O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 25 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 25 — Mágoas e mais sentimentos

Patric deu espaço para Alexandre passar. Ele perpassou pela sala como um vulto e, ao descer as escadas que davam acesso ao jardim, encontrou Phillip, que vinha na direção contrária. Por pouco não se esbarraram.

— Aonde vai? — Phillip perguntou, descendo alguns lances que já havia subido e indo atrás do amigo. Ele franziu a testa, percebendo claramente a intenção de Alexandre. — Não deve ir... da forma como está, atrás da senhorita Joana...

— Não me diga o que devo fazer! — Alexandre lhe lançou um olhar furioso e deu-lhe as costas, rumando para a cocheira de onde Joana acabava de sair.

— Alexandre! — Phillip gritou, balançando a cabeça em reprovação.

 

Capítulo 25 — Mágoas e mais sentimentos

 

O cocher escovava os pelos de um dos cavalos quando Alexandre chegou acelerado. Sem voltar os olhos para o funcionário ou lhe dirigir uma palavra, ele foi até onde estava o Percheron e o conduziu para fora da baia.

— Senhor Alexandre. — O homem o chamou.

— René, desculpe, não posso falar agora. — Ele ignorou o chamado e montou o animal.

— Senhor, mas há algo que preciso lhe perguntar — René insistiu.

— Podemos falar quando eu voltar, sim?

— A senhorita que acaba de sair daqui — o cocher começou a falar —, o seu nome é Joana? — Alexandre parou imediatamente ao ouvir o nome mencionado.

— Sim — prestou mais atenção ao que o homem dizia.

— Senhor, esta é a moça a qual certa vez o senhor pediu-me para enviar um bilhete e um pequeno embrulho?

— Sim, é essa a moça, não a reconhece? — disse irritado. — Seja breve, René, preciso sair com urgência.

— Senhor, não foi para essa moça a quem entreguei o que o senhor mandou. Era outra moça, e embora até se parecesse com esta, era uma mais jovenzinha — disse ele gesticulando. Alexandre parou no ato.

— O quê? René, eu não lhe disse para entregar somente para a senhorita Joana? — exasperou-se.

— É daí que vem toda a minha confusão, porque a moça disse que se chamava Joana — revelou o homem.

— Sophie! — Alexandre fechou a expressão e quase gritou, batendo com os pés contra o cavalo, o conduzindo para fora da propriedade Motier.

***

O Percheron galopava a toda velocidade. Alexandre estava enraivecido por ter a confirmação de que Sophie havia mentido sobre o broche. Seus olhos procuravam Joana à frente, no caminho. Precisava encontrá-la e contar a ela toda a verdade. A estrada que passava em frente à propriedade Motier conduzia até o prado, onde ultrapassando o riacho, via-se à esquerda o bosque de faias e, à direita, algumas colinas. Foi nesse trecho que encontrou Joana, que ia devagar, quase a passeio com o seu cavalo.

Ela praticamente deixava que o animal a conduzisse, perdida em seus pensamentos não colocava atenção na paisagem. Quando ouviu um trotar de cavalo atrás de si ficou pasmada ao encontrar Alexandre. Ele a alcançou e, posicionando seu cavalo ao lado do dela, pôs-se a olhá-la. Nada disseram por alguns segundos. Ela olhava fixamente para frente, ignorando a sua presença, mas sentindo-se grata por ter onde se sustentar, devido à fraqueza que sentiu ao vê-lo.

— Senhorita — chamou-a enfim, com a voz em súplica —, olhe para mim. Dê-me a oportunidade de uma palavra... — Alguns segundos mais transcorreram e ela ainda olhava o horizonte. Joana tomou à frente e atravessou o pequeno riacho, procurando se afastar dele. — Joana — Alexandre tornou a chamá-la. Ela sentiu uma vibração no peito ao ouvi-lo pronunciar o seu nome com tanto carinho e intimidade. — Prefiro mil vezes a ouvir desferindo palavras irritadas para mim do que esse silêncio torturante. Prefiro vê-la revidar todos os meus argumentos, criticar os meus modos, qualquer coisa, a ser ignorado. Qualquer coisa, a vê-la sofrer — disse ele.

