O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 14 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 14 - O baile

Suspirou pesadamente e descansou o corpo em um tronco de faia. Olhou para o alto e contemplou aquela linda e gigantesca árvore. Passando seus olhos pelo tronco viu um desenho entalhado. Não demorou muito para perceber que era a inicial que havia esculpido no dia que foi surpreendida por “Phillip” no bosque. No entanto algo mais chamou sua atenção, havia ali outra inicial junto da que ela tinha desenhado no tronco. Ao lado do J, a letra A fazia-lhe companhia.

 

Capítulo 14 - O baile

 

No jardim da propriedade Motier, várias tochas iluminavam o caminho do portão até o alto da escadaria de pedras, onde mais de dez criados vestidos com muito refinamento faziam a recepção dos convidados.

Phillip estava em seu aposento e olhava para seu traje deixado sobre a cama por uma das camareiras. Ele viu através da janela que algumas caleças já adentravam os grandes e pesados portões de ferro da residência e sentia-se satisfeito com a decisão de ter optado por um baile de máscaras. Detestaria se todos soubessem quem ele era e, por conta disso, ficassem com dissimulações e lisonjas exageradas. As mães atirariam as filhas em seus braços, os homens o prenderiam em assuntos enfadonhos sobre política, religião e negócios.

Um baile de máscaras foi uma decisão acertada. Apresento-me apenas para quem eu desejar — sorriu.

Alguns aposentos à frente, naquele mesmo corredor, Caroline olhava-se no espelho. Tinha escolhido um vestido vermelho de tecido leve, mangas curtas e decote que evidenciava o colo. Usava também luvas e um xale, pois o clima estava gelado. Ela se certificou de que não havia ninguém no corredor, colocou sua máscara negra com pedrarias nas laterais e foi apressadamente até o salão do baile. Seus olhos se encheram ao admirar o ambiente ricamente decorado e iluminado com muitos castiçais presos à parede, que gerava de forma primorosa uma nuance de luz e sombras.

Mais cedo, ela tinha ido à sala das camareiras com o pretexto de checar se o seu vestido e a roupa do irmão estavam impecáveis. Caroline espiou os demais trajes que estavam sendo cuidados pelas criadas e viu, além do Frock Coat cinza de Alexandre, mais três trajes masculinos. Prestou muita atenção nos detalhes daquelas peças, pois sabia que uma delas seria a de Phillip, e as outras certamente eram de Johan e Patric.

Phillip, irei fazer com que se apaixone por mim esta noite — idealizou.

***

Na casa dos Hour, todos já estavam prontos dentro da caleça, aguardando Sophie para seguirem viagem até a propriedade Motier. Aquela era uma caleça para quatro pessoas viajarem confortavelmente, por isso sempre que precisavam ir a algum evento juntos, iam todos espremidos. Em poucos minutos Sophie apareceu esplendorosa com seu vestido branco. A peça tinha apenas pequenas nuances cor-de-rosa nas laterais, e na fita presa à cintura.

— Que primor! — exclamou Anastasia ao ver a filha. Sophie sorriu e tomou seu lugar na caleça, que logo começou a se movimentar.

— Estou tão feliz com esse baile mamãe — Rebecca dizia animada, segurando sua máscara entre os dedos.

— Não se esqueça de que ninguém pode sequer imaginar que todas vocês vão ao baile. Tomem cuidado com quem irão conversar ou dançar — disse olhando para as filhas mais novas. — Apenas Joana e Sophie deveriam ir, pois já debutaram. Oh, e Joana será noiva do senhor Phillip! — vibrou. Sophie revirou os olhos.

— Será que ele aproveitará a oportunidade para formalizar o noivado? — Frederico questionou.

— Não sei, mas se não anunciar, essa semana mesmo faremos o jantar de noivado em nossa casa e em um mês Joana se casará — disse Anastasia olhando para a filha mais velha, que não esboçou nenhuma reação que pudesse evidenciar seus sentimentos.

