O Bosque de Faias
Capítulo 38 — A sonata de Beethoven
— Você está mentindo, Joana. Está mentindo assim como Alexandre mentiu. Não me condene então por também ter as minhas próprias mentiras. Acha que Alexandre é menos culpado? Acha que ele agiu por amor, então poderá ser facilmente perdoado por papai? Engana-se! Somente essa mentira já é o bastante para ele ser rechaçado por nossa família. Ele não receberá o perdão por ter se passado por Phillip Motier.
— Isso nós não sabemos — disse Rebecca. — Vamos, Sophie, conte para nossos pais a verdade. O que vier depois não importará. Ao menos faça o que é o certo.
— Não — foi a curta resposta de Sophie. — Não — repetiu uma vez mais.
— Ouça, Sophie, terá que contar. Darei a você um pouco mais de tempo, mas se não contar saiba que eu mesma contarei — Joana ameaçou-a vendo os olhos de Sophie crescerem apavorados. — Mas não se preocupe, não contarei sobre o senhor Johan... Mas o que diz respeito a minha vida e a minha felicidade, não abrirei mão.
Capítulo 38 — A sonata de Beethoven
Enquanto dirigia-se até a casa de Frederico, Phillip meditava sobre os últimos acontecimentos. Crescia a intimidade que tinha com a família Hour, e perguntava-se verdadeiramente o que queria com aquilo, afinal, não era tão sociável assim e sempre preferira o isolamento. Acabou por admitir a si mesmo que Joana era seu único interesse em visitá-los, pois os outros membros da família Hour não prendiam nem a metade do seu interesse, assim como Joana prendia apenas em caminhar de um lado da sala para o outro.
Ao seu lado, na caleça, estava Patric, que era um bom ouvinte e com o qual podia conversar abertamente, mas julgava que ele estivesse mais ao lado de Alexandre do que do dele, e que o censuraria por seu comportamento e pensamentos, sem hesitar.
Tivera que ouvir sermões do irmão mais novo no dia em que Alexandre e Johan partiram. Patric o condenava, acima de tudo, por não manter um diálogo com Alexandre, e por deixar que assuntos políticos os afastassem, bem como o embate por causa de Joana. Em palavras muito simples Patric disse a Phillip que esquecesse aquilo, que Joana amava Alexandre e que Alexandre a amava igualmente. Não havia espaço entre eles, e Phillip devia se distanciar. Phillip respondeu com indiferença e tratou logo de encerrar o assunto, mas dentro dele aquilo não se encerrou, e até o dia seguinte ainda continuava a se perguntar o porquê de Joana não sair de seus pensamentos.
Quando enfim chegaram — e depois de serem anunciados —, entraram naquela pequena sala exageradamente decorada; Phillip e Patric foram saudados por todos, embora de forma diferente por cada membro da família Hour. Enquanto os olhos de Rebecca encheram-se de prazer por rever Patric, os de Sophie eram quase mortos e inexpressivos. Joana era indiferente a qualquer adulação desnecessária, ao contrário da mãe, que não poupava elogios aos dois convidados.
[...]
— É um grande prazer — disse mais tarde Anastasia para Phillip — recebê-lo em minha casa mais uma vez. Por mim viria sempre!
— É sempre uma honra receber um convite como este — disse Phillip. — Aproveito tanto da vossa companhia como de suas filhas com muito prazer e encanto.
— Ah, você é um homem ímpar — disse ela. — Muito gentil. A cada vez que o vejo minha estima pelo senhor aumenta mais. — E quando viu que os olhos de Phillip estavam concentrados em Joana, tratou de não perder a oportunidade. — Diga, senhor Phillip, o que acha de minha filha Joana?
— Eu... — aturdiu-se com aquela pergunta — a considero encantadora, e muito bela.
— É mesmo? Que felicidade poder ouvir tão sincero elogio sobre minha filha. Sabe, lamentei muito que no outro dia em sua casa vocês dois não puderam dançar juntos. Joana perdeu a joia e também muito tempo a procurando; mas hoje podem dançar, mesmo que a sala seja pequena, ainda assim acredito que podem dançar enquanto Rebecca toca ao piano.
— Isso é algo que posso fazer com todo o prazer, se ela ficar feliz em concordar — garantiu ele sorrindo.
— E como não ficaria? Qualquer jovem ficaria. Ah, senhor Phillip, não sei como ainda não se casou, com certeza não deve pensar nisso ainda.
