O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 24 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 24 — Ciúmes

— A senhorita Joana é... uma luz singular em minha vida. Ela é tão intensa, expressiva, forte... Ela não é doce — sorriu —, tampouco é verdadeira a todo momento. Eu sei que muitas vezes esconde o que sente. Mas eu a vi dentro dos seus olhos. Eu a enxerguei por detrás de suas palavras. Eu a vejo de uma forma que nem ela mesma sabe se ver.

— É, meu amigo, você a ama mais do que eu imaginava! — Patric sorriu. — O que fará?

— Eu não sei... — pensou por alguns segundos. — Esperar?

— Talvez seja bom... — Patric concordou.

 

Capítulo 24 — Ciúmes

 

Rebecca já havia acordado há algum tempo, porém, silenciosa em sua cama observava Joana na janela do aposento, fitando o céu com um olhar vago. O céu cinza e frio parecia com o recente humor da irmã. Rebecca era observadora o suficiente para perceber que Joana andava angustiada. Sabia que ela não era tão indiferente a Alexandre, como dizia ser. Via como Joana estava sempre muito absorta em seus pensamentos e que constantemente exibia um olhar melancólico. Por estarem sempre juntas, por dividirem o aposento, e por Joana ser uma referência de fortaleza, Rebecca era uma das poucas pessoas que conseguia vê-la além do seu costumeiro tom imperativo.

— Joana — Rebecca a chamou. Assim que ela se virou para atender ao chamado, Rebecca pôde ver em sua expressão que algo não estava bem e, diferente de outras ocasiões, Joana não fazia esforço algum para ocultar o que sentia.

— Está tudo bem? — Rebecca perguntou endireitando-se na cama.

— Rebecca, o que faria se gostasse muito de uma pessoa, quisesse protegê-la, mas soubesse que o caminho para tal seria cercado por dor, vergonha e incompreensão? — perguntou em um tom investigativo, sentando-se na cama de frente para a irmã.

— Bem... Eu tentaria protegê-la mesmo assim — Rebecca opinou, sem saber exatamente sobre o que falavam. — Se o mal que lhe seria causado sem a minha proteção fosse ainda maior do que a vergonha, a dor e a incompreensão, eu decidiria por protegê-la.

— E se tivesse a certeza de que teria o ódio e desprezo em troca dessa proteção, ainda assim o faria?

— Joana. Eu não sei o que vem em seu coração, mas acho que com o tempo todo o ódio poderia ser desfeito, então o bem que fez poderia ser melhor visto, e seria agraciado como uma benção. Acho que deveria sim, lutar pelo seu amor. Se ele é verdadeiro, não há nada que possa impedir de acontecer. A incompreensão, com o tempo se tornaria respeito, e o ódio se dissiparia quando papai visse que está feliz.

— Papai? — Joana franziu o cenho. — Sobre o que está falando? Oh, não acredito! — Ela jogou um travesseiro na irmã. — Está louca? Acha que estou falando daquele... — encerrou a frase antes de mencionar o nome de Alexandre.

— Do senhor Alexandre. Sim! Ah, não esconda de mim, Joana! — lançou um olhar suplicante.

— Não! Não era sobre ele! Ah, Rebecca, como é tonta — riu e balançou a cabeça.

— Tonta é você! — Ela jogou o travesseiro de volta em Joana. — E me conte, você foi até ele? Foi até o senhor Alexandre e ouviu o que ele tinha a lhe dizer? Ah, Joana, que carta linda a que ele a enviou...

— É claro que não fui! — respondeu desconcertada, embora não fosse completamente verdade. — O que ele poderia dizer que faria mudar tudo o que fez? Nenhuma carta, intenção ou pedido de desculpas podem fazer com que o tempo corra para trás, Rebecca! — censurou a irmã. Jamais poderia contar que havia ido ao bosque, mas que não pôde encontrar Alexandre pois havia se deparado com Sophie e Johan, juntos.

***

Joana havia pensado a noite inteira sobre a cena que vira no prado no dia anterior. Sophie sempre fora amparada pela mãe, que a mimava de forma predileta, mas ela tinha certeza de que os pais não perdoariam uma desonra como aquela. A virtude de uma moça era quase mais importante do que a sua própria existência, e uma dependia da outra. Sem virtude uma jovem estaria arruinada. O casamento com Johan era a única forma de reduzir tal infortúnio.

