O Bosque de Faias
Capítulo 28 — poesia e suave melodia
— Minhas filhas são muito instruídas em diversas áreas artísticas. Sabem tocar pianoforte com perfeição, cantam, fazem lindos bordados, apreciam muito a boa literatura, falam mais de um idioma.... — Catherine discorria sobre os talentos das filhas. Marie e Daisy sorriam ao lado da mãe, confirmando com um aceno de cabeça tudo o que ela dizia.
Phillip e Patric pareciam ouvir tudo com atenção, mas se Catherine fosse um pouco menos egoísta e um pouco mais sensata, veria que estava entediando a ambos. Catherine colocava muito vigor em sua voz, dando sempre ênfase às qualidades das filhas e olhando especialmente para Patric, porém sem realmente se importar se ele estava interessado no assunto.
Rebecca observava a cena descontente, mas sem saber o que fazer.
A única coisa que lhe ocorreu foi finalmente ir ao pianoforte. O som preencheu a sala e ela viu que todos pararam para apreciá-la. Seus dedos tocavam as teclas de forma fluida, leve, com mais paixão do que já havia tocado em toda a sua vida. Lembrou-se do que Patric lhe dissera sobre a pintura de Vênus e Marte e isso a fez colocar ainda mais emoção naquela melodia. Ela não sabia se aquela canção também falava sobre o amor do deus da guerra e deusa do amor, mas via a sua própria realidade com aquele mesmo significado, ela e Patric eram como os deuses, opostos.
De toda forma, amar Patric era um sonho bom, mesmo que jamais
fosse correspondida. Aquele sentimento era a parte mais bonita de um sonho que ela construíra para si. Sonhar com o toque das mãos de Patric nas suas, sonhar que seu amor pudesse ser retribuído...
Ao terminar de tocar foi aplaudida por todos, e viu os olhos de Patric brilharem na sua direção. Era como se ele pudesse elogiá-la mesmo à distância, através do olhar. Isso fez seu coração saltar algumas notas dentro do peito e seu rosto corar de uma forma calorosa. Estava extasiada em perceber como o amor produzia as mais conflitantes emoções, e tudo era tão prazeroso e tão doloroso ao mesmo tempo...
Ao voltar a si, viu que Marie já estava ao seu lado, para ser a próxima a tocar. Joana revirou os olhos de uma maneira divertida, certamente lembrando-se de que Marie também gostava de cantar enquanto tocava, e ela tinha uma voz que em nada poderia ser considerada agradável, muito ao contrário. Logo uma nova melodia ocupava o ambiente, enquanto Daisy sorria exultante na direção da irmã, sendo acompanhada pelos olhares orgulhosos do senhor Loen e da esposa.
Rebecca posicionou-se ao lado de Joana, de pé. Elas estavam próximas ao pianoforte, ao lado esquerdo, ouvindo Marie tocar. De frente para Joana, do outro lado da sala, estava Phillip, que de vez em quando lhe lançava olhares calorosos; ato que foi percebido por Anastasia e prontamente ignorado por Joana. Rebecca teria notado, não fosse a sua exultação em estar tão próxima de Patric, que estava bem ao seu lado, tanto que em certo momento seus ombros chegaram a se tocar.
— Enquanto a ouvia — disse Patric inclinando a cabeça na sua direção — refleti melhor sobre a minha interpretação em relação à pintura, e agora a vejo também sob outra perspectiva.
— A pintura? — Rebecca perguntou confusa, olhando-o com discrição, mas com muito interesse no que ele dizia.
— Sim, e penso que a pintura seja mais do que um alerta de que o amor é muitas vezes acompanhado de dor, mas também que a união dos contrários faz os casamentos felizes — disse ele como se tivesse descoberto um enigma. Rebecca sorriu completamente florescente.
***
A noite seguiu agradável para alguns e embaraçosa para outros. Anastasia precisou justificar a ausência de Sophie mais de uma vez, dizendo que a filha se sentira mal e precisou recolher-se antes do que desejava. Frederico Hour e Henrique Loen conversavam sobre seus negócios animadamente. Não discordavam em quase nada. Amália foi a última a tocar o pianoforte e depois os jovens se reuniriam para ler alguns textos e discutir literatura.
— Adoro poemas épicos — disse Daisy. — Li “A canção de Rolando” mais de uma vez. Fascina-me tudo que envolve a história e gosto muito mais do real do que o imaginário.
— Já eu gosto muito mais do que é romântico e está no plano das ideias — falou Rebecca.
