O Bosque de Faias
Capítulo 12 - Os irmãos Motier
— Senhor, eu perguntei por ela. A moça disse que era a própria.
— Está bem, René. Agradeço. Não fale com ninguém sobre isso. Pode ir. Deixe a cavalariça limpa e os cavalos também. Phillip chegará a qualquer momento — avisou ao criado.
Capítulo 12 - Os irmãos Motier
Caroline andava nervosa de um lado para o outro nos jardins da propriedade Motier. Desde que recebera a notícia de que Phillip poderia estar noivo, ela se atormentava com a sua chegada. A esperança era sua companheira mais leal. Ela não desistia de dizer que Phillip não iria retornar noivo, muito menos casado.
Um pouco depois do meio dia avistaram duas caleças na entrada da propriedade e mais três cavaleiros as acompanhavam fazendo a guarda. Logo atrás uma carruagem trazia várias bagagens e caixas de couro empilhadas umas sobre as outras.
Abriram-se os pesados portões de ferro e as caleças adentraram o jardim, parando próximas às escadas. Caroline ficou estática no alto do último degrau da escadaria a fim de não demonstrar ansiedade e Alexandre foi receber Phillip, acompanhado de cinco criados.
Patric foi o primeiro a descer da caleça, esticando os braços e pernas para logo em seguida abrir os braços para Alexandre.
— Meu velho amigo — disse ele. — Há quanto tempo? — abraçaram-se.
— Nem tão velho... Não nos vemos há... três anos? — Alexandre perguntou.
— Quase quatro, meu caro!
Phillip desceu logo atrás e em seguida Johan. Os criados foram rapidamente levando os cavalos para as cavalariças e as bagagens para dentro da mansão. Os olhos de Caroline se acenderam e se encheram de brilho quando viu Phillip. Ela percebeu que o tempo não havia suavizado seu sentimento, pois ele se mostrava ainda mais forte e latente. Phillip havia mudado muito pouco, e seu rosto bonito lembrava à Caroline os motivos de ela ter se apaixonado. Era tão belo, com seus olhos azuis, os cabelos loiros e ondulados, o rosto de traços fortes, o queixo quadrado. Caroline viajara muitas vezes para dentro daquele sorriso, seduzida pelos seus belos lábios.
— Alexandre. Alegro-me em revê-lo — disse Phillip abraçando o amigo.
— Seja bem-vindo ao seu lar — Alexandre sorriu. — Como foi a viagem?
— Da Escócia para Paris vim muito bem, mas o trajeto para cá é muito desgastante. Sabe que prefiro um navio do que essas caleças duras.
Alexandre sorriu e passeou os olhos pelas caleças. Viu que ninguém mais estava nelas. Phillip tinha realmente vindo desacompanhado de sua noiva.
— E a sua noiva? — perguntou em baixo tom.
— Que história! Essa devo contar-lhe mais tarde — riu
Johan passou por Alexandre dando-lhe um gentil acenar de cabeça, e com seriedade e passos firmes subiu as escadas; quando encontrou Caroline, parou para cumprimentá-la.
— Senhorita — curvou a cabeça e sorriu cortês. — O passar dos anos lhe fez bem. A senhorita está tão mudada que quase não a reconheci — sorriu, desta vez com malícia.
— Obrigada. — Ela constrangeu-se e também o cumprimentou.
Alexandre subiu as escadas na companhia de Phillip e Patric — que vinha um pouco mais adiantado e parou junto de Caroline para saudá-la. Ela estava aparentemente tranquila, embora seu interior estivesse agitado e feliz por Phillip ter chegado sozinho.
— Senhorita — Patric a saudou. — Alegro-me em revê-la — sorriu.
— É uma alegria que compartilhamos — disse ela, desviando seus olhos para Phillip, que se aproximava cada vez mais.
— Senhorita, é um prazer recebê-la. Mesmo que seja eu quem esteja chegando — Phillip sorriu.