— Bem, na verdade eu tenho pensado nisso há algum tempo.
— É mesmo? — perguntou ela muito satisfeita com o que ouvira.
A pequena conversa com Phillip teve que ser interrompida pois o senhor Hour se aproximou e o prendeu em outro assunto. Anastasia, porém, os deixou com um sorriso no rosto, confiante de que, se Phillip estava à procura de uma esposa, ela sabia muito bem quem seria a escolhida.
[...]
Rebecca estava mais tímida do que costumeiramente naquela noite. Se antes conversar com Patric era algo que fazia de forma espontânea, mesmo que isso lhe causasse várias palpitações no peito, agora essas sensações eram ainda mais fortes e tão sem controle que prendiam sua fala e seu corpo, impedindo-a de ser natural ao lado dele. Temia olhar para ele e dar sinais de sua afeição, temia falar algo e ficar tão embaraçada a ponto de ser considerada tola. Temia que se ele percebesse seus sentimentos, se afastasse para não lhe dar esperanças em vão. Mal sabia Rebecca que Patric compartilhava sentimentos semelhantes aos dela; tinha praticamente os mesmos medos, e estava ali, tão próximo, e não sabia como iniciar uma conversa com ela depois de tê-la abraçado no bosque e sentido como aquilo mexera com sua emoção.
Joana, que já era muito mais romântica do que fora outrora, observava a tudo com muita alegria. Há muito tempo já havia enxergado que Patric nutria sentimentos pela irmã, e antes que sua mãe sugerisse que Rebecca tocasse para que os demais pudessem dançar, ela mesmo o fez, mesmo sabendo que não era tão boa nessa arte quanto a irmã, queria dar a ela a oportunidade de dançar com Patric. Joana foi até o pianoforte e tocou uma valsa, o que fez com que Patric tomasse finalmente a iniciativa para se aproximar de Rebecca. Ele a convidou como se estivessem em um grande baile, curvando-se gentilmente e oferecendo o seu braço para conduzi-la até um reduzido espaço que havia em frente ao piano, mas que permitia que um casal dançasse facilmente. Rebecca corou por serem os únicos a dançarem, mas Patric pareceu não reparar. Ele a rodopiou pela sala e segurou suas mãos com tanto aconchego que Rebecca acabou por se esquecer onde estavam.
— A senhorita está linda — disse ele enquanto dançavam, quase em um sussurro, depois sorriu. Rebecca quase errou os passos ao ouvir aquele elogio, que era o único que não imaginava que ele pudesse fazer a ela.
— O senhor é sempre muito gentil — disse ela quase sem acreditar. — Se eu soubesse o que me tornou mais bela hoje, então passaria a usar sempre.
— Não... Não é nada que esteja usando, nenhum vestido ou joia. Acho que não me expressei corretamente. O que quero dizer é que... a senhorita é linda.
Desta vez foi impossível não errar os passos. Rebecca parou de se movimentar e olhou para Patric completamente aturdida. Seu coração palpitava com força, seus pés não conseguiam se mover. Patric fez com que ela girasse uma vez mais e sorriu para que não ficasse constrangida.
— Desculpe-me por ter errado os passos — disse ela ruborizando, voltando a acompanhá-lo.
— Não há por que desculpar-se. Também errei alguns, que me saltaram completamente sem ritmo.
— O senhor? — perguntou sem entender, nem ao menos tinha percebido que ele também errara.
— Sim. Não percebeu?
— Não — respondeu ela sentindo o calor das mãos de Patric sobre as suas enquanto ele a conduzia com maestria naquela valsa.
— Aqui — levou a delicada mão de Rebecca até o seu peito, fazendo com que ela sentisse que o coração dele também batia forte e descompassado, errando completamente o ritmo.
— Oh! — O que Rebecca disse em resposta àquela declaração não foi exatamente uma expressão coerente, uma frase ou palavra, mas sim um som abafado que escapou por seus lábios, um sussurro surpreso que transmitia muito bem o que estava sentindo naquele momento.
A valsa tocada no pianoforte terminou e todos viraram-se para Joana para aplaudi-la, inclusive Patric e Rebecca, que estavam mais ao lado direito da sala e que naquele momento não tinham nenhum olhar sobre eles. Patric sorriu para Rebecca e ela voltou a ruborizar ainda mais.
