O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 8 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 8 – Atitude

 

Alexandre andava em círculos dentro do seu aposento. Olhava a noite escura pela janela, sentava na cama, segurava o queixo com as mãos e alisava os cabelos. Voltava a se levantar e refazia o trajeto pisando forte no assoalho, até ficar confuso com tantos pensamentos.

A razão lhe cobrava uma atitude, lhe cobrava a verdade. Dizia que ele fosse até a casa do senhor Hour e dissesse quem era. Depois, que se apresentasse à Joana como devia. Certamente ela o olharia com ar de superioridade e diria palavras atrevidas e intensas. Ele retribuiria com provocações e riria dela, enquanto ela ficaria ruborizada e replicaria com aquela irritação que parecia fazer parte do seu melhor humor.

A mesma razão diria que Frederico Hour ficaria indignado. Esbravejaria palavras indecentes ao seu respeito e o acusaria de enganador. Com certeza o proibiria de chegar perto de Joana. Só por isso era difícil ouvir a razão.

Já a emoção, que é responsável por fazer dos apaixonados verdadeiros seres insanos, dizia-lhe que deixasse como estavam. Que ganhasse a confiança do senhor Hour e o apreço de Joana. A emoção dizia que tudo daria certo. E se desse tão certo como imaginava, ele teria Joana para si antes mesmo de Phillip chegar na propriedade Motier. Contaria tudo somente quando ela já estivesse convencida de que sentia o mesmo tremor no peito que Alexandre reparou que sentia quando estava perto dela.

Estou louco? Que pensamentos são esses? — Alexandre dormiu consumido pela dúvida e pela esperança.

***

— Bom dia, Phillip — Alguém o cumprimentava pela manhã. Alexandre assustou-se e virou para encarar a irmã parada na porta do seu aposento.

— Está louca? Imaginando coisas logo cedo — Alexandre a recriminou. Vestiu seu casaco e caminhou até ela.

— Se estou louca eu não sei, mas ainda ouço muito bem.

— Ouve? E mente tão bem quanto ouve?

— Eu sei que havia dito que não ouvi nada, mas ouvi. Pensei até mesmo ter compreendido mal, me enganado. No entanto, sim, aquele homem o chamava de Phillip. Por quê? — questionou decidida.

— Porque confundiu-se — respondeu tentando ser natural.

— Não, Alexandre. Não me pareceu isso. Aquele homem o olhava como se você fosse um baú repleto de ouro. E mesmo você sendo um respeitável oficial e com algumas posses, ele o tratava como dono dessa propriedade, como o herdeiro.

— Confundiu-se, já disse.

— Confundiu-se e você não o corrigiu, não o alertou do erro. Eu ouvi. O homem o chamou de Phillip e você agiu como se fosse o próprio — disse categórica.

— Não diga despropósitos. Se não o corrigi em algum momento foi por que não ouvi bem. Depois pude alertá-lo sobre o engano.

— Ah, não ouviu bem? Vejo que você mente tão mal quanto ouve.... — Ela disse dando-lhe as costas.

Por que ela teve que vir até aqui? Mon Dieu!

***

Aquela semana foi agitada na propriedade Motier e andou a passos lentos. Alexandre não foi à vila nenhuma vez e procurou ocupar seus pensamentos com o trabalho. Alguns objetos pessoais de Phillip começavam a chegar e agora faltavam apenas três meses para a sua vinda.

Alexandre voltou algumas vezes até a entrada do bosque na esperança de rever Joana, mas não a encontrou. Na última vez que foi até o local, não conseguiu conter o ímpeto de entrar no bosque. Ele notou que a trilha que Joana fazia era uma passagem bastante estreita, e por ela só era possível passar a pé ou no máximo a cavalo. Não era uma trilha usada para a travessia de caleças. Possivelmente Joana era única que ia até o local, pois ele perguntou a um criado da propriedade Motier e ele lhe disse que somente o lado norte do bosque era utilizado para caças esportivas.

Adentrou pela trilha estreita e começou a procurar a árvore onde Joana tinha marcado a inicial J. Parecia impossível encontrar aquela árvore em meio a tantas outras iguais. Ele andou um bom caminho vasculhando com os olhos os troncos das Faias e foi somente quando estava refazendo o percurso para ir embora que ele viu a árvore marcada.

As bordas da letra já estavam escurecidas, mostrando que o traço estava cicatrizado. Alexandre passou os dedos pela inicial entalhada por Joana. Ele não pensou muito e em pouco tempo estava marcando a letra A ao lado do J de Joana.

***

Na semana seguinte, vendo que o senhor Hour não o tinha mais procurado, resolveu mandar um bilhete pelo cocher falando que estava livre das suas tarefas e podia comparecer a um jantar.

Seu coração ardeu de nervosismo assim que o empregado saiu da propriedade a cavalo. Quase foi atrás do homem e pegou de volta o bilhete e o rasgou em duas partes; mas nada fez. Deixou que o bilhete chegasse até a casa dos Hour. Ele instruiu o cocher a deixar o bilhete debaixo da porta da casa de Frederico. Apenas isso, e que não fosse visto.

***

— Não assinou? — perguntava Anastasia, olhando o bilhete por cima dos ombros do marido. Sophie, Rebecca e Amália estavam ao lado, curiosas.