— Não diz nada, Joana? — Sophie provocou. — Não está ansiosa para encontrar o seu noivo no baile? Ou está assim tão quieta pois já imagina como será quando se mudar para aquela propriedade maravilhosa? — interrogou-a com malícia. Desde a discussão que tiveram, Joana procurava evitá-la, pois não queria dizer algo que deixasse a irmã ainda mais arrasada. Sabia que seu gênio era forte e muitas vezes não conseguia medir suas palavras. Estava quase sentindo dó do amor não correspondido que a irmã sentia.

— Sophie, se não digo nada é por que não há nada para ser dito. Deveria experimentar, e ficar calada quando tudo o que tem a dizer são essas tontices — rebateu sem se exaltar.

— Por favor, não impliquem uma com a outra! — A mãe pediu. Joana continuou com o mesmo semblante compenetrado, enquanto Sophie bufou enervada. — Querido, devíamos ter alugado uma caleça, assim não estaríamos tão apertados, em seis pessoas, em uma caleça onde cabem apenas quatro! — reclamou.

— Quando Joana se casar teremos um pouco mais de espaço — Sophie voltou a provocar.

— Sophie, o que é isso? — Rebecca tentou quebrar o clima e apontou para o broche de flor branca que a irmã usava. — É seu? Nunca o vi antes.

— É meu sim — disse ríspida. — Eu mesma fiz com cetim e renda, especialmente para o baile.

— Que filha prendada — disse Anastasia. — No entanto, devia ter escolhido outra cor de cetim, Sophie. Seu vestido é branco e a flor é da mesma cor.

— Gostei porque ficou discreto mamãe — disse ela.

***

Chegaram na propriedade quando o céu estava quase totalmente enegrecido. Antes de desceram da caleça, todos vestiram suas máscaras e foram se encaminhando para a escadaria. Os olhos de Amália e Sophie passearam pelos vestidos rodados das convidadas, com amplas crinolinas a encher as saias, espartilhos afinando cinturas, e leques nas mãos. A maioria dos homens usavam fraque e luvas brancas. Elas jamais tinham visto algo tão belo. Rebecca e Joana sentiam-se ainda deslocadas no ambiente; a mais nova por ser a primeira vez que ia a uma festa social, e Joana pelo encontro que certamente teria em breve com o seu futuro noivo.

Ao longe podia-se ouvir o som de uma valsa preenchendo o ambiente de requinte. O senhor Hour, Anastasia e as filhas foram conduzidos até o salão de dança e ficaram maravilhados, não somente com a fineza da decoração, mas com o tamanho daquele espaço, que era enorme.

Joana observou que muitas jovens de sua idade se viraram para olhar ela e as irmãs entrarem no salão. Realmente, Madame Anastasia não havia economizado nas vestes das filhas e elas se destacavam entre a maioria. Joana brilhava com seu vestido lilás, acentuado na cintura e com três camadas de renda no caimento da saia. No busto, pequenas pedrarias ornavam a peça e, sobre os ombros, mangas rendadas davam maior elegância. A sua máscara era branca e lilás, e escondia boa parte do seu rosto.

— Vamos circular pelo salão, mamãe? — Sophie convidou a mãe assim que entraram.

— Ora, claro que não — Anastasia franziu o cenho. — Sente-se recatadamente e espere um convite para dançar — repreendeu-a.

— Uma volta no salão, prometo! Somente para contemplarmos melhor este magnífico lugar — insistiu.

— Está bem, apenas uma volta — Anastasia deu o braço para Sophie e chamou Amália para acompanhá-las. — Fiquem perto do seu pai — disse para Joana e Rebecca.

Anastasia sabia que não devia se afastar das outras filhas. Era seu dever de mãe e acompanhante se certificar de que se algum cavalheiro convidasse uma das suas filhas para dançar, que ele cumprisse com as regras da decência.

Naquele mesmo instante, Alexandre descia as escadas rumo ao salão, onde logo na entrada esbarrou com vários homens vestidos com elegantes trajes ao melhor estilo francês e notou que as mulheres usavam penteados chamativos e máscaras com pedras e muito brilho. Todos circulavam pelo ambiente puxando assunto com um ou outro convidado e muitos já dançavam ao som das orquestras.

— O sucesso deste baile poderá ser avaliado não só pelo luxo da recepção e dos trajes, mas pelo número de casais que ficarão noivos — disse uma voz feminina ao seu ouvido.