Sem mais dúvidas, Joana decidiu ir à propriedade Motier e falar pessoalmente com Johan. Desceu as escadas e foi até a cavalariça. Desejava ir cedo, antes que alguém em sua casa percebesse a sua ausência. Vestiu-se de maneira simples e colocou sobre o vestido um grande casaco de inverno. Aproveitou e foi à cozinha, onde buscou na despensa alguns mantimentos para levar à vila dos camponeses. Algumas famílias no local eram tão desvalidas que chegavam a passar fome, e Joana levava frutas e pão sempre que passava por lá. Porém foi surpreendida pelo seu pai logo na porta de casa.

— Joana? Aonde vai? — perguntou olhando para a cesta nas mãos da filha.

— Vou levar essas provisões à vila — disse naturalmente.

— Não aprovo! — Ele a censurou. Joana já esperava a repreensão.

— Por quê? Aquelas pessoas precisam desse alimento. Trabalham todos os dias arduamente, no frio e no calor. O camponês sustenta o clero e...

— Minha filha — ele a interrompeu —, parece que vive alheia a tudo. Não sabe que mal vivemos para pagar impostos? Não sabe que vivo a temer dias ruins na colheita e reviver os tempos em que mal tinha grãos em meu celeiro? Você era criança, não lembra dos vários ataques a qual sofremos. Nos ameaçaram, quebraram os móveis, saquearam o meu fraco depósito... E sabe quem nos atacou? Os camponeses revoltos.

— Meu pai, nunca passamos fome, os camponeses sim. Se o rei fosse justo, não haveria tanta desigualdade, e estes pobres homens não veriam nesse terrível ato uma forma de modificarem sua situação. O senhor mesmo diz que vive para pagar impostos, acha justo? Se o rei tivesse conhecimento do que se passa com sua plebe, veria que padecem da maior miséria e desgraça — Joana disse com uma ousadia inabalável. Ao senhor Frederico Hour restou apenas balançar a cabeça em desaprovação e deixar a filha partir.

 

***

 

Johan viu através da janela da biblioteca que alguém chegava montado a cavalo junto aos portões da propriedade. Sobressaltou-se quando percebeu que era uma moça. Os cabelos soltos e compridos o fizeram ter certeza que era uma das filhas do senhor Hour. Fixou melhor o olhar e pôde ver o tom laranja dos fios de cabelos de Joana, bem como a sua expressão nada amigável. Apressado, saiu da biblioteca e desceu as escadas agilmente, a fim de recebê-la antes que alguém mais a visse. Ao passar pela sala, fez um sinal com as mãos para o criado, que já havia visto a visitante e estava indo avisar Phillip.

— Deixe que eu a recebo — ofegou e procurou controlar a respiração alterada por causa da recente correria. Ele firmou o andar e foi resoluto até o portão.

— Senhorita, Joana? — olhou ao redor para ver se alguém testemunhava a sua chegada. A sua expressão de nervosismo incomodou Joana. Ele a encarou por alguns segundos, observou os longos fios ruivos e ondulados, que estavam livres e caíam quase até a cintura. Ela vestia-se com simplicidade e ainda assim estava bonita.

— Está surpreso em me ver, senhor Johan? Eu bem posso ver que sim. — Ela firmou seu olhar endurecido sobre os olhos dele.

— Sim, estou surpreso. Não sabia que viria, tampouco que viria sem a companhia de seus pais — disse ele, claramente recriminando-a pelo inesperado aparecimento.

— Gostaria de tê-los aqui comigo, ao menos o meu pai, que certamente gostaria de conversar melhor com o senhor — disse ela acertando-lhe um olhar frio. Johan sentiu que ela o estava provocando. — Não me convida para entrar? — Ela o encarou com seriedade.

— Claro, entre, por favor — disse ele. Caminharam lado a lado até o centro do jardim. — Eu... sei que que lhe causei uma desagradável impressão... — começou a se explicar.

— As minhas opiniões sobre o senhor vão além de puras impressões.

— Ela o interrompeu. — O senhor agiu de forma condenável, inaceitável...

— Senhorita — foi a vez dele de interromper —, nada do que aconteceu foi sem o consentimento da sua irmã. Eu sou consciente do inconveniente, mas...

— Inconveniente? — Joana riu com ironia. — O senhor agiu de forma execrável! Como pode chamar de inconveniência um ato tão reprovável? Disse para Sophie que nutre grandes sentimentos por ela, então vim para pedir que seja breve em anunciar isso, ou me obrigará a relatar o acontecido a meu pai e pedir que interfira — falou com firmeza e autoridade.

— Então veio ameaçar-me? — sorriu desconfortável.

— Vim lhe advertir!

— E esse tom indelicado é apenas para mostrar que não acredita em minhas palavras?

— O tom é para que o senhor tenha certeza de que não acredito em suas palavras. Mas terá oportunidade de melhorar essa impressão, é claro.

