O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 41 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 41 — As loucuras em nome do amor

— Quanto a isso não posso fazer nada. As coisas são como são. Esta noite está convidado para o jantar do meu noivado com a senhorita Joana, Patric. E se tiver ao menos um pouco de coragem, ocupe sua mente com assuntos do seu maior interesse, e tente assumir que está interessado na filha mais nova do senhor Hour. Tenho certeza de que nada os deixaria mais felizes.

— Pelo amor de Deus! — exclamou Patric ao constatar a objetividade do irmão. — Transformou-se em um romântico agora? Um péssimo romântico! O que sinto pela senhorita Rebecca vai muito além de um interesse. Quero mostrar isso a ela antes de satisfazer meu próprio egoísmo. Quero ter certeza sobre o que ela sente. Jamais poderia ser feliz se visse que em seus olhos pairam alguma dúvida em relação a mim. Os verdadeiros sentimentos exigem cautela. Paixão e desejo não são amor, Phillip! Você pensa que pode amar Joana, mas não pode! E eu não irei a este jantar hoje. Não espere por mim — disse antes de dar as costas para Phillip e encontrar Caroline junto da porta, com os olhos marejados. Ela assustou-se assim que foi surpreendida e subiu as escadas correndo rumo ao seu aposento.

 

Capítulo 41 — As loucuras em nome do amor

 

Deitada em sua cama, Caroline chorava amargamente após ter ouvido Phillip dizer ao irmão que se casaria com Joana. Ela a tinha visto entrar na propriedade Motier e, curiosa, foi até a sala para tentar ouvir alguma coisa. Porém tão logo chegou às escadarias viu Joana partindo como um vulto. Aproximou-se da sala da lareira e ouviu as vozes de Patric e Phillip.

“Se eu não for o esposo de Joana, outro será, mas nunca Alexandre.”

“Esta noite está convidado para o jantar do meu noivado com a senhorita Joana, Patric.”

As palavras de Phillip ardiam em seu coração. Recostou-se na parede ao lado da porta de acesso à sala e suspirou fundo. De olhos fechados ela dizia para si mesma que não tinha ouvido bem, que tudo era um terrível engano. Algumas lágrimas começaram a cair lentamente de seus olhos. Quando ela os abriu encontrou Patric retirando-se da sala. Ele olhou-a confuso antes de vê-la subir as escadas entregue ao choro.

Em seu aposento Caroline lamentou-se por mais de uma hora, recriminando a si mesma por doar tanto amor a Phillip, sem que ele fosse merecedor. Depois ergueu-se e finalmente decidiu enxugar as lágrimas e não sofrer mais. Precisava resgatar um pouco de amor próprio e, acima de tudo, confrontar Phillip e o fazer desistir de casar-se com Joana. Mesmo que Phillip jamais a amasse, que jamais a quisesse, precisava fazer isso por Alexandre, que sequer imaginava que tal situação acontecia em sua ausência.

***

— Oh, Joana, sinto tanto por essa decisão que papai tomou sem levar em conta os seus sentimentos — Rebecca buscava consolar a irmã assim que Joana retornou da propriedade Motier. Apenas Rebecca sabia onde Joana havia ido naquela manhã e estava a par da conversa de Joana com Phillip.

— Phillip conseguiu ganhar meu mais completo desprezo! Se antes eu poderia o considerar um amigo, agora o detesto. Suas atitudes são tão egoístas... — Seu humor não era choroso, mas sim revoltado.

— Joana, não pode mais proteger Sophie, precisa proteger a si mesma agora. Diga para papai e mamãe tudo o que aconteceu. Já adiamos demais a verdade.

— Estou muito aflita por causa de Sophie também. Tudo o que ela fez foi horrível, mas ainda é nossa irmã... Papai deu as costas a ela, repelindo-a completamente. E esse noivo, que nem sabemos quem é! Afinal, papai disse que Sophie se casará no fim deste mês.

— Eu não sei quem ele é, mas Sophie está mesmo desesperada.

— Então como posso fazer isso sem que ela sofra mais?