— Deus me livre do abstrato! — replicou Daisy sorrindo. — Tão difícil de entender, tão repleto de enigmas e mil interpretações.
— A realidade mais fundamental pode ser tão abstrata quanto substancial. Não é assim o amor? — disse Patric. Phillip o olhou espantado por expor tão abertamente o seu romantismo, porém sua sinceridade fez Rebecca, Daisy e Marie suspirarem. Com isso ele ganhou também um pouco mais da admiração de Joana e de Amália, que ainda não haviam dado a sua opinião sobre o assunto.
— Tem razão — disse Rebecca. — O amor é abstrato, porém completamente substancial. Ele permanece igual mesmo com as mudanças... — disse olhando desta vez para Joana.
— O amor não é completamente eterno, tampouco imutável — disse Joana com o olhar firme. Rebecca viu que havia ressentimento nos olhos da irmã.
— Mas se o amor é puro, sua essência será eterna e perfeita — disse Rebecca.
— O que acha, senhor Phillip? — perguntou Daisy, a fim de extrair dele alguma opinião sobre o assunto.
— Sei tanto sobre o amor como sei sobre filosofia e história — disse ele dando um meio sorriso. — Meu conhecimento sobre esse assunto é todo advindo de livros — completou.
Ficou bastante claro para todos que Phillip, através daquela declaração, dizia que nunca havia experimentado sensação que fosse próxima ao amor. Ou era isso, eu ele apenas estava evitando falar sobre seus próprios sentimentos.
Depois disso, Amália leu alguns poemas para os convidados, Marie declamou outros dois e Daisy tentou por duas vezes recordar-se de “um que muito estimava, mas que havia sumido de sua memória”.
— Trouxe um poema comigo — disse Patric. Pertence a Johann Wolfgand von Goethe. — E então, vendo que todos olhavam-no retirar o pedaço de papel de dentro do casaco, iniciou a leitura: Livro do Amor
“O mais singular livro dos livros
É o Livro do Amor;
Li-o com toda a atenção:
Poucas folhas de alegrias,
De dores cadernos inteiros.
O distanciamento faz uma secção.
Reencontro! Um breve capítulo,
Fragmentário. Volumes de mágoas
Alongados de comentários,
Infinitos, sem medida.
Ó Nisami! — Mas no fim
Achaste o justo caminho;
O insolúvel, quem o resolve?
Os amantes que tornam a encontrar-se”.
Ao concluir a leitura Patric dobrou o papel e fez menção de guardá-lo; mas Joana, que estava bem ao seu lado, pôde ver com detalhes aquela grafia e pediu para ler ela própria o poema com mais atenção. Ele entregou o papel e Joana passou os olhos por aquela letra, reconhecendo ali todos os traços da grafia de Alexandre. Devolveu o papel para Patric sem ao menos reler o texto. Patric soube imediatamente que ela havia reconhecido a letra e a intenção de Alexandre em enviar aquele poema.
“...mas no fim... achaste o justo caminho... Os amantes que tornam a encontrar-se.” — repetiu mentalmente aquele verso para si mesma. Sim, era um apelo em forma de poema.
Continuaram a conversa sobre literatura e Joana reservou-se a apenas dar estreitas opiniões sobre o que lhe era perguntado. Ficou abalada com o poema lido por Patric, e também não queria discorrer sobre suas preferências literárias, que seriam imediatamente censuradas. Apesar disso, havia sempre muita audácia em tudo o que dizia, e mesmo a considerando um tanto impetuosa e singularmente arisca, Phillip ficava cada vez mais fascinado por ela.
Após a leitura, um pouco antes de se despedirem, Phillip agradeceu ao senhor Hour e Madame Anastasia pela agradável noite que tiveram, depois convidou a todos para irem à propriedade Motier naquela mesma semana, dali a dois dias, para um pequeno bailinho que ofereceria a eles. Deixou claro que seria uma reunião estritamente reservada, e não uma grande recepção, mas que poderiam dançar e se divertir. O convite estendia-se também à família Loen, afinal, Phillip não conseguiu esquivar-se de convidá-los. Tinha certeza de que se ele não o fizesse, receberia a visita deles de qualquer forma, com ou sem convite. Eles já se consideravam amigos íntimos de Phillip e Patric, apenas por terem trocado poucas palavras durante aquela noite.
Antes de irem embora, despediram-se de todos, e Phillip estranhou a forma como Joana desejou “melhoras” para Johan, dizendo que esperava sinceramente vê-lo em breve.