— Não assinou. Veja! — mostrou o bilhete à esposa.

— Mas é claro que é um bilhete de Phillip. Quem mais mandaria algo assim? — palpitou. — Não viu quem deixou o bilhete na porta, Joana?

— Não vi, mamãe. Desci para comer algo e notei o papel na porta. Então o guardei para entregar a papai, já que era o nome dele que estava escrito no bilhete — respondeu debruçada na janela da sala, olhando o movimento na rua.

— Ele passou o bilhete debaixo da porta? Que deselegante! — Anastasia disse.

— Deselegante? O homem nos escreve pessoalmente e você presta mais atenção em elegância? — O marido a repreendeu.

— Tem razão, meu marido. O importante é que ele escreveu.

— Ah, mamãe! Que alegria! Quando ele virá? — Sophie suspirava.

— Quando o convidarmos — Frederico Hour respondeu.

— Então convide logo, papai. Convide para vir amanhã — implorava ansiosa.

 

***

Joana estava tão aliviada da família tê-la deixado em paz, que não voltou mais ao bosque. Em casa estava tranquila como nunca. Ficava ao lado da mãe e do pai sem que eles lhe falassem a todo o momento sobre pretendentes, jantares e sobre a sua idade.

Agora era Sophie que vivia rodeada de conselhos da mãe:

Mostre-se elegante. Porte-se bem à mesa. Seja educada e não se exponha demais. Os moços gostam de donzelas reservadas. Prove este vestido! Não, prove este! — A mãe dizia para Sophie o dia inteiro. E ela gostava. Sophie gostava e estava radiante.

 

***

Quando o convite para o jantar chegou às mãos de Alexandre, ele sentiu suas pernas bambearem. Aquele bilhete com caligrafia bem cuidada reafirmava toda a culpa que sentia. Era o nome “Phillip Motier” que se podia ler em uma das partes dobradas cuidadosamente do papel. Ele agradeceu ao criado que recebeu o bilhete e disse que entregaria ao senhor Phillip quando este chegasse à propriedade. Assim que o criado saiu, ele subiu para seu aposento e leu:

Caro M. Phillip

Esteja conosco para um jantar amanhã. Será uma alegria voltar a recebê-lo.

M. Hour

 

Alexandre leu e releu o convite algumas vezes e depois o rasgou em muitas partes, atirando-as para o alto, deixando que os pedaços de papel caíssem sobre sua cabeça.

Já sou um homem condenado! — Ele pensou.

 

***

No dia seguinte, na casa dos Hour, o aposento das irmãs estava um alvoroço. Vários vestidos eram jogados sobre as camas e Rebecca e Amália corriam em volta de Sophie ajudando-a se vestir, enquanto a mãe procurava um par de sapatilhas que combinassem com o vestido verde que Sophie usaria.

— Este vestido é lindo, Sophie. Combina com seus olhos — Amália dizia sorrindo.

— Por isso eu o escolhi — respondeu a mãe. — Sophie fica linda com qualquer vestido. Veja, como é linda — dizia segurando o queixo da filha.

— Ai, mamãe, vamos logo. Ainda tenho que arrumar meus cabelos — Sophie reclamava.

— Vocês também vão se arrumando — A mãe pediu às outras filhas.

— O que eu devo usar, mamãe? — Amália perguntou.

— Qualquer coisa que não chame atenção — Anastasia respondeu. — Isso também serve para você, Joana — olhou duramente para a filha, lembrando de como Joana se trajara no jantar com M. John.

— Vou ficar como já estou — disse ela olhando para seu vestido simples de cor cinza e com babados brancos.

— Aí também é demais. O senhor Phillip pensará que somos mendigos. Use isto — Anastasia apontou para um vestido amarelo que estava sobre a cama.

— A senhora não diz sempre que amarelo nos deixa horríveis? Que ficamos igual a um sabugo de milho? — pôs-se a rir.

— Ora, Joana, hoje você pode se parecer com um sabugo de milho. O que importa? — Sophie provocou. — Eu não me importo — completou dando de ombros.

— Muito menos eu. Vou usar o vestido amarelo sim, irmã... para aumentar as suas chances — Joana provocou de volta.

— O que quer dizer? Ouça mamãe, Joana pensa que eu preciso que elas fiquem feias para que eu me destaque!

— Parem já com isso vocês duas. Vivem se provocando! — A mãe brigou.

— Você pode se vestir com a sua melhor peça, Joana. Eu não me importo. Phillip só terá olhos para mim — Sophie disse por último.

Que assim seja — Joana pensou.

Joana sentou-se na cama e encostou as costas na parede, segurando o vestido amarelo no colo. Ficou olhando as irmãs se arrumarem e esperou que todas saíssem do aposento.

— Não vai se vestir, Joana? — A mãe perguntou antes de deixá-la a sós.

— Já vou, mamãe. Desço em seguida.

***

Alexandre galopava rumo à casa dos Hour. A noite já estava escura, e não fosse a lua cheia decorando a imensidão negra e clareando um pouco o caminho, ficaria difícil enxergar alguma coisa à sua frente. Cada galope do Percheron era sentido dentro do seu próprio peito, junto com as batidas agudas do seu coração.