Joana, após os aplausos, olhou para Patric conversando com Rebecca e emendou uma nova música ao piano, mas como seu coração estava melancólico com a saudade que sentia de Alexandre, escolheu a op.27 n.2, a 14ª sonata de Beethoven. Era uma de suas sonatas preferidas do compositor alemão, que era muito respeitado e influente por toda a Europa, considerado o maior compositor do século. Assim que tocou as primeiras notas sentiu o olhar duro do pai na sua direção; ele não gostava de Beethoven pois dizia que ele era a favor dos ideais da revolução e próximo do movimento iluminista.
Joana não se importou, fechou os olhos e deixou-se guiar por aquela melodia, que se iniciava lenta, quase de forma chorosa, e que no segundo tema se transformava em uma atmosfera mais leve e alegre, terminando por fim de forma dramática em movimentos muito rápidos e difíceis de executar, mas que Joana sabia muito bem como fazer, pois era a música que mais praticava ao piano, mesmo que fizesse isso de forma menos frequente do que as outras irmãs.
A sonata completa ultrapassava quinze minutos e Anastasia já olhava com indignação para Joana, afinal, enquanto a filha estivesse ao pianoforte não poderia dançar ou conversar com Phillip. Porém, mesmo que tenha demorado, a música teve o seu fim, e Joana foi substituída por Amália, depois de Sophie ter se recusado a tocar.
— Finalmente deu-me a graça de ouvi-la tocar — Phillip disse ao se aproximar de Joana. — Não foi muito justa consigo mesma ao dizer que não era apta ao piano. Essa sonata foi primorosa.
— Obrigada, acho que estava inspirada esta noite.
— Algum motivo em especial para a inspiração? — perguntou Phillip.
— Ah, sim. A própria música — disse ela sem pestanejar. — Linda e inspiradora por si só.
— Sim, concordo — disse ele olhando-a com intensidade. — Essa música é exatamente como a senhorita. Acho que poderia ouvi-la por toda a minha vida.
Joana preferiu fingir que não havia entendido o elogio, limitou-se a sorrir e mudar o assunto, porém, não pôde evitar dançar uma valsa com ele, que a convidou com um gesto elegante e polido. Os dois juntos faziam uma bela figura, de um casal que se poderia chamar de deslumbrantes em beleza, e Anastasia parou tudo o que estava fazendo apenas para vê-los dançar.
— Ele gosta de Joana! O senhor Phillip gosta de Joana! — disse exultante para o esposo.
— Então seu irmão partiu... — Joana iniciou uma conversa com Phillip enquanto dançavam.
— Sim. Johan foi para Paris e de lá seguirá viagem para a Escócia. Irá conhecer a noiva, Grizelda — respondeu lamentando que ela iniciasse aquele assunto.
— Interessante, nunca pensei que seu irmão tivesse uma noiva, afinal, ele sempre me pareceu tão disponível...
— Johan é sempre disponível para moças bonitas — disse ele. — Mas espero que ele não tenha deixado aqui neste vilarejo nenhuma mocinha apaixonada.
— Talvez tenha a deixado mais do que apaixonada. Talvez tenha a deixado arruinada.
— Do que exatamente está falando, senhorita?
— Tenho sérias inclinações para acreditar que seu irmão fugiu. O senhor com certeza deve estar alheio às atitudes que ele teve enquanto esteve em sua propriedade...
— Completamente alheio — disse ele sem interromper a valsa, mas franzindo o cenho e mostrando estar confuso. — O que Johan fez?
— Vou lhe contar, mesmo sendo algo completamente vergonhoso. Ele iludiu Sophie com promessas. Ele... — interrompeu a fala para dizer aquilo de uma forma menos incômoda. — Ele... a desonrou — concluiu, vendo que não havia outra palavra para usar.
— O quê? — Phillip parou de dançar e fez-se aturdido com aquilo. — Isso é muito grave. Jamais teria permitido que Johan partisse se soubesse de tão vis atitudes. Lamento muito...
— Será que há algo que possa fazer para que ela não permaneça na vergonha e no desamparo?
— Trazer Johan para cá novamente? — perguntou enquanto estudava as suas reações. — Ah, senhorita Joana, se tivesse me dito isso antes eu o teria feito ficar e se casar com sua irmã — garantiu ele, embora soubesse que jamais faria isso. Ele mesmo havia recusado casar-se com Grizelda por estarem falidos, e ainda assim os rendimentos do Lorde ultrapassavam em muito os do senhor Hour. Dentre todos os questionamentos que Phillip fazia a si mesmo, o maior deles era o porquê de estar interessado em Joana mesmo sendo ela filha de um pouco abastado comerciante de grãos.