— A senhorita é insultuosa — irritou-se —, não tem modos algum. É uma pena que sendo tão jovem e bonita, seja tão hostil. Os modos fazem uma dama, não o dinheiro que sua família possui, a inteligência ou a beleza — declarou exasperado.

Joana abriu a boca para responder quando viu Phillip descer as escadas. Os seus olhos semicerrados forçavam a visão para enxergá-los ao longe. Joana lançou um olhar áspero na direção de Johan e o fez entender que não estava simulando, ele precisaria tomar uma atitude com urgência.

— Senhorita, Joana? — Phillip sorriu vindo ao seu encontro. — Que satisfação a ver — curvou-se gentilmente. Em seguida, olhou para Johan e sua expressão mudou, passando para um semblante de curiosidade. Ele tinha notado que os dois conversavam, parados no jardim, mas não conseguia imaginar sobre o que falavam.

— Eu peço desculpas por vir sem informar. Estava a passeio quando percebi que algo estava errado com o meu cavalo — inventou a desculpa de improviso. — Acredito que tenha soltado a ferradura, então achei melhor averiguar, e como estava muito perto de sua propriedade...

— Fez muito bem em ter vindo. Deixe-me levá-lo à cavalariça — fez menção de segurar os arreios do cavalo —, o cocher resolverá essa questão enquanto tomamos um chá.

— Deixe que eu o conduzo o cavalo até a cavalariça — Johan ofereceu-se.

— Eu não quero causar incômodo — disse ela. — Posso aguardar aqui enquanto o cocher verifica se há algo errado — sugeriu, imaginando que se visse Alexandre, não saberia como agir. Em sua ânsia se falar com Johan, ela não tinha calculado sua atitude sob todos os aspectos.

— Não será incômodo algum — disse Phillip de modo cortês e fez um sinal para que Johan levasse o animal. Ele se afastou, deixando-os a sós.

— Tudo bem, eu agradeço o gentil gesto. — Ela sorriu acompanhando Phillip até a mansão. Ao chegarem no primeiro degrau da escadaria, Phillip lhe ofereceu o braço. Joana surpreendeu-se com o gesto e, hesitante, apenas segurou sua mão para subir o primeiro lance da escada, soltando-a em seguida.

Phillip a conduziu à biblioteca. Joana sentiu um leve desconforto por estar em sua presença, e a sós. Pensou que ele a levaria até a sala, a biblioteca lhe pareceu um lugar particular demais. Joana retirou o pesado casaco que vestia e o pendurou perto da porta. Sentaram-se em poltronas de frente para a lareira, que estava acesa.

— Que magnífica biblioteca. — Ela estava surpresa com a quantidade de títulos que havia ali. O lugar era enorme, com luxuosos móveis e tapeçarias, bem como lustres belíssimos. O teto era repleto de pinturas neoclássicas. — Seria o meu lugar preferido nessa casa — falou sem medir as palavras. Imediatamente sentiu-se tão arrependida que chegou a corar, mais de irritação consigo mesma do que por constrangimento.

— Sinta como se fossem seus — disse Phillip olhando-a com encantamento, mais por sua beleza do que por seu modo espontâneo. — Sempre que desejar, venha até aqui... para ler — completou.

— Que gentil — sorriu, ainda desconfortável, esperando que o chá não demorasse e ela pudesse partir. Levantou-se e caminhou até algumas prateleiras, passando os dedos sobre a lombada de alguns títulos. Seus olhos brilharam ao ver tantos livros. Era fascinante.

— Estes são sobre ciência — disse ele —, e à sua direita os livros de religião. Há um pouco de tudo, política, poesia, teatro... Algumas obras clássicas e...

— E os proibidos para mulheres? Onde ficam? — Ela perguntou audaciosa. Phillip arqueou as sobrancelhas, surpreso com a pergunta.

— Não separei estes ainda... — sorriu com a ousadia de Joana. —

Estou pensando sobre os títulos que entrarão nesse grupo. Com certeza a senhorita poderá me ajudar...

— Claro, literatura filosófica, iluminista, liberal — disse ela dando um meio sorriso. O chá chegou no mesmo instante. Phillip estava consternado com o arrojo com que Joana se expressava.

A criada os serviu e, antes de se retirar, deixou as xícaras e o bule sobre a bandeja. Joana voltou a se sentar na poltrona próxima a Phillip. O líquido quente desceu reconfortante e a temperatura fria do ambiente permitia ver-se a evaporação rápida da bebida. Por alguns minutos eles não falaram nada e uma inquietação começou a nascer em Joana.