Caroline emudeceu e apenas lhe estendeu a mão, esperando que ele a beijasse. Phillip segurou a mão que ela lhe oferecia e curvou-se, encostando seu rosto em sua pele, porém sem beijá-la. Caroline sentiu o coração bater mais forte apenas com o soprar do hálito quente que sentiu escapar de suas narinas, deliciando-se com o toque muito suave do nariz dele contra a sua pele. Não se viam há quase quatro anos.
Phillip lembrava-se de Caroline ainda menina, cheia de autoridade e vontades, as quais os pais se desdobravam para atender. Quando ela tinha quatorze anos passou a olhá-lo de maneira diferente, ou talvez já olhasse antes, mas Phillip demorou a perceber. Caroline lhe lançava olhares apaixonados e fazia o que podia para ficarem a sós. Ele sempre se esquivava, procurando respeitar sua idade e inocência, bem como tentando furtar-se de cometer alguma indecência com a irmã de um grande amigo seu.
É claro que ele a achava bonita; seus olhos negros, pele clara e lábios rosados combinavam com os cabelos longos e lisos, da mesma cor dos olhos. Embora fosse bela, era ainda muito jovem e Phillip julgava que ela não tinha o brilho suficiente para conquistá-lo. Ele ainda não tinha visto em nenhuma moça essa luz.
Phillip recordou-se de quando a mãe de Alexandre morreu, Caroline tinha quinze anos na época e Alexandre um pouco mais de dezoito. Alexandre ficou responsável por cuidar da irmã, já que o pai também havia falecido um ano antes, e embora não soubesse como fazer isso da melhor forma, tentou o quanto pôde ser referência para ela; porém, sem perceber, começou a reproduzir o mesmo tipo de tratamento que os pais lhe davam. Caroline pedia joias, roupas, gastava com caleças, cavalos, e o irmão atendia sempre aos seus caprichos. Quando viu que passava muito tempo ausente e que cuidar da irmã não era uma atividade tão fácil, ele a enviou para morar na Inglaterra, junto de Delphine, uma tia que tinham por parte de mãe. Ele enviava todos os meses fundos para que ela pudesse viver bem, ficando para si apenas o recurso básico para manter a casa em Paris e alguns poucos criados.
***
— A mansão é perfeita em todos os sentidos. Visitei todos os cômodos, com exceção do aposento escolhido pelo senhor e sua irmã, claro — Phillip conversava a sós com Alexandre no escritório, ao cair da noite.
— Phillip, devo dizer que não consenti que Caroline escolhesse um aposento antes que você pudesse escolher o seu. Eu pedirei que ela escolha outro, pois tenho certeza de que o que ela ocupa é superior à sua posição nesta casa. Caroline é hóspede.
— Meu caro, deixe Caroline como está. As moças são sempre muito mais exigentes. Se eu tiver boa cama e uma lareira quente já estou satisfeito. Notei que todos os aposentos têm salas de banho e gostei de todos. Como vou agradecer pelo que fez por mim? Imagino que tenha tido muito trabalho nestes últimos três meses nesta propriedade.
— Uma ocupação que me preencheu a mente e me proporcionou algum prazer. Fiz esse trabalho com bom gosto. Longe dos campos de batalha, regozijo-me com qualquer tarefa — falou Alexandre.
— Sei o quanto sofreu nas batalhas, mas espero que não tenha mais que erguer sua arma por um bom tempo, a não ser em treinamento. Ainda precisamos voltar a falar sobre isso.
— Eu espero o mesmo... que tenhamos um pouco de paz, enfim. Conte-me sobre sua noiva. Estou curioso — desconversou. Falar sobre guerra ou até mesmo treinamento militar era um assunto do qual Alexandre preferia evitar naquele momento.
— Precisei recusá-la. Na verdade, foi a senhorita Grizelda quem me recusou.
— Por quê?
— Disse que ama outro. Diga-me, que alegria eu teria de desposar uma moça que diz que ama outro? Mesmo que seja uma recomendação de meu tio e um acordo feito há muitos anos... eu não quero uma esposa apática. Então fui até o Lorde e disse que não podia aceitar sua filha. Só nos restou lamentar.