***
— Não é difícil perceber por que Alexandre gostou da senhorita Joana — disse Phillip voltando-se para Patric quando estavam a sós no interior da caleça, voltando para a propriedade Motier.
— A que se refere exatamente? A beleza da moça é notável, mas presumo que queira mencionar outra qualidade — disse ele voltando-se para o irmão. A caleça agitava-se noite afora.
— Não diria que é exatamente uma qualidade — disse Phillip —, mas sim um desafio. A senhorita Joana é rebelde, singular entre tantas outras jovens. Isso, somado à sua beleza, é algo completamente atraente.
— Mas não podemos rebaixar os sentimentos de Alexandre a uma pura atração; os seus sentimentos vão muito além de um pequeno interesse... um entusiasmo — lembrou Patric.
— Já defende melhor os sentimentos de Alexandre do que ele próprio. É um bom advogado do amor — Phillip riu. — Sempre foi um bom romântico, mas agora está acentuadamente sentimental. Poderia até afirmar que está apaixonado — disse ele ainda rindo.
— Apaixonado? Não... não... — negou veementemente; mas, sem poder evitar, Rebecca veio de encontro à sua mente. Patric chegou a balançar a cabeça para dissipar o pensamento. Seria muita inocência de sua parte confundir uma amizade com uma paixão. — Realmente nada conhece sobre sentimentos como o amor e a paixão... — limitou-se a dizer.
— Não se engane, posso facilmente detectar um apaixonado, quando vejo um — disse Phillip.
***
Já no aposento, após preparar-se para dormir, Amália não aguentou mais o choro compulsivo de Sophie. Com a cabeça afundada no travesseiro ela ainda chorava copiosamente.
— Se há algo que eu possa fazer para ajudá-la, por favor me diga — Amália disse angustiada.
— Se eu a incomodo retire-se! Retire-se se não pode me ver sofrer. Mas não sei por que se importa! Não sabe nem a metade do que sofro... Não pode supor, não pode sequer tentar supor... — dizia ela inconsolável.
— É claro que me importo, somos irmãs e sempre fomos amigas.
— Fomos, está certa em dizer que fomos; mas hoje, ignora-me o quanto pode. É apenas amiga de Rebecca e de Joana.
— Não é verdade. Já não lhe dei prova da minha amizade? Já não permanecei calada quando me pediu que nada dissesse sobre sua conversa com o senhor Alexandre naquela noite na propriedade Motier? Até hoje eu não disse nada a ninguém, tudo por consideração a você e às suas palavras, nas quais acreditei sem hesitar. Mas depois, a vi agir de forma tão rude com Rebecca, e tudo sem motivos, apenas por crueldade... ou divertimento...
— Crueldade? — interrompeu ela. — E não acha cruel amar e não ser correspondida? Não é a ilusão a mais cruel inimiga de uma mulher?
— Ah, Sophie — Amália suspirou. — Ouvi muito bem o senhor Alexandre dizer que jamais alimentou suas esperanças, que ele não a incentivou em seus sentimentos... E que o broche...
— Pare! — Sophie gritou. — Veio para me ferir ainda mais? Deixe-me, Amália. Deixe-me.
— Eu só quero entender. Parece que está sofrendo como se acabasse de descobrir algo que lhe trouxe muita dor. Diga-me se isso ainda tem a ver ainda com o senhor Alexandre. Após todas essas semanas.... você estava melhor, mas hoje a vejo completamente abatida, quase pior do que ao final do baile na propriedade Motier. Por quê?
— Não me pergunte mais nada se realmente não quer que eu sofra — chorava sem parar. Anastasia entrou no aposento e encontrou a filha naquele estado lastimável.
— Meu Deus, o que houve? Por que está chorando dessa maneira? — disse ela.
— Mamãe — Sophie ergueu a cabeça para olhá-la. Os cabelos desgrenhados, os olhos vermelhos. — Apenas não consigo me perdoar por ter perdido o jantar e a companhia de meus estimados amigos — fungou. Amália olhou-a incrédula.
— É isso? Oh, querida. Não chore. Todos entenderam muito bem tudo o que aconteceu, e ninguém a culpou por estar doente. E depois, o senhor Phillip fará uma pequena recepção em sua propriedade dentro de dois dias. Você já estará melhor até lá. Ele nos convidou, e também aos Loen — revirou os olhos. — Será ótimo, ele disse que poderão dançar, acho que contratará alguns músicos para a ocasião.
Amália revirou os olhos e afundou-se em sua cama, mal podendo acreditar no completo fingimento de Sophie.