— Caroline? É você? — surpreendeu-se.

— Então reconhece a voz da sua irmã? Devo lhe dizer que está esplendoroso, Alexandre.

— Você também — curvou a cabeça e sorriu.

— Vou circular pelo baile — disse Alexandre antes de sumir em meio aos convidados. Estava ansioso demais para ficar parado.

Perto dali um grupo de moças agitavam-se entusiasmadas, rindo e saltitando, certamente imaginando quem seriam os seus pares para a valsa. A todo momento chegavam lindas jovens que mais pareciam princesas, em seus vestidos de seda, rendas e cabelos ornamentados com flores e tiaras de cristais.

— Concede-me uma dança, senhorita? — Alguém convidou Caroline quando ela procurava uma bebida para esquentar-se do frio.

Ela percorreu seus olhos pela roupa do jovem e viu que era uma das peças que estavam mais cedo na sala das camareiras. O jovem continuava curvado à sua frente, esperando uma resposta e com a mão direita estendida. Ela olhou para o rosto ocultado pela máscara e viu que ele tinha olhos azuis e cabelos claros, como Phillip, e como os outros irmãos dele.

Com certeza é um deles — pensou animada diante da possibilidade de ser Phillip.

— O conheço, senhor? — perguntou ela.

— Sim. E a senhorita está linda — elogiou.

Ela entregou-lhe o cartão para que anotasse o nome e reservasse a sua dança. Ele passou os olhos pelo cartão, escreveu o nome e sorriu para ela.

— Johan? — disse desapontada ao ler o nome. — Como sabia quem eu era?

— Seria impossível não a reconhecer — disse ele ocultando que na verdade a tinha visto descer as escadarias do interior da mansão. Antes de se retirar, fez uma reverência respeitosa.

Alexandre estava no outro lado do salão, olhando com atenção todas as moças que encontrava, buscando reconhecer em alguma delas o broche de rosa branca e os belos cabelos ruivos de Joana. Seu corpo tremia com a preocupação de não conseguir encontrá-la. Foi quando viu se aproximar uma senhora de braços dados com duas moças de cabelos avermelhados. Ele olhou para os vestidos e encontrou o broche preso a um deles. Estava tão discreto e quase imperceptível naquele vestido branco, mas ele teve certeza de que era o broche que enviara para Joana. Seu coração se preencheu de alegria ao ver que ela usava o broche, como ele havia pedido. Um sorriso abriu-se inevitavelmente em seu rosto. Ele caminhou até elas.

— Seria um prazer bailar com a senhorita — disse ele mantendo uma distância reverenciosa, curvando o tronco levemente e com muita elegância.

Anastasia e as filhas percorreram os olhos pelo rosto encoberto pela máscara daquele cavalheiro, admirando-se com sua postura elegante em um primoroso traje.

Sophie olhou para a mãe, que concordou que o jovem reservasse uma dança. O coração de Alexandre palpitou, aquele era o momento, ele precisava ser verdadeiro. Esperava que logo mais pudessem conversar a sós. Ele lhe diria toda a verdade. Segurou o cartão e escreveu com uma letra bem desenhada: Alexandre Franz.

Contarei tudo a ela hoje! E que Deus me ajude que ela possa me perdoar — pensou.

Do outro lado do salão, Phillip andava entre os convidados e deleitava-se com a música sublime que lhe preenchia os ouvidos. Bebia vinho e apreciava os casais dançando e o sorriso de cada um ali presente. Era quase impossível encontrar um rosto que não exibisse a felicidade por estar ali, e isso o agradava muito.

Ele olhava atentamente as moças a fim de se certificar que nenhuma delas ficasse sentada sem uma dança. Como bom anfitrião, ele teria que convidar quem ainda não tinha dançado na pista de dança. No entanto, esperava-se que todo cavalheiro convidado para um baile se levantasse e convidasse uma moça para dançar. Era uma cortesia básica. Foi assim que ele notou que duas moças permaneciam ao lado de um senhor e pareciam não estar se divertindo. Observou que nenhum cavalheiro tinha se aproximado delas, ao menos ele não tinha visto nenhum. Passou mais um tempo olhando-as e viu nitidamente que uma delas bufou em desagrado. Não podia ver o rosto da moça, por causa da máscara branca e lilás que ela usava, mas teve quase certeza de que era bonita e foi esse o impulso que o levou até ela.