— Acho melhor eu verificar se o meu cavalo já está pronto para ser montado — disse ela.

— Claro, eu a acompanho. — Ele levantou-se. Deixaram a biblioteca e percorreram os enormes corredores. Joana andou todo trajeto com o coração palpitante, como se a cada curva fosse deparar-se com Alexandre.

Alexandre estava em seu aposento, distraindo-se com uma leitura. Quando viu que não estava mais conseguindo se concentrar vestiu seu casaco e preparou-se para descer. Antes de colocar a mão na maçaneta da porta alguém bateu afoitamente. Ele abriu e encontrou Caroline, agitada ela lhe puxou pelas mãos.

— Joana está aqui — anunciou sem rodeios. — Venha...

— A senhorita Joana está aqui? — Um nervosismo o atingiu de sobremaneira. Ele ainda se sentia surpreso ao constatar como o simples mencionar daquele nome acendia sensações inexplicáveis em seu corpo. Imaginou se ela teria ido vê-lo, após tê-lo deixado esperando por ela no bosque, no dia anterior, mas teve receio de perguntar.

— Está na biblioteca com Phillip há alguns minutos — Caroline informou. Aquilo o atingiu de forma desagradável.

— O que fazem lá? — fechou o semblante. — Eles estão sozinhos?

— Sim, sozinhos — Caroline falou, não com menos ciúmes do que o irmão. — Você deve ir até lá...

— Eu não posso. — Ele disse. — Não posso simplesmente ir até lá e entrar em um cômodo em que sei que Phillip está tendo uma... conversa particular — disse aborrecido.

— Finja que entrou lá para pegar um livro! — Ela sugeriu. — Irá interrompê-los inesperadamente.

— Ora, Caroline. Fingir? Já não sabe o quanto estou pagando por igual ato?

— Ou, melhor — disse ela mudando de ideia ao ver o livro de Alexandre sobre o criado-mudo, ao lado da cama —, vá apenas devolver para a biblioteca o livro que estava lendo. — Ela caminhou até o criado-mudo, mas seus olhos focaram abaixo da janela. Caroline ficou paralisada.

— Ainda não conclui a leitura — disse ele.

— Esqueça, a visitante já está de partida. — Ela disse, apontando com os olhos pela janela. Lá embaixo, à porta da mansão Motier, Joana e Phillip conversavam.

Alexandre caminhou até a janela, voltou seu olhar para baixo e os viu. Não era possível ouvir o que diziam. Também não conseguia ver os seus rostos, apenas tinha a visão do alto de suas cabeças.

— Por um momento pensei que ela tivesse vindo até mim, para que pudéssemos enfim conversar — disse esmorecido.

— Vá até eles. Vá, Alexandre! — Caroline o puxou até a porta do aposento e depois em direção às escadas.

Alexandre desceu os degraus do interior da mansão e, vagarosamente, chegou à sala principal. Dali já era possível ouvir as vozes de Phillip e Joana.

Caminhou lentamente na direção deles com Caroline logo atrás. Joana estava de costas para a porta, virada para o jardim, e Phillip estava à sua lateral, olhando na mesma direção. Ele fez um gesto cortês e ofereceu seu braço para descerem juntos as escadas e, novamente, ela apenas se apoiou em seu braço para dar o primeiro passo, soltando-o em seguida. O toque sutil da mão de Joana sobre a de Phillip fez arder o coração de Alexandre.

— Foi um prazer recebê-la — disse ele quando chegaram ao final da escadaria. — Reafirmo o meu convite e desejo de que venha mais vezes. A biblioteca está à sua disposição, senhorita — sorriu. — Gostaria de dar uma volta pelo jardim antes de buscar o cavalo? — convidou.

Joana estava prestes a recusar, quando virou seu corpo um pouco para a direita e viu Alexandre, parado no alto da escadaria, junto à porta. Ela hesitou a fala por alguns minutos, sua boca secou, enquanto seu coração vibrava no peito. Ele estava ainda mais bonito do que ela se lembrava. Com a expressão séria e também desapontada, ele a olhava. Ela enfim desviou seu olhar, sentia o coração pulsar no peito e na garganta. Phillip olhou na direção da escadaria e também viu Alexandre.

— Sim — Joana aceitou o convite de Phillip e perpassou o seu braço entre o dele. Suas pernas tremiam, segurar-se em Phillip naquele momento foi um ato impulsivo, mas também providencial. Ela não se importou se feriria Alexandre com seu gesto, mal conseguia negar para si mesma que se o visse sofrer, sentir-se-ia vingada; por outro lado, não fazia ideia de que aquilo o fosse atingir da forma como atingiu. Ao ver Joana de braços entrelaçados com Phillip, Alexandre deu-se conta de que a perdia da forma mais dolorosa que podia imaginar. Deram as costas para Alexandre, que os viu se afastar em meio a sentimentos de todas as nuances, dores e profundidades. Um estranho e novo sentimento lhe tomava as emoções: o ciúme.

