O Bosque de Faias
Capítulo 26 — Os dias frios são os mais tristes
Joana afastou-se do bosque com urgência. Não olhou para trás. Negava-se a acreditar em tudo o que Alexandre lhe falara, era dolorido aceitar que Sophie tinha mentido de tal forma.
Conduziu-me para o corredor afastado do baile e declarou-se. Disse que preferia a mim do que você! — As palavras de Sophie ainda ecoavam em sua mente.
Quando viu que já estava a uma boa distância do bosque, já próxima à vila dos camponeses, ela parou. Ofegou nervosa. Precisava pensar sobre como agiria quando chegasse em casa. Confrontaria Sophie? Abrir-se-ia com Rebecca?
Joana notou que do bolso do seu casaco, um papel destaca-se no tecido escuro. Ela retirou o pedaço de papel e logo percebeu que era uma nova carta de Alexandre. Abriu-a rapidamente:
Daqui, de onde estou, de dentro do meu sofrimento, posso vê-la.
Está tão distante de mim o meu amor. Mais distante do que se estivesse além do bosque e das montanhas, mais distante do que se estivesse do outro lado do oceano. E ainda assim, está tão perto que quase posso tocá-la. A minha culpa me atormenta, me coloca em posição de castigo, acho que até mereço o desprezo. Mas quando fecho os olhos só sinto meu coração vibrar com cada batida de amor, e cada batida é somente para ti, amada Joana. Aquelas letras gravadas no tronco da faia, são para ti. As vezes que disse sobre meus sentimentos, que declarei o meu amor, foi sempre somente para ti, e foram as palavras mais cheias de verdade que já ousei proferir algum dia em minha vida. Disse-lhe “jamais esqueça de como estou agora em sua frente, rendido em meus sentimentos, mostrando-me como realmente sou. Não se esqueça de que agora me conhece verdadeiramente, pois sabe o que vem dentro do meu coração”.
Hoje, escrevo esta carta olhando-a de braços dados com outro, que é meu amigo e do qual eu não deveria sentir ciúmes, mas meu coração arde. Por que não dá a mim a chance de lhe pedir o perdão e provar que a amo?
Não vejo nada mais em meu destino além de lutar por essa oportunidade, tê-la um dia em meus braços, ou morrer de tristeza.
Com todo o amor
Alexandre Franz.
Joana arfou. Aquelas palavras a haviam acertado como uma onda forte. O impacto quase a fez perder os sentidos. Não podia negar que se sentia tocada por aquele sentimento que era quase palpável, e mesmo através de simples linhas, conseguia ver transbordar sinceridade no que ele dizia. Como podia ser tudo tão contraditório?
***
Quando Alexandre retornou à mansão Motier, seu semblante era muito diferente do que estava quando saiu. Sua expressão era leve, seu sorriso era quase lírico e todos que o viam podiam ter a certeza de que estava em paz. Estavam curiosos, mas ninguém perguntou nada a ele, nem mesmo Patric, que preferiu respeitar a reserva do amigo em manter o silêncio.
Alexandre finalmente sentia a serenidade de uma boa noite de sono. Pedir o perdão para Joana havia lhe tirado um grande e pesado fardo que carregava todos os dias em seu peito e que o esmagava sem piedade.
***
Os dias de inverno tornavam-se cada vez mais rigorosos. A neve começou a cair com mais frequência e as pessoas procuravam manter-se em casa e abrigadas do frio. Alguns dias transcorreram depois do encontro de Joana com Alexandre, e da visita que havia feito à propriedade Motier. Ela sentia-se impaciente. Johan ainda não tinha aparecido em sua casa para conversar com seu pai. Cada vez que Joana se aproximava de Sophie e mencionava aquele assunto, a irmã chorava e se trancava no aposento. Rebecca e Amália pensavam que ela ainda estava ressentida com Alexandre, que havia se iludido com ele além do que imaginavam, mas somente Amália tinha ouvido a conversa entre Sophie e Alexandre. Ela sabia que Sophie tinha motivos para sofrer, pois havia sido duramente rejeitada, mas nem em sua maior suposição, imaginaria que a irmã possuía outros motivos, e ainda maiores, para afligir-se.