— Não há outra alternativa. Precisa contar. É sua única oportunidade de fazê-los enxergar que Alexandre a ama. Grite, Joana! Grite que ama Alexandre, antes que seja tarde demais.

Joana refletiu alguns segundos e, assentindo, foi procurar a mãe.

Encontrou-a prestes a sair. Anastasia estava indo à procura de um médico para examinar Sophie e confirmar sua terrível suspeita. Ela ainda custava a acreditar em tal enorme desgraça. Joana chamou pela mãe e juntas foram até a sala e sentaram-se uma de frente para a outra.

— Mamãe...

— Onde esteve, Joana? — Anastasia a interrompeu antes que ela começasse a falar. — Sumiu por quase uma hora nesta manhã.

— Fui falar com o senhor Phillip. Pedi que desistisse dessa loucura. Disse que não o quero como esposo — anunciou enquanto os olhos de Anastasia ganhavam um tom violento de inconformismo.

— Não acredito que tenha tido a coragem de fazer tal loucura! Que o seu pai não saiba que fez isso, ou não poderei controlá-lo.

— Tenho algo importante para falar. Como papai não está, falarei com você, mamãe; mas peço que transmita a meu pai o que lhe direi.

— Oh! Deus! O que pode ser? — disse para si mesma. — Veio dizer-me que preferiria se tornar freira?

— Não! Vim contar a verdade sobre o baile de máscaras na propriedade Motier. A verdade sobre Alexandre. E como toda essa história tem o envolvimento de Sophie, gostaria que ela estivesse presente nesta conversa.

Anastasia concordou estranhando que aquele assunto voltasse à tona. Juntas foram ao aposento onde Sophie descansava. Joana sentiu pena ao ver a irmã tão combalida, deitada na cama com o rosto tão branco quanto o lençol que a cobria. Anastasia e Joana sentaram-se na cama de Amália, que não estava ali naquele momento. Sophie apenas ergueu os olhos na direção das duas quando as viu entrar.

— Sophie — Joana começou a falar calmamente —, chegou o momento de contar toda a verdade para mamãe — pediu. Anastasia franziu o rosto sem nada entender, enquanto Sophie não mexeu um músculo do rosto, apenas seus olhos ficaram marejados.

— Diga — Sophie enfim expressou-se, com a voz fraca e indiferente. — Mate-me de uma vez.

— Isso nada tem a ver com morte. Não irá morrer se confessar o que fez. Ao contrário, penso que poderá ter alguma paz em sua vida.

— Do que estão falando? — inquiriu Anastasia já sem paciência.

Toda a narração durou cerca de uma hora, em que Joana contou tudo para Anastasia, sem ser interrompida. A cada frase que ouvia, os olhos de Anastasia expandiam-se em desgosto e surpresa, e os de Sophie curvavam-se para baixo, exprimindo um brilho melancólico e envergonhado, mas também carregado de um sentimento malfazejo, que Joana pareceu não perceber. Joana decidira ocultar de sua narração apenas o encontro com Alexandre no bosque, quando se conheceram, e o beijo que deram mais tarde. Ao falar dos seus próprios sentimentos, disse apenas que se afeiçoou a Alexandre e que o aceitara como esposo de coração aberto quando o pai pediu que ela o fizesse. Anastasia custou a acreditar quando Joana contou sobre o broche, a forma como ele foi ocultado por Sophie e como isso foi fundamental para Alexandre confundir-se. Mas, no fim, quando Joana terminou de contar tudo, não gostou do que ouviu de sua mãe:

— Tudo isso é terrível, mas no final tudo se encaminhou para melhores resultados. Não fosse a interferência de Sophie, quem sabe hoje estaria casada com aquele sujeito. Não digo que ela agiu certo, oh não... Agiu muito mal, Sophie — disse olhando para a filha, que já tinha lágrimas rolando livres pelo rosto. — Mas se ele tivesse sido honesto desde o começo, poderíamos ter nos afeiçoado a ele e quem sabe seu pai teria permitido o casamento...