Não quero nenhum convidado irritado neste baile, muito menos se for uma jovem tão formosa — pensou consigo.

— Concederia sua mão para a próxima dança? — disse Phillip para a jovem que acabara de ver bufando. Ele permanecia curvado à frente da moça e aguardava uma confirmação. Se o seu convite à dança fosse recusado, ele não insistiria. No entanto, a menos que ela tivesse uma razão muito séria para isso, uma jovem não deveria recusar um convite para dançar.

— Que gentil — Joana disse a contragosto, vendo que o pai acenava com a cabeça, permitindo a dança. Ele escreveu o seu nome no cartão dela e afastou-se um pouco, a fim de esperar aquela valsa terminar para novamente ir até ela e a conduzir para o centro do salão.

— Que moço elegante, Joana — Rebecca disse perto do ouvido da irmã. — Espero que alguém também me convide para dançar — sorriu animada.

— Irão convidar — Joana sorriu de volta e pôs-se a olhar o movimento no salão. Nem ao menos deu-se ao trabalho de ler o nome daquele cavalheiro em seu cartão de baile, estava com o pensamento flanando.

Em poucos minutos Phillip voltava ao seu encontro e oferecia a sua mão para ela segurar. A som da valsa ocupou o ambiente e eles iniciaram a dança. Joana notou que o cavalheiro sabia conduzir muito bem uma dama, e que devia dançar com frequência, pois parecia fazer aquilo de maneira muito natural. Joana não tinha dançado muitas vezes em bailes na sociedade e era a primeira vez que estava em um de tão grande sofisticação.

Embora fosse natural e até se esperasse que um cavalheiro iniciasse uma conversa com a dama com quem dançava, Joana surpreendeu-se quando o seu par falou:

— Espero que esteja se divertindo mais do que estava antes — Phillip disse buscando seus olhos.

— Certamente — limitou-se a dizer, voltando seus olhos para o canto do salão e vendo que um jovem se aproximava de Rebecca, certamente iria convidá-la para dançar a próxima música. Sentiu-se feliz pela irmã e sorriu. Ao retornar seu olhar para frente Joana encontrou os olhos de Philip e viu que eram de um azul muito raro e tão perturbadores que ela precisou desviar novamente os seus olhos dos dele. Joana esboçou um leve sorriso constrangido e ele fez o mesmo, mas sem nenhum embaraço. Não falaram mais durante a dança, pois conversar demais era considerado inadequado. Deviam apenas dançar, e até mesmo os olhares prolongados eram condenáveis. Porém ele não parava de olhá-la dentro dos olhos, e segurava suas mãos com grande entusiasmo, mostrando grande deleite em estar segurando-as.

Joana sentiu-se embaraçada a ponto de o som parecer estar abafado devido as batidas vigorosas de seu coração. Ela temeu errar os passos, tão desconcertada ficou diante dos olhos azuis daquele estranho.

Phillip também deixou-se conduzir pelo som e ritmo da música, procurando adivinhar que tipo de beleza havia atrás daquela máscara. O pouco que via do rosto daquela dama eram os olhos verdes e muito expressivos, a pele clara e os lábios rosados e bem-feitos.

Os cabelos ruivos presos no alto da cabeça e com apenas uma fina mecha solta, brincaram com a sua imaginação.

Será bonita? Deve ser muito bonita! — Phillip pensava.

[...]

Aquela mesma dança embalava Sophie e Alexandre em outro canto do salão. Ele estava certo de que eram as mãos de Joana que tinha entre as suas; e ela apenas pensava estar dançando com um jovem de nome Alexandre Franz, o qual não conhecia. Sendo assim, Alexandre estava muito mais feliz com aquela dança.

