O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 2 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 2 — O jantar

 

Joana havia debutado aos dezessete anos e desde então o pai começou a procurar noivos para ela, de modo que todos os meses lhe surgiam pretendentes, os quais ela rejeitava veementemente. Frederico Hour já estava desesperando-se com todas as recusas da filha.

Joana acordou irritada. Aquele era o dia em que teria a infelicidade de receber em sua casa o Senhor John. Sentou-se em sua cama e apertou os olhos com força para enxergar melhor através de toda aquela claridade que o sol depositava em seus olhos verdes. Na cama ao lado, Rebecca ainda dormia. Joana dividia o mesmo aposento com a irmã mais nova, enquanto Sophie dividia um com Amália.

Esticou os braços e voltou a deitar. Olhou para o teto e lembrou do encontro inusitado que teve com o jovem no bosque no dia anterior, e pensou que deveria tomar mais cuidado ao ir até lá. Se ele fosse alguém mal-intencionado, poderia ter sido muito desagradável.

— Joana! — Sophie entrou no aposento da irmã gritando.

— Ah! Assustou-me, Sophie — reclamou, enquanto Rebecca também se queixava de ter sido acordada daquela forma.

— Mamãe está chamando-a. Precisam ir à boutique. Esqueceu-se do compromisso que tem hoje, Joana? — Sophie falou arregalando os olhos e gesticulando animada.

— Estava tentando esquecer! Seria bom se me esquecessem um pouco também. Por que devo ir à boutique? Já disse para mamãe que tenho o que vestir! — Joana falou sem paciência.

— Eu não tenho culpa, não desconte em mim — cruzou os braços abaixo dos seios, fazendo birra.

— Não tem culpa, Sophie, mas bem que ficaria feliz se eu aceitasse o Matusalém, não é? — questionou a irmã, erguendo as sobrancelhas.

— Como sabe que ele é tão idoso assim? Mamãe disse que ele não é.

— Ora! Nosso pai disse que ele tem quatro filhos! Claro que é um Matusalém — Joana afirmava carrancuda. Sophie ainda não tinha visto a irmã com tanto mau humor, mesmo assim, não pôde deixar de achar engraçado. Riu, abafando com as mãos o som, quase gargalhando.

— E ainda faz gracejo com a minha desgraça!? — bufou. — Diga a nossa mãe que irei com Rebecca até a boutique. Quero a opinião de minha irmã — disse piscando para Rebecca.

***

Pontualmente às 19h00 horas M. John era anunciado por uma criada na casa dos Hour. Ao contrário das expectativas de Joana, ele era um senhor jovem, considerando-se o número de filhos, e não devia ter muito mais do que quarenta anos. Era alto, de pele morena e poucos fios grisalhos apareciam entre os seus cabelos negros. Trajava-se de forma elegante com calção de casimira, colete curto e de corte quadrado. Os botões abertos do colete mostravam o babado da camisa e o colarinho virado para cima trazia um ar sóbrio, juntamente com um lenço plastrom de seda que lhe cobria o pescoço. Era a roupa da alta moda francesa. Tal refinamento encheu de contentamento os olhos de senhor Hour e da esposa.

— Senhor John, boa noite. Entre, por favor — Frederico Hour recebeu o convidado com cortesia, admirando a elegância do homem rico e encantador.

Na sala, todos estavam prontos para recebê-lo. As irmãs Hour pareciam bonecas de porcelana, com vestidos românticos e bufantes, laços na cintura e ornamentos na cabeça. Os olhos do senhor John percorreram o ambiente à procura de reconhecer qual delas seria Joana. Achou todas elas jovens demais, e considerou uma delas tão feia que sentiu um arrepio correr-lhe a espinha ao imaginar que poderia ser aquela a moça que teria que cortejar.

— Estas são minhas filhas: Sophie, Amália e Rebecca. Joana está ainda se aprontando, mas não tardará a aparecer — informou o pai em tom preocupado. — E esta é minha esposa, Anastasia.

— Muito obrigado por me receberem. Sua família é encantadora — suspirou e abriu um sorriso em seguida.

— Fique à vontade em nossa casa — Madame Anastasia lhe fazia as honras quando Joana apareceu, fazendo os olhos de todos quase saltarem de seus rostos.

Ela estava linda, incrivelmente bela, mas vestida de uma forma tão arrebatadora que chegou a fazer corar as suas irmãs e a mãe. Vestia-se com um vestido lilás de tecido muito leve e decotado; por cima, uma saia de cintura alta, justa logo abaixo do busto e que se tornava mais solta a partir da cintura. Os braços estavam à mostra, ocultando apenas parte dos ombros em uma pequena manga bufante e transparente. Os cabelos ruivos estavam presos, repartidos ao meio e com cachos perfeitamente alinhados.