Em sua falta de romantismo ele jamais concebeu a ideia de casar-se por amor. A razão sempre lhe ocupou os pensamentos em primeiro lugar, mas a verdade era que Joana despertava em si sentimentos que jamais lhe foram aflorados. Jamais sentiu-se daquela forma, como se estivesse bêbado somente em olhar para ela ou apenas ouvi-la falar. Quando Joana sorria enquanto dançava, seus olhos percorriam cada detalhe dos lábios dela, estudando o formato de seus dentes e espiando a sua língua, a qual chegou a imaginar-se tocando-a com um beijo. Outras vezes analisava com minúcia os seus olhos, como eles brilhavam quando ria e espremiam-se entre os seus cílios longos.
Tocar suas mãos e tê-la tão junto de si naquela dança era ao mesmo tempo um prazer e um martírio, pois aquele suave toque de mãos era muito pouco diante do enorme desejo que sentia de tocá-la, beijar seus lábios e tê-la por completo. Com esse pensamento Phillip acabou por convencer-se de que era melhor ter uma esposa que o fizesse se sentir assim, do que um grande dote de uma esposa pela qual não se sentia nem um pouco atraído.
[...]
A noite terminou e o coração de Rebecca voltou a ficar um pouco mais preenchido com a forma como Patric despediu-se dela. Além de um beijo em suas mãos, ele disse-lhe que gostaria de vê-la mais vezes, se esse também fosse o desejo dela, e prometeu que faria mais visitas à sua casa, pois simplesmente adorava conversar com ela.
— Ficarei muito feliz com sua visita — garantiu ela sorrindo docemente.
***
Outra visita foi feita naquele mesmo dia, na propriedade Motier. O ranger da porta do aposento de Caroline, como sempre muito sutil, a despertou de um sono ao qual ela havia há pouco se entregado. Caroline passara muitas horas cuidando da janela para ver a hora que Phillip retornaria, mas acabou por vencer-se pelo sono. Depois que o irmão partira ela passou a se sentir muito sozinha, e sem Johan para dar a ela um pouco de atenção durante o dia, estava se sentindo triste.
— Como está se sentindo? — Ele perguntou assim que entrou e viu que Caroline sentou-se na beirada da cama. — Ainda está indisposta?
— Estou melhor, descansei e a febre cessou desde ontem — respondeu ela.
— Então partirá logo, assim como Alexandre lhe pediu? — inquiriu encostando a porta atrás de si e adentrando um pouco mais no aposento.
— Essa pergunta é por se interessar ou porque deseja que eu vá?
— Ora, Caroline, não dito nenhuma regra para a sua vida. Se quiser ficar, fique. Se precisar partir, parta.
— Sempre tão indiferente a mim. Por quê?
— Não é indiferença. Sabe que não sou nem um pouco indiferente a você.
— É indiferente nas causas sentimentais. De verdade, nem se importa se eu partir. Não sentirá a minha falta, tenho certeza.
— Claro que sentirei — falou passando os dedos sobre a pele dos ombros de Caroline. — Só não me peça para ser sentimental. Eu não sou sentimental, Caroline.
— Eu sei... mas isso porque nunca consegui fazer com que se apaixonasse por mim. Porém preciso desistir de tentar, não sei se alguma mulher será capaz de ter o seu amor. É por amá-lo que me contento em tê-lo de forma tão reduzida. Sabe o quanto me fere jamais ter sido beijada nos lábios por você? Sabe o quanto me fere ter me entregado e saber que não me ama?
— Não há mal algum no deleite mútuo. Aprecio as carícias que me oferece e lhe oferto em troca todo o prazer que puder lhe dar — falou ele, posicionando suas mãos na cintura de Caroline e a trazendo para junto de si. Ela fechou os olhos quando sentiu os lábios quentes pressionados contra os seus ombros. Um calafrio percorreu o corpo de Caroline e ela deixou-se suspirar.
O som do seu ofego atingiu os ouvidos masculinos, desejosos de mais suspiros e gemidos como aquele. Ele a beijou no colo enquanto Caroline voltava a fechar os olhos e a sorver tudo o que podia daquele momento que era tê-lo somente para si.
— Oh, sim, Phillip!