— Sofrer? — Ela disse, ainda sem olhá-lo. — Por que acha que sofro? O que sua presunção enxerga em mim? — perguntou com o atrevimento que lhe era comum, e também com o ressentimento que a dominava.

— Não é minha presunção, é o meu amor. — Ele a atingiu com aquela declaração. — Meu amor aprendeu a enxergá-la muito melhor do que enxergo a mim mesmo.

— A palavra amor proferida por seus lábios soa banal. — Ela finalmente o encarou. Os lábios tremiam. — Conheço pouca coisa sobre o amor, mas posso supor que ele não é indecente, nem age com desonestidade.

— Sim — concordou imediatamente. — É assim o amor que a senhorita merece, mas também não sou experiente nessa questão, o amor é algo novo para mim, e percebi que ele é contraditório — expunha com sinceridade, buscando os olhos de Joana. — Não fui honesto em dizer meu nome desde o início, mas isso é tudo! Mas meu amor nunca foi indecente. Eu compreendo que não consiga acreditar em mim com facilidade, mas juro que sempre fui honesto quando falei sobre os meus sentimentos pela senhorita, os mesmos sentimentos que me fizeram perder a coragem, mesmo quando eu sabia que contar tudo era o certo a fazer...

— Então fala sobre sentimentos que o levaram a mentir? A enganar a mim e Sophie? — questionou-o com os olhos inflexíveis, intensos, mas também torturados pela mágoa.

— Não! Não! — agitou-se. — Juro que não.

— Deixe-me ir em paz. — Ela pediu sentindo os olhos marejarem. Olhou para o lado oposto para que ele não percebesse sua fraqueza. Seus lábios tremiam nervosamente, pensou se era o frio que estava fazendo aquilo consigo, mas, em seu íntimo, sabia que não.

— Eu não posso deixá-la ir sem antes lhe dizer toda a verdade.

— A verdade? — Ela riu com escárnio e voltou a encará-lo. — Há algo que saia de sua boca que exale esta qualidade? — inquiriu, esforçando-se para manter firmeza em suas palavras.

— Não me importo que seja dura comigo — disse ele. — Sei que mereço.

Alexandre percebeu que estavam próximos ao bosque. Não sabia se tinham conduzido seus cavalos até ali, ou se os animais é que os tinham levado. Aproximou-se o mais que pôde dela e tentou tocar-lhe as mãos. Ela sobressaltou-se e o cavalo também se assustou com o gesto brusco que Joana havia feito.

— Deixe-me! — gritou ela. O animal parecia absorver todo o nervosismo de Joana e ficou irrequieto. Ele ergueu suas patas dianteiras e por pouco ela não perdeu o equilíbrio. Alexandre saltou rapidamente do Percheron e tomou os arreios do cavalo montado por Joana.

— Calma — disse ele alisando o pescoço do animal. — Joana — tornou a chamá-la apenas pelo primeiro nome —, prometo que se me ouvir, a deixarei ir... — Ele lhe estendeu a mão. Ela hesitou por um breve momento e ignorou a mão estendida. Saltou sozinha do cavalo e pôs-se a andar.

— Seja breve, senhor... Seja muito breve — disse-lhe tensa. Ele a seguiu a pé, segurando os arreios dos dois cavalos. Uma chuva fina começou a cair e o frio tornou-se ainda mais intenso.

— Há tanto para ser dito — ofegou. — Mas se me desse apenas uma palavra, eu lhe diria perdão. Perdoe-me por não ter dito quem eu era assim que tive a oportunidade. Perdoe-me por deixar o medo de perdê-la falar mais alto do que meu juízo. Perdoe-me por esse ato impensado, imprudente, mas que foi regido pelo sentimento que lhe tenho — disse-lhe com os olhos úmidos, caminhando atrás dela.

— E isso é tudo? — disse ela, sentindo o coração saltitar com força, como jamais imaginou ser possível. — Acha que isso é tudo? — proferiu nervosa virando-se para encará-lo.

— É tudo — garantiu ele. — Eu lhe juro que isso é tudo. Todo o meu pecado se resume a isso, e nada mais.

— Nada mais? — riu nervosa. — Nada mais!? E quanto aos seus outros pecados, senhor, pedirá perdão diretamente à Sophie? — olhou-o com severidade.