— Joana, por que não se trajou de forma mais discreta? — cochichou a mãe, sorrindo constrangida e tentando evitar que os outros vissem-na censurar a filha.

— Queria estar à altura de meu pretendente, mamãe. Veja como é um homem requintado — disse Joana em baixo tom, apenas para a mãe. Caminhou até o senhor John e ofereceu a sua mão direita para que ele repousasse nela um beijo. Tal ato fez erguerem-se as sobrancelhas da mãe. Anastasia estranhou o tom de voz da filha, bem como as suas atitudes tão amáveis.

— Senhorita Joana, é um prazer conhecê-la — disse ele, segurando as mãos de Joana e curvando a cabeça em um gesto gentil. Ele não lhe beijou a mão, como um ato respeitoso, já que ainda não eram oficialmente noivos.

— Encantada. O prazer é meu também, senhor John — curvou levemente a cabeça e atravessou a sala, deixando para trás o suave aroma do seu perfume. Foi tão gentil com o pretendente que fez todos olharem-se confusos. Aquela era mesmo Joana? Ela estava mesmo considerando aceitar que ele lhe fizesse a corte? Estava considerando a possibilidade de se casar, enfim?

— Joana está querendo chamar atenção — Sophie cochichava com a irmã mais nova, olhando Joana com ciúmes. — Vestiu-se tão inadequadamente. Por que ela fez isso? Nunca a vi se vestir assim — balançava a cabeça em desaprovação.

— Eu a achei tão linda — Rebecca olhava-a com admiração. Sophie bufou discretamente.

— Por mim — deu de ombros —, desde que aceite que o senhor John lhe faça a corte e casem-se logo, pouco importa. Caso contrário nós seremos as solteiras mais velhas dessa região.

— Sophie, eu acabei de fazer quinze anos — Rebecca lembrou a irmã, alertando-a de que ainda não se preocupava muito com isso.

— Sorte sua ser a mais nova de nós, pois eu tenho quase dezoito — Sophie reclamou.

[...]

— Aceita uma bebida, senhor John? — Frederico Hour quebrou o silêncio e fez com que o convidado saísse do transe em que se encontrava. Ele estava tão surpreendido com a beleza de Joana que mal conseguia mover os olhos, porém não deixou de reparar como a moça se apresentara exposta e desinibida.

Joana era realmente bonita, mas não de uma beleza sutil. Ela tinha uma beleza quase exótica, díspar. Seus cabelos eram muito avermelhados, seus olhos de um verde profundo e seu rosto parcialmente coberto por sardas ruivas.

— Aceito sim, obrigado — M. John respondeu a Frederico Hour.

— Vinho? — Frederico mostrou-lhe o vinho Bordeaux e que há muito aguardava uma ocasião especial para ser servido.

— Sim, vinho — assentiu, enquanto voltava a observar Joana e suas irmãs.

Quem as visse de costas poderia confundirem-nas facilmente, mas apesar da cor de cabelos e olhos serem idênticas nas irmãs, os seus rostos eram muito diferentes. Joana tinha um belo rosto de traços harmoniosos; o contorno dos lábios, o desenho da sobrancelha, os olhos verdes muito expressivos. Tudo parecia ter sido desenhado para causar enlevo a quem se pusesse a contemplá-la.

Sophie também era bonita; ela tinha um rosto angelical e redondo, seus olhos verdes destacavam-se na pele muito branca e seus lábios eram pequenos e rosados. Já Amália e Rebecca tinham o rosto mais fino, como os da mãe, e a testa e queixo mais proeminentes. Como herança genética recebida do pai, todas elas possuíam o mesmo tom ruivo nos cabelos e a mesma cor de olhos; mas as sardas, apenas Joana as tinha.

M. John parou de analisar as jovens quando foi servido pelo próprio senhor Hour, que encheu sua taça com vinho e foi buscar mais uma para juntar-se a ele, ansioso por começar uma conversa sobre negócios e política. Frederico Hour ia bem em seus negócios, plantava grãos em suas terras e fornecia seus produtos para todo o vilarejo e até para cidades vizinhas, no entanto, tinha a ambição de casar todas as suas quatro filhas com maridos muito ricos.

Quando Frederico retornava com a taça, viu que Joana estava próxima de M. John e que conversavam e sorriam. Inicialmente ficou nervoso, já que não era certo que conversassem a sós; mas como M. John já havia apresentado a sua proposta de casamento, achou que poderia deixá-los se conhecerem melhor. Afastou-se a passos lentos. Parecia um sonho. A filha estava aquiescendo com a ideia de casar-se?