— Creio que fez bem. Em algumas situações precisamos levar em conta os sentimentos.
— Se os sentimentos de uma moça não estão vivos desde o início, não surgirão depois. Ao menos não fui rejeitado sem um bom motivo. Ela amava outro...
— Phillip, precisamos tratar de um assunto...
— Podemos fazer isso amanhã. Estou exausto. Preciso dormir e acordar somente quando esse cansaço me deixar.
— Está bem. Falaremos amanhã — Alexandre consentiu, vendo aquela noite como a última oportunidade para pensar em como proceder.
***
Alexandre custava a adormecer. Remexia-se inquieto na cama e pensava no que faria no dia seguinte. A coragem lhe escapava junto com a sensatez. Não queria perder Joana. Ele já podia imaginar os olhos dela em fúria, mandando-o se afastar dela para sempre.
Ah! Alexandre, seu estúpido — brigava consigo mesmo.
Leves batidas na porta foram ouvidas por Alexandre enquanto ele perdia-se em seu delírio angustiante. Levantou o seu corpo na cama e prestou atenção, ouviu novamente as batidas muito suaves. Pôs-se de pé e alcançou o castiçal na cômoda ao seu lado e foi em direção à porta, abrindo-a levemente. Iluminou o vão que se formou e viu a sua irmã.
— Caroline, o que faz aqui? — sussurrou.
— Quero falar com meu irmão — murmurou de volta.
— Podemos nos falar amanhã, sim?
— Não. Podemos falar hoje, é importante. Sei que está enrascado. — Ela forçou a porta.
— Eu? Enrascado? Entre... — Ele abriu espaço para a irmã passar. — Do que está falando?
— Eu sei sobre a sua mentira — Caroline revelou.
— Que mentira?
— Quantas mais andou contando? Eu soube apenas de uma, senhor Phillip. — Ela disse com olhar inquisidor.
— Fique quieta! Não me chame assim, Caroline — advertiu, irritado. — O que você sabe... e como? — Ele a questionou com severidade. Ouvir alguém o chamar de Phillip o incomodava de sobremaneira.
— Vai ficar furioso...
— Diga!
— Eu os segui — disse ela rapidamente. — Meu irmão, perdoe-me. Não foi planejado — procurou se desculpar ao ver como os olhos de Alexandre endureceram-se.
— O que está me dizendo? Seja mais exata, por favor — pediu impaciente.
— Sim... — Ela respirou profundamente. — Dias atrás eu fui à vila, onde na oportunidade escolhi a sua máscara e o seu lenço. Neste dia, ao voltar para cá, passei pelo vilarejo dos camponeses e o vi falar com uma moça. Vi quando ela saiu em disparada com um cavalo e você a seguiu. Eu não os segui, juro! Apenas continuei meu trajeto e quando passei pela estrada próxima ao bosque, vi ao longe um cavalo branco e reconheci que era o mesmo que a moça estava.
— E me viu?
— Não, não o vi, tampouco a moça. Vi somente o cavalo. Pensei em me aproximar, fiquei alguns minutos nessa dúvida, até que a vi sair sozinha por uma estreita trilha entre as árvores. Ela soltou o cavalo que estava preso e rumou para a vila.
— Como sabe?
— Eu a segui — abaixou os olhos. — Desculpe-me, sei que agi mal. Eu a segui até a vila e a vi entrar no que imagino ser a casa onde mora. Então eu vi aquele senhor que esteve aqui certa vez, Frederico Hour, o homem que o chamava de Phillip. Ele estava no jardim da casa com a esposa, então aproximei-me e me apresentei, disse que era irmã de Alexandre Franz.
— Por que fez isso? — Ele passou as mãos nos cabelos lisos. Seu rosto estava vermelho e ele já suava com o nervosismo.
— O senhor Hour olhou-me, tentou puxar a memória, franziu o cenho e balançou a cabeça desculpando-se. Disse que sentia muito, mas não se recordava de nenhum Alexandre Franz. — Ela concluiu a narração e esperou que ele dissesse alguma coisa.