Uma semana arrastou-se como se fosse um ano inteiro, e Sophie preferia acreditar que algo de grave tivesse acontecido com Johan, do que crer que ele a havia enganado.
Joana pensou muitas formas de poder ter contato com Johan novamente, mas não queria e nem poderia ir à propriedade Motier. Que pretexto usaria? Teve sorte por acreditarem nela na última vez em que lá esteve. Foi durante o café da manhã, de um dia intensamente frio, que ela encontrou a oportunidade.
— Os dias frios são os mais tristes — disse Amália.
— Por que acha isso? — Rebecca perguntou.
— Não há nada o que fazer em um dia assim. Quando o clima está quente podemos caminhar, fazer um convescote ao ar livre. Agora, nesse tempo, até mesmo abrir a janela parece impossível — reclamou.
— Mas ainda podemos nos reunir ao redor da lareira — rebateu Rebecca —, tocar pianoforte, conversar e cantar. Lembra-se do ano passado, Joana? Reunimo-nos na casa dos Loen e tivemos uma noite muito agradável, embora o clima fosse cortante, de tão gelado.
— Lembro sim — Joana respondeu. — Tivemos que aguentar o desafino de Marie e Daisy em um dueto, quase a noite inteira — Amália e Rebecca riram.
— Mamãe — Rebecca chamou a mãe, que estava ao lado delas —, podemos esse ano fazer essa reunião aqui, em nossa casa?
— É uma ótima ideia — disse Anastasia. — Mas se convidarmos os Loen não poderemos convidar os irmãos Motier — pensou sagazmente, dando uma piscadela para as filhas.
— Mamãe... — Joana estava pronta para repreendê-la, quando pensou melhor —, realmente é uma opção muito melhor.
— Sim! — Rebecca vibrou.
— Por que tanta animação? — Sophie a olhou de soslaio.
— Como disse Amália, os dias frios são muito tristes... Agora, ao menos um não será mais!
— Pensa que não percebo? — olhou-a com escárnio. — Cuidado, Rebecca, sonhar nos faz bem, mas sonhar demais pode ser muito perigoso. Se uma moça não tem grandes ambições na vida, tem muito mais chances de não ser infeliz.
— Oh, pare Sophie — Amália reprovou-a, vendo como Rebecca esmoreceu. — De que serve a vida se não forem os sonhos? Seja lá quais forem os de Rebecca, não seremos nós a dizer que não é possível de realizar.
— Tudo bem, eu não me importo — disse Rebecca desalentada. — Sei que sonho demais...
— Uma fantasia completamente inatingível, eu diria — Sophie voltou a dizer. — Ainda bem que é a mais nova de nós e não precisa se preocupar com isso tão cedo. Preocupadas ficaríamos nós se fosse a mais velha — riu. Rebecca saiu correndo para o aposento, chorando.
— Por que disse isso a ela? — A mãe repreendeu-a, embora sem muita vontade de fazê-lo. — Sabe que Rebecca é sensível. Cuidado para não a magoar mais. Ela não tem culpa por não ser tão bela quanto você, mas ainda tem chances de encontrar um bom homem no futuro.
— Oh, sim. Sempre haverá viúvos ricos que, apesar da idade, podem ser muito honrados — disse Sophie com escárnio. — E se Rebecca encontrar um senhor assim, que for decente, e levando em conta a sua idade, talvez ele já não se preocupe tanto mais com a beleza de sua esposa. Por isso disse a ela que não seja tão sonhadora...
— Sophie discursa sobre sonhos com tanta propriedade que acredito fortemente que seja vítima do mesmo mal a qual acaba de aconselhar Rebecca — disse Joana irritada. — Sonha demais e tão alto que já vive com a cabeça junto das nuvens. Você é quem deveria tomar cuidado, pois moças com a cabeça nas nuvens tendem a ser mais fáceis de enganar! Embora também sejam ótimas enganadoras.