— É um vinho muito bom, senhor John. Um legítimo Bordeaux — Joana dizia.

— A senhorita aprecia?

— Sim, muito! Porém gosto de bebidas mais fortes, ajuda a aquecer quando a noite está muito fria. Só preciso cuidar sempre para acertar o equilíbrio. Pouca bebida me deixa com sono, mas se exagero, fico alegre demais e não consigo adormecer — riu calorosamente enquanto falava.

— Oh, sim — M. John respondeu constrangido, esquecendo-se de fechar os lábios que estavam boquiabertos com a vivacidade de Joana.

Ela então encheu a sua própria taça e em poucos goles sorveu todo o vinho, voltando a encher novamente a taça. Os olhos de M. John analisavam-na estupefato. Ela era literalmente muito diferente do que ele imaginava. Pensava que Joana era uma moça delicada e tímida, com atitudes mais doces e recatadas. Era o que se esperava de uma jovem de tal idade. No entanto ela era desafiadora, seus olhos eram duros, quase selvagens, e ela portava-se sem nenhum embaraço ou insegurança.

M. John não podia negar que Joana era como uma luz singular, vívida e rebelde, encantadora. No entanto não estava habituado com tamanha soltura, se tratando de uma moça jovem e solteira.

— Do que mais gosta, senhorita? — perguntou.

— De ler. Gosto muito de ler — declarou sorrindo.

— Ler? Que interessante!

— É evidente que sim. Tenho lido livros muito bons, que me ajudaram a ver as coisas de outras formas — Joana falou com destreza. — Gosta de ler, senhor John?

— Eu... sim, aprecio uma boa leitura, embora não tenha lido mais com tanta frequência ultimamente.

— Oh, entendo. Anda muito ocupado, senhor John?

— Sim, viajo muito a negócios e o trabalho ocupa-me boa parte do tempo.

— Oh, por isso não entendo os homens; trabalham tanto para terem tudo o que o dinheiro lhes possa comprar e depois não lhes sobra tempo para desfrutarem dessas mesmas coisas a quais dedicam-se tanto para terem — Joana disse esboçando um leve sorriso presumido.

— Não havia pensado sob essa perspectiva. Vejo que é uma dama bastante moderna, com pensamentos tão... Não quero ser rude, senhorita, mas deve tomar cuidado com certas leituras. Acredito que alguns livros possam envenenar a mente das mulheres. Existem muitos livros inapropriados para uma jovem como você; mas é claro que não deve ser um desses livros que a senhorita anda lendo...

— Certamente não — Joana abaixou os olhos e pôs-se a olhar as suas próprias mãos, fingindo estar constrangida.

— Desculpe-me, não quis ofendê-la. Sei que é uma dama muito prendada, de atitudes irrepreensíveis — M. John passou a mão nos cabelos e liberou o ar dos pulmões com força, voltando a respirar profundamente. — Tenho duas filhas mulheres. Na verdade, são meninas. Falo apenas com a mesma preocupação que depreenderia em favor delas.

— Oh, entendo — Joana riu-se por dentro. — E suas filhas, já apreciam a boa leitura?

— São ainda muito crianças. Fiquei viúvo há pouco menos de um ano e minha esposa cuidava de todas essas questões de educação das nossas filhas; mas as meninas leem apenas alguns livros selecionados. Minhas criadas asseguram-se de que se ocupem com atividades mais coerentes.

Coerentes? Como as relacionadas à casa e ao marido? — Joana pensou, mas não se atreveu a revelar sua opinião e questionamentos.

— Certamente — limitou-se a dizer inclinando levemente a cabeça, vendo que agora tinham companhia. Frederico Hour aproximou-se dos dois e uma criada anunciou que o jantar estava servido, interrompendo a conversa de Joana e M. John.

 

***

— Espero que tenha apreciado o jantar, senhor John. Assim como a companhia de minha filha Joana — dizia Frederico, com os olhos brilhantes de satisfação ao lembrar-se de como as suas tentativas anteriores haviam sido frustradas e como Joana reagira positivamente naquela noite.

— Foi uma noite adorável, garanto. Sua filha é um encanto, senhor Hour. Sou muito grato pela oportunidade de conhecê-la — disse com algum desconforto na voz.

— Sinto-me alegre em saber que passou uma noite agradável. Então podemos marcar o próximo jantar? — disse o senhor Hour, ansiando que o jantar seguinte fosse o de noivado.

— Sou muito grato pelo convite, senhor Hour. No entanto, não sei se poderei aceitar tão em breve. Esta semana mesmo devo viajar para Clermont a negócios.

— Viajar? Oh, certamente não tardará em retornar...