— Ah, Caroline, você não devia ter feito isso — Alexandre apoiou o castiçal na cômoda e sentou-se em sua cama. — Eu estou, sim, muito enrascado, mas não sou tão culpado quanto minha irmã pode estar imaginando. Não sou um mentiroso.
— Eu tenho certeza de que não é culpado. Eu o conheço bem. Estivemos alguns anos longe um do outro, mas creio que não foi tempo suficiente para mudar o seu caráter íntegro e justo.
— São qualidades que não me servem neste momento — disse esmorecido.
— Do que precisa, Alexandre?
— Coragem e franqueza...
— Conte-me, o que houve? Quem sabe eu posso ajudá-lo.
— Ninguém pode. Deixemos esse assunto de lado — Alexandre pediu e ela concordou.
— Alexandre, há ainda outra coisa que eu desejo lhe perguntar. Por que não me conta sobre a noiva de Phillip? Por que ela não veio? Dê-me a boa notícia que eu tanto espero.
— Caroline, não se iluda. Phillip não ficou noivo... — disse e viu o sorriso de satisfação brotar nos lábios da irmã —, porém isso não muda em nada os sentimentos dele em relação a você.
— Se valoriza a felicidade da sua irmã, deixe-me manter as esperanças.
— E o que há em maior quantidade em um coração iludido, senão vagas esperanças?
— Ainda falamos sobre mim?
— Não é a única a sofrer desse mal, garanto.
— Ah, meu irmão... — Ela suspirou — Diga-me, Phillip a rejeitou? Mesmo sendo a moça bela que me contou que era a propensa noiva?
— Acontece que a moça não era tão propensa assim. Ela ama outro e iria casar-se com Phillip contra a sua vontade, então ele não aceitou o acordo.
— Phillip fez isso? Não sabia que ele era um homem romântico.
— Não se trata de romantismo, Caroline. Mesmo o homem menos romântico não desejaria casar com uma esposa que chora por outro.
— Phillip precisa de uma noiva que o ame e esteja disposta a fazê-lo feliz — sorriu esperançosa.
— Quem sabe ele não precise de noiva alguma. Esqueça Phillip. E esqueça o que conversamos hoje.
— Por hora, sim. Boa noite, irmão.
Caroline deixou o aposento do irmão e voltou para o seu, em silêncio, andando devagar para não provocar ruídos no chão. Passou em frente ao aposento de Phillip e, em seu devaneio apaixonado, imaginou como seria estar com ele naquela noite, envolvida em seus braços fortes. Suspirou sonhadora e seguiu seu caminho
***
Assim que acordou Alexandre banhou-se, vestiu-se e saiu com pressa rumo ao bosque, onde ficou por horas seguidas esperando que Joana talvez aparecesse. Caminhou pela trilha onde ela costumava passar, perdeu-se entre tantas árvores e enquanto pensava nela, procurou a árvore com as iniciais dos seus nomes. Quando encontrou, passou lentamente os dedos sobre o contorno daquelas letras e suspirou. A angústia lhe consumia. Ele desejava intensamente vê-la, falar sobre seus sentimentos e lhe implorar o perdão. Sem mais poder esperar, galopou desesperadamente até a propriedade do senhor Hour e só parou quando estava em frente à porta da residência. Ele precisava contar-lhes toda a verdade, por piores consequências que isso pudesse lhe trazer.
Amália estava bordando sentada na poltrona perto da janela da sala e viu quando ele chegou.
— Mamãe, o senhor Phillip está lá fora — chamou a mãe, que estava no sofá e que também tinha entre os dedos um bordado.
— Está? — Anastasia surpreendeu-se. — Vá chamar o seu pai — fez um sinal com as mãos para a filha se apressar.
Amália subiu as escadas e correu pela casa à procura do pai, chamando a atenção das outras irmãs que estavam no aposento.
— Phillip está aqui! — disse, abrindo a porta do aposento onde Joana estava, e tornou a sair correndo. Joana olhou pela janela e viu o Percheron negro. Seu coração saltitou. Caminhou até a porta do aposento e viu Sophie descendo as escadas.