Sophie ruborizou as faces. Anastasia olhava para ambas sem entender como a discussão havia chegado àquele ponto, embora já estivesse acostumada com o constante afrontamento entre as duas. Joana as deixou e subiu para o aposento, indo atrás de Rebecca.
— Sophie — disse Amália —, você foi muito injusta com Rebecca. Por que deixá-la triste, especialmente quando estava tão alegre?
— Eu só falei a verdade — rebateu insípida.
— A verdade? — Amália olhou-a incrédula. — Uma verdade que é sua, e que é carregada de maldade! Aliás, você nem sempre é verdadeira — disse chateada. Sophie olhou-a com assombro. Era mesmo a doce e tímida Amália que lhe dissera aquilo? A sua irmã e amiga mais fiel?
Tudo só se acalmou quando todas subiram e se afastaram de Sophie. Até mesmo Amália deixou-a de lado e foi ao aposento de Rebecca e Joana, a fim de evitar ter que continuar aquela briga. Ao entrar encontrou Joana consolando Rebecca, que tinha os olhos e rosto avermelhados.
— Sophie tem razão. Sei que não sou bonita o suficiente para ser notada — fungou. — Muito menos ser notada pelo senhor Patric. Joana, quem sabe o meu futuro seja mesmo aceitar qualquer casamento que papai venha a me arrumar — dizia inconsolável.
— Não, não — dizia Joana —, nem pense nisso. Rebecca, você é suficientemente bonita para o senhor Patric. Aliás, a questão é se o senhor Patric é suficientemente belo para você! — piscou para a irmã. — Ele somente a viu algumas vezes, mas quando ele realmente a notar, se tiver nem que for um pouco da sua beleza, ele a amará imediatamente!
Rebecca riu e abraçou a irmã. Amália finalmente foi notada por ambas. Ela estava de pé, próxima à porta e sorria ao ver como Joana confortava a irmã.
— Eu sinto muito pelo o que Sophie lhe disse — disse Amália para Rebecca. — Saiba que não concordei em nada com aquelas palavras, a repreendi e até mesmo brigamos. Ela foi muito áspera, injusta e maldosa com você.
— Ah, tudo bem. Eu já não devia mais me importar com o que Sophie diz — falou Rebecca.
— Talvez todas nós não devêssemos nos importar com nada do que ela diz — Amália completou. Joana a olhou com o canto dos olhos. Amália estava introspectiva demais.
***
Tudo foi acertado e quando Frederico Hour chegou em casa, Anastasia contou-lhe da ideia que tiveram. Ele aprovou, frisando bem que, de convidados, somente entrariam naquela reunião os de sobrenome Motier. Mandaram o convite no dia seguinte e receberam a resposta dois dias mais tarde, com agradecimentos e confirmação de que compareceriam na próxima noite.
— Quem virá? Ele mandou avisar se virão todos? — Sophie perguntou, debruçando-se sobre o bilhete que Phillip enviara.
— Não mencionou — disse Anastasia —, mas acredito que venham, sim. Claro, o senhor Phillip e os irmãos, apenas.
Joana esperava que Johan comparecesse e cumprisse com a sua palavra. Esse também era o desejo de Sophie, embora ela não o amasse, nem sentisse por ele toda aquela agitação febril e apaixonada que sentira outrora por Alexandre. Ainda assim, um casamento com Johan seria o que de mais maravilhoso poderia acontecer em sua vida, aliás, seria a sua ruína se não acontecesse.
***
— Reunião mais entediante certamente não deve existir. Imagine só! — Caroline dizia enciumada para o irmão, e como ele não dizia nada, continuou. — Mesmo que tivessem me convidado, eu não iria. Se bem que eu jamais receberia um convite, já que os convidados são todos pretendentes que almejam para as filhas — dizia ela. — Inclusive para Joana.