Alexandre ainda não a tinha visto tão irritada, mais do que isso, ela estava completamente furiosa. Ele prendeu rapidamente os cavalos a uma árvore e precisou ser ágil para acompanhá-la. Joana entrava no bosque e caminhava ligeira entre as faias, que os abrigava um pouco do recente chuvisco que caía.

— Senhorita, sua irmã... — ele procurou as palavras para não a ferir —, ela mentiu.

— Sophie mentiu? — Ela girou o corpo e voltou a acertá-lo com mais um olhar hostil. — O senhor mentiu! — gritou. — O senhor é o enganador! O senhor! — Ela gritava. Parou de caminhar e respirou algumas vezes descompassadamente, ofegando. O subir e descer do seu peito era visível. Alexandre sentiu vontade de abraçá-la.

— Ela mentiu. — Ele voltou a dizer. — Por mais doloroso que seja para mim lhe dizer isso, e que certamente seja para a senhorita ouvir... Sophie usava o broche de flor no baile — disse ele. Joana franziu o cenho ao ouvi-lo falar do broche.

— O broche que o senhor mandou para ela! — disse em bom tom. As palavras evaporaram junto com o ar quente que saía de sua boca.

— Não, o broche que mandei para a senhorita! Que mandei para você, Joana.

— Não — ela balançou a cabeça —, Sophie disse que o senhor mandou o broche como presente para que pudesse identificá-la no baile; e lá se declarou, dizendo que estava arrependido de tomar minha mão em noivado, pois não merecia uma noiva com tão frios sentimentos — relembrou com dor as palavras da irmã. Alexandre estava chocado. Ficou alguns segundos inerte antes de voltar a falar.

— Joana... — sacudiu a cabeça atordoado —, ela mentiu... — disse introspectivamente. Era realmente doloroso ter que dizer aquilo para ela. — Sophie mentiu. O broche era para você, Joana. Meu beijo era para você. Meu amor e tudo o que tenho de melhor, sempre foi para você. Desde o dia em que a vi neste bosque, e quando tornei a vê-la em sua casa, a cada vez que meus olhos tiveram a graça de encontrar com os seus, que tenho feito de tudo para lhe provar que eu a amo com empenho, com ardor. Eu jamais teria beijado a senhorita Sophie, se não pensasse que fosse você.

Os olhos de Alexandre não conseguiam mais segurar as lágrimas. Algumas gotas rolaram em sua face e ficaram depositadas sobre sua boca. Ele as sorveu sentindo o gosto salgado do desconsolo. Joana o olhava aturdida, completamente confusa. Por mais que seu coração quisesse acreditar no que ele dizia, por mais que Alexandre lhe parecesse completamente sincero, não era fácil ter que aceitar que a irmã poderia ter feito aquilo com ela e consigo mesma, rebaixando-se ao nível mais sórdido do desprezo. Novas lágrimas verteram dos olhos de Alexandre, mais pesadas, mais insistentes. Joana olhava-o de uma forma diferente, e em seu interior uma luta era travada: ou acreditava nele, ou em Sophie.

— Juro que faria qualquer coisa para jamais provocar esse sentimento na senhorita, sei que a fiz sofrer — tornou a dizer. Deu alguns passos na direção de Joana e segurou suas mãos. — Se acreditar em mim serei um homem um pouco menos infeliz.

Joana emudeceu. Seu pensamento girava, viajando por aqueles meses, perpassando cada diálogo que teve com Alexandre, cada encontro. As mãos dele ainda seguravam as suas. Ela não tinha vontade de se livrar delas. Olhava os olhos negros de Alexandre, molhados pelas lágrimas, e sentia vontade de colhê-las com as pontas dos dedos. Sentia-se enlevada pelos seus sentimentos. Seus olhos enterneceram. Joana suspirou e uma discreta lágrima correu em sua face. Alexandre alisou seu rosto e enxugou a lágrima, contornando seus lábios, admirando suas sardas, depois, segurou o seu queixo com as pontas dos dedos. Seus lábios estavam dormentes, o coração estava acelerado. Experimentavam sensações que eram comuns aos dois. Ele piscou brevemente e no instante seguinte estava com os lábios colados aos dela.