— Papai, papai. O senhor Phillip está aqui — Amália encontrou Frederico em sua saleta particular, cochilando com um livro aberto sobre a mesa.
— Está aqui? Peça que entre e venha até mim.
[...]
— Senhor Hour — Alexandre adentrou no escritório ainda consumido por sua aflição.
— Meu caro Phillip. Está tudo bem com o senhor? — Frederico perguntou, vendo como parecia transtornado. Alexandre apertava os olhos com força e respirava fundo para tentar suportar ser chamado de Phillip.
— Estou bem, sim, senhor.
— Agrada-me e ao mesmo tempo surpreende-me vê-lo em minha casa. Tive receio de que a minha sinceridade o tivesse afastado.
— Senhor Hour, não foi sua sinceridade que me afastou. Eu confesso ao senhor que não tenho inclinações em relação à sua filha, Sophie — falou ele. Os olhos de Frederico mostravam desapontamento. — No entanto, eu... eu... venho por outro motivo.
— Eu já sei, senhor. Noto que lhe constrange dizer, então não diga.
— Sabe? — Ele estremeceu.
— Sim, sei; e o senhor também sabe que não é correspondido. No entanto, os sentimentos de uma moça podem demorar a aparecer. Se o senhor me disser que deseja se casar com Joana, então se casará!
— Casar com Joana? — Seu coração vibrou com a possibilidade. —
Sem importar-me com o que vem em seu coração? Acaba de dizer que não sou correspondido — repetiu ele e um discreto incômodo lhe perturbou após aquela afirmação.
— É um homem romântico, senhor? Diga-me apenas se veio apresentar a sua proposta e eu lhe darei a minha permissão. Joana teve mais oportunidades do que um bom pai ofereceria. É casar-se com Joana que o senhor deseja? — Ele foi direto.
— Mais do que tudo que já tive a sorte de desejar — disse Alexandre suspirando e interrompendo completamente o seu plano anterior.
— Trataremos disso. Tem a minha permissão — falou o senhor Hour dando um amistoso sorriso.
— Necessito falar com a senhorita Joana.
— Por quê?
— Apenas necessito. Permite-me falar com ela, senhor? — Ele agora estava mais nervoso do que nunca.
— A sós?
— Prometo que serei breve.
O senhor Hour saiu do escritório e foi chamar Joana. Na sala ao lado estavam todas as filhas reunidas ao lado de Anastasia, em silêncio. Joana era a única que olhava para o chão e trazia consigo uma expressão compenetrada. Podia-se dizer que estava imersa em seus pensamentos. As outras olhavam para o corredor que dava acesso ao escritório e esperavam com ansiedade descobrir o conteúdo daquela conversa.
— Joana, venha aqui — Frederico chamou.
— Por quê? — Ela ergueu a cabeça e franziu a testa.
— Venha, Joana. O senhor Phillip deseja falar-lhe.
— Vá, Joana. — A mãe pediu que atendesse ao chamado do pai.
Ela levantou e caminhou até a porta do escritório e todos entreolharam-se ao ver que o pai não pretendia acompanhá-la.
— Quer que eu fale com o senhor Phillip a sós? — perguntou ela. O senhor Hour apenas abriu a porta e fez sinal para que a filha entrasse de uma vez, fechando a porta logo em seguida.
***
— Senhorita — Alexandre exclamou quando a viu entrar. Joana não o olhou nos olhos, ficou de pé perto da porta, em silêncio. — Nada me deixa mais feliz do que a ver neste momento. Estive angustiado desde a última vez em que nos falamos. Um dia sem vê-la já não tem a mesma graça.
— Está exagerando, senhor — disse ela olhando-o rapidamente e voltando seus olhos novamente para o chão.
— O que digo ainda é pouco diante do que posso lhe oferecer.
— Não faço ideia a que o senhor está se referindo.
— Falo dos meus sentimentos, senhorita — disse dando alguns passos na sua direção.
— Por que veio aqui? E por que temos que falar a sós?