— Alegro-me em ver que aceitou o meu presente — disse ele enquanto a rodava. — Meu coração sabia que se viesse com a flor em seu vestido, era por que sou correspondido. — Sophie gelou ao ouvir aquela afirmação. Abaixou os olhos e não o encarou, tampouco disse alguma coisa. — Preciso lhe falar algo — Alexandre a girou novamente e logo estavam na outra lateral do salão, próximos a uns pilares de granito gigantescos em altura e largura. — Venha comigo...

Alexandre a conduziu até um corredor comprido ao lado do salão e alguns passos a mais estavam em uma varanda à meia luz. A noite escura ocultava o pouco que se podia ver do rosto de ambos e também os seus corpos. Apenas uma tênue luz vinda de um candelabro no corredor lançava pequenos lampejos de cor nos cabelos ruivos de Sophie e produziam um brilho ainda mais negro nos olhos de Alexandre.

— Perdoe-me por tirá-la do salão, mas meu coração ardia por uma chance de lhe falar. Há tanto para dizer. Eu pensei que se olhasse dentro dos meus olhos, poderia ver como meu amor é sincero. Porém eu mesmo não fui verdadeiro, o que desejo de todo o meu coração poder corrigir agora. Eu não sou exatamente quem pensa que sou, e ainda assim, sou todo seu, como fui desde que a vi pela primeira vez — falou segurando as mãos dela entre as suas. — Não me deixe sofrer a dor da indiferença, dizendo que se casará comigo apenas porque o seu pai a obriga — pediu trazendo-a para mais perto de si. O simples contato com aquela que ele julgava ser a sua amada, fazia todo o seu corpo queimar. — Eu a amo com tanto fascínio que é quase insuportável estar ao seu lado e... — Alexandre não completou a fala, apenas a puxou para perto de si, fazendo a loucura de tomar dela um beijo.

Sophie não resistiu, entregou-se ao beijo como se ele fosse realmente destinado a ela. Alexandre a beijou com suavidade e entrelaçou seus braços em volta da sua cintura fina. Ela arquejou emitindo um pequeno sussurro e retribuiu o toque, colocando uma de suas mãos sobre o peito dele.

— Ah! Como eu a amo. Amo tanto que o medo, a felicidade e o prazer tornam-se apenas um só sentimento — disse afastando levemente os lábios dos dela, antes de voltar a beijá-la. — Será que poderá me perdoar, depois do que eu vou lhe dizer? — falou com os lábios colados aos de Sophie. — Senhorita Joana, eu não sou...

Preso a uma sensação inebriante de amor e felicidade, ele mal se deu conta de que alguém se aproximava. Não apenas uma pessoa, mas três pessoas se aproximavam deles.

— Que horror! — gritou uma voz conhecida, interrompendo a sua declaração.

— Mamãe? — afastou-se de Alexandre e deu alguns passos para trás. O coração dele deu um forte soco dentro do peito, tomado pelo susto.

— Não acredito no que vejo aqui! Maldito! Quem é esse maldito? — Frederico vociferou.

— Eu o vi conduzir minha irmã para cá, papai. Este cavalheiro a chamou para dançar e vi exatamente quando sumiram atrás de uma pilastra no salão — disse Rebecca.

— Calma, senhor. Sei que agi com muita imprudência, mas deixem-me tentar explicar — pediu com urgência. Anastasia levou as mãos à boca quase em pânico quando reconheceu aquela voz.

— Senhor... Phillip? — disse com dificuldade.

— Não... Não! — Ele disse, já decidido a revelar de vez toda a verdade. — Eu preciso lhes dizer que não sou...

— Sophie, venha para cá imediatamente! — Anastasia gritou e os olhos de Alexandre se arregalaram apavorados, fazendo-o interromper a fala.

— So-Sophie? — gaguejou trêmulo. Alexandre ficou entorpecido ao ouvir aquele nome.

— Seu cretino! — Frederico gritou. — Como ousa tomar a mão de Joana em casamento e levar Sophie para a desgraça?

— Não... Não... — Ele arrancou a sua máscara e a deixou cair no chão, depois, recostou o corpo na parede lateral da sacada e passou as mãos suadas sobre o cabelo e rosto, completamente aturdido. — Eu jamais faria isso! — puxou o ar com força para respirar melhor.