— É isso que tem a dizer? — Joana inquiriu incrédula. — Devemos então agradecer a Sophie por ter agido tão levianamente?

— Sophie foi muito inconsequente, e hoje está pagando por tudo isso. Agiu como uma menina boba, cega por uma paixão... Mas, Joana, minha filha... Desde que soubemos que Phillip viria assumir a propriedade Motier, quisemos que ele a conhecesse, mas sabíamos que seriam muitas as famílias e moças com o mesmo desejo, portanto isso seria um sonho distante. Não teríamos nos negado a conhecer o jovem Alexandre e ver nele um possível pretendente se ele tivesse se mostrado sincero desde o começo. Mas ele preferiu mentir, e hoje tudo é diferente, Phillip gosta de você. E está tudo acertado. Não há nada que queiramos mudar nessa história.

— Eu não irei me casar com Phillip. Eu amo Alexandre!

— Ama o senhor Alexandre? Como pode dizer isso do homem que enganou sua família? Seu envolvimento com ele está fora de questão. Irei sim, conversar com seu pai e narrar a ele todo o acontecido. Isso servirá para que seu pai o deteste menos, mas ainda o detestará! Não sabemos nada sobre esse senhor Alexandre; apenas muito pouco sobre suas condições financeiras, que não são baixas, mas não se equiparam a Phillip.

— Pouco me importa que o detestem. Eu o amo e o perdoei por suas falhas. Entendi cada uma delas e sei que tudo foi por me amar, depois por medo... Jamais por falta de caráter! Alexandre é um bom homem, é por ele que meu coração bate. Não irei desistir de minha felicidade, mesmo que isso os decepcione. Estou muito infeliz, mamãe... Muito infeliz com essa ideia de me tornar esposa de Phillip.

— Seu pai estava falando sério quando disse que seu casamento com Phillip é uma ordem. Ele está cansado da sua teimosia, Joana. Nesta noite, quando Phillip vier a esta casa, você será a sua noiva, mesmo que se recuse a sair de seu aposento. Seu pai dará a benção para o casamento mesmo com a sua ausência, mas seria muito prudente que não se recuse a comparecer. Não quero que o seu pai fique nervoso e cometa a loucura de tentar arrancá-la do seu aposento à força.

Anastasia disse essas palavras e caminhou até a porta para se retirar, mas a voz sussurrante de Sophie a fez voltar.

— Mamãe, é verdade sobre esse noivo que papai diz ter arranjado para mim? — perguntou com os olhos sofridos. No fundo do seu coração, uma esperança de que seu pai e Phillip tivessem conseguido fazer com que Johan retornasse, palpitou em seu peito.

— Sim, é verdade — Anastasia disse condoída.

— E quem é esse noivo? — questionou ela. Anastasia demorou alguns segundos antes de responder. Seus olhos exprimiam sua preocupação com a filha e com o seu futuro. Sophie sempre fora a sua preferida. Anastasia a salvaria de toda a dor se pudesse, mas não havia nada a fazer para mudar os fatos.

— Vai saber no jantar do seu noivado, ou quando seu pai autorizar-me contar. Por enquanto ainda não temos certeza.

***

Phillip preparava-se para sair para o jantar do seu noivado quando a porta do seu aposento se escancarou e uma Caroline muito irritada surgiu, perscrutando seus olhos com muita raiva.

— Como pôde ter coragem de fazer isso comigo?

— O que eu lhe fiz, Caroline?

— O que fez? O que fizemos juntos todos esses meses... Você me enganou, Phillip. Usou-me!?

— Acalme-se, Caroline. Eu não a usei, não diga isso! Eu a considero uma dama. Eu a respeito — apressou-se em ir até ela e fechar a porta atrás de si. A expressão agitada de Caroline o deixou apreensivo.

— Respeita? Como pode dizer que me respeita quando esta noite irá noivar com outra? Phillip, sabe que eu o amo há muito tempo. Sabe que me esqueci até mesmo do meu amor próprio apenas para amá-lo.