— Por Deus! Por que a senhorita oferece a mim tanto desprezo?
— Não o desprezo, senhor.
— E o que sente? Diga-me, o que sente quando está perto de mim? Quais os pensamentos que lhe fazem companhia à hora de dormir? Pensa em mim? — Ele segurou as mãos de Joana. — Senhorita eu preciso saber o que sente — aproximou-se ainda mais, trazendo o seu rosto para muito próximo do dela e olhando-a fixamente nos olhos.
— Eu... não entendo aonde quer chegar, senhor. Sei que os sentimentos de um homem podem ser muito instáveis e muitas vezes até conduzidos pelo orgulho. — Ela disse com a dificuldade que era raciocinar estando tão próxima a ele. — O quanto de apreço o senhor depreenderia a meu favor se eu estivesse declinada a aceitar os seus elogios? E se eu fosse como essas moças tolas e apaixonadas, que caem em armadilhas que elas mesmas criam para se prenderem ao sofrimento? — disse, desta vez mais audaciosa.
— Do que tem medo, senhorita? Eu percebo agora que é o medo que lhe domina. — Ele segurou suas mãos com mais vigor. — Tenho nutrido uma grande afeição pela senhorita. Nunca encontrei nenhuma moça que despertasse em mim essa... sensação. O poder que a senhorita exerce sobre mim é algo que ainda não consegui decifrar. É tão perturbador e tão maravilhoso ao mesmo tempo...
— Vaidade. É esse o nome que dou para a sua... sensação. — Ela disse intempestiva.
— Isso que a senhorita chama de vaidade, eu chamo de amor, e quase posso ver sentimento igual dentro dos seus olhos. Os seus olhos, senhorita, dizem o contrário do que me fala a sua boca. A sua boca que é tão linda, tão convidativa a um beijo. — Ele colou seu rosto ao dela.
— Não se atreva! — Ela sentiu a respiração dele muito próxima e estremeceu quando ele suspirou perto de seu rosto. Sua respiração também ficou pesada.
— Há muito poderia ter se afastado, no entanto seus pés permanecem fixos e suas mãos já se acostumam às minhas. Posso garantir que elas estão onde mais gostariam de estar, e seus lábios... seus lábios lhe imploram para que diga a verdade, enfim.
— Que verdade? — perguntou com a voz entrecortada, sem conseguir encará-lo assim tão de perto.
— Que me ama, senhorita. — Ele segurou o queixo de Joana e conduziu seu rosto para cima, de modo que ela o olhasse dentro dos olhos. — Case-se comigo. — Ele pediu. Joana reuniu suas forças para se afastar dele, dando alguns passos para trás.
— Não! — disse em bom tom.
— Não? Um não é tudo o que a senhorita me diz? — Ele a olhou aturdido. Vejo que não leva em consideração o que acabo de dizer. Penso até que ficaria feliz se eu tomasse a mão de sua irmã Sophie em casamento. Seria um alívio para a senhorita? — inquiriu.
— Considera a possibilidade? — perguntou aflita.
— Devo chamar o seu pai e dizer que mudei de ideia? Acha que sua irmã conseguiria mostrar um pouco mais de interesse por mim? — questionou-a.
— Ora! — Ela bufou. — Tente a possibilidade! — ruborizou de tão furiosa.
— Insiste? — Ele começou a rir.
— Por que está rindo? — Ela o olhou aturdida e colérica.
— Porque estou feliz, senhorita! Acaba de confirmar que me ama! — Ele abriu os braços e sorriu. — Não percebe? É uma tola, assim como eu sou um tolo feliz!
— Está me chamando de tola? — Ficava cada vez mais nervosa e enfurecida.
— Assim como as moças tolas e apaixonadas que caem em armadilhas que elas mesmas criam para se prenderem ao sofrimento? Sim, é uma tola, senhorita! É uma tola se pensa que eu desistiria de tê-la para contentar-me com qualquer outra moça que não fosse a senhorita! Agora apenas diga que me ama. — Ele a encarou. Seu corpo inteiro agitava-se.