— O quê? — Alexandre enfim disse algo. — Pretendentes para Joana? — Chegou a corar o rosto de tão nervoso que ficou somente de ouvir mencionar aquela possibilidade. — Quem?
— Ora, qualquer Motier serviria muito bem, aposto!
— Pois nenhum deles ousaria. Não há a mais remota possibilidade — assegurou.
— Persevera-se até que se consegue — disse ela.
— Como? — Ele não entendeu.
— Ora, esse repentino estreitamento de amizade entre Phillip e a família Hour. Jamais ouvi falar de situação semelhante que não fosse culminar em casamento.
— Não diga bobagens — repreendeu-a. — Por ciúmes já casou Phillip com metade deste povoado.
— Atente-se, irmão, é somente um conselho — Caroline falou. Alexandre apenas soltou um longo suspiro.
***
— E por que não nos acompanhará? — Patric perguntou a Johan. Já estavam prontos para saírem.
— Apenas não sinto vontade — replicou ele.
— Não sente vontade? Acaso agora só faz o que tem vontade? — Phillip inquiriu, de pé embaixo do umbral da porta da grande sala principal.
— Sim — disse ele sem pestanejar, atirando-se sobre uma poltrona —, só o que tenho vontade. E aquela família é enfadonha, cansa-me. Vão vocês. E tentem não voltar noivos — riu. Phillip e Patric olharam-se incrédulos.
— Também parece não se importar com o que diz — Patric observou. Alexandre entrou na sala naquele mesmo instante.
— É a mais pura verdade — disse Johan. — Por que eu deveria importar-me em dizê-la? Muitas pessoas seriam mais felizes se sempre dissessem a verdade — proferiu, olhando para Alexandre. Patric o repreendeu com um olhar duro.
— É, esta é a primeira coisa que o ouço dizer e concordo plenamente — disse Alexandre.
***
Antes de saírem, Patric falou a sós com Alexandre:
— Nenhuma carta, hoje? — perguntou.
— Não, mas quero que leve isto — entregou-lhe um papel. — É um poema. Certamente farão a leitura de alguns textos e poderão discuti-los. A senhorita Joana aprecia muito ler. Espero que consiga ler meu amor através das linhas deste poema.
— Ah, o amor! — Patric sorriu. — Nunca pensei que fosse vê-lo tão romântico — Alexandre sorriu para o amigo.
— Lembrou-me agora do que certa vez me perguntou o senhor Hour: “É um homem romântico, senhor? Diga-me apenas se veio apresentar a sua proposta e eu lhe darei a minha permissão” — Alexandre imitou a voz de Frederico Hour. — Assim, tão simples, ele não desejava ao menos saber o que pensava, ou o que vinha no coração da filha. Nem mesmo eu pensei muito sobre isso ao ouvi-lo dizer tais palavras. Quis aceitar o mais breve possível... — relembrou.
— Mas você se preocupou. Sei que jamais casaria com a senhorita Joana se tivesse a convicção de que ela lhe era totalmente indiferente — disse Patric.
— Seria a coisa mais difícil que eu teria que fazer. Deixá-la por saber que não me amava...
— Pior seria se amasse outro — disse Patric em tom de brincadeira.
— Então eu morreria em desgraça — exagerou. — Sorte de Phillip não ser apaixonado pela noiva que o tio lhe quis arrumar antes de morrer. Assim foi mais fácil aceitar que o casamento não poderia ser feito, já que a moça amava a outro.
— Grizelda? — Patric olhou-o sem entender.
— Sim, a filha de Donald, o Lorde escocês. Uma moça linda e culta, pelo que me disse Phillip, e que seria uma ótima esposa não fosse completamente apaixonada por outro.
— Phillip lhe disse isso? — Patric franziu o cenho em estranhamento e surpresa.
— Sim, disse-me assim que chegou a essa propriedade...
Encerraram o assunto quando chegou a hora de Patric e Phillip irem até a casa dos Hour.