— Por que estão juntos? — Caroline perguntou ainda mais enciumada, parando logo atrás de Alexandre. — O que ela veio fazer aqui, afinal?

O olhar que Caroline os lançava era diferente do olhar do irmão. Alexandre sentia-se triste, decepcionado com o amigo e com Joana, mas acima de tudo, ainda culpava-se por tudo ter acabado assim. Já Caroline, olhava-os com raiva, sentia ciúmes de Joana, por estar de braços dados com Phillip. Ela sentia, acima de tudo, grande vontade de gritar e lhes tirar satisfações. Impulsiva como era, fazia grande esforço para segurar seu ímpeto.

Alexandre não respondeu. Continuou observando Phillip e Joana andando juntos pelo jardim. Eles contornaram a mansão e foram até a cocheira, de onde ela buscou o seu cavalo branco.

— A nossa visitante parece atrair sempre muitos olhares na sua direção — Johan disse logo atrás de Alexandre e Caroline. Patric descia as escadas quando os viu todos parados à porta. Ele havia visto Phillip junto de Joana através da janela e desceu para ter certeza.

— Por que ela veio? — Caroline tornou a perguntar, sem conseguir esconder seu descontentamento.

— Disse que teve problemas com o cavalo e precisou parar para averiguar as ferraduras — Johan contou-lhes a mentira inventada por Joana e voltou a entrar na mansão. Caroline revirou os olhos e também subiu para o aposento, de onde acreditava que poderia ter uma visão melhor dos dois.

— Conseguiu falar com ela? — Patric perguntou a Alexandre.

— Não. Ela deu-me as costas. Sei que não mereço sua atenção, mas seria irreal dizer que não dói vê-la ignorar-me.... No entanto, o que fiz...

— Não se martirize — Patric o interrompeu. — Você se arrependeu do que fez e agora busca meios de se desculpar. Uma hora ela irá ouvi-lo e quem sabe poderá entender que disse a verdade em muitos momentos. O que sente é verdadeiro, ela irá perceber.

Patric tinha visto quando Joana se afastou da casa de braços dados com Phillip. Em seu íntimo ele imaginava que ela pudesse ter feito tal ato para causar ciúmes em Alexandre, ou para causar nele qualquer desconforto, de modo a lhe ferir, como Alexandre também a tinha ferido. No entanto, ele não pôde deixar de recriminar Phillip em pensamento. Phillip sabia o quanto Alexandre estava triste e arrependido, sabia dos sentimentos do amigo. Patric julgou que ele deveria se manter mais distante de Joana, mas ele parecia cada vez mais interessado na moça. Patric olhou para Alexandre e imaginou se ele também já não estava pensando a mesma coisa.

Alexandre deu as costas para todos e subiu até o seu aposento. Sentado junto da sua escrivaninha ele tinha pleno acesso visual aos dois, que ainda conversavam próximos à cocheira.

Ele retirou da gaveta um pedaço de papel e começou a escrever uma nova carta para Joana. Após terminar a carta algumas lágrimas vieram aos seus olhos. Ele olhou para o papel e considerou se devia mesmo entregá-lo à Joana, e como faria isso. Pegou o castiçal ao lado da escrivaninha e o acendeu, derreteu cera sobre o papel e com o sinete carimbou o seu brasão na carta.

Olhou novamente para o jardim e viu que se despediam. Quando Phillip beijou as mãos de Joana, seu coração não aguentou, chegou a desviar os olhos da cena. Depois, viu Joana montar no cavalo com a ajuda de Phillip e rumar para fora da propriedade Motier.

— Até mais, senhorita Joana — Phillip despediu-se. O cocheiro, que estava próximo deles, ouviu quando o patrão pronunciou aquele nome e imediatamente colocou mais atenção no rosto da jovem.

Alexandre viu que ela já estava fora dos portões da mansão e não aguentou o ímpeto de ir atrás dela. Saiu com pressa, sem muito pensar se agia com prudência. Ao descer as escadas encontrou Patric no caminho, que o olhou assustado e tentou impedir sua passagem, devido o estado transtornado que notou que Alexandre estava.

— Aonde vai, Alexandre?

— Vou atrás dela. É minha oportunidade, e não sei quando terei outra — disse ele, desviando-se de Patric. — Deixe-me passar, preciso ser rápido.