. Alexandre se desculpará por isso. Ele é um homem honesto, eu lhe garanto. Quanto a essa questão do baile, deve haver alguma explicação que ele possa dar para se justificar — Patric insistiu, atendendo ao pedido de Alexandre.

— Pois que nem tente! Não quero ouvir nada vindo da boca daquele homem. Qualquer chance que eu pudesse dar para ouvi-lo seria aproveitado por ele como mais uma forma de nos enganar.

— Desculpe, senhor Hour, mas eu não concordo! — Patric ousou dizer. Sendo acertado por um olhar duro de Frederico e outro surpreso, de Phillip. — Se Alexandre errou, não foi por leviandade. Queira desculpar-me mas devo me retirar e deixar meu irmão resolver essa lamentável ocorrência — disse saindo do escritório e sendo acompanhado pelo olhar de recriminação de Phillip.

— Perdoe-me, senhor, pela atitude de meu irmão. Ele e Alexandre são muito amigos.

— Deveria orientar seu irmão quanto a isso. Que péssima amizade!

— Diga-me, senhor Hour, como tudo aconteceu?

Frederico contou tudo, desde o dia que receberam Alexandre para o jantar achando que ele fosse Phillip. Contou sobre a entrega do convite, a visita que ele fez à propriedade Motier e na qual Alexandre não usou a oportunidade para desfazer o mal-entendido. Falou sobre Joana e como era teimosa e irredutível em não aceitar qualquer casamento que lhe fosse imposto. Por fim, falou de Sophie, do seu interesse por Alexandre, da suposta falta de interesse de Alexandre por ela e depois de como Joana acabou cedendo ao pedido do pai e aceitando se casar. Narrou como surpreendeu Alexandre e Sophie beijando-se e detalhou tudo o que a filha contara a todos, mencionando inclusive o broche de flor como presente.

— Mal posso acreditar que tudo isso aconteceu em apenas três meses — disse Phillip aturdido assim que Frederico terminou de narrar os fatos conforme sua perspectiva. — Então, sua filha Joana não desejava casar-se com Alexandre?

— Como eu disse, ela não queria se casar com qualquer pretendente que fosse escolhido por mim, mas mesmo não querendo ela enfim havia aceitado. Agora usará o ocorrido a seu favor, para recusar qualquer outro futuro pretendente — lamentou-se.

— Eu poderia falar com as suas filhas apenas um minuto? — Phillip pediu. — O senhor poderá nos acompanhar, claro.

— Senhor Phillip, não precisa preocupar-se em se desculpar com Joana ou com Sophie. O senhor não foi culpado por tudo o que aconteceu. Sua culpa apenas foi depositar confiança em quem não a merecia.

***

Assim que Patric saiu do escritório, passou pela sala e encontrou as filhas de Frederico Hour e a esposa Anastasia, sentadas no mesmo lugar em que estavam quando entrou. Ele curvou a cabeça e saiu da casa sem dizer nada. Ficou irado pela forma com que o senhor Hour falou de Alexandre. Ele conhecia bem o seu amigo, o suficiente para saber que ele não agiria de tal com maldade ou para se aproveitar das filhas de Frederico. Havia uma explicação, disso ele estava certo.

— Senhor Patric... — Alguém o chamou quando já estava do lado de fora da casa, atravessando o jardim.

— Sim. — Ele voltou seu olhar para trás e encontrou uma das filhas do senhor Hour. Era Rebecca.

— Desculpe vir atrás do senhor, mas há algo que preciso que diga ao senhor Alexandre — Rebecca pediu.

— E o que é? — Ele lhe deu toda a atenção.

— Diga-lhe que Joana não é indiferente a ele. Ela não admite, mas sou sua irmã e sei que está sofrendo.

— Diga-me, a senhorita também acredita que Alexandre é um mau-caráter, aproveitador?

— Eu não sei o que pensar, ele mostrou ter sentimentos verdadeiros por Joana, mas não posso negar que a sua mentira nos chocou muito — revelou, olhando dentro dos olhos de Patric.

— E afinal, por que a senhorita acha que ele mentiu?

— Senhor, meu pai estava desesperado para casar Joana. Ela é a mais velha de todas nós e já havia recusado muitos pretendentes. Minha mãe quis mais do que tudo acreditar que aquele homem à nossa porta era Phillip Motier. Acho que Alexandre percebeu isso e quis se aproveitar da situação para se casar com Joana, porque se apaixonou por ela — falou de forma doce e apaixonada.

— Então a senhorita não o culpa? — admirou-se.