— Calma, papai. Não fique tão nervoso — Amália tentou acalmar o pai.

Sophie foi correndo na direção da mãe e enterrou o rosto em seus ombros, choramingando. A mãe a abraçou procurando consolá-la.

— Este homem a forçou, Sophie? Diga-nos — Anastasia perguntou, mas a filha apenas chorava. — Senhor Phillip, não pense que só por que é um homem rico, pode brincar com os sentimentos das pessoas desta maneira. Tínhamos muita estima pelo senhor — disse olhando Alexandre, que estava ainda parcialmente oculto pela escuridão. Ele estava tão surpreso e abalado que nem prestou atenção no que Anastasia falava. Só ouvia o som abafado da orquestra e imaginava onde Joana estaria naquele momento.

— Onde Joana está? Onde ela está? — Frederico perguntou às filhas e à esposa.

— Estava dançando, papai. Um cavalheiro a convidou para dançar e eu fiquei os olhando. Vi que Sophie também dançava, mas não sabia que era com o senhor Phillip — respondeu embaraçada com a situação.

— Eu... não... sou... Phillip!! — Ele gritou, articulando bem cada palavra. — Não sou! Meu nome é Alexandre Franz, e eu amo sua filha Joana, senhor Hour. Eu queria ter lhes dito isso há muito mais tempo, mas foi impossível... E depois eu...

— Ah, mas alguém me impeça, pois irei matar este homem! — Frederico Hour gritou, indo na direção de Alexandre. — O que diz? Está louco? — caminhou até Alexandre e balançou o seu corpo, o segurando pela roupa.

— Senhor Hour, sei que tenho culpa e mereço todo o repúdio pelo meu ato. Meu desejo nunca foi o de mentir. Apenas deixei que um mal-entendido se prolongasse, até eu estar amarrado nos braços do amor e sem saídas. Eu amo a senhorita Joana verdadeiramente. Perdoe-me... Eu não sabia que...

— Escute bem, senhor... seja lá quem for: fique longe de Joana e de qualquer uma de minhas filhas!! — estrondeou na direção de Alexandre. — Venham, vamos encontrar Joana e ir embora — falou para a família.

***

— Senhorita... Como é o seu nome? — Phillip perguntou.

— Joana — respondeu sem elevar os olhos na direção dos dele.

— Senhorita Joana — Phillip sorriu e fez uma reverência de leve, oferecendo o seu braço direito para ela segurar. — Para onde deseja que eu a conduza? — perguntou quando a valsa terminou. Ele percebeu que o local onde ela estava anteriormente, era agora ocupado por outras pessoas e não viu mais o senhor e a moça que estavam com ela.

— Posso ficar aqui, senhor. Muito obrigada pela agradável dança — disse com elegância nas palavras e gestos. Embora por dentro estivesse mexida, tomada por uma aflição que não queria aceitar: estava desapontada por ainda não ter visto o seu futuro noivo.

— Eu que agradeço. Se todas as moças dançassem com tanta suavidade quanto a senhorita, eu apreciaria dançar pelo resto dessa noite — elogiou e sorriu discretamente, conduzindo-a para uma das laterais do salão, onde havia menos convidados. Fez outra reverência e se retirou.

— Mentiroso! — Joana ouviu a voz do pai gritar e depois o viu surgir do meio dos convidados. Ele estava furioso. Atrás dele vinham a esposa, as filhas e...

— Senhor Phillip!? — Joana expressou-se em voz alta ao ver Alexandre.

— Pois não, senhorita — Phillip Motier voltou-se novamente para ela, ao ouvir que chamara pelo seu nome, ao mesmo tempo em que se dava conta de que não havia dito para ela o seu nome.

Não houve tempo para nenhuma explicação. Quando deu por si, Frederico Hour estava ao lado de Joana, muito nervoso, avisando que iriam embora naquele minuto. Alexandre estava sem a máscara e Sophie chorava nos ombros da mãe. Amália e Rebecca apenas acompanhavam tudo em silêncio, mas visivelmente assustadas.

— O que aconteceu? — Joana perguntou ao perceber como estavam histéricos. Phillip parou em seu trajeto ao ver que havia algo de errado e ficou atento.