Assim que sentiu o toque quente dos lábios de Joana nos seus, pensou que estava delirando, ela não havia recuado, também fechara os olhos. Os segundos pareceram correr lentamente. Estavam transbordados de emoção. Ele beijou-lhe os lábios com carinho e trouxe as duas mãos dela para junto do seu peito, sorriu e abriu os olhos, olhando-a com todo o encanto que a beleza inebriante dela lhe proporcionava.

— Como é linda! — disse ele. — Eu ficaria para sempre contemplando seus olhos, seus lábios. Eu a amo tanto!

Joana estremeceu, seus lábios permaneceram entreabertos, trêmulos. Ela não conseguiu proferir nenhuma palavra, mas parecia que estava prestes a desmaiar a qualquer momento. Toda aquela felicidade, angústia, vontade de sorrir e também de chorar ao mesmo tempo, só podia significar uma coisa. Já era completamente impossível de negar a si mesma que também o amava de forma muito intensa. Apesar do frio, o seu coração ficou aquecido.

Então, como se tivesse caído em si, seus olhos ternos mudaram de expressão e voltaram a ficar agressivos. Ela deu alguns passos para trás, para se afastar, enquanto mais lágrimas rolavam de seu rosto.

— Posso ver em seus olhos que ainda duvida dos meus sentimentos — disse ele. — Isso me fere como um punhal em meu peito, mas eu não ousaria culpá-la por pensar o pior de mim — disse com sofrimento em sua voz.

— Faria diferente se pudesse voltar o tempo? Teria sido sincero? —

Ela perguntou. Sua expressão agora denotava sofrimento.

— Eu gosto de acreditar que fui o mais sincero que pude — disse ele.

— Sincero? Como pode dizer que foi sincero?

— Ao exprimir meus sentimentos, sim, fui. Jamais quis me passar por Phillip. Juro que era meu desejo desfazer todo o mal-entendido tão logo ele foi instaurado.

— E não desfez, por quê?

— Não posso me arrepender de tentar aproximá-la de mim. Não posso me culpar pelo o que fiz, pois tudo foi levado pelo desejo de ser correspondido... E pelo medo de perdê-la antecipadamente. Mas ainda assim, me culpo — disse confuso. — Culpo-me, mas abençoo o destino que...

— Não fale em destino — ela o interrompeu —, foram as suas escolhas, não o destino que nos fez isso! E como espera que eu acredite em sua palavra? Coloca Sophie em posição de malfeitora, diz-me que minha irmã é mentirosa... Diga-me, como acreditar em quem faltou com a verdade desde o início?

— Eu não sei — respondeu ele, decepcionado. — A verdade está aqui, é como o amor que sinto, mas que não posso ver, apenas senti-lo pulsar em cada parte do meu corpo. É uma graça invisível, precisa acreditar para fazer sentido.

— Quer que eu acredite no senhor, assim, como se fosse algo puramente simples?

— Eu gostaria que acreditasse, mas sei que isso exigiria censurar sua irmã, sei que não é algo que faria com alegria.

— Quer me convencer que Sophie roubou o broche que o senhor enviou para mim, e friamente calculou toda aquela situação apena para...

— Senhorita, eu tenho uma testemunha. René, o cocheiro de Phillip, poderá lhe dizer. Eu entreguei a ele um bilhete junto do broche e pedi que entregasse a você. Ele foi à sua casa e encontrou a senhorita Sophie à porta. Sem saber quem ela era, ele perguntou pelo seu nome e ela disse-lhe que se chamava Joana. No bilhete eu pedia que usasse o broche para poder distingui-la entre todas as moças naquele baile. Andei por aquele salão à procura de uma jovem que estivesse com o broche, confundi-as por culpa desse detalhe. Ao dançar com Sophie, pensava ter você em meus braços e ao beijá-la pensei que eram seus lábios que tinha entre os meus. Eu não sabia que era Sophie, mas ela sabia quem eu era. Enquanto dançávamos falei da minha alegria de vê-la usar o broche, enquanto ela permanecia muda. Havia escrito meu nome no cartão de baile dela, pensando que fosse o seu, e escrevi meu nome, não o de Phillip. Aquele era o momento que reservei para nós, para lhe contar a verdade e pedir seu perdão.