— Acredito que demorarei nesta viagem — respondeu constrangido.

M. John não iria a viagem alguma, mas esse foi o único modo que encontrou de dissimular um motivo para não voltar mais à casa dos Hour. Como diria que, apesar de formosa, a filha parecia ser mais rebelde do que um mar intempestivo. Joana pareceu-lhe imperativa demais, soberana demais. M. John previa uma esposa teimosa, instável e insurgente. Como ela conseguiu mostrar-se tanto com apenas poucas palavras, gestos e olhares? Em seu íntimo surgia até mesmo a desconfiança de que ela, talvez, não fosse mais virtuosa.

Uma moça pura não agiria assim, sem nenhum recato. — Foi o que ele pensou.

***

Assim que M. John se foi e ficaram na sala apenas os membros da família Hour, Anastasia foi conversar com Joana, sendo acompanhada pelas filhas, que estavam ávidas para saberem o que a irmã tinha a dizer.

— E então, minha filha? Apreciou esta noite ao lado do senhor John? Seu pretendente é um homem adorável, não é?

— Acho que o senhor John não é mais um pretendente, mamãe — informou ela com ironia, vendo Sophie endurecer o olhar e bufar em fúria.

Joana subiu para o seu aposento furtando-se da enfastiante conversa que certamente teria que ter com os pais no dia seguinte. Da sua cama podia ouvir as vozes do pai e da mãe na sala, mas não conseguiu entender o que diziam. Decerto estavam perguntando-se o que pôde ter dado de errado.

Joana lembrou-se da primeira vez em que sentiu repulsa do casamento. Ela era apenas uma criança interessada a aprender aritmética e curiosa com alguns livros que ficavam no gabinete do pai. Quando Frederico Hour notou tal interesse, gritou com a filha e com a esposa, dizendo-lhes que ter modos, aprender um pouco sobre música e bordados seria o suficiente para ela.

Aprender aritmética não ajudará Joana a encontrar um bom marido! — gritou.

***

— Acha que o senhor John não gostou de nossa filha? — Frederico perguntou à esposa, desanimado.

— É claro que gostou. Eu vi o jeito que ele a olhou; mas Joana foi muito sagaz, enganou a todos nós.

— O que quer dizer? — Ele não entendeu a afirmativa da esposa.

— Ora, meu marido, não percebeu? Joana fingiu aceitar o noivado, mas assustou o senhor John para que ele perdesse o interesse nela.

— Joana fez isso? Como?

— Com suas atitudes, certamente. O que vimos foram sorrisos forçados e atitudes calculadas. A impressão que ela deve ter passado ao senhor John foi propositalmente construída para ele refutasse a ideia de se casar com ela.

— Se Joana fez isso, ela agiu muito mal. Será punida por isso! Perdeu um ótimo casamento, muito lucrativo para nossa família. E tudo por capricho?

— Joana é teimosa. Permita, meu esposo, que Sophie se case primeiro — pediu a esposa, suplicante.

— Não! Se eu fizer isso posso arruinar a reputação de Joana. Todos irão falar! Já devem estar comentando a demora em casarmos nossa filha mais velha — queixou-se.

— Passe por cima dessa formalidade ou logo falarão de todas.

— Darei à Joana uma última chance. Se ela não aceitar, se casará mesmo que não queira. Ela irá se casar por ordem minha, mesmo que não aprove o noivo.

— Está correto, meu esposo. No entanto devo concordar com Joana; também acho que o senhor John não é mais um pretendente.

— Se eu estiver certo sobre uma certa coisa, acredito que teremos um pretendente muito superior ao senhor John.

— De quem se trata?

— Estive visitando algumas terras nos arredores da vila e passei em frente à propriedade Motier, a mansão que fica ao Norte do bosque. Vi uma movimentação diferente. Notei que uma carruagem entrava pelos portões trazendo algumas caixas e malas.

— E o que tem isso?

— Querida! Aquela propriedade pertencia ao Lorde Louis Motier. Ele faleceu recentemente e toda a sua herança passou para um sobrinho, Phillip Motier.

— Como soube disso? — perguntou maravilhada com a notícia.

— Essas coisas se espalham rapidamente. Uma moça que trabalha na propriedade Motier soube da chegada de Phillip Motier e falou com a irmã, que trabalha na cozinha do senhor Henrique Loen. Ele próprio me contou que em breve o herdeiro chegará.

— Mas o senhor acha que a movimentação que viu é porque esse sobrinho e herdeiro já chegou à propriedade?

— É possível que sim, querida.

— Acho que não deve dizer isto ao senhor Loen... — sugeriu a esposa, matreira.

— Não direi. — E ambos sorriram.