— Eu jamais lhe prometi nada, Caroline. Eu jamais a enganei porque nunca disse que a amava. Não seja leviana consigo mesma. Sabe que nunca lhe dei esperanças. Sabe que eu a mantive longe de mim o quanto pude. Eu poderia tê-la desonrado há muito tempo, quando a senhorita mal tinha se tornado uma mulher. Quantas vezes tentou seduzir-me? Quantas vezes eu a tirei do meu aposento, em Paris, para que ninguém a visse e pensasse mal da senhorita? Eu tentei preservar a sua reputação, mas você queria desmanchá-la em meus braços.

— Por amor! Por amor, Phillip! — Sua voz reverberou pelo ambiente.

— Não se comete loucuras em nome do amor, Caroline, principalmente os não correspondidos!

— Hipócrita! Não é correspondido por Joana e mesmo assim irá noivar e casar-se com ela! Joana ama meu irmão. Joana ama Alexandre. Tenho certeza que ela o despreza! Dá conselhos a mim, mas não os segue, não os considera adequados para si?

— Acalme-se — pediu pousando suas mãos sobre as dela. — Eu estou ciente dos meus atos. Sempre fui ciente de todos eles! Eu não fui negligente com sua pureza. Olhe para mim, Caroline, eu a procurei agora pois sei que hoje é uma mulher, e eu sou um homem solteiro! Não quero que se ofenda, mas sei que já não era mais virtuosa quando veio para cá. Eu jamais teria tocado em você se soubesse que era casta.

— Então não pode me amar porque me entreguei antes a outro homem? Meu coração jamais foi de outro. Sempre foi seu! Eu o amo com todo meu coração, Phillip!

— Caroline, eu não irei falar sobre amor, pois nada sei sobre ele. Não é por teimosia, orgulho ou por afronta a Alexandre que me casarei. Casarei com Joana pois penso que meu coração a escolheu.

— Seu coração? Fala agora como um poeta? Como um romântico? Sim, você não sabe nada sobre o amor, mas eu posso lhe dizer o que ele faz com você: primeiro ele o prende, depois o sufoca, e às vezes ele o mata! — gritou.

Dito isso ela saiu em passos rápidos do aposento de Phillip. No corredor encontrou Patric, prestes a descer as escadas.

— Patric, quando será esse casamento? — inquiriu com os olhos ainda fervidos em raiva.

— Será dentro de duas semanas — revelou o que ouvira Phillip dizer.

Os olhos de Caroline surpreenderam-se com a rapidez da data, mesmo que fosse comum os noivados curtos.

— Acredita que dentro desse tempo Alexandre já estará de volta?

— Alexandre disse-me que tentaria retornar em três semanas, então possivelmente chegará poucos dias antes. Mas não sabemos se conseguirá voltar no tempo que planejou. Ele já partiu há treze dias e o único jeito de estar aqui antes desse casamento é voltando logo de Paris. Ou, que Deus queira, se ele já estiver em viagem.

— Mas se ele ficar uma semana a mais em Paris e retornar em seguida, chegará aqui tarde demais.

— Lamento que sim.

— Escreva uma carta para Alexandre, Patric! — pediu. — Escreva hoje mesmo e peça que ele venha imediatamente. Se tivermos sorte a carta poderá chegar lá antes do casamento, e Alexandre terá tempo de voltar.

— Isso é impossível. Se Alexandre retornar no tempo que disse que voltaria, ou se já estiver em viagem, a carta chegará lá e ele já terá partido. Precisamos contar com isso. Mas se ele se decidir ficar lá mais uma semana, a carta chegará tarde demais para que dê tempo de retornar antes do casamento; nesse caso a carta chegará apenas para deixá-lo destruído com as notícias.

— Então eu não sei o que fazer. Estou desesperada! — afirmou com os olhos marejados.

— Alexandre pediu que voltasse para Paris tão logo ficasse boa. Pensa em partir? — Patric perguntou a fim de saber um pouco mais sobre os planos de Caroline.

— Partirei um dia após esse casamento, se não pudermos evitar que ele aconteça. Rezo para que meu irmão já esteja a caminho.