Ao terminar de contar tudo, Alexandre viu que dos olhos de Joana vertiam Lágrimas doloridas. Lembrou-se de quando a viu no bosque chorando, e como sentiu desde aquele momento o desejo de reconfortá-la. Agora era ele o causador de suas lágrimas, mas não apenas ele, Joana chorava a decepção que a irmã lhe causava. Sentia-se decepcionada pois acreditava e duvidava daquela história em iguais proporções.

Uma neve mansa começou a cair, e cada floco gelado misturava-se à sua pele quente, umedecida pelo choro.

Alexandre retirou seu casaco e fez menção de abrigá-la do frio, mas ela recuou alguns passos.

— Eu não consigo acreditar no senhor — disse tentando se acalmar. — Sophie é mimada, muitas vezes é egoísta, mas não sórdida, não mau-caráter a esse ponto — procurava convencer a si mesma do que dizia. Queria acreditar na inocência de Sophie, mas não queria duvidar da sinceridade de Alexandre.

Ela apoiou-se em um tronco de faia e abaixou a cabeça, negando para si mesma que a irmã poderia ter agido de tal forma. Tornou a elevar seus olhos e viu, ao lado da árvore na qual se apoiava, as iniciais de seus nomes. As letras J e A estavam juntas e cicatrizadas, mas ela não sabia se o seu coração também poderia cicatrizar algum dia.

— Por que gravou sua inicial na árvore? — perguntou ela. Ele sorriu ao ver que ela tinha notado.

— Eu a gravei antes do baile. Estava aflito, não sabia o que fazer. Só pensei em vir para cá... Assim como é para a senhorita, este bosque tornou-se o meu refúgio — disse ele. Joana elevou seus olhos para os dele.

— O senhor roubou o meu refúgio, senhor Alexandre — proferiu o nome dele pela primeira vez, ato que foi percebido imediatamente pelos dois. — Antes do senhor aparecer, eu tinha os meus aborrecimentos, mas podia resolvê-los facilmente. O senhor tirou-me a liberdade de uma tarde à sombra das faias, tirou-me o gosto pelos livros, tirou a minha concentração... O senhor tirou de mim as minhas certezas... — Mais lágrimas escorriam por sua face.

— Joana — chamou-a com a voz embargada —, daria a você a minha liberdade, daria a você todas as minhas tardes, minha paz, minha concentração... Daria tudo o que pudesse para vê-la sorrir. Eu só não posso lhe devolver as suas certezas... Elas são totalmente mutáveis, basta estar vivo para mudar de opinião... Eu mesmo jamais imaginei que houvesse um sentimento tão grande como o que sinto hoje. Se suas certezas mudaram, é porque novos sentimentos lhe despertaram essa mudança... Jamais estamos certos o tempo todo... E nada permanece igual para sempre...

Ele se aproximou dela, ficando novamente muito próximo do seu rosto. Joana percebeu que era difícil estar tão perto do rosto dele e olhá-lo nos olhos ao mesmo tempo. Desviou o olhar para baixo e viu quando Alexandre retirava do casaco e lhe estendia uma carta. Era a que havia escrito enquanto via Joana e Phillip juntos no jardim.

— Esta carta é para a senhorita — disse ele.

— Quantas mentiras cabem em uma carta? — Ela deu-lhe as costas e rumou para fora do bosque.

— Joana! Joana! — Alexandre a seguiu, chamando-a insistentemente, ainda com a carta em mãos. Ela parou para desamarrar seu cavalo que estava preso à arvore. — Joana, vai ficar mais fácil quando admitir que me ama! — disse ele com a voz carregada de emoção. Ela parou instantaneamente, o acertou com um olhar incerto e montou no cavalo.

— Vai ficar mais fácil quando o senhor sumir da minha vida! — replicou. Alexandre teve pouco tempo para colocar a carta em um bolso lateral do casaco que ela vestia.

Ele a viu se afastar e não pôde deixar de sorrir, não que estivesse plenamente feliz, mas sorria por ter, ao menos que por alguns minutos, a sua irritada Joana de volta. Isso sem mencionar a felicidade que sentia por tê-la beijado. Fechou os olhos e inspirou o ar gelado, os flocos de neve ainda caíam, mas não conseguiam de forma alguma vencer o calor que se instaurara em seu peito.