— O culpo apenas por não ter dito a verdade logo. E não compreendo por que ele beijou Sophie no baile... — disse aturdida, pressionando os lábios.

— A senhorita também estava no baile...? — Ele a surpreendeu com aquela pergunta que mais parecia uma afirmação. Olhava agora diretamente para um sinal de nascença que Rebecca tinha no braço direito. Era um sinal grande, de cor castanha.

— Eu.... Não. Não tenho idade ainda para frequentar festas na sociedade — ruborizou.

— Pensei tê-la visto — disse ele.

— Como poderia? Era um baile de máscaras.

— Sim, mas a senhorita não estava de luvas — disse ele.

— Como? Luvas? — Ele apenas olhou novamente para o braço de Rebecca e ela logo entendeu. — Oh.

— Por que mentiu?

— Minha mãe orientou a mim e minha irmã, Amália, a não falarmos que estivemos no baile. Nós ainda não debutamos — baixou os olhos envergonhada.

— Entendo — limitou-se a dizer. — Fale para sua irmã que Alexandre sofre com o que houve e tentará uma forma de se desculpar — disse Patric, e em seguida se despediu rumando para a caleça que estava no outro lado da rua.

Que moça agradável. Pena não ter as feições delicadas, como as irmãs. Por pouco não dançamos no baile. Então foi por isso que ela recusou a dança? — riu e lembrou-se de como ela havia procurado uma desculpa para recusar a dança e depois saiu apressada acompanhada de outra moça e mais duas pessoas, que certamente eram seus pais.

Rebecca voltou para casa confusa. Como ele havia conseguido perceber o seu sinal no baile? O salão não era tão bem-iluminado assim e ela falou apenas com uma pessoa, sem contar as irmãs e os pais, o jovem que a convidara para dançar e ela precisou recusar.

Será ele? Será o jovem dos singulares olhos azuis? — Rebecca suspirou sentindo o coração saltar no peito.

***

Phillip saiu do escritório ao lado de Frederico e juntos foram até a sala. Desta vez, foi Joana quem examinou o rosto de Phillip. Ao prestar atenção especialmente em seus olhos e lábios ela não teve mais dúvidas de que fora com ele que dançara no baile. Mesmo que já houvesse lido várias vezes aquele nome em seu cartão de baile, foi curioso constatar a grande coincidência que foi terem se encontrado no salão, entre tantos outros presentes.

— Quero convidá-los para um jantar em minha propriedade amanhã, se puderem — Phillip convidou, quebrando o silêncio e esperando uma resposta de Frederico.

— Senhor... Eu aceitaria com muita alegria, mas... certamente encontrarei lá aquele senhor...

— Alexandre? — inquiriu Phillip, já sabedor da resposta.

— Sim, e não quero aborrecer-me ou expor as minhas filhas a encontrá-lo novamente — falou ele. O coração de Sophie bateu mais forte com a possibilidade.

— Tudo bem. Não quero constrangê-los — disse Phillip.

— O senhor é nosso convidado sempre que desejar voltar a essa casa — Anastasia disse a Phillip.

— Muito obrigado, Madame. Até mais — disse ele olhando para as irmãs Hour, e demorando-se principalmente em Joana.

Como são lindas. Quase começo a entender quais os motivos da mentira de Alexandre. — Ele pensou passeando os olhos em Joana e Sophie.

***

— Querido, não devia ter recusado um convite desses. Não se deu conta? Recusou um convite de Phillip Motier, o verdadeiro desta vez! — Anastasia o recriminou em bom tom.

— Estou tão farto dessa história que nem pensei direito.

— Não se esqueça que temos quatros filhas, e duas em idade de se casar. Se Joana voltar a recusar um pretendente, devemos casar Sophie e depois Amália. Veja bem, Phillip tem ainda outro irmão, além desse que esteve aqui com ele hoje.

— Deste eu já não gostei — disse Frederico Hour.

— Alguma razão especial? — Ela quis saber.

— É amigo daquele farsante e tentou protegê-lo. O senhor Phillip disse que foram todos criados juntos em Paris. Sendo um Motier ou não, começo a pensar se todos eles não têm o mesmo caráter.

— Oh não, querido! O senhor Phillip pareceu-me um jovem tão encantador, educado. Penso que deveria reconsiderar e mandar hoje mesmo um bilhete aceitando o tão gentil convite que ele nos fez.

— Farei isso — concordou entre um suspiro —, pelo bem de nossas filhas e de nossa família. Mas para mim será uma grande afronta ter que colocar meus olhos novamente naquele senhor...

— Precisaremos lidar com isso por hora — disse a esposa.